C. AS PESSOAS COM QUE JE SU S ANDOU
4. Jesus e os pobres
É óbvio que se faz presente em Jesus in flu ê n cia da tra d içã o p ro fé tica -a p o ca líp tica , p ro cla m a n d o Deus co m o d e fe n so r do d ire ito dos pobres. Esta defesa, e n tretanto, assum e em Jesus algum as novas feições, d e co rre n te s da c o n v ic ç ã o de não a lei, mas sim a graça d e Deus ser o fa to r d e cisivo da salvação. Tem co n se q ü ê n cia s este p o n to de p a rtid a não só para o re la cio n a m e n to de Jesus com im puros e culpados, tam bém o tem para a m aneira de ele se re la cio n a r com os pobres.
a. Cai em vista, antes d e mais nada, q u e para Jesus não interessa o grau de in o cê n cia ou cu lp a do pobre. Ele necessita da
graça, mais do que outros, sen d o isto s u fic ie n te para ser alvo de a te n çã o e p re fe rê n cia (123). Jesus tira a p e rg u n ta pela p o b re za do d is c u rs o sobre m é rito e castigo. N aturalm ente, o pobre pod e ser ele m esm o cu lp a d o d e sua d esgraça co m o o é o filh o p ródigo , po r exem plo (Lc 15.1 ss). Ou e ntão ele pod e ser vítim a de crim es alheios, co m o o são as viúvas, cujas casas são devoradas pela ganân cia dos fariseus (Mt 23.14). O tip o de aju d a será d ife re n te c o n fo rm e o caso. Mas nada é m otivo para n e g a r ao p o b re a assistência ou a solidariedade. É s in to m á tic o q u e em Lc 16.9 ss fa lta q ualqu er reflexão s o b re as causas da pob re za de Lázaro. A graça de Deus não se c o n d ic io n a a m éritos nem se nega à culpa. Ela se to rn a ativa o n d e há necessidade, sem p e rg u n ta r se as pessoas o m erecem .
(123) P o r te r su a c au sa n a n e ce ssid a d e , o p riv ilég io do p o b re é p u r a g ra ç a. Isto é o d e sta q u e c o rre to d a m a io ria d o s esp e c ia lista s. C f S. G alilea: T e o lo g ia d a L ib e rta ç ã o , p. 51; A. B arreiro ; Os p o b res, p. 114s; A. B õ ck m an n : Im p u lso s do N o v o T e s ta m e n to p a ra o re la c io n a m e n to d a Ig re ja co m os p obres, In: C o n c iliu m 124, 1977/4, p. 46; etc. E s ta g ra ç a , p o ré m , d e ix a d e ser c o m p re e n d id a em s e n tid o rad ical, q u a n d o fic a ex clu íd o o a sp e c to d a cu lp a e in d ig n id ad e. O p riv ilég io do p o b re d e v e s e r v is to c o m o u m a fo rm a de ju s tific a ç ã o d o p e ca d o r. A liás, é in ad m issív el a a firm a ç ã o de A. B õ ck m an n (ibd), d iz e n d o : “ S e g u n d o o s sin ó tico s p o b re z a, n e c e ssid a d e e p e rs e g u iç ã o p e rte n c e m a e ste m u n d o e só s e r ã o e lim in a d a s e m d e fin itiv o no fim d o s tem p o s. A in d a n ão h a v ia su rg id o o d e b a te so b re o m o d o d e a fa s ta r a s c a u s a s da p o b re z a ”. Se assim é, q u al é o v a lo r do N o v o T e s ta m e n to h o je? E, se nós ta n to p ro g red im o s co m re la ç ã o ao s sin ó tico s, p o r q u e n ã o c o n se g u im o s re s o lv e r o p ro b le m a ?
Tal p o stu ra é um a co n se q ü ê n cia da tese da pecam in o sid a d e geral de to d o s e, co rrespond em ente, da salvação u nicam en te por graça. Ela d isp e n sa do jo g o com m éritos e da b usca por razões ju stifica tiva s. Por isto Jesus não tem necessidade nenhum a de idealizar os pobres, id e n tificá -lo s com os piedoso s e preconizá -los co m o justos. Perm anecem sen d o pecado re s. Da m esm a form a, porém , não a dm ite q u e o sejam em m aior p ro p o rçã o . Em parte algum a diz q u e os pobres sofrem os e fe ito s de um ca stig o especial ou então de um d e stin o insondável, assim co m o tam bém não a p re g o a a riqueza co m o sinal de b ê n çã o (124). Com q u e argum ento, então, ju s tific a r a e xistência de pobreza? P ode ser o u tra co isa do q u e fru to da falta de m isericórdia e de in ju stiça ? P obreza não ju s tific a d iante de Deus (125). Ela não é g lo rifica d a . É uma mal a ser vencido.
b. Jesus, ao fa la r em pobres, tem em vista pessoas q u e o são em se n tid o externo, m aterial e eco n ô m ico . Isto é assegurad o pelo
sim ples fato de a b e m -aventu ra nça dos p o b re s ser se guida em Lucas pelo “ a i” sobre os rico s (Lc 6.20,24). Também outras passagens, e specialm e nte a p arábola do hom em rico e de Lázaro (Lc 16.19 ss), mas tam bém a p ré d ic a inaugu ral de Jesus em Nazaré (Lc 4.16 ss) e a resposta dad a a João B atista (M t 11.2 ss; Lc 7.18 ss) confirm am a obse rva çã o (126). Jesus veio para tra ze r evangelho, b o a nova a pobres, carentes, não sen d o perm itida, pois, a p re c ip ita d a espiritualização do term o. Duas obse rva çõ e s se fazem necessá rias, todavia:
b .1 . O g ru p o daqueles, aos quais Jesus se sabe p re fe re n cia l m ente enviado, é m aior do q u e o dos p o b re s em s e n tid o restrito. Em Mt 11.2 é falado, além d a evange lização aos pobres, da cu ra de cegos, coxos, leprosos, mudos, bem com o da re ssu rre içã o dos m ortos com o sen d o as obras m essiânicas de Jesus. Lc 4.18 a cre sce n ta a lib e rta çã o de presos e qu e b ra n ta d o s. O uso do term o “ á p h e s is ” , aliás, com seu d u p lo s ig n ific a d o de lib e rta çã o e rem issão (dos pecados), m ostra q u e a lib e rta çã o a que se refere a passagem in clu i a dim ensão d o perd ã o (127). Em o u tro s term os, tam bém os pecado re s são m encionados, ain d a que indiretam ente.
(124) W. Sch räg e: E th ik , p. 101 s; J. de S a n ta A n a: A Ig reja, p. 47.
(125) C h eg a às p ro x im id a d e s d e tal a firm a ç ã o J . L. S e g u n d o : El h o m b re d e hoy, op. cit. Vol II, p. 179 q u a n d o e n te n d e serem os p o b re s os h e rd e iro s “n a tu r a is ” do re in o d e D eus.
(126) V eja E. B am m el: art. “p to c h ó s ”, T h W VI, p. 902 ss; W. S c h rä g e : E th ik , p. 101; S. G alilea: O se n tid o c ris tã o do p o b re, p. 18; etc.
S obretud o, porém , é p re ciso in sistir num a e xigência herm e nêutica: Em Lc 4.18 é cita d o Is 61.1 + 2 e 58.6 (128). Mt 11.5 (e Lc 7.22) se baseia em Is 35.5 s e 29.18. Mas am bas as passagens devem ser in te rp re ta d a s antes a p a rtir do to d o da ação de Jesus do q u e a p a rtir de seu sig n ific a d o vétero-testam en tário. A m aneira de Jesus e xe cu ta r o program a e sb o ça d o em Lc 4.18 dá a este o sentido. S ob este e n fo q u e não há dúvidas qu e pecado re s e pub lica n o s, m ulheres e to d o s os q u e de te cta m o s co m o m arginaliza dos pertencem aos p re fe rid o s por Jesus.
Em virtu d e d isto deve-se c o n c lu ir q u e os pobres não são os únicos, aos quais Jesus deu preferência , ou e n tão - e é isto que se costum a fa ze r - é necessário am pliar o s ig n ific a d o do te rm o a p o n to de e n g lo b a r to d o s estes grupos. Os pobres, neste caso, são to d o s os infelizes, necessitados, s o fre d o re s (129). Isto, porém , s ig n ific a a b a n d o n a r o uso pre ciso do term o “ p o b re s ” , aos quais devem ser co m p u ta d a s tam bém pessoas co m o o rico p u b lica n o zaqueu (Lc 19.1 ss). De q u a lq u e r m aneira, Jesus não lim itou sua p re fe rê n cia a um a só classe social. Via as pessoas em suas m últiplas necessidades, não p o r últim o em suas necessidades d iante de Deus (130). Am bas as perspectivas, na verdade, são inseparáveis co m o o dem onstram as parábolas de Jesus. C ostum a tra ta r das relações hum anas d e n tro dos horizo n te s da p a te rn id a d e (cf Lc 15.11 ss; etc.), respectivam en te d o s e n h o rio de Deus (cf Mt 24.45 ss; etc.). Jesus b u sco u os necessitad os (c f Mc 2.17), e n tre os quais, co n tu d o , os m aterialm ente pobres ocupam lu g a r de destaque.
b. 2. Não estão dispensa dos os pobres de penitência, fé e discipula do. É um a c o n c lu s ã o necessária d o fa to de to d o s serem
pecadores. A bem -aventurança dos pobres, pois, pressupõe estejam cre n d o em Jesus (131). Lucas o expressa, d izendo te r-se d irig id o Jesus a seus d iscíp u lo s (L c 6.20), M ateus o faz fa la n d o em “ pobres
(128) N ão é p o ssív el e n tra rm o s a q u i em d e ta lh e s e x e g é tic o s d e ste te x to tã o im p o rta n te . M erec e ria a te n ç ã o , p o r ex em plo, a d ife re n ç a de sen tid o e n tre Is 61.1 s e L c 4.18 (c o m e ç a n d o p e la e x clu sã o d o “d ia da v in g a n ç a do n o sso D e u s ” em Lc). E, q u e sig n ific a “e v a n g e liz a r? ’ D ev e-se e n te n d e r o te rm o a p a rtir d o sig n ificad o q u e te m em Pau lo , p o r ex em p lo ? C f J. So b rin o : J e s ú s y el R eino de D ios, p. 144 s; S. G alilea: O sen tid o , p. 34 s; U. B usse. D as N a z a re th -M a n ife st J e s u ; A. B arreiro : op. cit. p. 96 ss; etc.
(129) E. M onti: op. cit., p. 11 fa la “n a c a ra c te riz a ç ã o e x te n s iv a do ‘p o b re ’” . A. B arreiro : O p; cit. p. 108 c o n s ta ta que, “n a v isão b íb lica dos p obres, o q u e é v isad o d ire ta m e n te e em p rim eiro lu g a r n ã o é ta n to o a sp e c to e c o n ô m ic o q u a n to a m a rg in a liz a ç ã o e in fe rio rid a d e social dos p o b re s ” (cf ta m b é m ibd. p. 113). E S. G alilea: O sen tid o , p. 20 c o n clu i s e r im possível “re d u z ir o p o b re à m e ra c a te g o ria e co n ô m ic o -so c ia l”.
(130) É u m a d as ê n fa se s em J. Jerem ias: T eologia, p. 176.
(131) V eja L. S c h o ttro ff/W . S te g e m a n n : J e s ú s d e N a za re t, p. 46; S. G alilea: O sen tid o , p. 38; W. Sch rag e: E th ik , p. 102; etc.
de e s p írito ” (M t 5.3). Em razão d isto é im possível c o n c lu ir qu e orig in a lm e n te os bem -aventu ra dos tenham sid o ‘‘os pobres com o ta is ” (132). Estaria em c o n flito , não por últim o, com o qu e sabem os das cu ra s de Jesus em qu e a fé re c o n h e cid a m e n te exerce papel fu n d a m e n ta l (cf Mt 8.5 ss; M c 2.1 ss; Lc 17.11 ss; etc.). A salvação q u e Jesus traz pressupõe a c o n fia n ça em sua pessoa.
Não são c o n tra d itó ria s , p o rta n to , as versões da bem- ave n tu ra n ça dos pobres em Lucas e Mateus. São com plem enta res (133). Lem bra Lucas in e q u ivo ca m e n te a prom essa especial de Jesus para os m aterialm ente carentes. Os q u e têm fo m e e sede e sofrem o u tra s privações (cf Mt 25.31 ss) recebem a prom essa de, e n q u a n to crentes, herdarem o re in o de Deus. Lucas im pede a e spiritualização e redução do te rm o " p o b re ” a um a m era d isp o siçã o interior. Mateus, por sua vez, salienta que a pobreza m aterial não é razão su ficie n te de salvação. Deve c o rre s p o n d e r-lh e a a titu d e da hum ilda d e o u seja a pob re za d ia n te de Deus. A ênfase recai na ética, algo m uito típ ic o de M ateus (134). Salvação exige seja fe ita a vo n ta d e de Deus.(cf Mt 7.21). Isto de fo rm a a lgum a é uma inovação de Mateus, mas re p ro d u ç ã o fiel d o q u e o Jesus h is tó ric o quis. É o que tam bém está em evidência n a bem -aventu ra nça dos m isericordiosos, lim pos de coração, p a cifica d o re s e pe rse g u id o s p o r causa da p rá tica da ju stiça (M t 5.7 ss). Não é p e rm itid o separar a bem -aventu ra nça dos pobres da dos qu e fazem a vo n ta d e d e Deus (135).
Essas co n s ta ta ç õ e s não anulam a p re fe rê n cia dos pobres ju n to a Deus. M ostram , no entanto , q u e pob re za m aterial não é a ú n ica necessida de hum ana co n s id e ra d a po r Deus e qu e não há salvação senão pela fé. P erante o ju íz o de Deus to d o s são iguais. Serão ju lg a d o s com o m esm o c rité rio (136). C onsiste na p e rg u n ta até q u e p o n to te m o s sido capazes da fé, do am or e da esperança.
(132) A ssim A. B arreiro : op. cit. p. 80 ss; B a s ta rá e lim in a r o c o n te x to em Lc p a ra te rm o s o “ Sitz im L e b e n ” o rig in al da b e m -a v e n tu ra n ç a ? A lém d isto : E x iste u m a s a lv a ç ã o a n ã o s e r p ela fé? S e m e lh a n te a B a rre iro ta m b é m JL .S e g u n d o : El h o m b re de hoy, Vol II, p. 179; 203ss; etc. que d istin g u e p o b re z a e d iscip u lad o co m o o s d o is c a m in h o s ao re in o de D eus.
(133) C f S. G alilea: E s p iritu a lid a d e d a e v an g e liz a çã o , p. 53 ss; idem : A Ig reja d as b e m -a v e n tu ra n ç a s , p. 76 ss.
(134) V eja G. S tre c k e r: D ie M a k a ris m e n d e r B erg p red ig t, in: N TS 1970/1971, Vol XVII, p. 255 ss. Os “p o b re s d e e s p írito ” s ã o p esso as q u e se sab e m em seu e sp írito p o b re s e que, p o rta n to , são h u m ildes. C f ta m b é m E. B am m el: art. “p to c h ó s ”, T h W VI, p. 903. A liás, q u e J e s u s te n h a sido in flu en c ia d o p ela p ie d a d e e b io n ita (se g u n d o a q u al os p o b re s sã o o s ju s to s ), c o m o o d á a e n te n d e r J. de S a n ta A na: A Ig reja, p. 36 ss; 39, é im p ro v áv e l p e lo s m o tiv o s j á e x p o sto s a c im a (135) Q u a n to às b e m -a v e n tu ra n ç a s v eja ain d a L. G o p p elt: T e o lo g ia do N ovo T e s ta m e n to , p. 101 s;
W. S ch räg e: E th ik , p. 144 ss; etc.
(136) Isto v ale ta m b é m p a ra os p e q u e n in o s irm ã o s de J e s u s em M t 25.31 ss. O te x to n ã o fala de u m ju íz o esp ecial s o b re eles.
c. Nós passam os à p e rg u n ta em q u e c o n s is te o evange lho de Jesus para os pobres. Terá ele mais a o fe re c e r d o q u e o vago
c o n so lo de um a com pe n sa çã o no além e mais do q u e o exigente p ro je to d e uma u topia a ser p o r eles m esm os co n cre tiza d o ? Há vá rio s a spectos a distin g u ir:
c. 1. Já a proximidade q u e Jesus dá aos pobres possui q u a lid a d e altam ente evangélica. Ela está em m aior evidência nas palavras: “ Em verd a d e vo s a firm o q u e sem pre q u e o fizestes a um destes m eus pe q u e n in o s irmãos, a mim o fiz e s te s ” (Mt 25.40). Jesus se id e n tifica com a pessoa carente. Aliás, esta “ id e n tific a ç ã o ” não s ig n ific a q u e n o p o b re Jesus, ele mesmo, se fizesse presente (137). Perm anece um a d ife re n ça fundam en tal: Os pobres não revelam Jesus. C onform e Mt 25.31 ss, nem os ju s to s nem os injustos reconhece ram nos necessitad os o seu S enhor. Jesus neles não é visível. Mas Jesus revela os pobres. C oloca-se a seu lado e lhes dá a sua ajuda. A eles d irig e a a te n çã o e os pro p õ e co m o caso teste para a m isericórdia cristã. Não pod e d e sco n sid e ra r os pobres quem p re te n d e ser d is c íp u lo d o p o b re Jesus (138).
A proxim idad e qu e Jesus p ra tic a em nom e de Deus, s ig n ifica extrem a valorização dos que costum am ser desprezados. Deus dá razão de ser ao qu e pera n te o m undo nada vale. E scolhe o fraco, o desprezado, o qu e nada é (cf 1 Co 1.26 ss). M ediante seu em penho, Jesus devolve ao p o b re o d ire ito social. D efende-o fre n te aos qu e este d ire ito negam. Mais! Sua ação e palavra são ju íz o sobre os q u e não se im portam com os pobres. T oda sociedade, a p a rtir de Jesus, deverá te r por o b je tiv o o b rig a tó rio re in te g ra r o p o b re na co m u n id a de, d evolver-lh e os d ire ito s sone g a d o s e s u p e ra r os desníveis qu e ta n to s prejuízos acarretam para a vida hum ana. S ocieda de qu e não o faz, está sujeita ao ju íz o de Deus.
Neste sentido, Jesus, de im ediato, m uda a s itu a çã o dos pobres. In d e p e ndentem ente da pergunta , se crêem ou não, se são
( 1 3 7 ) 0 p o b re n ã o é Jesu s. P o r is to é p ro b le m á tic o fa la r n u m a p re s e n ç a de D e u s n o p ró x im o n e ce ssitad o . Ele n ã o é o “sac ra m e n to ... q u e nos re v e la e p e rm ite a co lh er o S e n h o r” (assim G. G u tie rre z : T e o lo g ia d a L ib ertaç ã o , p. 170; cf ta m b é m S. G alilea: O sen tid o , p. 32 e o u tro s). O q u e no p o b re se a p re s e n ta n ã o é o p ró p rio C risto , m a s sim a lg u é m q u e e stá so b a p ro te ç ã o de Jesu s. N e ste s m e sm o s te rm o s o ap ó sto lo P a u lo e sc re v e a F ilem o n , so lic ita n d o -o a re c e b e r O n ésim o “co m o se fo sse a m im m e sm o ” (Fm 17). C f H. B ran d t: O risc o do E sp írito , p. 88ss. (138) Jesu s, sem d ú v id a a lg u m a , e ra pobre. N ão tin h a o n d e re c lin a r a c a b e ç a (Lc 9.58) e viv ia de
d o n a tiv o s, m u ito à s e m e lh a n ç a dos ra b in o s (Lc 8.3). A in d a assim , su a o rig e m n ã o e s tá n a c la sse m ais h u m ild e, m a s sim n a do p e q u en o a rte s a n a to . E in te re s sa n te : J e s u s é p ro c e d e n te d o s m e sm o s c írcu lo s, d o s q u a is ta m b é m o s fa rise u s re c ru ta v a m s e u s m em b ro s. V eja G. T h eissen : Z u r fo rm g e s c h ic h tlic h e n E in o rd n u n g , p. 28; idem : S o cio lo g ia d ei m o v im ie n to de J esú s, 1979, p a ssim ; M. H en g el: E ig e n tu m un d R eich tu m , p. 34.
cu lp a d o s o u vítim as, eles perm anecem sen d o c ria tu ra s de Deus com d ire ito à vida. O fa to d e serem os p re fe re n cia lm e n te co n te m p la d o s p o r Deus necessaria m e nte terá c o n se q ü ê n cia s ta n to para a c o n d u ta do p ró p rio p o b re com o para o co m p o rta m e n to dos o u tro s em relação a ele: O pobre, em nom e de Deus, há de p ro te sta r c o n tra a in ju stiça de q u e é vítim a, e os demais, p o r am or de Jesus, deverão solidariza r-se com o seu reclam o.
c .2 A pro xim id a d e d ada p o r Jesus aos pobres q u e o acolhem está a co m panh ada de uma promessa. H erdarão o reino de Deus fu tu ro (Lc 6.20; p a r.) (139). Mas que s ig n ific a isto? Haverá uma sim ples inversão das so rte s no s e n tid o de os hum ildes assum irem o lugar dos atualm en te p o d e ro so s e ricos? Há passagens que assim dão a entend er: Os prim eiros serão os últim os e os últim os prim eiros (M c 10.31). Deus d e rru b a os p oderoso s do tro n o e exalta os hum ildes, ele e n c h e de bens os fa m in to s e de sp e d e vazios os ricos (Lc 1.51 ss). E, todavia, o re in o de Deus não apenas inverte as hierarquias sociais, é u ma nova ordem de todas as coisas (140).
Ilustra-o a p arábola do hom em rico e de Lázaro (Lc 16.19 ss): A inversão das sortes inicia lm e n te de fa to acontece . Lázaro é co n so la d o no céu, e n q u a n to o rico so fre to rm e n to s no inferno. Q uer dizer, a inversão das co n d iç õ e s é e perm anece sen d o terrível ameaça. O ju íz o de Deus não perm ite ser desprezado. No entanto, esta inversão não c o rre s p o n d e à ve rd a d e ira vo n ta d e de Deus. Ele, na realidade, não q u e r o juízo, mas sim a vida, in clu sive do mais m iserável pecador. É o que diz o final p a ra n é tico da parábola (141). E m bora seja negado ao rico o p edido de Lázaro re ssu scita r dos m ortos para a d ve rtir seus cin c o irm ãos na terra, a parábola alerta os ricos, a p o n ta n d o para “ Moisés e os p ro fe ta s ’ ’. Lá está e scrito o q u e fazer para fu g ir ao ca s tig o divino. A parábola contém um cham ado à conversão. Fala d a inversão das so rte s com o q u e de am eaça a ser evitada m ediante a ação da m is e ricó rd ia e justiça.
De fato, a m era tro c a das p o siçõ e s não seria nenhu m a reno vação, razão pela qual tam bém a passagem do c â n tig o de M aria (Lc 1.51 ss) não pod e ser in te rp re ta d a co m o re p ro d u z in d o os últim os
(139) P ro m essa a n á lo g a re c e b e m os p e c a d o re s a rre p e n d id o s: M t 21.31; Lc 15.7; 18.14; etc. N o v a m en te, pois, o b s e rv a -se a te n sã o e n tre os p o b res e p ecad o res, tã o c a ra c te rís tic a de J esu s. (140) A e x p re ssã o é d e L. Boff: J e s u s C risto L ib ertad o r, p. 68 s.
(141) O c a r á t e r p a ra n é tic o da p a rá b o la é n e g ad o p o r L. S c h o ttro ff/W . S te g e m a n n : J e s ú s de N a z a re t, p. 55 ss. “El p a sa je de Lc 16, 19-26 n o es u n a a m o n e sta c ió n a los ric o s...” (p.59). P o d em os a u to re s assim fa la r p o r c o n sid e ra re m o s v e rsícu lo s 27 — 31 um a d e n d o do pró p rio e v a n g e lis ta L u cas — u m ju íz o a rb itrá rio no n o sso e n te n d e r. O J e s u s h istó ric o , p o r acaso , n ã o te ria p re te n d id o a c o n v e rsã o d o s ricos? C f J . J e re m ia s : A s p a rá b o la s, p. 184 ss; R. O b e rm ü lle r: La m isé ria de un rico, in: Los p o b res, p. 45 ss.
p ro p ó sito s de Deus (142). Paira s o b re os s o b e rb o s e os opressores a am eaça m uito real d o ju íz o de Deus, sem d ú vid a algum a. Mas o o b je tivo de Deus jam ais é o da conden ação, e sim da salvação em Cristo. Por isto, ele, em Jesus, se em penha na co n ve rsã o d o m undo. A prom essa de p a rtic ip a r no banqu ete e sca to ló g ic o de Deus é dada aos pobres e a to d o s q uanto s se co n ve rte m e se fiam na graça im erecida de Deus.
c .3. A herança d o reino de Deus é p ro m e tid a para o fu tu ro tra n sce n d e n te (143). C um prir-se-á nos novos céus e na nova terra. A in d a assim, algo deste fu tu ro se antecipa . Isto a contece , um a vez, na referida pro xim id a d e de Jesus aos pobres q u e im plica sua valorização e n é rg ic a co m o cria tu ra s de Deus. Mas não só nisto. C oncretiza-se o re in o p ro m e tid o sem pre q u e pessoas se tornam capazes da misericórdia, da fé e d a esperança. M otivado pela m iseri c ó rd ia de Deus (Rm 12.1), o c ris tã o necessariam ente deverá q u e re r o bem do o u tro . P retende rá a elim inaçã o de e s tru tu ra s injustas e opressoras. C o n ce d e rá às pessoas o d ire ito q u e lhes assiste, respeitá-las-á em sua d ig n id a d e c o n c e d id a p o r Deus e m ostrar-se-á in c o n fo rm a d o com to d a so rte de s o frim e n to ca usado p o r pecado hum ano. O qu e im p o rta é c a p a c ita r as pessoas para o am or - tarefa bem mais d ifícil do q u e sim plesm ente exigi-lo. R equererá ta n to a aprendizagem individu al co m o tam bém a tra n s fo rm a ç ã o do am biente, das co n d iç õ e s de vida, das e stru tu ra s sociais, a fim de q u e não obstruam , mas sim pro p icie m este processo. Por ensinar o amor, a m ise ricó rd ia e a justiça, C risto dá aos pobres esperanças p o r um m undo mais hum ano.
d. E n quan to isto, os ricos estão s o b o “ a i” da am eaça (Lc 6.24 ss; 16.19 ss). Jesus o fu n d a m e n ta com o a rg u m e n to de já terem recebido sua co n so la çã o . São co m o os “ ju s to s ’ ’, aos quais Deus nada pod e a cre sce n ta r p o r já terem re ce b id o sua recom pensa (Mt 6.2,5). Jesus, em palavras m u ito duras, diz: “ É mais fácil passar um cam elo pelo fu n d o de uma agulha, do que e n tra r um rico no reino de