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6. EPISÓDIO VI – TRANSBORDAMENTOS EM GAME OF THRONES

6.2. MULTICAMINHOS DE ACESSO AO MESMO TERRITÓRIO

6.2.3. O jogo na Guerra dos Tronos

Os jogos de videogame se transformaram em uma das maiores indústrias de entretenimento do mundo por, principalmente, seduzirem os sujeitos com características, que lhes são intrínsecas, como interatividade, imersão e interconectividade, constituindo-se em um fenômeno cultural que mobiliza, na sociedade contemporânea, adeptos de diferentes gerações (ALVES; RIOS; CALBO, 2014), sem distinções de gênero, etnia ou posição social. Os games se apropriam de vários signos (verbal, visual, sonoro etc.) e acrescentam interatividade, repetibilidade, serialidade, jogabilidade, além de outros aspectos idiossincráticos que os tornam uma forma de manifestação cultural importante, constituindo-se em uma cultura do videogame, também denominada de Gamecultura (TAVARES, 2014).

As grandes corporações midiáticas se valem desse mercado em crescimento vertiginoso, para criar outras interconexões com outros mercados do entretenimento, agregando novos valores aos games ou se valendo deles como estratégia de marketing; “[...] o game torna-se uma indústria bastante lucrativa, e as possibilidades de negócios são praticamente ilimitadas. A propaganda e a publicidade na indústria

de videogames vão muito além da divulgação de seus próprios jogos.” (TAVARES, ibid., p. 92)

É nesse contexto de apropriação do game como estratégia de propagação (ou expansão) de uma marca que surgem os games relacionados ao universo ficcional criado por George R. R. Martin. Uma das muitas portas de acesso à franquia Game of Thones são os jogos de videogame; sobre os quais, ainda que de modo simplificado, teceremos algumas considerações.

Depois de algumas tentativas não muito bem sucedidas com games da série, em 2017, foi lançado o jogo “Game of Thrones: Conquest”, para iOS46

e Android

47

produzido pela Warner Bros. International.48 Trata-se de um MMO mobile gratuito, formado por um sistema de microtransações, ou seja, é um jogo de estratégia em turnos e administração de recursos baseado em Game of Thrones, no qual personagens conhecidos da série da HBO aparecem a cada nova tela, participando do jogo.

Figura 13 – Jogo de videogame Game of Thrones: Conquest.

Fonte: Imagens de celular capturadas pelo autor.

46

Sistema operacional móvel da Apple Inc. lançado em 2007, desenvolvido originalmente para o iPhone.Disponível: https://pt.wikipedia.org/wiki/IOS. Acesso em: 19/02/2019

47

Sistema operacional baseado no núcleo Linux, lançado em 2008, atualmente desenvolvido pela empresa de tecnologia Google. Disponível: https://pt.wikipedia.org/wiki/Android. Acesso em: 19/02/2019.

48

Produtora e distribuidora de filmes e entretenimento televisivo que foi fundada em 1923 pelos irmãos Warner.

Game of Thrones: Conquest é um jogo com pouca ação, focado mais em estratégia e depende de um sistema de tempo, para dar upgrade49 (evolução) de batalhões, fazendas, torres, dragões, ferreiro, estábulo, muralha etc. O tempo gasto para dar upgrade depende do nível da construção, quanto maior o nível, maior o tempo. Existe a moeda do jogo que, o jogador pagando, pode fazer com que esse upgrade seja instantâneo. Além disso, há outras vantagens como treinar tropas instantaneamente, aumentar número de construtores instantaneamente. Em algumas construções, os representantes são personagens de Game of Thrones, atuando em um jogo que simula o ambiente medieval com aspectos característicos da série, no qual se pode fazer alianças com outros players50, para travar batalhas.

Figura 14 – Personagens da série Game of Thrones em telas de videogame.

Fonte: Imagens de celular capturadas pelo autor.

Nesse jogo, os players constroem seus próprios reinos, com seus vassalos e guerreiros, podem criar aliança com outros jogadores e, assim, conversar entre si com finalidade de conhecer aliados fortes, identificando inimigos à sua altura. Alguns personagens da série ajudam a jogar e governar, dando conselhos, como é o caso

49 Termo usado nesse contexto para se referir a uma “troca” ou mudança de fase no jogo. 50 O termo vem do verbo to play, que significa “jogar, brincar, tocar”. Foi usado nesse contexto

de Tyrion Lannister que ensina como construir para poder subir de nível, lutar contra inimigos, atuando como a Mão do Rei51.

Segue transcrição da fala de um colaborador que julgamos importante, para nossas considerações:

“O jogo de certo modo provoca uma curiosidade sobre o que é game of thrones e como funcionou toda essa guerra passada na série. Eu gostei do jogo, porque dá impressão que sou um guerreiro ou um rei da mesma época. A forma como foi incluída a história de GOT no jogo é bem interessante por ter algumas coisas implícitas, como por exemplo: percebi que um botão de “play” no canto direito da tela vai ficando azul e com o tempo ele vai se congelando. Isso tudo serve para indicar que “o inverno está chegando”. Também percebi que o mapa do jogo mostra todas as casas e reinos das pessoas que também jogam, e tem um ninho de dragão que provavelmente, com a maneira que eu vá subindo de nível, vou começar a ter meu próprio dragão e quem sabe conquistar o trono de ferro tão desejado na série.” (colaborador 5)

Segundo se pode deduzir da fala desse colaborador da pesquisa, o jogo tem potencial imersivo, função diegética e expande o conteúdo da série, fornecendo compreensão aditiva.

Entretanto, há muitas críticas desfavoráveis ao jogo, quanto à sua jogabilidade. Muito provavelmente isso ocorra por sua estreita ligação com estratégias de marketing transmídia. Segundo Tavares (2014, p.92), “a utilização de games como ferramentas de marketing apresentam problemas semelhantes no quesito da jogabilidade”. O autor explica que o branding52

é uma das maneiras de observamos o marketing vinculado aos games e que tal estratégia ocorre quando estes são feitos para promover uma marca (TAVARES, ibid.). Segundo ele,

[...] esses jogos têm por objetivo promover a fixação da marca, a fidelização do consumidor e até mesmo aumentar o espectro de produtos derivados, como nos casos “veja o filme, leia o livro, ouça o disco e jogue o game”. Em geral, não existe verba, tempo, ou mesmo necessidade para se criar um jogo original, criativo ou diferente, e tais jogos acabam não tendo nenhum compromisso com a jogabilidade, sequer com o jogador, que,

51

Depois do rei, esse é o cargo mais importante no reino fictício de Westeros por ser uma espécie de braço direito do monarca.

52

O branding está intrinsecamente relacionado com as estratégias de marketing, que representam técnicas e métodos destinados não só à potencialização das vendas, como também à potencialização do seu valor simbólico das marcas. O marketing transmídia é um exemplo de branding.

nesse ponto de vista, é apenas mais um consumidor (TAVARES, ibid., p. 92-93).

O autor reforça a ideia de que esses games têm pouco destaque e acabam extinguindo-se rápido, tanto mais obsoletas essas campanhas, produtos e promoções se tornem.

Entretanto, apesar das críticas, o jogo Game of Thones: Conquest segue envolvendo consumidores e fãs da série, seja promovendo-a, replicando-a, seja expandindo seu conteúdo. Entendemos que, a depender do ponto de vista assumido, o game pode ser considerado uma estratégia de crossmídia, transmídia ou marketing transmídia.

Três anos antes, em 2014, ocorreu o lançamento do videojogo de fantasia dramática Game of Thrones: A Telltale Game Series, desenvolvido pela Telltale Games, que além de explorar histórias fixas com mais profundidade, com o intuito de atrair jogadores, acostumados com a série; também trouxe certo ineditismo, já que não teve a intenção de contar histórias anteriores à série e aos livros. Tal ineditismo se deu, por exemplo, pela introdução da casa Forrester, uma família apenas citada nos livros, em torno da qual a narrativa do game se concentra. Embora o projeto tenha sido aprovado por George Martin, a trama principal da narrativa, personagens e algumas regiões foram criados pela Telltale Games.

Figura 15 – Cena do videojogo Game of Thrones: A Telltale Game Series.

Fonte:https://br.ign.com/game-of-thrones-a-telltale-gamesseries/12010/review/review- game-of-thrones-a-telltale-series

Como já afirmado, o público-alvo do game são os fãs dos livros e da série, o que pode ter influenciado a composição da trilha sonora, inspirada na série e a escolha dos atores para dublarem as vozes dos personagens. Para Jesus (2015, p. 63) ”Da mesma forma que a série televisiva, o jogo trabalha com os ganchos entre um episódio e outro, deixando questionamentos em aberto no final de cada episódio.” A autora salienta ainda que

[...] os jogos publicados com a temática de Game of Thrones possibilitam aos fãs da série televisiva e dos livros, se aprofundarem em seu universo ficcional. Além de trazerem a possibilidade da ação, da participação e do envolvimento dos fãs, eles trazem informações e detalhes que contribuem para a compreensão da narrativa ficcional presente na série e nos livros, além do prazer em engajar-se em sua complexidade narrativa (JESUS, ibid., p.65).

O jogo, que foi lançado em seis episódios concomitantemente com a exibição da série Game of Thrones, embora tenha recebido críticas a respeito de altos e baixos no roteiro; recebeu avaliação positiva quanto ao design gráfico, à construção de alguns personagens e às belas imagens panorâmicas. Há quem reconhece que o game possui acontecimentos tão incríveis, dentro do clima de traição, morte e fantasia da obra de Martin, que supera as falhas percebidas. Independentemente das críticas, percebe-se que o game busca expandir o conteúdo da série, já que traz detalhes de personagens e lugares que apenas foram citados na obra original.