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Com o delineamento desse quadro inicial da pluralidade de formas e de públicos a alcançar, assim como de conteúdos das cartilhas, passamos a ter uma percepção mais clara de que o processo pedagógico visava à intermediação de um certo capital simbólico de seus autores com linguagens e valores que eles julgavam encontrar no público de destino. Noutras palavras, o Momento Constituinte foi cenário de passagem de uma cultura política de sujeição para uma de participação e as cartilhas do MPPC um esforço, acionando mensagens comoventes que remetiam a tradições de luta política para reconfigurar a noção de cidadania. Assim, se o campo do direito tem um papel determinante na reprodução social porque se compõe de normas com caráter performativo e, em certa medida, situa-se na interdependência de estruturas sociais postas e o limite do que é pensável politicamente, de outro lado388:

dispõe de uma autonomia menor do que certos campos que, como o campo artístico ou literário ou mesmo o campo científico, contribuem também para a manutenção da ordem simbólica e, deste modo, para a manutenção da ordem social. Quer isto dizer que as mudanças externas nele se retraduzem mais directamente e que os conflitos internos nele são mais directamente resolvidos pelas forças externas389.

Nesse sentido, o MPPC foi uma dessas forças e as cartilhas uma de suas ferramentas. No entanto, usualmente tais câmbios no plano jurídico/normativo se davam por meio de interlocutores e atores sociais ligados aos grupos das elites econômicas, parlamentares e, é claro, dos próprios juristas. Porém, o que se viu entre 1985 e 1988 foi o estabelecimento de pedagogias políticas efetivas a transformarem esse quadro. As cartilhas atuaram como porta-vozes do MPPC, buscando produzir

388 “(…)o campo do direito é o lugar de concorrência pelo monopólio do direito de dizer o direito, quer dizer, a boa distribuição (nomos) ou a boa ordem, na qual se defrontam agentes investidos de competência ao mesmo tempo social e técnica que consiste essencialmente na capacidade reconhecida de interpretar (de maneira mais ou menos livre ou autorizada) um corpus de textos que consagram a visão legítima, justa, do mundo social. É com esta condição que se podem dar as razões quer da autonomia relativa do direito, quer do efeito propriamente simbólico do desconhecimento, que resulta da ilusão da sua autonomia absoluta em relação às pressões externas” BOURDIEU, Pierre. A força do direito. Elementos para uma sociologia do campo jurídico. In:_____. O poder simbólico. 5 ed.

Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002, p. 212. Vide também: BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. 2 ed. Porto Alegre: Zouk, 2013, p. 429.

389 BOURDIEU, Pierre. A força..., p. 251.

narrativas acessíveis aos seus públicos na gestão de paixões políticas, pela participação num processo de decodificação e recodificação. Procuravam decodificar o universo das normas jurídicas e das questões institucionais numa estratégia de produzir mensagens pertencentes aos referentes culturais do seu público leitor ou que achavam que ele teria. Visaram tornar compreensíveis, interessantes e familiares elementos que outrora estavam no plano institucional, como a produção de leis, as comissões legislativas etc.; uma das estratégias a que recorreram nessa intermediação cultural foi o uso de metáforas.

A tal decodificação do hermético mundo de leis e formas jurídicas, segue-se, em algumas cartilhas, a sugestão de recodificação, como vimos na cartilha A CONSTITUINTE DA ROÇA: seu objetivo final era a produção de um texto com propostas concretas à ANC, tal como uma Constituinte paralela à institucional. O mesmo ocorreu com as emendas populares em que o MPPC, em sua pluralidade de integrantes, utilizou advogados e juristas para buscar transformar os “anseios dos grupos mobilizados” em propostas de emendas populares, levantando nesse procedimento 12 milhões de assinaturas em uma ampla rede de mobilização390. Esse constante processo de decodificação e recodificação remete a uma disputa por “dizer o direito”, poder criar as coisas nomeadas, afinal, como diz Bourdieu “codificar é ao mesmo tempo colocar em forma e colocar as formas”391, sem dúvida a preocupação era escolher que leis deveriam fazer, criando novas formas sociais, novos direitos.

A CARTILHA DA CONSTITUINTE estruturou sua pedagogia por meio de mensagens sobre a urgência da necessidade de participação, pois o Momento Constituinte seria um ponto de inflexão entre uma sociedade desigual e a possibilidade de conjugar a saída dos militares com a melhoria das condições de vida da população em geral.

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A CARTILHA DA CONSTITUINTE procurou aproximar o conteúdo frio da participação em busca de leis via expressões mais cotidianas e concretas dos seus públicos de destino optando pela metáfora do barco. Para seus autores,

390 WHITAKER, Francisco; et al. Op. cit., p. 104.

391 BOURDIEU, Pierre. Habitus, code et codification. Actes de La Recherche em Sciences Sociales, n. 64, p. 40-44, set. 1986. p. 3.

o Brasil é como um barco. Quem leva o barco são os remadores. Sem a força dos remadores, dos trabalhadores, o barco não chega a lugar nenhum.

Acontece que quem está segurando o leme, definindo os rumos, decidindo para onde o barco vai não são os trabalhadores ... De repente, todo mundo começa a falar que assim não dá mais, que é preciso mudar o rumo das coisas, e que o jeito é escrever uma nova lei que garanta que as coisas melhorem. Uma nova constituição. Mas está faltando trabalhador neste papo, pois é ele quem sabe onde lhe apertam os calos. Afinal, será que a gente deve só continuar remando?392

Figura 16: A cartilha da Constituinte, p. 10-11.

A cartilha que nos severe de eixo toma a Constituinte como uma espécie de carta de navegação que nos ajudaria a compreender os “rumos” para onde queremos ir, mas ressalta: “na Constituição se refletem os interesses das várias classes existentes no país. Quanto mais forte e organizada por uma classe, mais influência ela terá na Constituição”; portanto, nessa sua mobilização, “se for preciso parar o barco para não sermos roubados em nossos direitos, vamos tirar os remos da água”

393. A alusão ao barco, a travessia, à força de trabalho, são elementos de fácil transmissão e de significação concreta. Podem ser vistos como instrumentos de intermediação a dar concretude ao processo constituinte. Buscam conotar o tomar o destino, o curso do barco, para efetuar uma travessia, a carta de navegação e a Carta Constituinte se confundiam.

Vimos essa metáfora do barco presente noutras cartilhas, tal como a cartilha do MST, A CONSTITUINTE INTERESSA AOS TRABALHADORES RURAIS?, em que se faz alusão de que a nação é como um grande barco em que partilhamos do mesmo destino, porém “quem rema nesse barco somos nós, os trabalhadores. O barco não

392 CPO-Comissão Pastoral Operária. Cartilha da Constituinte. Duque de Caxias, ago. 1985.

(82f.), p. 7.

393 Ibidem, p. 19; 38.

chegará a lugar algum sem a força dos trabalhadores”394. Nesse viés, o Momento Constituinte seria visto como um período de mudança, de “transição” da direção do barco em que “ocorreu uma certa confusão no leme, provocando um enfraquecimento temporário no poder, quem sai está meio desmoralizado, quem entra não teve tempo ainda de se firmar”395. Talvez seja exagerado, mas podemos pensar uma alusão ao clássico de Serguei Eisenstein, O Encouraçado Potenkin, e as lutas dos marinheiros, depois apoiados pelos cidadãos de Odessa, e, a seguir, pela própria frota396. De todo modo, seria esse, portanto, o momento de agir, tomar parte da direção para estabelecer novos rumos, e a analogia continua ao mencionarem que “assim como o barco precisa de uma carta geográfica para navegar o Brasil precisa de uma Constituição”397. Nela aparece um outro embate importante, se os trabalhadores rurais devem ou não participar da Constituinte. Eles fazem uma leitura didática, mas fina, sobre os grupos do período; vejamos, haveria: 1) a “turma do Tancredo” (Aliança Democrática) interessada em garantir o poder civil das forças burguesas; 2) a pequena burguesia radicalizada que “acha que a classe trabalhadora já tem poder para impor uma Constituinte como ela quer (...) por isso, não se preocupa em analisar e impulsionar formas reais de participação popular”; 3) aqueles a quem Constituinte é vista unicamente como poder para mobilização do povo, numa mera agitação tal como nas Diretas Já, sem se preocupar com o saldo político que possa ser conseguido disso e revertido para o movimento popular; 4) há aqueles que pensam também que “é ilusão pensar que uma Constituinte que não é controlada pelos trabalhadores tenha condições de impor mudanças importantes nas LEIS”, assim, pensar daquela maneira seria repetir o “erro oportunista de acreditar que a proximidade com o poder político resolve alguma coisa, mesmo quando a força popular não é suficiente para conquistá-lo”398. Ela se apresenta como um material de estudo que os trabalhadores rurais quereriam para discussão das lideranças de base não se apresentando como uma

“receita de certo e errado”. Isso reforça a oposição ao centralismo e a busca da base

394 MST – Secretaria Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A constituinte interessa aos trabalhadores rurais? São Paulo, abr. 1985. (25f.), p. 18.

395 MST – Secretaria Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A constituinte interessa aos trabalhadores rurais? São Paulo, abr. 1985. (25f.), p. 18.

396 O ENCOURAÇADO Potemkim. Direção: Serguei Eisenstein, Produção: Brian Shirey. URSS:

Goskino Mosfilm, 1925.

397 Ibidem, p.19.

398 Ibidem, p. 20-22.

para tomar as decisões. Também aponta para um provável dissenso entre os integrantes do grupo que confeccionou a cartilha sobre os caminhos a serem trilhados pelo MST no caso concreto399.

Outra metáfora que nos chama a atenção é a da formação das regras do jogo, tal como uma partida de futebol. Essa referência aparece de modo diverso em várias cartilhas, servindo até para distinguir imaginários sociais opostos. O Boletim n. 1, de criação do MPPC no Paraná, demanda a participação na Constituinte fundamentando seu argumento no receio sobre as pouco confiáveis elites parlamentares, se elas poderiam repetir tal jogo no processo de construção das novas leis do país

A Constituição de um país estabelece as “regras do jogo” na sociedade. E no Brasil as “regras do jogo” são frutos da ditadura. Assim ao contrário do futebol, onde a maioria da torcida aproveita, no Brasil cada vez mais a maioria joga e uns poucos aproveitam. Estão ai a pobreza e a miséria de um lado, a riqueza e a corrupção de outro”. (...) A tradição democrática diz que quem faz a Constituição é o povo. Como é impossível reunir todo o povo, delega-se a bandeira da Constituinte é hoje uma nova oportunidade de reencontro da Nação. É o momento do povo auto constituir-se depois de 20 anos de autoritarismo. De o povo escolher qual ordem política e que tipo de progresso econômico deseja. É como diz D. Mauro Morelli, talvez este seja o último momento para se empreender uma revolução não violenta no Brasil400

A metáfora futebolística remete à transliteração entre a linguagem popular e o hermético vocabulário jurídico. Nela podemos visualizar preliminarmente um certo receio, que deveria dar lugar à ação política de grupos que tomavam a representação um instrumento débil para o recente processo de democratização em curso.

A cartilha CONSTITUINTE: AS NOVAS REGRAS DO JOGO problematiza o mau “costume” das elites em pensarem que são as únicas legítimas para fazer as normas.

399 Ibidem, p. 21. Interessante observar que a cartilha, apesar de textualmente se opor à ideia de imposição, acaba por trazer algumas pistas do seu posicionamento quando menciona “não existe nenhum trabalhador rural no Congresso que decidirá como será a nova constituinte” em 1985?

400 MPPC – Movimento de Participação Popular na Constituinte. Boletim n. 1. [S.l.:s.n.], 1985.

p. 2.

Figura 17: Constituinte: as novas regras do jogo, p. 4-5.

À ilustração segue um texto:

você jogaria um jogo com regras feitas pelo adversário para que ele nunca perdesse? Pois foi isto que aconteceu conosco nestes anos todos: jogar um jogo em que a gente sempre perdia. Quando a gente ameaçava ganhar uma partida, o adversário mudava as regras. Chegou uma hora que já não dava mais para aguentar: a gente deu um basta. Fomos para as praças, nos vestimos de verde e amarelo, gritamos, aplaudimos, carregamos faixas e bandeiras, nos demos as mãos, caminhando e cantando pelas ruas. Foi como despertar de um pesadelo.

Alguma coisa mudou, não resta dúvida. Mas ainda falta muito: é que as regras daquele jogo, no fundo, continuam as mesmas. A coisa ficou pela metade.

Agora a tarefa é fazer novas regras para que o jogo possa ser jogado democraticamente. Senão, de que adiantou tudo o que a gente disse e fez?

Fazer novas regras não é fácil, aqueles que sempre ganhavam não se conformam em perder seus privilégios. Querem conservar as coisas o mais parecido possível com o que estão. Se a gente bobear, eles não só conseguem isso como são capazes de aumentar ainda mais suas vantagens.

A gente precisa abrir o olho. Temos de elaborar regras mais justas, mais democráticas, que garantam todas as liberdades a que temos direito. Regras que vão valer para todo mundo e que serão tanto melhores quanto maior for nossa participação401.

401 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE APOIO À PARTICIPAÇÃO POPULAR NA CONSTITUINTE.

Constituinte: as novas regras do jogo. Rio de Janeiro, jul. 1986. (24f.), p. 6-9.

Figura 18: Constituinte: as novas regras do jogo, p. 6 -7.

Participação é a palavra-chave para cidadania; insistem que ainda há muito o que se fazer, que mudança do governo é só uma parte, mesmo que miséria, desânimo, falta de vontade e apatia não resolvem nada,

pois é isso mesmo que os conservadores querem: que a gente se recolha ao nosso canto, fique assistindo nossa novela e deixe para eles a tarefa de resolver os grandes problemas nacionais, o difícil trabalho de elaborar as regras do jogo – coisa muito técnica, muito complexa, de especialistas, de homens doutos, de sábios .... como eles! Não vamos cair nessa outra vez.

Para defender nossos interesses, o único jeito é participar. E a hora é esta.402

A cartilha A LUTA FAZ A LEI: CARTILHA PARA DEBATER A CONSTITUINTE utiliza em sua história de quadrinhos uma alusão à noção de que a Constituinte é

“mais uma partida”, num perene campeonato entre patrões e empregados. Ressalva a importância da organização da preparação, mas lembra que o “outro time”, também fará suas jogadas e tem seus aliados, inclusive jogando fora das regras do jogo, como os juízes comprados. Chega a questionar se vale a pena entrar em campo com tais cartas marcadas, usando esse raciocínio para problematizar os limites na construção das normas e dos riscos de os trabalhadores se enveredarem por esses caminhos mais conhecidos pelos doutores e conclui, num discurso dialético-crítico, que essa é mais uma etapa de luta, uma oportunidade para fazer inscrever novos direitos, impedir que os “patrões” façam as leis como querem, mas que a partida continua403.

402 Ibidem, p. 9.

403 CÍRCULO OPERÁRIO LEOPOLDENSE. A luta faz a lei: cartilha para debater a constituinte.

São Leopoldo, 1985. (36f.)., Sobre o caráter perigoso que o parlamento representa para os grupos populares, ver DE DECCA, Edgar Salvadori. Op. cit., p. 187 et seq.

Figura 19: A luta faz a lei: cartilha para debater a Constituinte, p. 29.

De outro lado, a cartilha, de viés liberal, VOCÊ E A CONSTITUINTE descreve

As regras da Constituição num país – é sempre bom não esquecer – são como as regras do esporte num campo de futebol. Se um jogador sem caráter quebra a perna de outro num lance proposital ou se um juiz vendido apita um gol marcado com a mão, as regras continuam certas. O erro foi do jogador e do juiz e também da torcida que tem a obrigação de zelar pelo bom cumprimento das regras404.

404 SÃO PAULO. Governo do Estado de São Paulo. Secretaria da descentralização e participação. Você e a constituinte. São Paulo, 1986. (32f.), p. 26.

Figura 20: A luta faz a lei: cartilha para debater a Constituinte, p. 30.

Essas diferentes formas de narrativas sobre a noção de regras do jogo nos dão pistas sobre os ditos e os não ditos desses intermediadores culturais. É algo similar ao que ocorre nas narrativas contra a ideologia de gênero, do kit-anti-homofobia ou da História Nova do Brasil, que nos fornecem vislumbres para que verticalizemos nossos olhares para seus autores e os imaginários sociais acionados nas suas elaborações405. Vimos que elas variam desde a noção de oportunidade momentânea de refazer as regras, até a proposição de que as regras são boas; o que faltaria seria o cumprimento delas, passando pela dúvida se vale ou não a pena participar, pois seriam coisa de doutor ou da elite, sempre trapaceira.

***

405 Sobre a temática, particularmente como uma determinada concepção ideológica se veicula via textos didáticos, ver: NOSELLA, Maria de Lourdes Chagas. As belas mentiras: a ideologia subjacente aos textos didáticos. 8 ed. São Paulo: 1986. p. 26.

Desenhamos um quadro mais claro desse caleidoscópio de forças. Via de regra, as cartilhas se dispõem de forma didática, colocando-se no papel de um enunciador onisciente, solidário e partícipe do grupo ao qual se destina. Em algumas delas a estratégia pedagógica implica produzir tarefas a serem discutidas entre os integrantes da comunidade para outros encontros, noutras que se dê a palavra a um ou vários integrantes das reuniões para que exponham sua experiência sob a égide de uma constituição e seus marcos de injustiça ou de um governo; noutras ainda se sugere debate livre ou estruturado para que o grupo construa um saber próprio. A referência ao método prática-teoria-prática – marcadamente presente em Comunidades Eclesiais de Base – demarca algumas dessas trajetórias notadamente figurativas para compor um quadro de experiências a iluminar a participação necessária406.

Observamos também que esse processo de intermediação cultural nas cartilhas da Constituinte não se limitava à troca de informações entre duas esferas culturais, mas que, como intermediários, os autores das cartilhas deixavam transparecer mensagens comoventes a invocar sentimentos de pertença, de repulsa, ódio, abandono e de esperança, que nos dão pistas de como se conformavam os grupos produtores das cartilhas. Nos próximos capítulos aprofundaremos essa investigação estabelecendo recortes sobre os olhares dessas cartilhas para o passado e para o futuro imaginado.

406 As cartilhas das CEBs são muitas vezes tomadas a partir de cartilhas de leigos, como destacou Adriano Machado Henriques em: MACHADO, Adriano Henriques. Os católicos oPTaram?:

os “setores católicos” e o Partido dos Trabalhadores (PT) na grande São Paulo (1978-1982). Mestrado em história. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2010, p. 22.

3 AS CARTILHAS CONTAM A HISTÓRIA DAS CONSTITUIÇÕES

lo que es verdaderamente fundamental, por el mero hecho de serlo, nunca puede ser puesto, sino que debe ser siempre presupuesto. Por ello, los grandes problemas jurídicos jamás se hallan en las constituciones, en los códigos, en las leyes, en las decisiones de los jueces e o en otras manifestaciones parecidas dele ´derecho positivo´ con las que los juristas trabajan, ni nunca han encontrado allí su solución. Los jurista saben bien que ella raíz de sus certezas y creencias comunes, como la de sus dudas y polémicas, está en otro sitio. Para aclarar lo que de verdad les une o les divide es preciso ir más al fondo o, lo que es lo mismo, buscar más arriba, em lo que no aparece expreso407.

Há uma certa disputa de memórias na historiografia da “transição política”, típica da História do Tempo Presente408. Teria sido ela obra da pressão popular que foi progressivamente retirando apoio do governo ditatorial ou teria sido uma espécie de engenharia final dos militares que a fizeram no seu ritmo e condições? Entre tais polos extremos, há posições matizadas que falam em controle sobre o ritmo da abertura e tutela, mas levam em conta a degradação da base de sustentação do regime409. Entendemos que houve um cerco ao regime na perspectiva da resistência nos planos da cultura e da política; do novo sindicalismo, das Igrejas, particularmente nas novas CEBs, dos movimentos contra a carestia, no retorno dos exilados e na perda de apoio parlamentar. Nesse cenário complexo de oposição aos militares, também se configurava uma dose de moderação e de acomodação de grupos que, por motivos diversos, foram ocupando espaços institucionais mesmo sendo contra o regime410. No âmbito institucional e político, vivia-se sob a espada de Dâmocles, com avanços e recuos, pois na passagem entre a ditadura e a democracia os temores de que os “duros” interviessem era uma constante411. Tais receios foram amplamente explorados para manutenção de grupos de poder e normas autoritárias na Nova República. Entretanto, os anos 1980 foram o ponto de culminância das esperanças

Há uma certa disputa de memórias na historiografia da “transição política”, típica da História do Tempo Presente408. Teria sido ela obra da pressão popular que foi progressivamente retirando apoio do governo ditatorial ou teria sido uma espécie de engenharia final dos militares que a fizeram no seu ritmo e condições? Entre tais polos extremos, há posições matizadas que falam em controle sobre o ritmo da abertura e tutela, mas levam em conta a degradação da base de sustentação do regime409. Entendemos que houve um cerco ao regime na perspectiva da resistência nos planos da cultura e da política; do novo sindicalismo, das Igrejas, particularmente nas novas CEBs, dos movimentos contra a carestia, no retorno dos exilados e na perda de apoio parlamentar. Nesse cenário complexo de oposição aos militares, também se configurava uma dose de moderação e de acomodação de grupos que, por motivos diversos, foram ocupando espaços institucionais mesmo sendo contra o regime410. No âmbito institucional e político, vivia-se sob a espada de Dâmocles, com avanços e recuos, pois na passagem entre a ditadura e a democracia os temores de que os “duros” interviessem era uma constante411. Tais receios foram amplamente explorados para manutenção de grupos de poder e normas autoritárias na Nova República. Entretanto, os anos 1980 foram o ponto de culminância das esperanças