Pobres e Pecadores na Ótica de Jesus
Gottfried Brakemeier
A. INTRODUÇÃO*
O privilégio d o pobre na tra d iç ã o b íb lic a rep re se n ta um a das p rin cip a is re d e sco b e rta s da te o lo g ia la tin o -a m e rica n a (1). É responsável por um a decisiva virada na o rie n ta ç ã o te o ló g ic a da atualidade, e xig in d o uma c o rre ç ã o de p e rsp e ctiva na p e sq u isa e tra n sfo rm a çã o da p rá tic a cristã individu al e eclesial. Jesus veio para evange lizar aos pobres (Lc 4.18; Mt 11.5; par). P oucos foram ultim am ente os desafios à c ris ta n d a d e de tão p ro fu n d a s im plicaçõe s te o ló g ica s e práticas.
C olaboraram nesta re d e sco b e rta a situ a ç ã o la tin o -a m e rica n a e a exegese bíblica. O cla m o r dos c o n tin g e n te s ca d a vez m aiores de pobres e fam intos, a b ru ta l e xp lo ra çã o de q u e o s u b c o n tin e n te é objeto, a grosseira in ju stiça na d is trib u iç ã o dos bens não podiam senão se n sib iliza r a co n s c iê n c ia c ristã e c o lo c a r em pauta a pe rg u n ta p o r salvação na h istó ria (2). R esultaram daí novos olhos
* O s d a d o s c o m p le to s d a s o b ra s c ita d a s e n c o n tra m -s e n ã o n a s n o ta s d e ro d a p é , m a s sim na bib lio g rafia.
(1) N a tu ra lm e n te n ã o se t r a t a de u m a d e s c o b e rta a b s o lu ta m e n te nova. In s is tia m n a p re fe rê n c ia d o po b re, p o r ex em p lo , o s so c ia lista s relig io so s n a p rim e ira m e ta d e d o nosso sécu lo . V e ja L. R ag az: D ie B e rg p re d ig t Jesu , H a m b u rg , 1971 ( I a ed. em 1945). M as ta m b é m o u tr o s n o m e s p o d e ria m s e r m e n c io n a d o s c o m o o de M. D eb eliu s: D er B rief d es J a k o b u s, p. 58ss, e, so b re tu d o , o de R. Sh au ll c o m s u a “te o lo g ia d a re v o lu ç ã o ”. V e ja de s u a au to ria : O c ris tia n ism o e a re v o lu ç ã o social, S ão Pau lo , 1953; e o u tra s. U m a im p o rta n te c o n trib u iç ã o re c e n te , d a E u ro p a é a de L. S c h o ttro ff/W . S te g e m a n n : J e s ú s de N a z a re t — e s p e ra n z a de los pobres, S a la m a n c a , 1981.
(2) M arco s m e m o rá v e is n e ste p ro c e sso fo ram a ) a C o n fe rê n c ia do N o rte s te de Ig re ja s P r o te s ta n tes, e m 1962, c o m im p o rta n te s c o n trib u iç õ e s de, p o r ex em p lo A. d o s S a n to s, d a Ig re ja M eto d ista , so b re “C risto e o p ro c e sso re v o lu c io n á rio b ra s ile iro ”, E. Schliep er, d a Ig re ja de C o n fissã o L u te ra n a , so b re “ A Ig re ja e s u a re s p o n sa b ilid a d e so cial", e o u tro s. V eja: C risto e o p ro c e sso re v o lu c io n á rio b ra sile iro , R ecife, 1962, Vol II, o. 1 ss, resp. p. V II ss. b ) a C o n fe rê n c ia d o s B ispos L a tin o -a m e ric a n o s da Ig re ja C a tó lic a em M edellin, 1968, n a C o lô m b ia. V eja, e n tre
p a ra o te x to b íb lico : A E scritu ra passou a revelar a prom essa, o am paro e o d e s ta q u e que Deus reservou para ju sta m e n te os miseráveis. Vem -lhes em defesa, to m a o seu partido. São eles os b em -aventu ra dos e os h erdeiros do re in o de Deus (Lc 6.20). Eis p o rq u e a o b rig a çã o de cristã o s e Igreja, assim se co n clu iu , co n siste na “ o p ç ã o (p re fe re n cia l) pelos p o b re s ” (3).
Igreja na A m é rica Latina, efetivam ente, não p ode passar de la rg o dos pobres, e te o lo g ia a u tê n tica se fa rá unicam en te so b c o n sid e ra çã o do pan o de fu n d o de pobreza e o pressão qu e m arcam o atual m om ento h istó rico . É um desafio, aliás, q u e se c o lo c a de igual form a a nível m undial, não só co m o apelo à m isericórdia, mas tam bém co m o d e n ú n cia da c o -re sp o n sa b ilid a d e q u e os países ricos têm na fom e n o ‘ ‘te rc e iro m u n d o ” . O desnível e n tre ricos e pobres necessaria m e nte co n s tra n g e os cristã o s (4), in tro d u z in d o -o s em d ifíc il p ro ce sso de aprendizagem e e x ig in d o -lh e s a d e m o n stra çã o da a u te n tic id a d e de seu am or m ediante a c a p a cid a d e de repartir, o em penho p o r ju s tiç a e o assum ir de resp o n sa b ilid a d e política.
Perm anecem perguntas, todavia, a serem clareadas em prol d o bom e xe rcício d a m issão cristã. A o p ç ã o pelos pobres, por exem plo, q u e s ig n ific a em te rm o s co n cre to s? (5 ) E m bora as m odali dades d ificilm e n te adm itam p a d ro n iza çã o uniform e, a variedad e de respostas, umas mais e outras m enos radicais, p ro d u z tensões e dem anda d e fin içõ e s (6). O m esm o vale com respeito ao tem a q u e nos te m o s p ro p o sto . É um a ssu n to de ordem e xe g é tica e, ainda
o u tro s, G. G u tie rre z : A fo rç a h istó ric a dos p obres, P etró p o lis, 1981, e c) c o n trib u iç õ e s c o m o a d e R. A lves: A T h e o lo g y o f h u m a n h ope, C lev elan d , 1969; G. G u tie rre z : T eo lo g ia d a L ib ertaç ã o , P etró p o lis, 1975 (la n ç a d o em 1972); etc.
(3) S. G alilea: T e o lo g ia d a L ib e rta ç ã o - en saio de sín tese, 1978, p. 50 ss; JL .S e g u n d o : L ib e rta ç ã o d a T eo lo g ia, 1978, p. 77 ss e p assim ; A . B arre iro : Os p o b re s e o R eino: D o e v a n g e lh o a J o ã o Pau lo II, 1983; etc. É co m razão , a liá s q u e C. Boff: A in te rp e la ç ã o dos p o b re s e m nível m u n d ial, in: P u e b la 26, 1984, p.4 ss d iz s e r tal o p ç ã o n ã o s o m e n te u m a o b rig a ç ã o do c ristã o , m a s d e to d a s a s p e sso a s p o r ser u m a sim p les e x ig ê n c ia da ju s tiç a .
(4) R e m e te m o s e n tre o u tro s p a ra o im p o r ta n te livro de R. J. S id er: C ris tã o s rico s e m te m p o s de fom e, 1984.
(5) A té q u e p o n to e la e x ig e n ão só a d e fe sa a tiv a d o p o b re , m a s sim o d e sp o ja r-se e um real to rn a r-s e p o b re ? Q ue sig n ific a tal o p ç ã o p a ra o m e m b ro leig o d a Ig reja , d e p e n d e n te do m e rc a d o de tra b a lh o ? E, c o m o s e ria u m a Ig re ja que, co m o in s titu iç ã o , tiv esse re a lm e n te o p ta d o p e lo s p o b re s? Q u ais seriam su a s e s tru tu ra s , d e on d e iria p ro v ir o n e c e s sá rio p a ra su a s u b sis tê n c ia ? V e ja q u a n to a isto as in te re s sa n te s refle x õ e s d e G. T h e isse n : L e g itim a tio n u n d L e b e n su n te rh a lt: ein B eitra g z u r Sozio lo g ie u rc h ris tlic h e r M issio n are, in: N T S 21, 1974/5, p. 192 ss.
(6) C o n fo rm e P. C esa ld a lig a: O p ç ão d e vida e n tre os pobres, REB 44, 1984, F ase. 173, p. 82 ss, p o r e x em p lo , u m a o p ç ã o n ã o p o d e s e r p re fe re n c ial, d e v en d o -se p o rta n to , fa la r c la ra m e n te na “o p ç ã o p e lo s p o b re s ”. E n q u a n to isso, A. B arreiro : O s p o b re s e o R eino, p. 53 ss e p assim , em c o n so n â n c ia co m d o c u m e n to s oficiais d a Ig r e ja C ató lica , fa la c o n s e q ü e n te m e n te n a “o p ç ã o
assim, de relevância sum am ente prática: Além dos pobres são os pecado re s o g ru p o p re fe rid o p o r Jesus (c f Mc 2.17; Lc 15.7; etc.). Com eles m anteve co m u n h ã o de m esa (Mc 2.15; Lc 15.1), ace ito u -o s em sua co m p a n h ia (Lc 7.36 ss), com eles andou. P ro vo co u assim escânda lo e n tre os piedosos, sendo in ju ria d o co m o “ am igo dos p u b lica n o s e p e c a d o re s ” (Mt 11.19; par). C om o se relacionam os pobres e peca d o re s em palavra e ação de Jesus? T rata-se do mesmo grupo?
É esta a c o n v ic ç ã o de J. S obrino, p o r exem plo, de a c o rd o com quem am bos pertencem basicam en te à mesma c a te g o ria de pessoas. Os p ecado re s “ son los d e sp re cia d o s p o r la sociedad, los q u e s o n m enos q u e o tro s y para quienes la re lig io sid a d vigente no es una esperança, sin o co n d e n a ció n ” (7). C om partilha m com os pobres, os fa m in to s e carentes o fa to de estarem “ bajo algún tip o de opresión re a l” (ibd). São m arginalizados, pessoas cu ja vida “ ha sido secularm ente am enazada y n e g a d a ” (8). C on se q u e n te m e n te S o b ri no p refere fa la r em “ d e s p re c ia d o s ” ou “ d e s c la s a d o s ” . E nquan to os pobres sofrem opressão m aterial, os pecado re s estão so b pressão social. De q u a lq u e r m aneira, tra ta -se de vítim as da so cie d a de (9). Jesus vem para d e fe n d e r e tirá -lo s de seu isolam ento social.
Está acim a de q u a lq u e r d ú v id a q u e os p ecado re s na tra d içã o s in ó tic a eram os desprezad os pelos fa rise u s e dem ais “ ju s to s ” . A in d a assim, algo na in te rp re ta ç ã o de J. S o b rin o não convence. D efine o p e cado co m o sendo a opressão, p o rta n to o ato de prejudica r, d im in u ir ou tira r a vida, ato antes p e cu lia r de ricos e p oderoso s (10). Assim sendo, porém , estam os d ia n te do resu lta d o e stra n h o que p ecado é id e n tifica d o com opressão, e n q u a n to os pecado re s seriam os oprim idos. Isto faria se n tid o u n icam en te so b a h ipótese de Jesus ter in ve rtid o os co n ce ito s: Os na é p o ca ju lg a d o s pecado re s não o são. Pelo c o n trá rio , os q u e se consideram
p re fe re n c ial p e lo s p o b re s ”. S o b re a d ife re n ç a e a q u e stã o c o m o ta l v e ja e sp e c ia lm e fte J. K o n in g s: O s e n tid o c ris tã o d a o p ção p elo s pobres, in: T e o c o m u n ic a ç ã o X, 48, 1980, p. 109 ss. (7) J . S o b rin o : J e s ú s y e l re in o de Dios. In: J e s ú s e n A m e ric a L a tin a , 1982, p. 144.
(8) J. S o b rin o : R elació n de J e s ú s c o n los p o b re s y d e sc la sa d o s. In: J e s ú s em A m e ric a L a tin a , 1982, p. 227.
(9) É a p e rsp e c tiv a que p re v a le c e ta m b é m em o u tra s c o n trib u iç õ e s so b re o a ssu n to , c o m o em J. C á rd e n a s P aliares: El re in a d o o el f u tu ro q u e lleg a en Jesú s. In: S e rv ir — te o lo g ia y p a s to ra l X IX /103, 1983, p. 347 ss. De m o d o ta lv e z m a is d e cid id o e n c o n tra m o s a id e n tific a ç ã o de p o b res e p e c a d o re s em J J-. S e g u n d o : El h o m b re de ho y a n te J e s ú s de N a z a re t, Vol I I / 1, 1982. D iz ele, p o r exem p lo : “Los p o b re s son llam ad o s p e c a d o re s y a c a b a n p o r c o n sid e ra rs e ta le s ” (p. 137). E: “Los m ism o s p o b re s so n p ecad o res... d e c la ra n d o lo s p e c a d o re s se da la ra z ó n id e o ló g ic a de su p o b re z a: é s ta se e n c u b re y ju s tif ic a ” (p. 175). Em o u tra s p a la v ra s, o te rm o “p e c a d o r” é u m a a rm a dos o p re sso re s ju s tific a n d o p o rq u e a lg u é m é po b re. S e rã o as co isas tã o sim p les assim ? (10) C f J e s ú s y e l re in o d e D ios, p. 147; R elació n de Jesú s, p. 229.
“ ju s to s ” , estes são os pecadores d e verdade. Neste caso, porém , não se pod e evita r a c o n se q ü ê n cia que Jesus se te ria in clin a d o som ente aos considerados pecadores, a pessoas in ju stiça d a s pela s o cie d a d e e indevid am ente conden adas, so b e xclu sã o dos p e ca d o
res reais.
Aliás, em seu livro “ C ristologia a p a rtir da A m é rica L a tin a " (11), S o b rin o d e fin ira o te rm o p e ca d o r de m odo mais d ife re n cia d o . “ O ‘p e c a d o r’ é o p ro tó tip o de hom em que não pod e esperar sua salvação se Deus o ju lg a r c o n fo rm e com suas o b ra s ” . R ecebe por Jesus o perdão, se a ce ita r “ qu e Deus, realm ente, se apro xim a em g ra ç a ” . Mas este a sp e cto é lo g o a b a n d onado. A a te n çã o se volta à o pressão q u e o p e ca d o r s o fre da parte dos fariseus. E S o b rin o co n clu i: “ Por isso o p e ca d o r a quem Jesus p e rd o a e n co n tra -se tip ific a d o naquele q u e vive oprim ido, pois a sociedade, os ju sto s s e g u n d o a lei, o desprezam e a p ró p ria lei, co m o in stitu içã o , o c o n d e n a e d e cla ra sua e xistê n cia co m o fe c h a d a e sem fu tu ro ” .
S obrino, pois, sem afirm ar expressam en te a in o cê n cia dos peca d o re s na co m p a n h ia de Jesus, dá fo rte va lo r ao fa to da o pressão dos mesm os. As pessoas são vistas em seus re la cio nam entos sociais m u ito mais do que em seu relaciona m ento com Deus. Por isto fa lta a ca te g o ria da culpa. Jesus não veio para p e rd o a r culpados, mas para lib e rta r oprim idos. É a p e rsp e ctiva que, em S obrino, suprim e to d a s as dem ais. Logo, a p rin cip a l ação de Jesus é vista na defesa dos in ju stiça d o s e n a d e n ú n cia dos opressores (12). “ P ublican os e p e c a d o re s ” form am um a só classe com os pobres. P ertencem a estes, de m odo qu e a c a te g o ria do p o b re absorveu a d o p e ca d o r (13). Para S o b rin o é im p o rta n te em Jesus não ta n to o perdão dos pecados, mas a sua to m a d a de p a rtid o em fa vo r das vítim as d a opressão. Sob tal perspectiva, porém , Jesus se d irig e em últim a instância a pobres tão-som ente (14).
Posição sig n ifica tiva m e n te d ife re n te é apre se n ta d a p o r S. G alilea (15). E m bora não analise e xe g e tica m e n te a relação entre
(11) Petró p o lis, 1983, p. 70 s. A s trê s c ita ç õ e s s e g u in te s ibd.
(12) J. S o b rin h o : S ig n ific ad o dei J e s ú s h istó ric o e n la c ris to lo g ia la tin o a m e ric a n a , in: J e s ú s en A m e ric a L atin a, p. 109; idem : R elac ió n d e J esu s, p. 228; etc.
(13) S o b rin o p o d e falar, p o r isto, d e m odo d e s a fia n te n a c o m u n h ã o de m e sa de J e s u s c o m os p o b re s (!): J e s ú s y e l re in o , p. 147, m o s tra n d o assim q u e no seu e n te n d e r h á id e n tid a d e e n tre a m b o s os g ru p o s.
(14) É im p o r ta n te p a ra S o b rin o a a firm aç ã o de J . J e re m ia s : T e o lo g ia do N o v o T e s ta m e n to , p. 181, d iz e n d o q u e o re in o d e D e u s p e rte n c e u n ic a m e n te ao s pobres. Cf J . S o b rin o : J e s ú s y el re in o , p. 144. N ão fica s u fic ie n te m e n te e sclarecid o , p o ré m , q u e a d e fin iç ã o de p o b res em a m b o s os caso s n ã o e a m esm a. Em J e r e m ia s os p o b res e n g lo b a m ta m b é m a q u e le s q u e d ia n te de D eu s (!) n ã o tê m p e rs p e c tiv a de s a lv a ç ã o à p a rte de S u a g raça.
(15) V eja S. G alilea: O se n tid o c ris tã o do p o b re, 1979; idem : E s p iritu a lid a d e d a e v a n g e liz a ç ã o s e g u n d o a s b e m -a v e n tu ra n ç a s , 1980; idem : E v a n g e liz a r os p o b res? 1979.
pobres e pecadores nos evangelhos sin ó tico s, te ce reflexões alta m ente valiosas s o b re o po b re na p e rsp e ctiva cristã. Também ele se sabe p ro fu n d a m e n te c o m p ro m e tid o com a lib e rta çã o dos oprim id o s na A m érica Latina, mas salienta a spectos essenciais que evitam unilateralidades. D estacam os os seguintes:
1. Na d e fin içã o do te rm o “ p o b re ” , G alilea parte d o seu sig n ifica d o óbvio, isto é do qu e h a b itu a lm e n te se entend e por ele: Pobre é o necessitado, “ o que tem c a rê n c ia s ” (16). Estas podem ser de natureza diversa, proibind o-se, pois, “ re d u zir o p o b re à mera cate g o ria e c o n ô m ic o -s o c ia l” . Eis p o rq u e a ta re fa c ristã co n siste em “ id e n tific a r os pobres reais num d e te rm in a d o lu g a r” . Em outras palavras, o c ristã o p re cisa de o lh o s q u e saibam e n xe rg a r necessi dades. P obreza nem sem pre está em e vidência im ediata. Tal co nstataçã o, porém , de m odo algum s ig n ific a em G alilea a relativiza- ção do c o m p ro m isso cristão com os indige ntes. Pois, “ pobreza so c io e c o n ô m ic a a p a re ce co m o d o m in a n te em nossa s o c ie d a d e ” (17). É o p o b re e co n ô m ico -so cia l q u e desafia a c o n sciê n cia cristã na A m é rica Latina. G alilea não priva o te rm o p o b re do “ ó b v io ” , mas tam bém não o re strin g e a seu s ig n ific a d o e c o n ô m ic o ou material.
2. C ontudo, de a c o rd o com Galilea “ o p o b re não é som ente um o p rim id o ou n ecessitad o social. É tam bém , com o to d o ser hum ano, um p e ca d o r que pre cisa de c o n v e rs ã o ” (18). G alilea volta-se assim c o n tra a idealiza ção do pobre, c o n tra um a fo rm a de “ p o p u lis m o ” te o ló g ic o (19) e o p e rig o de m inim izar a gravidad e do pecado. Ju sta m e n te nesta últim a questão tra ta -se de um a dim ensão que, no seu entender, por o ra ain d a não está su ficie n te m e n te in te g ra d a na lib e rta çã o da in ju stiça (20). Não nega Galilea te r o p o b re um a a fin id a d e especial com o reino de Deus, afirm a, m uito pelo co n trá rio , ser ele um “ sa cra m e n to de C ris to ” , p o rq u a n to “ Cristo se id e n tific a de m aneira p rivile g ia d a com o próxim o necessi ta d o ” (21). Mas isto não p o rq u e os pobres fossem bons (22). Tam bém eles precisam ser lib e rta d o s do seu egoísm o, q u e é “ o pior
(16) O sen tid o c ris tã o d o p o b re, p. 18. A s p ró x im as c ita ç õ e s ibd. C f ta m b é m : T e o lo g ia da L ib ertação , p. 52.
(17) O sen tid o , p. 21. (18) Ibd. p. 38
(19) “ N ão a lim e n to n e n h u m a ilusão ‘p o p u lis ta ’ p o rq u e em d e fin itiv o ta m p o u c o os p o b re s que c rê em c o n stitu e m um c rité rio decisiv o d a v e rd a d e ...” In: E v a n g e liz a r os p o b res? p. 25. Cf ta m b é m do m e s m o a u to r : T e o lo g ia da L ib ertaç ã o , p. 71.
(20). O sen tid o , p. 41 (21) Ibd. p. 32
(22) C f ta m b é m : E sp iritu a lid a d e da ev an g e liz a çã o , p. 25; 27; 32; etc. e: T e o lo g ia da L ib ertaç ã o , p. 71.
dos c a tiv e iro s ” . Devem c re r para realm ente serem salvos, e não são, de m odo algum, dispensa dos da exigência d o am or (23).
Galilea sabe q u e a in sistê n cia no p e ca d o do pobre pode su scita r suspeitas. Poderia ser m al-e n te n d id a co m o m anobra para desviar a a tenção dos verd a d e iro s problem as da in ju stiça e da opressão. Insistir na conversão d o po b re pod e so a r co m o cruel ironia (24). De fato, a afirm ação da p e cam ino sidade qu e o pobre co m u n g a com o rico tem sido abusada na história d a Igreja p o r uma pastoral que, em vez de lib e rta r as pessoas, antes as esm agava sob o peso de seus pecado s e as c o n fo rm a va com a s o rte de oprim idos. E não obstante, c o n fo rm e G alilea a ‘ ‘conversão dos pobres não é som ente válida em si, mas é tam bém inseparável de sua lib e rta çã o s o c ia l” (ibd. p. 46). Sem a renovação qu e Deus o p e ra nos corações das pessoas poderá haver, isto sim, p ro m o çã o social, mas não real lib e rta çã o (25). ‘ ‘ Deus não é um lu xo na h istó ria das s o c ie d a d e s ” (p. 48). Sem a conversão, as lib e rta çõ e s sociais revertem em novas form as de servidão e não consegu em ro m p e r o esquem a da opressão.
3. P obreza co m o ca rê n cia e resultado de in ju stiça é um mal, do qual o evange lho p rom ete libertação. Jesus C risto ‘‘assum iu to d o
o negativo da c o n d iç ã o h u m a n a ” (p. 55). C arregou - assim podem os in te rp re ta r - não som ente os nossos pecados, “tam bém to d a opressão e m iséria já foi assum ida po r Jesus s o fre d o r e p o b re ” . Foi ve n cid a na Páscoa. Pois a ressurreição de Jesus é “ a g a rantia da libertação de to d o s os a b a n d o n a d o s da te rra ” (ibd). A pobreza co m o necessida de hum ana e e stado social é esca n d a lo sa (26), algo a ser c o m b a tid o com o p o d e r da re ssu rre içã o de Jesus. É a pobreza a que se refere Lc 6.20.
Dela deve ser d istin g u id a - sem pre de a c o rd o com a c o n c e p ç ã o de Galilea - a pobreza com o atitude, ou seja, a pobreza de espírito (M t 5.3), qu e é diante de Deus e se e xte rio riza em
(23) P or e s ta ra z ã o G a lile a d ificilm en te p o d e ria a c o m p a n h a r a p ro b le m á tic a su b d iv isã o d a h u m a n id a d e em J.L .S egundo: El h om bre, op. cit., p.179, q u e d is tin g u e trê s g ru p o s: a) o d o s p o b re s c o m o d e s tin a tá rio s “n a tu r a is ” do re in o d e D eus; b) o d a q u e le s q u e d ev em receb ê-lo co m um “a i ” e fin a lm e n te c ) o d o s d iscíp u lo s reu n id o s p o r Jesu s. De a c o rd o com Seg u n d o , p o rta n to , os p o b re s e sta ria m d isp en sa d o s d o d iscip u lad o , sen d o ju s tific a d o s pela p o b re z a tã o -so m e n te.
(24) O sen tid o , p. 44.
(25) Sobre e v a n g e liz a ç ã o e p ro m o ç ã o social v eja, e n tre o u tro s, J.M . G o n z ále z R uiz: P o b re z a e v an g é lic a e p ro m o ç ã o social, 1970, p. 107 s.
(26) C f o q u e G. G u tie rre z : T e o lo g ia da L ib ertaç ã o , p.238 ss d iz ia so b re a p o b re z a co m o e sta d o e sc a n d alo so e a a m b ig ü id a d e do te rm o em su a d u pla d im e n sã o d e so lid a rie d a d e e p ro te sto (p. 234 s), e ain d a J.M .G o n zález: op.cit. p.23 ss; etc.
determ inad a fo rm a de e sp iritu a lid a d e (27). Nesse s e n tid o pobreza vem a ser algo positivo, essencial da vida cristã. A p ro xim a as pessoas dos m aterialm ente pobres e rep re se n ta um dos principais im pulsos para a s o lid a riza çã o com os m esm os em sua luta por libertação. P obreza d e espírito, assim Galilea, leva necessariam ente a form as de p o b re za m aterial devid o à fra te rn id a d e qu e cria, assim com o um a vida e xte rn a m e n te p o b re pod e ajudar a c ria r a a titude da pobreza in te rio r (28). R esulta daí, em Galilea, to d a um a m ística do pobre.
D esco n sid e ra n d o uma vez este últim o a sp e cto (29), c o n s ta tam os com re la çã o ao nosso tem a que, em Galilea, pobres e pecadores não co n stitu e m o m esm o g ru p o . Na verdade, os p e ca d o res nem representa m uma fa cçã o definida. A p lic a -s e o term o a todas as pessoas. Pois, “ o p ecado perm eia todas as classes sociais e to d a co n d iç ã o h u m a n a ” (30). Os pobres são, assim podem os co n clu ir, os privilegia dos de Deus e n tre os pecadores. Por isto to d o s devem co n ve rte r-se e a p re n d e r a a titu d e da pobreza evangélica.
A c o n c e p ç ã o de G alilea im pressiona pela c o e rê n cia e os m uitos aspectos que, com justas razões, d e fend e c o m o co n s titu tiv o s da fé cristã. O que, e n tretanto, não re ce b e e x p lica çã o é p o r que em Jesus os p ecado re s tantas vezes aparecem co m o g ru p o claram ente identificável. Haverá um m o tivo especial para isto?
C om o te rc e iro exem plo sirva a p o siçã o de R. N. Cham plin (31). C om entand o as passagens Mt 5.3 e Lc 6.20, C ham plin não exclui a p o ssib ilid a d e de Jesus te r d irig id o essa b e m -aventu ra nça a g e n te literalm ente pobre, d esprezad a ainda pelos p ró p rio s líderes religioso s judaico s. Mas im ediatam e nte é a firm a d o que, a despeito de tais destinatá rios, a lição de Jesus é sem pre "d e natureza e ssencialm ente e s p iritu a l” . É o re sta b e le cim e n to das relações com Deus q u e Jesus, c o n fo rm e C ham plin, o fe re ce ao m undo, mais p re ci sam ente a id e n tific a ç ã o e sp iritu a l m esm o e a tra n sfo rm a çã o em sua im agem (32). O utros aspectos pra tica m e n te não entram na
perspec-(27) É o q ue se c o stu m a c h a m a r d e “p o b re z a e v a n g é lic a ”. A lém d a lite ra tu ra in d ic a d a v eja C. Boff: A in te rp e la ç ã o , p .l 1.
(28) V eja: E s p iritu a lid a d e d a e v an g e liz a çã o , p. 57. Com re sp eito à “ m ís tic a ” do pobre: O s e n tid o , p. 57 s s - 81.
(29) P e rm a n e c e m p e rg u n ta s a b e rta s. P o r e x em p lo : Em q u e se n tid o se pode d iz e r q ue os p o b res se ja m “p o rta d o re s ” de v a lo re s e sp iritu a is ”? P o b re z a é, em si, u m c arism a?
(30) O sen tid o , p. 67.
(31) R .N .C ham plin: O N o v o T e s ta m e n to In te rp r e ta d o V ersícu lo p o r V ersículo, Vol I-VI, S ã o Paulo, s.d. A s p ró x im as re fe rê n c ia s em Vol I, p. 303; Vol II, P-64.
(32) Op. cit. Vol I, p. 654 s. Ju lg a C h am p lin ser essa id e n tific a ç ã o esp iritu a l “a grande m en sagem do e v an g e lh o , a qual u ltra p a s s a em m u ito a sim p les q u e stã o do p e rd ã o d o s p e ca d o s e a m u d a n ç a d e e n d e re ç o p a ra o c é u ”. S e rá o p e rd ã o d o s p e ca d o s u m a q u e s tã o tã o sim ples assim ?
tiva. C onsidera este co m e n ta rista se r ‘ ‘um m ito a idéia de q u e a pobreza e n co ra ja a espiritualidade. Q uando m uito rem ove alguns o b stá cu lo s à m esm a” . Deste m odo a c o n c lu s ã o tira d a de Lc 6.20 não passa da trivial afirm ação, d ize n d o que “ o cristia n ism o não é um a religião das elites s o c ia is ” .
É evidente q u e em C ham plin o p o b re co m o po b re é d e sco n si derado. Se Jesus é visto co m o te n d o a mesma o fe rta espiritual para todos, a co n d içã o social dos ouvin te s se to rn a irrevelante. Desta form a, porém, fic a sem resposta a p ergunta : Por q u e são bem - aventurad os ju sta m e n te os pobres? Jesus, da m aneira co m o C ham plin o entende, não tem o lh o s nem o u vid o s para situ a çõ e s hum anas específicas. R econcilia as pessoas com Deus e p e rd o a os pecados qu e cometeram. Mas para os pecado re s q u e sofrem (33), fa lta a sensibilidade. Daí p o rq u e se pode co n c lu ir: Em C ham plin a ca te g o ria do p e c a d o r absorveu a do pobre. Jesus, nesta in te rp re ta ção, se d irig e exclusivam en te a pessoas não redim idas, pecadores, e n q u a n to as vítim as do pecado não são m erecedoras de atenção (34).
Os exem plos m ostram a urg ê n cia da nossa indagação. Jesus veio para rom per co n d ic io n a m e n to s sociais ou c o n v e rte r as pes soas? C om o se relacionam em sua ação a c u lp a hum ana e o so frim e n to da vítim a? Enfim, Jesus veio para salvar a quem?
B. GRUPOS OPRIM IDOS NO JUDAÍSM O CONTEMPORÂNEO DO NOVO TESTAMENTO
1. O pobres
a. ‘ ‘As províncias da S íria e Judéia, exaustas pela carga trib u tá ria , vieram re q u e re r redução dos im p o s to s ” (35). Esta no tícia
(33) A n e ce ssid a d e d e a Ig re ja a te n ta r p a ra os p ecad o s q u e os p o b res so frem é s a lie n ta d a com m u ita ra z ã o p o r T. H a n k s: O re in o e os pobres, in: Sim p ó sio 24, Vol 4, A no X V I, p. 282; e ou tro s. (34) A p o siçã o d e C h am p lin de m odo alg u m é re p re s e n ta tiv a p a ra o m o v im e n to e v an g elical. N este
v erifica-se, m u ito p e lo c o n trá rio , u m a c re sc e n te to m a d a de c o n sc iê n c ia d a re sp o n sa b ilid a d e social co m v a lio sas c o n trib u iç õ e s, c o m o o é a já c ita d a o b ra de R. J. Sider: C ristã o s ric o s em te m p o s de fom e. M en c io n a m o s a in d a J. S to t t (ed.): E v a n g e liz a ç ã o e re sp o n sa b ilid a d e social, Série L a u sa n n e 2, 1983; S. E sco b ar: S erv ir a D eu s no m undo. In: T ive Fom e, S érie L a u s a n n e 1, 1983, p. 9 ss. A in d a que p e rm a n e ç a m p e rg u n ta s a d iscu tir, em e sp e c ia l a p ela ta re fa p o lític a do c ris tã o , a p re o c u p a ç ã o social e s tá c o n q u ista n d o e sp aço s. E isto é alv issa re iro .
(35) C ita çã o c o n fo rm e H .G .K ip p e n b e rg /G A .W e w e rs: T e x tb u c h z u r n e u te s ta m e n tlic h e n Z eitges- c h ic h te , N TD Egbd. 8, 1979, p. 51 (a tra d u ç ã o é n o ssa). Q u a n to à s itu a ç ã o social d a P a le stin a em g eral, re m e te m o s p a ra E. M orin: J e s u s e as e s tr u tu ra s d e seu tem p o , 1981; F. H o u ta rt:
de Tácito, referindo-se aos anos 15 a 26 d.C., espelha bem a
situação de brutal e xp lo ra çã o a que a Palestina, te rra já em si
não prop ria m e n te rica, vivia sujeita no te m p o de Jesus. Os trib u to s d e cre ta d o s pelos rom anos, a cre scid o s do im p o sto e dos dízim os devidos ao tem plo, tinham c o n d u z id o a um a c e n tu a d o e m p o b re ci m ento da popula ção, agravado a in d a por fre q ü e n te s g uerras ou revoltas bem co m o c o n d içõ e s clim á tica s adversas e, p o r c o n s e g u in te, safras frustradas. A situ a çã o era de tal fo rm a pre cá ria q u e m uitos, especialm e nte jovens, em igravam em b usca de m elhores co n d içõ e s de vida no exterior, e n g ro ssa n d o assim o expressivo c o n tin g e n te d o ju d a ísm o da diáspora.
O utro fa to r decisivo desse e m p o b re cim e n to era a c o n c e n tra ção de te rra e ca p ita l na mão de m inorias: O la tifú n d io devorava o p e que no cam pesinato, a c u ltu ra g re g a da “ p o lis ” reprim ia a tra d ic io nal c u ltu ra rural. Isto em d e c o rrê n cia da m o d e rn a “ ra cio n a lid a d e h e le n ís tic a ” que tam bém na P alestina m ostrava efeitos e se d o c u m entava em té cn ica s de apro ve ita m e n to in te n sivo da te rra e em adm in istra çã o e fic ie n te (36).
Em razão deste p rin c íp io de “ e fic iê n c ia ” e rentabilidade, m uitos peque nos ag ricu lto re s, irrem ediavelm e nte endividados, eram reduzido s à c o n d iç ã o de “ c o lo n o s sem te rra ” , p ro c u ra n d o s o b re vi ver co m o meeiros, diaristas ou então co m o m endigos. O a cú m u lo de capital e dos m eios d e p ro d u ç ã o fazia cre sce r o desnível social em to d a a parte, re su lta n d o num a pirâm ide social extrem am ente dese quilibra da: Os p o u co s m em bros da classe alta, co m p o sta po r latifund iários, grandes com e rcia n te s, sa ce rd o te s em altas funções, form avam um fo rte co n tra s te com a classe pobre, escravos, d ia ris tas, desem pregados. E ntre os extrem os p ro c u ra v a m anter-se uma classe média, via d e regra mais te n d e n te à classe baixa e c o n s titu íd a p re d o m in a n te m e n te de pequenos artesãos, cam poneses, co m e r ciantes (37). De q u a lq u e r m aneira, a Palestina no te m p o de Jesus estava m arcada p o r graves c o n flito s sociais e por e struturas geradora s de pob re za em gra n d e p ro p o rçã o . A lg o deste q u a d ro social c o n flitiv o se reflete em parábolas de Jesus co m o a do homem rico e Lázaro (Lc 16.19 ss), a dos m aus vin h a te iro s (M c 12.1 ss) ou a dos tra b a lh a d o re s na vinha (Mt 20.1 ss).
R elig ião e m o d o s d e p ro d u ç ã o p ré -c a p ita listas, 1982; J. Jerem ias; J e ru sa lé m no te m p o d e Jesus, 1983, esp. p. 127 ss; etc.
(36) M. H engel; E ig en tu m u n d R eich tu m in d e r frü h e n K irch e, 1973, p. 22 s; e so b re tu d o H.G. K ip p en b erg : R elig io n u n d K lasse n b ild u n g im A n tik e n J u d ä a , 1978, p. 133 ss; 154 ss.
(37). J. J e re m ia s : J e r u sa lé m no te m p o de Jesu s, p. 144 ss. E ra c o n sid e ra d o pobre na P a le stin a d a é p o c a q u em p o ssu ísse b e n s n u m v a lo r in fe rio r a 200 d en ário s. V eja H. S ch rö d er: J e s u s und das Geld, 1979, p. 160.
b. Na c o n c e itu a ç ã o de po b re za e pobres co n fro n ta va m - se no ju d a ísm o da é p o ca duas linhas de pensam en to antagônicas,
am bas de ce rta fo rm a arraigadas n o A n tig o T estam ento. De um lado havia a co n v ic ç ã o tra d ic io n a l q u e enxergava nas riquezas um a bênção de Deus (Dt 28.11; 1 Cr 29.12; etc.), o fru to ju s to de tra b a lh o e s fo rç a d o (JSir (38) 31.3; Pr 10.4), de sa b e d o ria na a dm inistraçã o dos bens (Pr 24.31), da a bstençã o d o vício (JS ir 19.1ss) e do cu m p rim e n to d a lei de Deus (JSir 11.15) (39). S ob tal p e rsp e ctiva pobreza necessariam ente apa re ce co m o re su lta d o de preguiça, esbanja m ento ou vid a d isso lu ta (Pr 6.6; JS ir 18.32 s), m otivo para o m endigo ser desprezad o pelo sábio (JSir 40.30). No tem po do Novo testam ento está vivo este pensam ento e specialm e nte na nobreza sacerdotal dos saduceu s (40). Mas tam bém na lite ra tu ra ra b ín ica se preza a riqueza co m o dom de Deus e se c o n sid e ra ser a pobreza pre dom ina ntem ente um d e stin o im p o sto po r Deus co m o ca stig o ou com o pro va çã o (41).
Esta lin h a de pensam ento, porém , é co n tra ria d a por outra, c rític a (42). Riqueza é perigosa. C o rro m p e o ser hum ano (JSir 13.24; 27.1), co n d u z à s o b e rb ia (Pr 11.28; 18.11 ss), à fa ls a se g u ra n ça (JSir 11.19), ao p e cado (JSir 31.5). S obretud o, porém , se perce b e qu e a riqueza de uns p ro d u z a pobreza de o u tro s (JS ir 13.4 s). É esta a visão dos profetas qu e levantam a voz em defesa dos pobres e denun ciam a in ju stiça dos p oderoso s (c f Am 2.4; 4.1; Is 5.8 ss; etc.). Os fo rte s e ricos exploram o fra co , to rce m o d ire ito , oprim em o pobre. A mesma p o s tu ra se v e rifica na lite ra tu ra a p o c a líp tic a (Hen et 94.7; 96.4 ss; 4 E sdr 14.13; Test Ju d 25.4; e tc.) e se faz presente no tem po do Novo Testam ento m orm ente em c írc u lo s daí influen ciados.
Não há co m o negar que em am bas as form as de pensar se articulam experiên cias da vida. Êxito d e p e n d e em boa m edida da responsab ilidade individual. Não m enos verdade é, porém , que pobreza resulta de o pressão e que riqueza vicia. Eis p o rq u e na lite ra tu ra sapiencial se e n c o n tra lado a lado o a p re ço da riqueza e o alerta c o n tra os perigos da mesma. Ela é a boa dádiva do Deus b o n d o so e, todavia, pode ser ve rg o n h o sa m e n te abusad a (43).
(38) J e s u s Siraque, livro c h a m a d o E c le iá stico e n e ste caso a b re v ia d o Enlo.
(39) F. H a u c k /W . K asch: art. “p lo ü to s ”, T hW VI, p. 321; E. B am m el: art. “p to c h ó s ”, T h W VI, p. 888 ss.
(40) F. H a u c k /W . k a sc h : op. cit. p. 323.
(41) V eja P. B illerb eck (H .L .S track ): K o m m e n ta r z u m N e u en T e s ta m e n t a u s T a lm u d u n d M id rasch , 1922, Vol I, p. 819 s; E. B am m el: op. cit. p. 901.
(42) Sobre o lad o a lad o d a s d u a s fo rm a s d e p e n sa m e n to veja, além d a lite ra tu ra já in d icad a, as e x c e le n te s e x p o siç õ e s de E. M onti: R iq u e za e p o b re z a na lin g u a g e m bíblica, in: S u p le m e n to d o CEI 23,1978, p.2 ss; além d isso M. D ibelius: D e r B rief des J a k o b u s, p. 58 ss; M. H engel: E ig en tu m und R eich tu m , p. 20 ss; W. S ch räg e: E th ik , p. 100 ss; etc.
O mal está na do g m a tiza çã o de um dos p o n to s de vista e sua aplicaçã o s o b d e sco n sid e ra çã o da s itu a çã o c o n cre ta , co m o se pobreza devesse ser a trib u íd a sem pre a fa to re s individu ais ou então sem pre a e stru tu ra s injustas. É o que se o b se rva em ce rto s grupos no tem po do N ovo Testam ento: Insinua-se ao p o b re esta r so fre n d o a m erecida pena, resp e ctiva m e n te o d e stin o q u e Deus lhe im pôs, q ua n d o na verdade é vítim a de crim es alheios e de e stru tu ra s de e xp lo ra çã o d esum ana (44). É um a fo rm a de ju s tific a r seus p ró p rio s privilégio s e de negar a necessida de de repartir. O pobre, neste caso, é de fa to id e n tific a d o ao pecador.
A visão c rític a da riqueza, porém , e a d e n ú n cia d o fe nôm eno d a opressão fazem com que o te rm o “ p o b re ” a d q u ira o u tra co n o ta çã o . Nos salm os são fre q ü e n te s as passagens que qualifica m o adversário do po b re co m o sen d o m a lfe ito r e inim igo do p ró p rio Deus (SI 35.10; 37.12 ss; etc.). São m aus os qu e oprim em e privam o p o b re do necessário para viver. Os profetas s o b re eles proclam am o ju íz o divino. R esulta daí quase q u e n a tu ra lm e n te a id e n tifica çã o do p o b re com o p ie d o so (SI 86.11; 132.15 s) (45). Ele é ju sto . R ecebe re fo rç o esta id e n tifica çã o pela su p o siçã o de o p o b re estar livre das te n ta çõ e s da riq u e za e n g a n o sa e fútil (Pr 23.4 s; JS ir 11.18 s; Ec 5.12 s). Decisiva, porém , é a tra d içã o p ro fé tic a a p re g o a n d o Deus com o d e fe n so r dos injustiçad os. E xaltará os pobres e h um ilhará os p oderoso s e ricos (S1113.7 s; 1 Sm 2.7s; Lc 1 .5 2 s ; etc.).
Na é p o c a d o Novo Testam ento c o n tin u a em destaqu e o privilégio dos pobres, especialm e nte na lite ra tu ra a p o ca líp tica : No novo “ e ã o ” serão eles sobrem ane ira e n riq u e cid o s (Test Ju d 25.4; 4 Esdr 14.13; O r Sib III, 378; etc.). D irige-se p re fe re n cia lm e n te a eles a m isericórdia divina. É a razão p o rq u e a co m u n id a d e de Q um ran falava de si com o dos pobres e se e n titu la va de “ co m u n id a d e dos p o b re s ” (4 QpSI 37 II,9; III, 10) (46) e p o rq u e m esm o os fariseus
n ecessário . S u rg e d a í o c o n flito c o m o D eu s d a B íblia, p ois “ D eus é o q u e dá a b u n d â n c ia , m as na m e d id a d o s u fic ie n te ” (E. M onti: op.cit., p.4). F a la v a m d a in s a tisfa ç ã o p ro v o c a d a pelas riq u e z a s ta m b é m P lu ta rc o e S e n e ca n a a n tig ü id a d e. V eja H .H .S ch ro ed er: T ien en los d ich o s de J e s ú s re fe re n te s a la p o b re z a c o n se c u e n c ia s e tic a s en la v id a so cial? In: Los Pobres, 1978, p. 34. (44) In v e rs a m e n te ta m b é m n ã o p e rm ite a b s o lu tiz a ç ã o o p rin c íp io q u e d e sc o b re as c a u s a s da
p o b re z a e x c lu siv a m e n te em o p re ssã o e e s tru tu ra s . S eria n e g ar a re sp o n sa b ilid a d e ind iv id u al d as pessoas, sem a q u al as m elh o res e s tr u tu ra s n ão a d ia n ta m . A “m o ral de tra b a lh o ” é fa to r im p o r ta n te p a ra a p ro d u ção .
(45) Q u a n to ao to d o E. B am m el: op. cit. p. 892 ss; M. D ebelius: op. cit. p. 60 s.
(46) O u tra s p assag en s: 1 Q p H ab 12,3,6,10; 1 QM 13.14; 1QH 5.22; etc. C f E. Lohse: D as E v a n g e liu m fü r d ie A rm en, p. 55 ss. E n tre g a v a m os m e m b ro s d e ssa c o m u n id a d e su as posses à o rd em , n o m o m e n to d e s u a filiação , de m odo que, c o m o in d iv íd u o s, e ra m re a lm e n te p o b res em sen tid o m aterial. A inda assim , o te rm o os c a r a c te riz a v a m u ito m ais c o m o os v e rd a d eiro s pied o so s que p re te n d ia m ser.
assim se designavam (SI Sal 5.2; 10.6; 15.1) (47), em bora se g u ra m ente não pertencessem aos mais carentes. Os te rm o s “ p o b re ” e “ ju s to ” se fundem e se to rn a m sinônim os. Isto, porém , s ig n ific a que a c a te g o ria “ p o b re ” não mais d e sig n a em s e n tid o p re ciso um a classe social, mas sim o g ru p o re lig io so dos piedosos.
c. A d espeito de tão d ive rg e n te co n ce itu a çã o , porém , sem pre houve c o n s c iê n c ia em Israel q u e pobreza não deve ser e qu e é p re ciso em penha r-se n o combate a ela (cf Dt 15.4; etc.). Deus elegeu o povo em sua totalida de, não um a parte d o m esmo, e as suas prom essas se destinam à coletivida de. Logo, ninguém deverá ser e x c lu íd o do u s o fru to da a b u n d â n cia e riqueza da terra (Dt 15.7 ss) (48). D ecorre de tal c o n c e p ç ã o não s ó a necessida de da com paixão p a ra com o carente, co m o tam bém um “ d ire ito d o p o b re ” que, se não atendido, a cu sa ria Israel de in ju s tiç a (49).
C onsequentem ente, o co m b a te à po b re za se tratava antes de mais nada a nível da lei. São a b und antes no A n tig o T estam ento as determ inaçõ es q u e protegem o p o b re e p ro cu ra m resta b e le ce r a ig uald ade social. O “ livro da a lia n ç a ” (Êx 21-23) p ro íb e a exploraçã o d o po b re m ediante a co b ra n ç a de ju ro s (Êx 22.23; c f Dt 23.19s), d e stin a -lh e os fru to s do ano sa b á tico (Êx 23.1 Os; c f Lv 25.1 ss). O D euteronôm io, além disto, p rescreve o “ dízim o d o p o b re ” a ser re co lh id o ao fim de cada três anos (Dt 14.28 s; 26.12) e dá perm issão para saciar a fom e em seara alheia desde q u e nada seja levado em cesto (Dt 23.24 s; c f Mc 2.23 ss). S obretud o, porém , estabele ce a lei d o “ ano de rem issão” : De sete em sete anos deverão ser perdoadas todas as dívidas e haverá de se r devolvid a a lib e rd a d e ao m em bro do p o vo qu e p o rve n tu ra se tivesse to rn a d o escravo (Êx 21.1 ss; Dt 15.1 ss) (50). A lei do A n tig o Testam ento prevê um a série de m edidas destinad as a g a ra n tir a vida do p o b re e am parar-lhe os direitos.
Na prática, porém , as coisas eram diferente s, co m o o revela, na é p o ca do reinado, o ju íz o dos profetas. Já m ostram os acim a os graves c o n flito s sociais existentes no te m p o do Novo Testam ento. O “ ano da rem issão” co m o tam bém o “ dízim o do p o b re ” eram in stitu içõ e s arcaicas, norm alm ente desconsid eradas(51). Bem mais
(47) M. D ebelius: op. cit. p. 61. O s S a lm o s d e S a lo m ã o são re c o n h e c id a m e n te de o rig e m fa risa ic a. L. R ost: In tro d u ç ã o a o s liv ro s a p ó crifo s e p s e u d e p íg ra fo s do A n tig o T e s ta m e n to , 1980, p. 119 ss. Aliás, a m b o s, o g ru p o farisaico c o m o ta m b é m a c o m u n id a d e de Q u m ra n , e s tã o sob in flu ên cia a p o ca líp tica .
(48) E. B am m el: op. cit. p. 891.
(49) C f M. S c h w a n tes: D as R e c h t d es A rm en , 1977; idem : A c id a d e d a ju s tiç a , in: Est. Teol. 22, 1982, p. 5ss; G. v. Rad: T e o lo g ia do A n tig o T e s ta m e n to , Vol I, 1973, p. 379.
(50) Cf. E. M onti: R iq u e za e p o b reza, p. 5 ss; e ou tro s.
im portantes eram a c a rid a d e individu al e as o rg a n iza çõ e s de assistência. A ju d a r ao p o b re era co n sid e ra d o m e ritó rio (52). Por isto se esforçavam p o r fazê-lo os piedosos. A in d a q u e a assistência recebesse especial relevância som ente após o ano 70 d .C., q u a n d o os pobres passaram a ser os b e n e ficia d o s por d o a çõ e s o u tro ra destinad as ao tem plo (53), já antes daquela data a c a rid a d e exercia im p o rta n te fu n ç ã o na vida religiosa ju d a ica . A obra assistencial era sem analog ia no m u n d o de então (54), e m bora n a tu ra lm e n te deva ser c o n sta ta d o q u e aliviava, não s o lu cio n a va a s o rte do pobre.
Finalm ente havia tam bém quem p ro c u ra s s e co m b a te r a pobreza a nível estrutural, a exem plo dos sicários. S ua resistência à o cu p a ç ã o rom ana estava m otivada não apenas p o r objetivo s n a cio nais e religiosos, co m o tam bém sociais. Uma das suas prim eiras ações no início da g u e rra ju d a ic a dos anos 66 - 70 dC. co n sistiu na in cin e ra çã o das prom issórias dos endividados, arquivadas em Je ru salém. Perseguiam os sicá rio s a m eta da c ria ç ã o de um a s o cie d a d e igualitária, sem dom inaçã o hum ana, re g id a u n ica m e n te p o r Deus (55). Para ta n to não desprezavam os m eios da violência . S u cu m b i ram ante a s u p e rio rid a d e esm agadora dos e xé rcito s rom anos.
2. Os pecadores
C om preendia-se so b p e ca d o n o ju d a ísm o d o tem po de Jesus essencialm ente a transgressão dos santos p re ce ito s de Deus. A “ to rá ” representa va o critério, s e g u n d o o qual se defin ia o grau de pecam in o sid a d e das pessoas (56). Com um era a prem issa de, em prin cíp io , ser possível viver um a vida em integral obed iê n cia à lei e, consequ entem ente, isenta de pecados. É o que se dizia dos grandes
(52) V eja H .J. D e g e n h a rd t: L u k a s - E v a n g e list d e r A rm en , 1965, p. 24; P o B illerbeck: op. cit. Vol IV, p. 536ss; 559ss; J. J e re m ia s ; Je ru sa lé m , p. 42s. H a v ia u m a a ss is tê n c ia o rg a n iz a d a, p ú b lic a e oficial e o u tr a p riv ad a. O q u a n to a c a rid a d e e ra p re z ad a , m o stra , p o r ex em p lo , a a firm a ç ã o ra b i nica, d iz e n d o q u e o b e n efíc io p ra tic a d o faz D eu s ser d e v e d o r d o hom em . P. B illerbeck: ibd. V e ja a in d a E . M orin: op. c i t p. 36 ss; M. A v a n zo : El c o m p ro m iso c o n el n e c e s ita d o e n el ju d a ísm o , Rev. Bibl. 35,1973, p. 23 ss.
(53) E. B am m el: op. cit. p. 900.
(54) M. H engel: E ig en tu m u n d R eich tu m , p. 28; W. S ch räg e: E th ik , p. 100; etc.
(55) V eja G . B au m b ach : D ie a n tirö m is c h e n A u fsta n d sg ru p p e n , 1973, p. 273 ss; H .G .K ippenberg: R elig io n u n d K la sse n b ild u n g , p. 130 ss. L em b ra M. H en g el (E ig e n tu m , p. 24) co m ra z ã o q u e a lu ta d o s ju d e u s p ela lib e rd a d e p o lític a se m p re tin h a im p lic a ç õ es sociais.
(56) G. S ta h lin /W . G ru n d m a n n : ART. “a m a rtã n o " , T h W I, p. 290; A. S trobel: E rk e n tn is und B ek e n n tn is d e r S ü n d e in n e u te s ta m e n tlic h e r Zeit, 1968, p. 18 ss; E. B ra n d en b u rg er: A dam und C ristu s, 1962, p. 191.
exem plos d o passado co m o A braão, Moisés ou Elias, tid o s co m o pessoas justas. L o g ica m e n te tam bém o Messias seria sem pecados, c o m o aliás já o afirm ara D euteroisaías com respeito ao “ servo de Ja vé ’ ’, dizendo : Ele "... n u n ca fez ju stiça , nem d o lo algum se a ch o u em sua b o c a ” (Is 53.9) (57). E no entanto , viver sem pecado s era visto não co m o p rivilé g io c o n c e d id o a uns p o u c o s especialm e nte eleitos, mas com o p o ssib ilid a d e d e to d o israelita.
N aturalm ente não se estava ce g o com relação à realidade qu e tão fla g ra n te m e n te desm entia tal co n vicçã o . Não negava o ju d e u q u e quase to d o s (4 Esdr 7.48), ou m esm o todos (4 Esdr 7.68 s) com etem algum p e cado (58) e ele lam entava a p ro p o rç ã o da p e cam ino sidade hum ana. Mas isto não invalidava q u e com o auxílio da p ró p ria lei o p e ca d o seria evitável. É in te re ssa n te observar o seguinte:
a. C onform e a op in iã o rabínica, o ser hum ano, após caído em pecado, estaria em perfeitas co n d iç õ e s de fazer penitên cia e voltar a Deus (59). Seria ele capaz de re n u n cia r ao p e cado p o r próprias forças, sendo pois c u lp a d o de sua de sg ra ça a quele q u e não o faz. Ser p e ca d o r ou ju s to seria um a questão de livre o p çã o - um a c o n c e p ç ã o defensãvel unicam en te s o b a h ip ó te se de em tese ser possível viver livre d o pecado.
b. Podia o in fra to r da lei, d e n tro de ce rto s lim ites, com pensar suas faltas m ediante obras m eritórias q u e iam além do literalm ente exigido. Justa é, então, não a pessoa sem p ecado algum , mas sim aquela, cu jo s m éritos excedem a q u a n tid a d e e g ravidad e de seus pecado s (60). E videncia este ra c io cín io p o r sua vez q u e se re la cio nava o p ecado m u ito mais com o fazer do que com o ser da pessoa. P ecado era visto com o um ato claram ente id e n tificá ve l e m ensurá vel, razão pela qual se v e rifica no ju d a ísm o da é p o ca to d a um a hierarquia de pecados, desde a mais leve in fra çã o até aos pecados im perdoáveis (61).
c. D istinguia-se e n tre os cu lp a d o s de algum a transgressão ocasiona l ou acidenta l e os qu e viviam em perm anen te estado de
(57) G . S tä h lin /W . G ru n d m a n n : op. c i t , p. 293; P. B illerbeck: op. cit. Vol I, p. 28 s; 815; Vol IV, p. 882; 913 s; etc.
(58) N ã o h á u n a n im id a d e n e ste p a rtic u la r. C o n fo rm e u n s o p e c a d o é g e ra l de to d o s (P. B illerbeck: op. cit. Vol IV, p. 21 s), c o n fo rm e o u tro s há q u e m p a ssa sse s u a v id a sem p e c a r (P. B illerbeck: Vol I, p. 809; Vol IV, p. 1033; etc.). C f A. Stro b el: op. cit. p. 21.
(59) G. S tä h lin /W . G ru n d m a n n : op. cit. p. 295.
(60) H. B illerbeck: Vol II, p. 246; IV, p. 5. N em to d o o ju s to é bom . D ele se d is tin g u e o “ju s to p e rfe ito ”. P. B illerb ack : op. cit. Vol IV, p. 1033; 1139; etc. C f ta m b é m E. B ra n d en b u rg er: op. cit. p. 197 ss.
(61) P. B illerbeck: Vol I, p. 636 s. C f G. B rak em eier: A c u ra do p a ra lític o em C a fa rn a u m (M c 2.1-12 X in: Est. Teol. 23,1983, p. 26 s.
c o n flito com a lei. Pecadores no s e n tid o pleno da palavra seriam apenas os últim os. É o que perm itia cla s s ific a r as pessoas nas cate g o ria s dos ju sto s e injustos. Não sig n ific a ria tal cla ssifica çã o qu e os justos, co m o já frisam os, não in frin g isse m em algum a o p o rtu n id a d e as d e te rm in a çõ e s da lei. Sabiam -se tam bém eles d e pen dentes da m is e ricó rd ia divina. Mas o im p o rta n te era que, co n fo rm e supunham , viviam num a relação c o rre ta com a lei (62). As transgressõe s p raticada s nessas c irc u n s tâ n c ia s lo g ica m e n te ta m bém necessitariam de perdão e expiação, mas não tra n sfo rm a ria m as pessoas em m alfeitores e injustos. D iferente se ju lg a v a a situação, q u a n d o a pessoa s e tin h a to rn a d o ré de p e cado grave, q u a n d o não se im portava com a lei ou estava p o r q u a lq u e r razão im p e d id a de cum pri-la. D iagnosticava-se, nestes casos, um a p ro fu n d a d isto rçã o ou que b ra d a relação com a lei. A pessoa, s o b este ângulo, não só
cometia pecados, ela era pecadora. E n co n tra va -se em estado de
transgressão perm anente, su p o sta m e n te m e re ce n d o o de sp re zo por parte dos piedosos.
E xplica-se a p a rtir daí p o rq u e no ju d a ís m o daquela é p o ca (e ainda nos evange lhos sin ó tic o s ) os pecado re s aparecem co m o g ru p o tão claram ente d is tin to dos justos. Estes c e rta m e n te não se consideravam perfeitos, mas de m odo algum perdidos. E nquanto isso, os “ p e c a d o re s ” viviam so b a p e rm anen te c o n d e n a ç ã o da lei, literalm ente im ersos n o pecado. C onsiderava-se p e rte n c e n d o a eles:
a. T odos os pagãos. D esconhe cia o pagão a lei de Deus, respectivam en te não a reconhecia. No e n te n d e r do ju d e u lhe faltava, em razão disto, a c o n d iç ã o básica para um a vida em santidad e e o b e d iê n cia a Deus. V iver de um a m odo q u e a gradasse a Deus, isto para o rab in ism o seria possível u n ica m e n te co m o ju d e u observante(63). E im p o rta n te a n o ta r q u e o d e sco n h e c im e n to da lei pelo pagão era visto não co m o acasó, mas sim co m o culpa. Pois a lei, assim se alegava, veio a ser o p rivilé g io de Israel som ente depois d e rejeitada pelos pagãos (64). Pagão e pecador, pois, eram por natureza sinônim os.
b. O “ am -ha-arez” . S ig n ifica este te rm o em tra d u ç ã o literal “ povo da te rra ” ( = de Israel). Mas na é p o c a do Novo Testam ento essa expressão já há m uito te m p o perdera o s e n tid o original. U savam -na os piedosos, e specialm e nte fariseus, para desig n a r a massa ignoran te, o u seja a “ plebe qu e nada sabe d a le i” (Jo 7.49) e
(62) K. H. R en g sto rf: a rt. “a m a rto ló s ”, T hW I, p. 324 ss. (63) Idem , p. 328 s.
(64). P. B illerbeck: Vol III, p. 36 ss; D. Bosch: D ie H e id en m issio n in d e rZ u k u n fts s c h a u Jesu , 1959, p. 33.
q u e já p o r c a u sa de sua ig n o râ n cia necessaria m e nte devia p ecar (65). Com seu te o r altam ente pejorativo , o term o e spelha o desprezo q u e o “ ju s to ” sentia com relação aos não -o b se rva n te s da lei e os fa lto so s para com a piedade (66). A exata d e fin iç ã o de quem p ertencia , ou não, a esta m assa p e rd id a n a tu ra lm e n te estava sujeita a oscila çã o . Havia, m esm o e n tre os rabinos, os mais e os m enos rigorosos. No e n tanto , as d ife re n ça s eram p o u co sig n ifica tiva s e não invalidavam o fa to q u e a g ra n d e m aioria do povo supostam en te integrasse o g ru p o dos perdidos.
É cla ro que o “ a m -ha-arez” era fo rm a d o p re d o m in a n te m e n te pelos pobres, p o r pessoas sim ples, sem cu ltu ra , gente do interior. O cu m p rim e n to da lei e das so fistica d a s p re s c riç õ e s d a tra d iç ã o dos a nciãos (M c 7.5 ss) (67) exigia um c e rto padrão de vida e, sobretudo , um a e d u c a ç ã o co stu m e ira m e n te fo ra d o a lca n ce dos pobres. E no entanto , “ am -ha-arez” de m odo algum era d e sig n a çã o de um a d e te rm in a d a classe social. A b ra n g ia não só os qu e não podiam, mas tam bém os q u e não queriam c u m p rir a lei, re spectivam en te os por q u a is q u e r m otivos indiferen tes. Estes, porém , eram e n co n tra d o s em to d a s as classes sociais, não apenas e n tre os pobres.
c. Os cu lp a d o s de graves in fra çõ e s ou do e xe rcício de atividades ju lg a d a s pecam inosas (68). O exem plo desses são os
p ublica nos, c o b ra d o re s da ta xa alfande gária o b rig a tó ria na passa gem dos lim ites te rrito ria is. Tinham a fam a de serem d efrauda dores. Inde p e n d e n te m e n te d a pergunta , se devem os ver nos p u b lica n o s do N ovo Testam ento os abastad os chefes dos p o sto s a lfa n d e g á rio s ou apenas e m pregad os s u b a lte rn o s (69), é c e rto q u e não pertencia m às
(65) V eja R. M eyer: A R T. “ó c h lo s ”, T hW V, p. 589; J . Jerem ias: J e ru sa lé m , p. 349 (A 94); idem : T e o lo g ia do N o v o T e s ta m e n to , p. 174, o n d e o “a m -h a -a re z ” é d efin id o co m o sen d o “o s sem in s tru ç ã o , o s ig n o ra n te s, a o s q u a is s e g u n d o as c o n v ic çõ e s d o tem p o , e s ta v a fe c h ad o o acesso à s a lv a ç ã o p o r c a u s a de s u a ig n o râ n c ia religiosa e do seu c o m p o rta m e n to moral”. D ep o im e n to s ra b ín ic o s so b re o “a m -h a -a re z ” em P. B illerbeck: Vol II, p. 494 ss.
(66) D ã o t e s t e m u n h o a s s u s t a d o r d e s s e d e s p r e z o t a m b é m a s c i t a ç õ e s c o l e t a d a s e m H .G .K ip p en b e rg /G .A .W e w ers: op. cit. p. 108 ss.
(67) É a c h a m a d a “to rá o r a l ” q u e e sp e c ific a v a as p re scriçõ e s d a “to r á e s c r it a ” e e ra e n te n d id a c o m o n o rm a tiv a ao lad o d e sta . C f K. S c h u b e rt: O s p a rtid o s re lig io so s h e b raico s, 1979, p. 38s; E. L o h se :U m w elt d es N e u en T e sta m e n ts, 1971, p. 56.
(68) O lim ite e n tre e s te g ru p o e o “a m -h a -a re z ” p e rm a n e c e flu e n te , h a v e n d o m u ita s v ezes co in c id ên c ia s. A in d a assim , n e m to d o s os “p e c a d o re s ” e ra m “a m -h a -a re z ”. O s pub lican o s, p o r ex em p lo , n ã o e ra m c o n sid e ra d o s p o r n a tu r e z a im p u ro s. N ã o e ra m “ a m -h a -a re z ” , p o rta n to . V e ja J . Jerem ias: T eo lo g ia, p. 172 ss.
(69) A q u e s tã o é c o n tro v e rtid a . L. S c h o ttro ff/W . S te g e m a n n : Jesú s, p. 23 ss, p o r ex em plo, a c re d ita m tra ta r- s e nos p u b lic a n o s n e o te s ta m e n tá rio s d e g e n te hu m ild e, p o rta n to n ã o de e m p re sá rio s que c o stu m a v a m a rr e n d a r as fu n ç õ e s a lfa n d e g á ria s c o m a m p la p e rs p e c tiv a de lu c ro , m a s sim d e e m p re g a d o s d estes. T ese d ife re n te d e fe n d e F. H e rre n b rü c k : W er w a re n die Z õ lln er? In: Z N W 2, 1981, p. 178 ss. E n x e rg a nos “te lõ n a i” p e q u e n o s a rre n d a tá rio s d o tipo
classes pobres. P or causa da e x p lo ra çã o qu e praticavam eram tid o s co m o pecadores, c o n d iç ã o q u e o rico p u b lic a n o Zaqueu (Lc 19.1 ss) co m p a rtilh a va com o p o b re ig n o ra n te ju d e u de seu tem po.
Mas não estavam os p u b lica n o s em situ a ç ã o singula r. Havia o u tra s p rofissões olhada s com d e sco n fia n ça e m esm o repugnâ ncia. Seriam profissões q u e seduzissem à ladroeira, à im oralidade, ou e n tã o c o n ta m in a s s e m as p e s s o a s , fa z e n d o - a s im p u r a s . Listas respectivas arrolam e n tre tais profissões a do carreteiro, lojista, c u rtid o r de peles, te ce lã o e o u tra s (70), não sen d o uniform es os ju íz o s da época, todavia. Em to d o s os casos, porém , os piedosos, e com eles am plos segm entos do povo, conden avam aquelas atividades q u e o b via m e n te só podiam ser e xe rcid a s p o r charlatõe s e g e n te desonesta, ou seja, as do jo g a d o r de dados, usurário, o rg a n iza d o r de c o n c u rs o de pom bos, m e rc a d o r de p ro d u to s do ano sabático, pastor, c o le to r de im postos e p u b lic a n o s (71). Eram vistos tais pessoas co m o e sta n d o no m esm o nível co m o adúlteros, prostitutas, ladrões, Com to d o s eles o p ie d o so se recusava a te r co m u n h ã o de mesa. D istanciava-se deles h o rro riz a d o e, todavia, com algum o rg u lh o , co m o o te stifica m as palavras do fariseu em Lc 18.11 ss, dizendo: “ Ó Deus, g raças te do u p o rq u e não sou co m o os dem ais hom ens, roubado res, in ju sto s e a dúltero s, nem ainda co m o este p u b lic a n o ” . C onsidera -se elite o fariseu, m uito d ista n te da massa p e ca d o ra e d a g ente com um .
É d ig n o de registro, aliás, q u e os piedoso s no te m p o de Jesus não pertencia m nem à classe po b re nem à rica, mas sim à classe m édia baixa. Exerciam predom in a n te m e n te as profissões de pequenos com e rcia n te s, artesãos ou cam ponese s (72). Isto não é m ero acaso. P obreza sig n ifica va um grave im pedim en to para a rig o ro sa o b se rva çã o da lei pelos m otivos acim a indicad os. D ificu lta va, p o r exem plo, o p ro n to pagam en to d o s dízim os. Inversam ente, porém , é verdade tam bém q u e a o b se rva çã o da lei entravava o
c o m o e x istia m ta m b é m n o m u n d o h e le n ístic o . N ão se ria m eles, p o rta n to , n e m g ra n d e s e m p re sá rio s nem h u m ild e s e m p re g a d o s, m a s g e n te a u tô n o m a co m a p re c iá v e l p a d rã o d e vida, p e rte n c e n te à c la sse m é d ia e lev ad a. N ã o h á n e c e ssid a d e de d isc u tir a q u e stã o , p o is m esm o que se tra te de e m p re g a d o s, n ã o e ra m p o b re s o s p u b lic a n o s d o N o v o T e sta m e n to . P o ssu íam su fic ie n tes p o ssib ilid ad es d e e n g o r d a r s u a re n d a m e d ia n te a fra u d e - caso c o n trá rio seria sem fu n d a m e n to a a c u s a ç ã o g e ra l q ue se le v a n ta v a c o n tra eles. S o b re o a ss u n to v e ja ta m b é m a e x c e le n te c o n trib u iç ã o d e O. M ichel: a rt. “te ló n e s ” In: T h W V III, p. 88 ss.
(70) J. Jerem ias: Z ö lln e r un d S ü n d er, in: Z N W 30, 1931, p. 29 ss; idem : J e ru sa lé m , p. 404.
(71) Q uem p ra tic a ss e u m a d e ssa s p rofissões, “p e rd ia os d ire ito s civ is e p o lític o s ”. J. Jerem ias: Je ru sa lé m , p. 412 s. O s p a sto res, aliás, e ra m a c u s a d o s de d e sp re z a re m a p ro p ried a d e alh eia na b u s c a de p a sta g e m p a r a os s eu s reb an h o s. J. Je re m ia s: a rt. “p o im é n ” , in: T h W VI, p 487 ss. (72) J. Jerem ias: Je ru sa lé m , p.349 ss; 358 ss; cf ta m b é m M. D ibelius: o p.cit. p.61 s.
excessivo a cú m u lo de bens. De q u a lq u e r m aneira, os fariseus, em term os d e h ie ra rq u ia social, viam os p e ca d o re s acim a de si, nos rico s roubado res, e aba ixo de si, nos pobres ignoran tes.
3. Os impuros
Na c o n c e p ç ã o do a n tig o Israel não só o pecado, tam bém a im pureza separava d e Deus. O punha m -se na realidad e experim ental do israelita as duas esferas do s a c ro e do p rofano, do puro e do im puro, do d ivin o e do anti-divin o. O “ im p u ro era a fo rm a mais e lem entar so b a qual Israel pe rce b ia o que era abom inável a Ja vé ’ ’ (73). Em o u tro s term os, im pureza era vista co m o a q u a lid a d e das coisas qu e seriam detestadas p o r Deus, in co m p a tíve is com a sua santidade, um h o rro r a seus olhos. Era c o n c e b id a co m o algo quase substancial, a d e re n te o u ine re n te a o b je to s e pessoas, altam ente con ta g io so . B astaria o sim ples c o n ta to para se contam ina r, razão pela qual o israelita devia usar de m uitos c u id a d o s e, em ca so de co n ta m in a çã o , su je ita r-se a ritos de p urificação .
T rata-se da assim cham ada im pureza cultual, ritual ou levítica
(74): Mesmo sendo algo externo, d e s tru iria a relação com Deus, in ca p a cita ria para a p a rtic ip a ç ã o no culto, e x clu iria a pessoa da com unidade. Era vista co m o um poder, c o n tra o qual seria necessá rio reagir, m antendo -o à distância. Im puros eram m orm ente os cadáveres e tu d o o qu e dizia respeito à m orte (c f Nm 9.6; 19.11; Lv 11.24 ss), os ídolos e o q u e com seu c u lto tin h a relação (Jr 7.30; Ez 20.7; 22.3; etc.), im puros eram ce rto s anim ais (Lv 11; Dt 14.7 ss), c e rto s g ru p o s de pessoas, com o as acom etida s de d o ença grave a exem plo da lepra (Lv 13; e tc.) e outras.
D e ta lh a n d o e e s p e c ific a n d o a lei vé te ro -te sta m e n tá ria , fazendo-a ainda mais co m p le xa (75), o ju d a ísm o do prim eiro século m ostra um g ra n d e afã p o r um a vida em pureza. Mas novam ente se deve d istin g u ir: Há os im p u ro s ocasionais, cu ja co n ta m in a çã o seria passageira, e o u tro s qu e se e n co n tra ria m em perm anen te estado de im pureza. Em prin cíp io , ninguém estava p ro te g id o do c o n ta to com o im puro, poden do co n ta m in a rse p o r a cid e n te o u fo rç a das circ u n s
-(73) G.v. R ad: T eo lo g ia d o A n tig o T e s ta m e n to , Vol I, p.273. M ais so b re o a ss u n to , ibd. p.266 ss; F H a u c k /R . M eyer: art. “k a th a r ó s ”, T h W III, p. 419 ss; R .R en d to rffrart. R ein u n d U n rein , II, Im A T, RGG, 39 ed, Vol V, col. 942 s.
(74) D ela se d is tin g u e a im p u rez a , re s p e c tiv a m e n te p u re z a é tic a o u m oral. V ide abaixo.
(75) H .G .L in k /J. S c h a tte m a n n : a rt. “P u ro ”, in: D icio n á rio In te rn a c io n a l d e T eo lo g ia d o N ovo T e s ta m e n to , S ã o P au lo , 1983, Vol III, p. 788. P r o n u n c ia m e n to s ra b ín ic o s so b re a im p u re z a em P. B ülerbeck: op. cit. Vol I, p. 719 s.
tâncias (76). Nem m esm o o su m o -sa ce rd o te possuía im unidade. Por isto os fariseus lavavam as m ãos antes de com er. Queriam p u rifica r- se de algum a c o n ta m in a çã o leve, in c o n s c ie n te (cf. Mc 7.3 s). Os rito s de p u rific a ç ã o eram m uitos, havendo reg u la m e n ta çã o e sp e cífi ca para os d ife re n te s casos.
Bem mais d ifícil era a s itu a çã o dos c o n s id e ra d o s em perm a nente estado de im pureza. Nestes casos ju lg a va -se in s u fic ie n te o sim ples rito. E m bora se fizesse d is tin ç ã o e n tre vários graus de im pureza, respectivam en te os com m ancha leve e grave, algo de fun d a m e n ta l deveria a c o n te c e r para in te g ra r tais pessoas na c o m u nidade. Eram c o n ta d o s aos im puros em p rim e iro lu g a r os pagãos (77). Seriam não s ó pecadores, co m o tam bém im puros. Por esta razão, os que levam Jesus a P ilatos se negam a pisar o p re tó rio . Teria s ig n ifica d o co n ta m in a çã o e im pe d im e n to para co m e r a pás coa. Pois P ilatos é pessoa im pura (Jo 18.28). Im puros são, co m o já frisam os, ce rto s g ru p o s de doentes. M ediante re c u rs o a 2 Sm 5.8 vetava-se o acesso ao tem plo a cegos e co xo s (78). E specialm ente devem ser m enciona dos, neste co n te xto , além de leprosos, os e ndem oninhados, possessos de “ e sp írito im u n d o ’’ (79). É sin to m á ti c o q u e o e n d e m o n in h a d o gera se n o vivia nos s e p u lc ro s (Mc 5.1 ss), lugar im puro p o r excelência. D em ônios p o r n a tu re za são im undos e fazem im puro a quem p o r eles estiver possuído. Os piedosos, além disto, considera vam im p u ro o “ am -ha-arez’ ’. Já o c o n ta to com as vestes dessa g e n te resultaria em co n ta m in a çã o (80). No en te n d e r dos piedosos não p o d ia ser d iferente , visto q u e o “ a m -ha-arez” não cu m p ria as leis referentes à p u rific a ç ã o co m o as ditava a “ to rá
Decidia, enfim , s o b re o e stado de pureza tam bém a d e sce n dência, d ivid in d o a so cie d a d e ju d a ic a em três g ru p o s: a) “ as fam ílias de origem legítim a: sacerdotes, levitas e israelitas com to d o s os dire ito s de c id a d a n ia ” , b) “ as fam ílias de origem ilegítim a, atingid as som ente p o r um a m a n ch a le v e ” e c ) “ as fam ílias de origem ilegítim a lesadas p o r m ancha g ra v e ” (81). Para ser israelita em sen tid o pleno, pois, era necessário p o d e r apre se n ta r uma g e n e a lo g ia que d e m o n s
(76) C o n sid e ra v a m -se c o n ta m in a n te s d e te rm in a d o s p ro c e sso s sex u a is in e v itá v e is c o m o m e n s tru a ção, e ja c u la ç ã o o u p a rto . H a v ia o casiõ es, c o m o p o r e x em p lo o e n te rro , em q u e era fo rço so a p e ss o a to rn a r-se im p u ra. P o r ta n to , im p u re z a n e m sem p re é re s u lta d o de culpa.
(77) F .H a u c k /R . M eyer; op. cit. p. 423.
(78) V eja W . G ru n d m a n n : D as E v a n g e liu m n a c h M a tth ä u s , p. 451. É ta m b é m in te re s s a n te o b s e rv a r q u e a c o m u n id a d e d e Q u m ra n e x c lu ía as p e sso a s c o m d e fe ito s físicos. N ã o c o rre s p o n d ia m a se u ideal d e p u reza.
(79) F. H a u c k /R . M eyer: op. cit. p. 431.
(80) Ibd. p. 423; P. B illerbeck: op. cit. Vol II, p. 498 ss. (81) J. Jerem ias: J e ru sa lé m n o tem p o de Jesu s, p. 364.