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JOSEF POPPER-LYNKEUS E A TEORIA DOS SONHOS (1923)

No documento O ego e o ID e outros trabalhos VOLUME XIX (páginas 154-157)

NOTA DO EDITOR INGLÊS

JOSEF POPPER-LYNKEUS UND DIE THEORIE DES TRAUMES (a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1923 Allgemeine Nährpflicht (Viena), 6. 1928 G.S., 11, 295-7.

1940 G.W., 13, 357-9. (b)TRADUÇÃO INGLESA:

‘Josef Popper-Lynkeus and the Theory of Dreams’

inglês.

Josef Popper (1838-1921) era engenheiro de profissão mas bem conhecido na Áustria por seus escritos (sob o pseudônimo de ‘Lynkeus’), principalmente sobre assuntos filosóficos e sociológicos. Um relato de seus planos de reforma social será encontrado em um livro da autoria de Fritz Wittels, publicado em inglês sob o título de An End to Poverty (Londres, 1925). O livro também contém uma curta biografia do próprio Popper da autoria dos tradutores, Eden e Cedar Paul. O volume de breves esboços imaginativos, Phantasien eines Realisten, que é o assunto das observações de Freud, foi consideravelmente popular e teve muitas edições, tendo a vigésima primeira aparecido em 1921. O artigo de Freud sem dúvida foi escrito por ocasião da morte de seu autor, para publicação em um periódico que, como o título demonstra, invocava a provisão universal da subsistência e devia sua inspiração a Popper. Freud escreveu outro trabalho cerca de 10 anos mais tarde (1932c)

JOSEF POPPER-LYNKEUS E A TEORIA DOS SONHOS

Muita coisa interessante existe para ser dita sobre o assunto da originalidade cientifica aparente. Quando alguma idéia nova ocorre na ciência, saudada a princípio como uma descoberta e, via de regra, também discutida como tal, a pesquisa objetiva logo após revela que, afinal de contas, a idéia de fato não era novidade. Geralmente a descoberta já fora efetuada repetidas vezes e posteriormente esquecida, muitas vezes por intervalos de tempos muito longos. Ou ao menos tivera precursores, fora obscuramente conjecturada ou incompletamente enunciada. Tudo isso é demais conhecido para que se exija maior discussão.

O lado subjetivo da originalidade, contudo, também merece consideração. Um cientista pode às vezes perguntar-se qual foi a fonte das idéias, a ele peculiares, que aplicou a seu material. A respeito de algumas delas descobrirá sem muita reflexão as sugestões das quais derivaram, as afirmativas feitas por outras pessoas, que ele recolheu e modificou, e cujas implicações elaborou. Em relação a outras de suas idéias, porém, não pode fazer tais admissões; somente supor que esses pensamentos e linhas de abordagem foram gerados - não pode dizer como - em sua própria atividade mental, sendo neles que fundamenta sua reivindicação à originalidade.

Uma cuidadosa investigação psicológica, contudo, diminui ainda mais essa reivindicação. Ela revela fontes ocultas e há muito esquecidas, que forneceram o estímulo para as idéias aparentemente originais, e substitui a nova criação ostensiva por uma revivescência de algo esquecido aplicado a material novo. Nada há por que lamentar nisso; não tínhamos direito de esperar que aquilo que era ‘original’ não pudesse ser rastreado e determinado.

Em meu caso, também, a originalidade de muitas entre as novas idéias que utilizei na interpretação de sonhos e na psicanálise, evaporou-se dessa maneira. Ignoro a fonte de somente uma dessas idéias. Tratava-se de nada menos que a chave para minha opinião sobre os sonhos e

ela me auxiliou a solucionar seus enigmas, desde quando tenha sido possível solucioná-los até aqui. Comecei a partir do caráter estranho, confuso e insensato de tantos sonhos e deparei com a noção de que eles estavam comprometidos a se tornarem assim, de vez que neles algo lutava em busca de expressão, à qual se opunha uma resistência oriunda de outras forças mentais. Nos sonhos, impulsos ocultos despertavam o que estava em contradição com aquilo que se poderia chamar de credo ético e estético oficial daquele que sonhava; este pois se envergonhava desses impulsos, voltava-lhes as costas e recusava-se a reconhecê-los de dia; e se, durante a noite, não podia evitar algumaexpressão por parte deles, submetia-os a uma ‘deformação onírica’, que fazia o conteúdo do sonho parecer confuso e insensato. À força mental nos seres humanos que mantém vigilância sobre essa contradição interna e deforma os impulsos instintuais primitivos do sonho em favor de padrões morais convencionais ou mais elevados, dei o nome de ‘censura de sonhos’.

Justamente essa parte essencial de minha teoria dos sonhos, contudo, foi descoberta por Popper-Lynkeus independentemente. Pedirei ao leitor para comparar a seguinte citação de uma história chamada ‘Träumen wie Wachen’ [‘Sonhar Acordado’] em suas Phantasien eines Realisten

[Fantasias de um Realista], certamente redigida na ignorância da teoria dos sonhos que publiquei

em 1900, tal como eu próprio me via então na ignorância das Phantasien de Lynkeus.

‘A respeito de um homem que possuía o notável atributo de jamais sonhar absurdos… ‘“Esse seu esplêndido dom, de sonhar como se estivesse desperto, é uma conseqüência de suas virtudes, de sua bondade; é a serenidade moral de sua natureza que me faz compreender tudo a seu respeito.”

‘“Mas quando penso sobre o assunto de modo correto”, respondeu o outro, “quase acredito que todos são como eu e que absolutamente ninguém jamais sonha absurdos. Qualquer sonho que se pode recordar de modo suficientemente claro para descrevê-lo posteriormente - qualquer sonho, equivale a dizer, que não seja um sonho febril - deve sempre fazer sentido e não poderia ser de outro modo, porque coisas entre si contraditórias não poderiam se agrupar em um todo único. O fato de que tempo e espaço sejam amiúde lançados em confusão não afeta o conteúdo verdadeiro do sonho, porquanto, indubitavelmente, nenhum dos dois é significância para sua essência real. Com freqüência fazemos o mesmo na vida desperta. Pense apenas nos contos de fadas e nos muitos e audaciosos produtos da imaginação plenos de significação, dos quais apenas um homem sem inteligência poderia dizer: ‘Isso é absurdo, pois é impossível.’”

‘“Se apenas sempre se soubesse como interpretar sonhos da maneira correta, como você acabou de fazer com o meu!” disse seu amigo.

‘“Isso certamente não é fácil, mas, com um pouco de atenção por parte daquele mesmo que sonhou, sem dúvida sempre resultaria em êxito. Você pergunta, por que é que, para a maioria,

não há êxito? Em vocês, outras pessoas, parece sempre haver algo que jaz escondido em seus

sonhos, algolibertino num sentido especial e mais elevado, determinada qualidade secreta em seu ser, difícil de acompanhar. Por isso mesmo que seus sonhos tão amiúde parecem sem sentido, ou até absurdos. No sentido mais profundo, porém, afinal não é assim; com efeito, não pode sê-lo em

absoluto - pois se trata sempre do mesmo homem, esteja acordado ou sonhando.”’

Acredito ter sido minha coragem moral o que me capacitou a descobrir a causa da deformação onírica. No caso de Popper, foi a pureza, o amor pela verdade e a serenidade moral de sua natureza.

No documento O ego e o ID e outros trabalhos VOLUME XIX (páginas 154-157)