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John Hick – Inaugurando nova reflexão religiosa

No documento suelyribeirobarra (páginas 188-192)

3.4 Em defesa da hipótese pluralista

3.4.1 John Hick – Inaugurando nova reflexão religiosa

Hick (1922-2012) é considerado o representante mais significativo desta primeira forma de pluralismo em que é contestada a unicidade de Jesus Cristo fulcrada na encarnação de Deus e de onde, em sua opinião, sai toda a polêmica que o pluralismo salvífico suscita. Para os teólogos, cujas reflexões se alinham à hipótese, as religiões não-cristãs têm que ser valorizadas por elas mesmas e não tendo como “peso e medida” o Cristianismo.

Uma reflexão que precisa existir na atualidade uma vez que o termo “pluralismo” está onipresente no mundo todo. Quando se entende o termo relacionado à religião significa que no mundo contemporâneo existem muitas religiões, não como movimentos efêmeros, mas religiões estabelecidas e duradouras. Cada uma destas religiões representa crenças e práticas variadas envolvendo o sagrado. O que há de novo hoje quando se trata de pluralismo religioso quando se sabe que desde que a civilização teve início crenças variadas a povoavam?

Uma das chaves de resposta é dada por Kenneth Cragg que admite a existência do pluralismo desde sempre em seus vários aspectos seja no aspecto religioso ou não-religioso “diversidades têm sempre caracterizado o cenário humano como historicamente conhecido. Antropologia, mitologia, demografia, são desconcertantemente polivalentes em seus elementos humanos [...] A diferença é que o pluralismo contemporâneo é consciente”288.

E, de fato hoje, ele é mais visível e o é pela própria condição sócio-cultural que tem como maior responsável a evolução científica e tecnológica assim como a migração de adeptos de diversos credos religiosos.

Apesar da existência real do pluralismo, foi somente no século XVI que a conscientização deste fato aconteceu de uma forma mais profunda e de maior alcance. Tal fato não foi devido a determinantes religiosos, mas a determinantes científicos e econômicos, ou seja, a exploração e a colonização de novos territórios. A barreira da incerteza e do temor de avançar pelo mar foi derrubada e os europeus ansiando por novas descobertas no restante do mundo se aventuraram além mar. Por motivos econômicos uma ampla colonização se instalou e a descoberta de novas crenças e mitos se tornou evidente. Muitos cristãos bem intencionados se entusiasmaram com o fato de poderem exportar o Cristianismo para as terras recém descobertas, para os seus habitantes desconhecidos. O exclusivismo já imperava entre os cristãos e a presunção de que a salvação só era possível através do Cristianismo era clara e expressa.

A atitude missionária destes cristãos com o objetivo precípuo de converter os povos demonstrava que para eles “o pluralismo seria um fenômeno temporário uma vez que o Cristianismo era a única expressão da universalidade através da conversão de toda a humanidade ao Cristianismo”289. O que parecia ser uma atitude ocidental logo se espalhou em larga escala por todo mundo. O mandato cristão, a esperança dos missionários de que em muito em breve os não-cristãos abandonariam suas crenças religiosas imperfeitas e inúteis e abraçassem a religião “verdadeira” constituem uma prova de que os cristãos se consideravam acima de todas as crenças e superiores a elas em todos os sentidos.

Na pluralidade de religiões há o confronto de reivindicações concorrentes que a verdadeira religião tem. Ver as grandes estruturas religiosas como forças antagônicas e cada uma reivindicando superioridade sobre as outras não é a única forma de perceber a situação religiosa da humanidade. W. C. Smith a percebe de outro modo. Primeiramente mostra que a conceptualidade que hoje se tem das religiões remonta ao renascimento europeu época em que as diferentes correntes da vida religiosa começaram a ser reificadas no pensamento ocidental como estruturas sólidas chamadas Judaísmo, Hinduísmo, Cristianismo, etc.

Smith usa o termo fé no sentido de ser uma resposta do ser humano à realidade final e pode ser positiva de abertura ou de negação – uma consciência fechada em si mesma cega à presença divina. No primeiro caso há uma transformação chamada de iluminação, salvação ou

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libertação que é basicamente a mesma nas diferentes correntes religiosas. Uma mudança, segundo Hick, do auto-centramento para o centramento na Realidade. Vistas de acordo com Smith essas tradições cumulativas são vertentes distintas da história da humanidade em que uma multiplicidade de elementos religiosos e culturais interage para formar um padrão distinto, constituindo, por exemplo, o hindu, o budista, o confucionista, o judaico, o cristão ou o da tradição muçulmana.

Estas tradições cumulativas constituem ricas e complexas culturas cada uma com sua história própria e ethos e como tal criam seres humanos à sua imagem e semelhança. Em cada cultura há seres humanos diferentes, com seus modos marcados pelas características de sua cultura que por sua vez não são fixos, mas organismos vivos que interagem através do tempo e se desenvolvem lenta ou de forma rápida e surpreendente.

Nos tempos atuais este tema que trata da pluralidade religiosa cada vez mais atrai as atenções dos teólogos cristãos e freqüentemente são chamados a fazer declarações a respeito de suas posições em relação ao assunto. O pluralismo é a posição reacionária ao inclusivismo que reivindica uma superioridade para a religião Cristã. Com o pluralismo pressupõem uma mudança de paradigma para além das posições do exclusivismo e do inclusivismo de modo a se ter uma posição mais eficiente relacionada à pluralidade religiosa. Com esta posição uma tradição religiosa, no caso o Cristianismo deixa de ser considerada a única verdadeira mediação entre Deus e a humanidade. Todas as religiões são consideradas instâncias legítimas e independentes de salvação/libertação. John Hick considera tal posição necessária ao diálogo inter-religioso que não se tornará efetivo enquanto uma tradição pretender somente para si a superioridade. Para ele no que diz respeito às grandes religiões mundiais, “naquilo que elas têm de melhor e mais ou menos na mesma proporção, dentro delas, se realiza a transformação salvífica da vida humana – transformação individual e coletiva que vai de um auto- centramento destrutivo a uma nova orientação centrada na Realidade Divina”290.

O pluralismo é mais sintonizado com a realidade atual em que o conhecimento e os adeptos das demais tradições religiosas se espalham e são divulgadas por todo mundo de forma rápida e clamorosa. São muitos os teólogos católicos e protestantes que vêm se empenhando neste relevante tema religioso. Propõem eles uma troca de paradigma que significa renunciar à visão ptolomaica em que todas as religiões devam girar em volta de Cristo e do Cristianismo. A mudança consiste em colocar Deus no centro em vez de Cristo. Todas as religiões girando em volta do mistério de Deus, a Realidade Suprema. Dessa forma

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os teólogos pluralistas deixam de considerar Cristo como único e exclusivo mediador da salvação. É Deus e não Cristo o caminho, a verdade e a vida para a humanidade. Estes teólogos reconhecem que a posição inclusivista não é suficiente para atender aos anseios do ser humano religioso no contexto plural nem possibilitadora do diálogo inter-religioso.

O Cristianismo durante muitos séculos ocupou a posição de único caminho para a salvação, um exclusivismo que negava autenticidade e mediação das outras fés não-cristãs. Nenhuma outra religião oferecia esta possibilidade. Isto é facilmente comprovado retornando à história. Isto tanto acontecia no Catolicismo como no Protestantismo. Este outro caminho de resposta à questão, identificado com o paradigma pluralista. Este modelo não é simples e envolve vários posicionamentos teológicos tanto no âmbito católico-romano como nas várias instâncias do Protestantismo. A característica fundamental deste paradigma é o reconhecimento do poder salvífico das religiões não-cristãs. Tal poder é autônomo e legítimo e não vinculado à fé cristã. São religiões verdadeiras e não somente religiões preparatórias para o Cristianismo ou um Cristianismo diminuído. Entretanto está condicionado ao rompimento com a questão da idéia de Jesus como constitutivo da salvação.

Torna-se necessário abrir mão do que é a base do Cristianismo que é a essencialidade e indispensabilidade da pessoa de Jesus Cristo para que a salvação aconteça. Alguns teólogos dentro do pluralismo ainda se mantêm sob a perspectiva de Jesus Cristo como constitutivo da salvação. Para estes “sem Jesus não faltaria a graça de Deus, porém ela não teria a sua manifestação decisiva”291. Para estes partir para um pluralismo mais extremo no qual a característica de Jesus Cristo deixaria de ter a especificidade de constitutivo da salvação seria descaracterizar a sua própria crença passível de enfraquecer a sua fé cristã.

Na hipótese pluralista de Hick, a ideia do Real é a pedra angular sobre a qual sua doutrina é construída e em volta da qual as religiões, inclusive o Cristianismo, devem girar. Ele vê a salvação como libertação e como transformação do auto-centramento para o centramento no Real. John Hick inaugura segundo Teixeira, uma verdadeira “escola de pensamento”. Em seu livro God and the Universe of Faiths ele propõe uma revolução copernicana em teologia. A necessidade desta revolução em teologia envolve igualmente uma radical transformação em nossa concepção do universo das fés e o lugar de nossa própria religião dentro dele. Hick que assume ter sido, no passado, um cristão de centro de modo a ter somente em Jesus Cristo o caminho para a salvação hoje é um pluralista convicto de que é

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esta posição a abertura para um efetivo diálogo entre as religiões embora envolva como toda inovação muitas questões.292

No documento suelyribeirobarra (páginas 188-192)