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3.1 A CRONOLOGIA DAS CONSTITUIÇÕES E OS CONSENSOS DAS CARTILHAS

3.1.3 Pai dos Pobres ... Boa essa! A Constituição de 1934

A introdução de alguns direitos sociais na terceira Constituição brasileira é um modelo para a pedagogia política e para a concepção de história subjacente aos imaginários sociais acionados pelo MPPC. O processo histórico que levou à sua elaboração merece destaque na narrativa das cartilhas especialmente ao abordar a

“agitação social” da Primeira República. Vários movimentos populares e políticos, recebem atenção nas cronologias, incluindo menções à Greve Geral de 1917, a fundação do PCB em 1922, ao levante do Forte de Copacabana, ao Movimento Tenentista e à Coluna Prestes454.

453 CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Igreja e Constituinte: subsídios para reflexão e ação pastoral. 1985. (57f.), Produzida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), órgão permanente que congrega os Bispos da Igreja católica no País, fundado em 1952 por grupo vinculado a Dom Helder Câmara. Tal material foi base para outras cartilhas em seu direcionamento e atuação. Cf.: CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Disponível em:

<http://www.cnbb.org.br/index>. Acesso em: 22 jun. 2017.

454 MST – Secretaria Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A constituinte interessa aos trabalhadores rurais? São Paulo, abr. 1985. (25f.), p. 10.

Figura 23: A Constituinte Interessa aos Trabalhadores Rurais, p. 8.

Não encontramos uma cartilha que trouxesse uma concepção estritamente positiva de Vargas; pelo contrário, sua figura é tida como ambígua ou vinculada aos setores poderosos da sociedade. A cartilha A LUTA FAZ A LEI: CARTILHA PARA DEBATER A CONSTITUINTE sintetiza tal argumento descrevendo o fim da Primeira República da seguinte forma: “em 1930 houve uma ‘revolução’ no Brasil. Os empresários, que não tinham representantes no governo, resolvem mudar esta situação. Derrubam o presidente eleito e sobe ao governo Getúlio Vargas”455.

A convocação da Constituinte em 1933 é objeto de duas linhas narrativas. A primeira destaca o movimento pró-constituinte e separatista em São Paulo e sua oposição à centralização varguista e ao seu descumprimento na promessa de convocar a Constituinte; porém, para a cartilha CONSTITUINTE INTERESSA AOS TRABALHADORES RURAIS?, “o erro dos paulistas foi ter feito olho grande com o Movimento e, no meio da história da Constituinte, começarem a falar em se separar do Brasil”, o que teria levado a sua derrota militar, mesmo assim “Getúlio se assustou e convocou as eleições para deputados”456.

Uma segunda linha interpretativa retoma o argumento da pressão popular, tal como a cartilha CONSTITUIÇÃO E CONSTITUINTE: EM BUSCA DE NOVOS CAMINHOS PARA O BRASIL. Segundo ela:

os trabalhadores das cidades, que agora eram muitos, percebiam sua força e começavam a se unir em associações e sindicatos. Faziam muitas greves.

455 CÍRCULO OPERÁRIO LEOPOLDENSE. A luta faz a lei: cartilha para debater a constituinte.

São Leopoldo, 1985. (36f.), p. 16. ver também: GOMES, Ângela de Castro. A república não-oligárquica e o liberalismo dos empresários. In: SILVA, Sergio S.; SZMRECSÁNYI, Tamás. (Orgs.). História econômica da Primeira República. São Paulo: Hucitec/Edusp/Assoc. Brás. Pesq. Hist. Económica, 2002. p. 95.

456 MST – Secretaria Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A constituinte interessa aos trabalhadores rurais? São Paulo, abr. 1985. (25f.), p. 16.

Os patrões, o governo e a polícia foram entendendo que só dando pancada não iam conseguir parar os trabalhadores. Percebiam que era preciso conceder algumas leis a favor dos trabalhadores. Getúlio acabou tendo que convocar eleição para uma Assembleia Constituinte em 1933457.

Essas duas concepções assinalavam para exceções na regra da heteronomia e opressão das normas, afinal na primeira narrativa os desmandos de um Vargas autocrata seriam contidos, pela população e pela elite paulista, que não suportariam a falta de um governo constitucional; a segunda narrativa aponta para uma concepção central das cartilhas: a pressão popular na dinâmica social é capaz de impor derrotas aos dominantes e conseguir, a partir da sua organização e luta, a consolidação de alguns direitos sociais e leis protetivas.

A duração de oito meses de preparação, com comícios e reuniões dos trabalhadores nos sindicatos para a escolha dos representantes classistas, foi bastante destacada. Fazia-se referência à importância de uma educação política e preparação para os complexos debates produzidos ao longo da Assembleia Constituinte.

Apesar da presença de quarenta deputados classistas e de duas mulheres, uma deputada eleita por São Paulo, Carlota Pereira de Queiroz, e outra como deputada classista, Armelinda Gama, as fontes não deixaram de invocar os limites de uma representatividade que continuava restrita 458 . Segundo a cartilha A CONSTITUINTE DA ROÇA, ainda não podiam votar mendigos, soldados e religiosos, e, em suas contas, só puderam votar 5,7% da população459, o que a tornava representante de interesses conservadores da sociedade e de Vargas, pois “20 destes

‘classistas’ dos trabalhadores eram funcionários do governo, gente protegida por

457 URPLAN – Instituto de Planejamento Regional e Urbano. Constituição e constituinte: em busca de novos caminhos para o brasil. São Paulo, out. 1985. (70f.), p. 30. A CARTILHA DOS TRABALHADORES – produzida pelo Dieese, de matriz não varguista, sugere que a “Revolução de 1930” contou com apoio popular, mas que Getúlio não deixava de representar principalmente os interesses dos grandes industriais, comerciantes e até, contraditoriamente, uma parcela dos proprietários rurais; ainda assim, a conjuntura teria reduzido o poder dos coronéis com o aumento da população nas cidades. O combustível para a mudança teria sido, segundo a cartilha, “a crise de 1930 e os 2 milhões de desempregados que teriam levado a situação propiciadora da revolução, que culminou com Vargas na presidência”. DIEESE – Departamento Intersindical estatísticas e estudos sócio econômicos; FEEBPR – Federação dos Bancários do Paraná. A Constituição e os trabalhadores. Curitiba,1987. (30f.), p. 15.

458 WOLKMER, Antônio Carlos. História...; BRASIL. Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

Mulher e Constituinte..., p.10. BRASIL. Ministério da Justiça. Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Carta das mulheres. s.d.. Brasília, 1985. (4f.)

459 CPT – Comissão Pastoral da Terra. A Constituinte da roça. Antônio Prado, maio 1985. (34f.), p. 20.

Getúlio que não queria criar problemas para o ‘chefe’, apenas os outros queriam lutar pela liberdade do povão”460. No entanto, o que está implícito é que, mesmo minoritários, os representantes legítimos “do povão” conseguiram vitórias do parlamento suscitando uma duvidosa vitória na arena da liberdade sindical, já que “o governo foi derrotado porque queria os sindicatos e as greves debaixo do seu controle”461.

No plano dos direitos conquistados, a partir da Carta de 1934, as cartilhas ressaltam a garantia do voto secreto, voto para as mulheres, a redução da idade para votar para 18 anos, a criação do salário mínimo, a jornada de 8 horas diárias (ou 48 horas semanais), o repouso semanal, férias, estabilidade, indenização por dispensa sem justa causa, a criação da previdência social, da Justiça do Trabalho e da Justiça Eleitoral. No plano do projeto político-econômico, evidenciam-se o monopólio estatal de certas indústrias, nacionalização progressiva dos bancos, monopólio das reservas minerais, sindicatos. Por outro lado, são vistas como negativas a restrição da autonomia dos estados e municípios com o centralismo federal e a persistência da exclusão do voto para analfabetos, soldados e religiosos.

De modo geral, o ineditismo da proteção social e da inclusão do voto feminino promulgados na Constituição de 1934 parece ter minimizado o destaque ao caráter autoritário do governo varguista, deixando tal papel para a descrição da Constituinte de 1937. Ao observarmos as circunstâncias de enunciação das cartilhas, podemos ver um cenário em que a democracia é a exceção, em uma sociedade em que o autoritarismo é a regra. Seja aquele efetivo experienciado pelos produtores das cartilhas, seja o autoritarismo denunciado nas cartilhas ao descrever as práticas do Império e da República. E mais, essa constante passagem entre técnicas autoritárias, mesmo quando se tem discurso de abertura (1933-34, 1945-46; 1974-88), sugere-nos que, ao descreverem a Constituição Federal de 1934, a novidade seriam os direitos conquistados e não a permanência das práticas autoritárias.

Noutras palavras, podemos observar que os discursos das cartilhas do MPPC evocam a oportunidade de participação popular ampliada para 1988, porém não deixam de tomar como “natural-intrínseco” que as estruturas e práticas autoritárias persistam.

460 URPLAN – Instituto de Planejamento Regional e Urbano. Constituição e constituinte: em busca de novos caminhos para o brasil. São Paulo, out. 1985. (70f.), p. 36.

461 Ibidem, p. 37.

Talvez fosse um recurso ao ressaltar um papel positivo na mobilização e na tentativa de contenção do poder. Noutras palavras, podemos tomar o conjunto de mensagens das cartilhas analisadas como parte da mobilização que enxerga a possibilidade de transformação via participação popular, mesmo quando aquilo que nem precisa ser dito é que “vivemos sempre” sob a força do autoritarismo. Afinal, como poderia uma cartilha que pleiteia a participação popular negar qualquer avanço de direitos ao longo da história no histórico de lutas populares? A mensagem das cartilhas remete à possibilidade de avanço via conquistas e participação popular, até mesmo para justificar a sua existência.