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JGB/ABM 191, 287, 293].

No documento A arte na filosofia madura de Nietzsche (páginas 175-192)

78 ―Um Classiker zu sein, muss man

JGB/ABM 191, 287, 293].

O tipo que figura em oposição ao da valoração nobre é rotulado por vezes de escravo, por outras, animal de rebanho ou, ainda, de ressentido. Segundo Nietzsche, este é o tipo que constitui a grande maioria da humanidade, desde a pré-história e até os seus dias. Com isso, entra-se diretamente no domínio da exegese crítica nietzscheana sobre moral e religião, termos que em várias instâncias funcionam para ele como sinônimos:

―A fórmula geral que se encontra na base de toda moral e religião é: 'Faça isso e aquilo, não faça isso e aquilo —assim será feliz! Caso contrário...'. Toda moral, toda religião é esse imperativo —eu o denomino o grande pecado original da razão, a desrazão imortal. Em minha boca essa fórmula se converte no seu oposto —primeiro exemplo de minha 'revaloração de todos os valores': um ser que vingou, um 'feliz', tem de realizar certas ações e receia instintivamente outras, ele carrega a ordem que representa fisiologicamente para suas relações com as pessoas e as coisas. Numa fórmula: sua virtude é o efeito de sua felicidade...‖ [GD/CI VI 210 (p. 40 tr. br.)].

O texto remete à associação entre consciência moral e racionalidade; ou, sendo mais preciso, poder-se-á perceber que na revaloração de todos os valores proposta e almejada por Friedrich Nietzsche, o valor cuja re-valoração é mais crucial é, sem dúvida, o valor verdade: ―Não subestimemos isto: nós mesmos, nós, espíritos livres, já somos uma 'revaloração de todos os valores', uma encarnada declaração de guerra e vitória em relação a todos os velhos conceitos de 'verdadeiro' e 'não verdadeiro'‖ [AC/AC 1311 (p. 18 tr. br.)]. Isso se percebe da maneira mais

clara analisando a relação entre ciência e ascetismo, tal como se encontra na Terceira Dissertação de ―Para a genealogia da moral‖, que será estudada mais à frente, no seu momento adequado.

Nesse mesmo esteio encontra-se a questão sobre o valor da idéia de Deus: tanto o conceito de morte de Deus, o problema da contemporaneidade sem Deus, quanto a notória crítica nietzscheana do cristianismo como ideologia dos valores mais fracos, como

10 ―Die allgemeinste Formel, die jeder Religion und Moral zu Grunde liegt, heisst: „Thue das und das, lass das und das — so wirst du glücklich! Im andern Falle …“ Jede Moral, jede Religion ist dieser Imperativ, — ich nenne ihn die grosse Erbsünde der Vernunft, die unsterbliche Unvernunft. In meinem Munde verwandelt sich jene Formel in ihre Umkehrung — erstes Beispiel meiner „Umwerthung aller Werthe“: ein wohlgerathener Mensch, ein „Glücklicher“,

muss gewisse Handlungen thun und scheut sich instinktiv vor anderen Handlungen, er trägt die Ordnung, die er

physiologisch darstellt, in seine Beziehungen zu Menschen und Dingen hinein. In Formel: seine Tugend ist die Folge seines Glücks …‖ [KGW VI.3, p. 83/KSA 6, p. 89].

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―Unterschätzen wir dies nicht: wir selbst, wir freien Geister, sind bereits eine „Umwerthung aller Werthe“, eine leibhafte Kriegs- und Siegs-Erklärung an alle alten Begriffe von „wahr“ und „unwahr“‖ [KGW VI.3, p. 177/KSA 6, p. 179].

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instituição histórica da doença do ressentimento, característica do tipo escravo, não-nobre. Essa crítica se desdobra em hipóteses várias: desde sobre o nascimento da figura divina, na mais recuada pré-história, passando pela criação, pregação e dominação do monoteísmo judaico-cristão e seus valores, e chegando até à Reforma (nomeadamente, a luterana) e suas conseqüências. De toda essa gama de caminhos percorridos pelo pensamento de Nietzsche, importa, para os interesses do presente trabalho, sobretudo compreender e destacar dois pontos-chave: as diferenças entre valoração nobre e não-nobre, e a função da arte na crítica aos ideais ascéticos, representados pelo cristianismo. Minha leitura desses pontos se mostra ao longo das seções deste capítulo.

A possibilidade de uma valoração inédita, ou de uma re-valoração de todos os valores, é apontada por Nietzsche pelo menos desde a epígrafe de seu livro ―Aurora‖, publicado em 1881. Sete anos mais tarde, o autor confirma a idéia, nos seguintes termos:

―Onde busca o seu criador aquela nova manhã, aquele delicado e até aqui desconhecido rubor com que um novo dia —ah, toda uma sucessão, todo um mundo novo de dias!— romperá? Em uma revaloração de todos os valores, em um desprender-se de todos os valores morais, em um confiar e dizer Sim a tudo o que até agora foi proibido, desprezado, maldito‖ [EH/EH III ―Aurora‖ 112

(p. 79 tr. br. - tr. alt.)]. Falta dizer o porquê disso, ou seja: demonstrar que além de possível o seu projeto é necessário. Pois, com efeito, segundo esse autor uma nova revaloração de todos os valores é algo necessário: tanto no sentido de ser altamente desejável como até, tem-se a impressão em alguns momentos, de ser algo inescapável, que mais cedo ou mais tarde terá que ocorrer [cf.

e.g. N.F. Herbst 1887, 9[77]]. Para tanto, tem ele primeiro de explicar contra o quê polemiza e

se opõe, ou seja, mostrar qual é o status quo que demanda por mudanças, qual a escala de valores que precisa ser revalorada, e mesmo como ela veio a ser e se impor, como ela funciona, qual a sua necessidade intrínseca. Tudo isso Nietzsche faz, e o oferece principalmente em ―Para a genealogia da moral – Um escrito polêmico‖, com sua heurística dos valores morais, da consciência de culpa, e dos ideais cristão-ascéticos. Esse —o texto mais importante para as investigações pertinentes ao corrente capítulo de minha Tese— é um dos livros nietzscheanos que ―dizem Não‖, isto é: onde ele, através de uma análise crítica de elementos que crê devam ser superados, instaura um espaço negativo, no qual se insere a necessidade de um outro estado de coisas, o qual é indicado, preferencialmente, em seus livros ―que dizem Sim‖. ―Sobretudo faltava um contra-ideal —até Zaratustra. Fui compreendido. Três

12 ―Wo sucht sein Urheber jenen neuen Morgen, jenes bisher noch unentdeckte zarte Roth, mit dem wieder ein Tag — ah, eine ganze Reihe, eine ganze Welt neuer Tage! — anhebt? In einer Umwerthung aller Werthe, in einem Loskommen von allen Moralwerthen, in einem Jasagen und Vertrauen-haben zu Alledem, was bisher verboten, verachtet, verflucht worden ist‖ [KGW VI.3, p. 327/KSA 6, p. 329].

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decisivos trabalhos de um psicólogo, preliminares a uma revaloração de todos os valores‖ [EH/EH III ―Para a genealogia da moral‖13 (p. 98 tr. br.)].

Além dos conceitos de ressentimento e ascetismo, distintivos do plano genealógico nietzscheano, a necessidade da revaloração dos valores (nomeadamente, dos modernos) é estabelecida com os conceitos de niilismo e decadência. Como já foi dito no primeiro capítulo, da maneira mais geral niilismo é, segundo Nietzsche, a desvalorização dos valores mais elevados vigentes, que cria a oportunidade e a necessidade de uma nova valoração. Decadência, por sua vez, significa principalmente decadência fisiológica: uma indigência dos impulsos, uma desarticulação do organismo, uma vontade fraca, que abre mão de seu caráter tônico (interpretativo-criativo) e se vê sem metas —e que, neste sentido, pode ser dita niilista, i.e., que ruma para o nada—. Ambos conceitos ainda pedem por maiores esclarecimentos, os quais busco neste capítulo. Se os textos de Nietzsche não efetuam, ou nem mesmo autorizam que se trace uma causalidade direta entre decadência e niilismo, vejo que entre ambas as idéias há ao menos uma relação de paralelismo, na qual uma corresponde à faceta histórico-valorativa (niilismo), e a outra à psico-biológica (decadência) do mesmo processo —processo, aliás, que pode ser reportado à teoria da vontade de poder, que funciona como um traço de união entre as duas esferas—. Assim, a relação entre niilismo, decadência, e revaloração de todos os valores se mostrará como algo semelhante ao seguinte esquema:

valores sem valor = (falta de meta para a vontade =) niilismo → revaloração decadência = desagregação da vontade (= niilismo) → revaloração.

Quanto à arte, finalmente, uma questão pertinente a este contexto pode ser já aproveitada. Em relação à noção de estilo do velho Nietzsche, sua teoria da valoração permite traçar um ilustrativo encadeamento —lembrando que o estilo é tomado como um instrumento hermenêutico para os valores por trás da obra, para o tipo de vida e de valoração que ela representa—. Ora: se o estilo é considerado por Nietzsche um indicativo das pulsões em jogo num determinado processo de criação-expressão, é porque esse processo não pode se dar sem certas escolhas; e essas escolhas pressupõem avaliações, mesmo que instintivas, inconscientes (aliás, precisamente por esse caso a criação artística é, segundo o filósofo, um sintoma mais eloqüente e confiável: advinda diretamente do estado estético, ela se desenvolve(ria) anteriormente à reflexão e à moral). Portanto: se não há estilo, não há escolha; se não há escolha, não há hierarquia; se não há hierarquia, não há valoração; se não há valoração, não há sentido para a vontade; se não há sentido para a vontade, tem-se o niilismo.

13 ―Vor allem fehlte ein Gegen-Ideal — bis auf Zarathustra. — Man hat mich verstanden. Drei entscheidende Vorarbeiten eines Psychologen für eine Umwerthung aller Werthe‖ [KGW VI.3, p. 351/KSA 6, p. 353].

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Eis aí um percurso amplo e relevante, e que de uma certa forma caracteriza todo o problema da revaloração de todos os valores. Para o mesmo percurso, a proposta nietzscheana se apresenta como conclusão alternativa:

Não = niilismo estilo → escolha → hierarquia → valoração → (sentido para a) vontade ┤

Sim = Dioniso

O caminho do niilismo é o que ―diz Não‖, tendo no caminho dionisíaco sua possível contrapartida positiva, tal como quer Nietzsche.

Destarte, estão apresentados os elementos constituintes da auto-proposta tarefa da filosofia madura deste filósofo. A rigor, ela permaneceu irrealizada: a maior parte das ocorrências da idéia de Umwertung aller Werter nos textos publicados por Nietzsche já foram citadas nesta breve introdução. Nelas, a tarefa é tratada de maneira principalmente externa, ou seja: Nietzsche trata dela como algo ainda a ser realizado, e realizado alhures, mencionando-a como uma possibilidade ou meta possível, ou mesmo necessária, mas sem dar maiores detalhes de seus contornos internos, ou do mecanismo de sua suposta efetividade. Apenas em 1888, em alguns trechos de ―Ecce homo‖ e ―O anticristo‖, ele vai além e se expressa como se a revaloração que projetara já houvesse sido executada, e isso em sua própria filosofia madura: ―Revaloração de todos os valores: eis a minha fórmula para um ato de suprema auto-gnose da humanidade, que em mim se fez gênio e carne‖ [EH/EH IV 114 (p. 109 tr. br.)]. A propósito: é

em razão desse tipo de evidência, e em respeito à significativa coerência interna que verifico em grande parte do pensamento maduro de Nietzsche, que não posso compactuar com a afirmação de Walter Kaufmann, segundo a qual o projeto nietzscheano de revaloração sempre se quis e se realizou apenas enquanto tarefa negativa, como ―guerra às valorações prevalentes‖[cf. KAUFMANN, 1974, p. 92-97]. Isto não condiz com a notável mudança no teor das declarações de Nietzsche acerca de sua ―tarefa‖ e, o que é mais importante, não faz justiça às hipóteses e sugestões de revaloração positiva que ele oferece: o espírito livre no lugar do dogmático, a gaia ciência no lugar da seriedade ascética para com a verdade, o além-do- homem no lugar do último homem, a vontade de poder no lugar da metafísica, a genealogia no lugar da historiografia ingênua, o nobre-guerreiro no lugar do ressentido-decadente, a criatividade ―artística‖ no lugar da reatividade asceta, o (segundo) Dioniso no lugar do ―Crucificado‖ (i.e. da revaloração paulina). E, ademais, para Nietzsche ―nossos novos filósofos dirão, porém: críticos são instrumentos dos filósofos, e por isso, por serem instrumentos, estão

14 ―Umwerthung aller Werthe: das ist meine Formel für einen Akt höchster Selbstbesinnung der Menschheit, der in mir Fleisch und Genie geworden ist‖ [KGW VI.3, p. 363/KSA 6, p. 365].

172 longe de ser filósofos!‖ [JGB/ABM 21015

(p. 117 tr. br.)]: o que ao menos leva a crer que seu espírito filosófico não se contentaria em ser apenas e tão-somente negativo: lembre-se ainda, afinal, que seu Zaratustra seria o maior afirmador de si e da vida [v. EH/EH III ―Assim falou Zaratustra‖ 6].

Talvez um pouco mais de luz sobre essas questões possa ser obtida recorrendo aos textos não-publicados. A primeira ocorrência da expressão (Umwertung aller

Werter) data do verão de 1884, quer dizer, entre a conclusão de ―Assim falou Zaratustra‖ e a

publicação de ―Para além de bem e mal‖. Essa primeira ocorrência, assim como a quase totalidade das outras, não é um texto acabado, nem mesmo um esboço de aforismo. O projeto de revaloração de todos os valores aparece quase que exclusivamente nessa forma, ou seja, enquanto projeto: em anotações de títulos e planos para obras futuras. Constam 16 diferentes versões do projeto, datando desde 1884 até o ocaso de Nietzsche, em janeiro de 1889. Na maioria dessas ocorrências, o conceito-projeto de revaloração de todos os valores é ligado à idéia de vontade de poder: em algumas, a revaloração é subsunta à vontade de poder, enquanto que em outras a relação é invertida; apenas em quatro delas (de novembro de 1887 a outubro de 1888) a Wille zur Macht é omitida do plano. Pois bem: o que concluir deste levantamento? Primeiro, que o caráter negativo da tarefa nietzscheana se mostra mais estabelecido e evidente que o seu aspecto positivo (o que não invalida as indicações deste último: apenas, torna mais exigente o trabalho de apurá-las). Segundo, que sem recorrer à vontade de poder o discursar sobre a revaloração de todos os valores ficaria muito limitado, talvez até o ponto da imobilidade. Ambas constatações se refletem no desenvolvimento dos pontos indicados nesta introdução, tal qual se segue nas próximas páginas.

Para encerrar esta introdução, discorro brevemente sobre aquilo que Nietzsche entende ser sua ―tarefa‖ enquanto pensador, e sobre o porquê de isto poder, em última instância, ser equiparado ao seu projeto de revaloração de todos os valores.

Já em ―Aurora‖, encontra-se uma passagem que mostra o projeto sob forma genérica, embrionária, mas já refletindo todos os elementos anteriormente discutidos: ―Construir novamente as leis da vida e do agir para essa tarefa nossas ciências da fisiologia, da medicina, da sociedade e da solidão não se acham ainda suficientemente seguras de si: e somente delas podemos extrair as pedras fundamentais para novos ideais (se não os próprios

15 ―unsre neuen Philosophen werden trotzdem sagen: Kritiker sind Werkzeuge des Philosophen und eben darum, als Werkzeuge, noch lange nicht selbst Philosophen!‖ [KGW VI.2, p. 148/KSA 5, p.144].

173 ideais mesmos)‖ [M/A 45316

(p. 234 tr. br.)]. Primeiramente, o trecho ecoa o conceito nietzscheano de idealização, tal como aparece depois, em ―Para a genealogia da moral‖; de um golpe, refere-se ao problema da valoração e ao dos impulsos, pois ambos são, cada qual em seu nível, as bases das ―leis da vida e do agir‖; adianta também o caráter preparatório e multidisciplinar de tal tarefa, tal como a revaloração também é caracterizada posteriormente; e conclui, por fim, sobre a necessidade de novos ideais, necessidade que se encontra tanto na raiz do niilismo como na da revaloração. Em ―Para além de bem e mal‖, a tarefa da idealização- revaloração é destacada como tarefa para os verdadeiros, autênticos filósofos (ainda por vir), e nesse plano e sentido tem suas condições de possibilidade descritas [cf. JGB/ABM 211 e 212]. Num dos prefácios escritos em 1886 para seus primeiros livros, Nietzsche condiciona a escalada do espírito livre à descoberta de sua tarefa-destino pessoal, e destaca tal descoberta como o elemento decisivo de sua emancipação e superioridade [v. MA/HH Prefácio 7]. No livro que publica a seguir, ele abre novamente o escopo de sua exortação, e declara explicitamente que ―Todas as ciências devem doravante preparar o caminho para a tarefa futura do filósofo, sendo esta tarefa assim compreendida: o filósofo deve resolver o problema do valor, deve determinar a hierarquia dos valores‖ [GM/GM I 17 - Nota do autor17 (p. 46 tr. br.)]. Deste

modo, e neste ponto, fica patente a equivalência daquilo que chama de revaloração de todos os valores com a tarefa da filosofia, tal qual ele a interpreta e pratica. Finalmente, o maior número de indicações a respeito dessa distintiva tarefa é oferecido no derradeiro livro de Nietzsche, ―Ecce homo‖. Nele encontra-se expressões de exacerbado tom sobre a importância do projeto nietzscheano para a humanidade, mas que mesmo assim são úteis, na medida em que o associam à crítica ao idealismo metafísico [EH/EH II 2] e à décadence [EH/EH III ―Aurora‖ 2], e com o problema da meta para o homem, da necessidade de um objetivo para a vontade que seja alternativo ao ascetismo-niilismo [EH/EH II 9 e III ―O caso Wagner‖ 2], bem como, ainda, ao conceito de criação, à noção madura de Dioniso, e até ao eterno retorno [EH/EH III ―Assim falou Zaratustra‖ 6 e 8]. De maneira auto-referenciada e auto-esclarecedora, Nietzsche associa sua tarefa ao mote autobiográfico determinante desse livro, qual seja: a busca por estabelecer critérios para a autenticidade pessoal, para aferir como alguém pode se tornar aquilo que verdadeiramente é, encontrando seu fim e razão últimos.

16 ―Die Gesetze des Lebens und Handelns neu aufbauen, — zu dieser Aufgabe sind unsere Wissenschaften der Physiologie, Medicin, Gesellschafts- und Einsamkeitslehre ihrer selbst noch nicht sicher genug: und nur aus ihnen kann man die Grundsteine für neue Ideale (wenn auch nicht die neuen Ideale selber) entnehmen‖ [KGW V.1, p.

278/KSA 3, p. 274]. 17

―Alle Wissenschaften haben nunmehr der Zukunfts-Aufgabe des Philosophen vorzuarbeiten: diese Aufgabe dahin

verstanden, dass der Philosoph das Problem vom Werthe zu lösen hat, dass er die Rangordnung der Werthe zu bestimmen hat‖ [KGW V.2, p. 303/KSA 5, p. 289].

174

―Entretanto segue crescendo na profundeza a ‗idéia‘ organizadora, a destinada a dominar ela começa a dar ordens, lentamente conduz de volta dos desvios e vias secundárias, prepara qualidades e capacidades isoladas que um dia se mostrarão indispensáveis ao todo. Constrói uma após outra as faculdades auxiliares, antes de revelar algo sobre a tarefa dominante, sobre ‗fim‘, ‗meta‘, ‗sentido‘‖ [EH/EH II 918

(p. 48-49 tr. br.)].

Entendo que nenhuma outra idéia exprimida na obra de Nietzsche se habilita melhor a um tão abrangente e decisivo papel, senão a revaloração de todos os valores, concebida como princípio reformador da cultura ocidental. Para tanto, os esforços de Nietzsche em conceitualizar a morte de Deus, o ressentimento e o ascetismo, a décadence e o niilismo, por um lado, e por outro lado o trágico-dionisíaco, a gaia ciência, a vontade de poder, o amor fati, o além-do-homem e o eterno retorno podem ser compreendidos, todos, como ensaios de sua revaloração: experimentos filosóficos que, cada qual em seu domínio e à sua maneira, visam formar um diagnóstico e uma propedêutica para a existência do homem na modernidade, procurando interpretá-la e, se possível, alterar seu curso, logrando promover um tipo humano inédito, mais nobre, mais poderoso, mais belo. Nesse sentido, à arte e aos artistas é atribuída (como já demonstrei, no capítulo anterior) uma contribuição que, embora singular e indispensável, é definitivamente secundária, funcionando como afluente para esta corrente principal.

Como primeiro tópico deste capítulo, volto à análise da idéia de vontade de poder, especificamente a uma diferenciação tipológica básica que já fora mencionada no primeiro capítulo: entre afirmação e negação da vontade de poder. A polarização positiva/negativa (ou afirmadora/negadora) se revela e se desdobra em várias instâncias do pensamento nietzscheano: tanto na sua teoria da vontade de poder, quanto na sua teoria dos valores, como no registro psico-biológico do ressentimento, do ascetismo e da décadence. Passo agora à análise de cada um desses pontos.

No que tange à primeira instância, não me parece razoável falar de uma vontade de poder negativa, dada a própria definição básica dessa idéia, conforme já foi mostrado. Estritamente pensada, vontade de poder é ação; portanto, sempre afirmadora de si e, assim, sempre positiva. A vida não tem como negar-se absolutamente, diretamente, a si mesma. O que podem ser negativos são os valores, as crenças, as perspectivas desenvolvidas por um conjunto decadente de vontades de poder; tal conjunto, ou sua vontade dominante, é

18 ―Inzwischen wächst und wächst die organisirende, die zur Herrschaft berufne „Idee“ in der Tiefe, — sie beginnt zu befehlen, sie leitet langsam aus Nebenwegen und Abwegen zurück, sie bereitet einzelne Qualitäten und Tüchtigkeiten vor, die einmal als Mittel zum Ganzen sich unentbehrlich erweisen werden, — sie bildet der Reihe nach alle dienenden Vermögen aus, bevor sie irgend Etwas von der dominirenden Aufgabe, von „Ziel“, „Zweck“, „Sinn“ verlauten lässt‖ [KGW V.3, p. 292/KSA 6, p. 294].

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que pode negar a vida. Assim, a economia das pulsões apresenta, por assim dizer, um saldo negativo ou positivo: a soma das forças em crescimento ou em queda. De acordo com o caso, tem-se produtos de natureza positiva ou negativa. Consonantemente, o valor basal irredutível de toda valoração é afirmativo ou negativo, Sim ou Não.

A vontade de poder é um princípio tanto interpretativo quanto avaliador: tanto a apropriação perspectiva quanto a valoração pressupõem a avaliação. Em ambas as atividades, a vontade de poder é sempre uma força positiva, seletiva e hierarquizante —e, dessa forma, ―estetizante‖—. Entendo que é com tudo isso em mente que Nietzsche escreve,

No documento A arte na filosofia madura de Nietzsche (páginas 175-192)

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