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3. EPISÓDIO III – TRANSBORDAMENTOS NARRATIVOS

3.1. PRIMEIRAS NARRATIVAS

“Mate o menino! E deixe o homem nascer!” – Meistre Aemon Durante minha infância e parte da adolescência, férias era sinônimo de viagem ao interior do nosso interior. Tínhamos deixado o povoado de Campo Santo5 para morar e estudar na cidade de Ouricuri, Sertão de Pernambuco; de cujo distrito Campo Santo fazia parte. Ao chegar a esse pequeno vilarejo, depois de um semestre de estudos e muita dificuldade, éramos, imediatamente, enviados ao Sítio Água Verde6, à casa de Antônio Francisco Damasceno, ou Antônio França, ou simplesmente “Pai Tonho”, nosso saudoso e inesquecível avô.

Ali, no Sítio Água verde, passaríamos as férias, eu e meus irmãos, trabalhando duro: plantando, capinando, cuidando dos animais (gado, ovelhas, bodes, cavalos, jumentos...); carregando água, capim, cana, rapadura no lombo de animais. Ali, aprendemos lições que levaríamos para o resto de nossas vidas duras. Aprendemos a suar no cabo da enxada e a valorizar o trabalho. Ali tivemos nossos primeiros exemplos de honestidade, de solidariedade, de valorização da diversidade, Ali dormiam vaqueiros, trabalhadores da roça, boiadeiros, viajantes, estudantes e os donos da casa... Comendo da mesma comida e dormindo nas mesmas condições... Ali conviveram negros, brancos, amarelos... Pobres e miseráveis; crianças, jovens; homens e mulheres feitos... Idosos. Ali partilhávamos tudo: trabalho, sonhos, alegrias... Histórias. Sim, partilhávamos muitas histórias!

Á noite, sentávamos no alpendre da casa, em grandes bancos de tronco de baraúnas, para contar histórias. Nas noites mais frias, acendíamos uma fogueira no terreiro da casa, acomodávamos à beira e entorno da fogueira, em tamboretes de couro de boi ou simplesmente deitávamos no chão em peles de carneiro ou bode... Idosos, adultos e crianças a ouvir e contar histórias.

As narrativas eram as mais diversas possíveis, mas havia uma tendência natural e quase espontânea em seguir mais ou menos uma temática a partir dos primeiros causos contados. Parece-me que, sem nos darmos conta, construíamos uma espécie de serialidade à beira da fogueira. Íamos das histórias de pescadores e

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Povoado localizado no Sertão Pernambucano. Atualmente é distrito de Santa Filomena-PE.

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Logradouro, próximo ao Povoado de Campo Santo, pertencente ao município de Dormentes-PE.

caçadores às histórias de assombração. Todas elas sempre impregnadas de sincretismo entre realidade e ficção. Mas eram contadas quase sempre como verdades, pois “fulano, filho de sicrano” havia dito que ocorreram daquele jeito. Quase todas elas eram contadas de forma arrebatadora. Fomos todos impactados por essas histórias. Mas acho que elas marcaram profundamente a minha vida. Talvez venha dessa fase o meu gosto pelo teatro e pelo cinema. Talvez venha dessa fase de minha vida o gosto pela imagem e pela cultura popular. Não sei efetivamente, mas as minhas memórias mais profundas vêm da minha infância, das histórias que ouvi, da casa do meu avô... Dos meus avós.

Uma dessas narrativas jamais será esquecida, pois está encrostada na minha espinha em forma de arrepio. Explico. Em umas dessas noites, alguém contou uma história “real”, um “fato” que havia ocorrido com um primo do meu pai, chamado Quincas. Segundo disseram, quando Quincas estava vindo de sua roça para o vilarejo de Campo Santo, ao anoitecer, após ter separado as vacas dos bezerros, para ordenha no dia seguinte; ao subir uma ladeira; sentiu sua camisa ser puxada por alguém... Ele olhou para trás, mas não havia ninguém. Quincas, um pouco atordoado, continuou sua caminhada quando sentiu outro puxão na camisa, desta vez, seguido de uma voz que dizia: “Quincas, você não ajudou a carregar meu caixão!”. Era a voz de uma prima sua que havia morrido há poucos dias, com a face quase completamente corroída pela lepra.

Não sei o que Quincas fez após esse momento, mas disseram que quase ficou louco, atormentado pela voz e imagem da prima morta. Entretanto, sei o que essa história fez comigo. Todas as vezes que era enviado ao vilarejo para resolver quaisquer coisas, sempre a cavalo, em qualquer horário, ao me aproximar do local onde o “fato” ocorreu (conhecido como Baixa do Mulungu7

), sentia um frio na espinha e a impressão de que aquela mulher de rosto disforme estaria ali, à espreita, aguardando para puxar a minha camisa. Como todo adolescente corajoso, chicoteava o cavalo e punha-o a correr desesperadamente. Na minha cabeça infantil, pensava: “essa alma/mulher não poderá jamais me alcançar”.

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Árvore de médio porte nativa da América Central e América do Sul. É encontrada em regiões de cerrado e caatinga.

Anos depois, já adulto, formado, casado, pai de dois filhos, ao passar de carro sozinho no mesmo local, ao anoitecer (hora em que sempre evitei passar ali); precisei reduzir muito a velocidade, por causa de buracos na estrada provocados pela chuva. Senti o mesmo pavor, o mesmo frio na espinha, a mesma sensação de que alguém (uma mulher morta há anos, com rosto disforme) puxaria minha camisa. Com o carro quase parado, senti desespero e saudade dos cavalos que, rápidos como o vento, tão bem me livravam dessa imagem assustadora.

Não sei explicar ao certo as razões dessa memória tão forte. Talvez a história, talvez o ambiente, talvez a hora e o modo como ela foi contada. Não sei. Parece-me que, sem querer, um universo extremamente forte era criado em torno dessas narrativas. As palavras de Murray (2003, p. 9) talvez possam ajudar a compreender esse contexto:

A narrativa é um de nossos mecanismos cognitivos primários para a compreensão do mundo. É também um dos modos fundamentais pelos quais construímos comunidades, desde a tribo agrupada em volta da fogueira até a comunidade global reunida diante do aparelho de televisão. Nós contamos uns aos outros histórias de heroísmo, traição, amor, ódio, perda, triunfo. Nós nos compreendemos mutuamente através dessas histórias, e muitas vezes vivemos ou morremos pela força que elas possuem.

É possível que os mesmos monstros que assombravam Quincas fossem partilhados por quem contou e por quem ouviu aquela história. É possível que aquelas histórias de medo e bravura fossem uma maneira de nos humanizar em torno da fogueira. Os contadores muitas vezes incorporavam as histórias contadas como se eles próprios tivessem-nas vivido, num ato claro de representação ou teatralização. Com referência a esse contexto, mais uma vez, reportamo-nos a Murray (2003): “A representação permite que exercitemos comportamentos alternativos que não fazem parte das nossas rotinas de sobrevivência. No final das contas, isso aumenta nosso repertório de comportamentos de sobrevivência”. A casa do meu avô já não existe, foi vendida por necessidade e, posteriormente, abandonada por aqueles cujas identidades não foram afetadas pelo que ocorreu ali. A casa do meu avô é “só um quadro pendurado na parede, mas como dói8”...

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Referência intertextual ao poema Confidência do Itabirano, de Carlos Drummond de Andrade.

Figura 3 – Sítio Água Verde em óleo sobre tela (1,00m x 1,50m) pintado pelo autor.

Fonte: Imagem capturada com celular pelo autor.

Restam apenas as narrativas dispersas em fragmentos de memórias daqueles que imergiram naquele universo. Se essas histórias, narradas à beira da fogueira, marcaram o imaginário de muitos que das rodas fizeram parte; outros, em outros muitos lugares, viveram suas experiências narrativas. Em todas as partes do mundo, as histórias cativaram pessoas porque suas projeções no destino encenado do outro é próprio do humano. Porque é uma táticapsíquica de prolongar a própria vida “em busca de uma completude imaginária que falta à existência vivida nas rotinas do cotidiano”. (SANTAELLA, 2018, p.78)

Essas “primeiras narrativas” ocorreram no interior do interior, no “sertão profundo”, onde não havia sequer luz elétrica. A lua, as luzes dos vaga-lumes e o fogo da fogueira ajudavam a construir o ambiente propício à contação das histórias. Era década de 1980 e a vida nas cidades transcorria de outra forma, já que a televisão se consolidava e cobrava para si o direito de contar as suas histórias. A luz que iluminava esse cenário não era mais tão natural, vinha das telas luminosas da TV. As séries, que surgiram em década anterior, transformaram o modo televisivo de contar histórias, confirmando o gosto do público pelas narrativas ficcionais. Mudam- se os meios, mudam-se os formatos, mudam-se as formas de contar histórias,

entretanto o humano desejo de contá-las permanece. Tal entendimento pode encontrar ancoradouro nas palavras de Lucia Santaella, quando esta afirma que

Se houve um tempo em que a experiência vivida ou imaginada, a criação de mundos possíveis era narrada na oralidade, então, da escrita para as telas, hoje ela se desdobra e se expande em uma multiplicidade de mídias que estão transformando o universo narrativo em rios caudalosos, rios que correm de uma plataforma a outra, de uma tela a outra para que possa ir se cumprindo o insaciável desejo humano de viver vidas emprestadas. (SANTAELLA, 2018, p. 81)

Para tratar desse “insaciável desejo humano de viver vidas emprestadas”, é necessário mergulhar nesses “rios caudalosos”; entretanto buscaremos, em primeiro lugar, descobrir as nascentes desses rios. Para tanto, oportuno se faz aguardar cenas dos próximos episódios.