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Joseph A Schumpeter e a nova democracia

No documento nilolimadeazevedo (páginas 38-45)

ANEXO 05. Lei Municipal nº 10.777/04

2. DEMOCRACIA CONTEMPORÂNEA: UMA BREVE REVISÃO

2.1. Matrizes da concepção hegemônica da democracia

2.1.1. O elitismo competitivo

2.1.1.2. Joseph A Schumpeter e a nova democracia

Schumpeter (1986), em texto seminal da teoria elitista competitiva da democracia, "Capitalismo, socialismo e democracia", elabora a sua teoria a partir de uma crítica ao diagnóstico do que ele denomina de a doutrina clássica da democracia, referindo-se ao século XVIII.

Para ele, segundo a doutrina clássica, "o método democrático é o arranjo institucional para se chegar a decisões políticas que realiza o bem comum

18A transitividade ou a capacidade do agente da ação ordenar e relacionar qualitativamente as suas

fazendo o próprio povo decidir as questões através da eleição de indivíduos que devem reunir-se para realizar a vontade desse povo" (SCHUMPETER, 1986:313).

Baseado nessa definição, o autor aponta as principais críticas ao modelo clássico e destaca as maiores fragilidades na idéia de bem comum, de representação e de soberania popular.

Ponto a ponto, o bem comum para a teoria clássica, segundo Schumpeter, é o próprio objetivo da democracia, posto como o “farol óbvio da política” (SCHUMPETER, 1986:313). O acesso a esse farol, segundo essa teoria, se daria de forma relativamente simples, pois, através de uma argumentação racional, qualquer indivíduo médio poderia chegar à compreensão do bem comum, que é traduzido por uma diretriz compreensível, racional e ubíqua, ou seja, trata-se de uma meta consensual a ser alcançada por toda a sociedade, meta esta capaz de fornecer a solução de convívio e bem estar coletivo.

O bem comum também carrega consigo a idéia de uma vontade comum, à qual todos os cidadãos com relativa capacidade de raciocinar estão vinculados (pois se trata de bom senso ou sensatez). Essa vontade comum passa a ter uma natureza normativa visto que difere o que é bom ou ruim para a sociedade como um todo, legitimando as ações dos cidadãos na direção dessa vontade e na maneira de alcançá-la19.

Todos os membros da comunidade, conscientes de tal objetivo, conhecendo seu próprio pensamento, discernindo o que é bom do que é ruim, tomam parte, ativa e responsavelmente, na ampliação do primeiro e na luta contra o segundo, e todos os membros assumem juntos o controle dos negócios públicos (SCHUMPETER, 1986:313). Para o autor, uma das dificuldades da teoria clássica da democracia é que, segundo ele, o bem comum não é passível de uma determinação absoluta e racional, isso porque “para diferentes indivíduos e grupos, o bem comum está fadado a significar diferentes coisas” (SCHUMPETER, 1986:315).

Assim, os valores e princípios em jogo das pessoas dentro de determinada sociedade acabam por ser inegociáveis “pois os valores supremos –

19A doutrina clássica da democracia do século XVIII, em relação ao bem comum, faz referência à

própria idéia da democracia clássica antiga, uma vez que “a democracia ateniense foi marcada por um compromisso geral com o princípio da virtude cívica: dedicação à cidade-estado republicana e subordinação da vida privada aos assuntos públicos e ao bem comum” (HELD, 1987:17).

nossas concepções do que devem ser a vida e a sociedade – estão além do alcance da simples lógica” (SCHUMPETER, 1986:315).

Sobre isso, David Held salienta que

Desconsiderar a importância dessas diferenças é politicamente perigoso. Da presunção da existência de um bem comum e da afirmação de que este é um produto da racionalidade é um curto passo para se dispensar toda dissensão como sectária e irracional. Os oponentes que são meramente “sectários e irracionais” podem ser legitimamente marginalizados ou ignorados, eles podem até mesmo sofrer restrições “para seu próprio bem” se persistirem com seus protestos. A noção de um bem comum é um elemento inaceitável da teoria democrática (HELD, 1987:157).

Outro complicador da visão da democracia, chamada clássica, é que mesmo que se consiga definir algum tipo de bem comum, ou seja, que se objetive o “fim”, tal definição não é complementar em relação ao êxito na definição quanto aos “meios” ou de questões tangenciais relativas ao fim determinado.

Como foi visto, se para Schumpeter, dentro da democracia clássica o bem comum seria o “farol óbvio da política”, conseqüentemente, os outros elementos de análise (representação e soberania) estão com ele em estreito conúbio e padecem das mesmas debilidades.

A representação, na perspectiva do modelo clássico, se mostra como uma forma de se garantir que a vontade do povo ou do eleitorado seja respeitada em uma sociedade onde os mecanismos de participação direta (ex. plebiscito, referendo) acabaram, por questões técnicas, sendo limitados às grandes decisões. A representação surge, então, como alternativa da participação direta para tratar dos negócios públicos sob dois principais enfoques.

O primeiro enfoque trata do aspecto técnico, pois, na busca ou na administração do bem comum, existem casos em que “aptidões ou técnicas especiais” são necessárias. Essas tarefas, então, são delegadas a especialistas, porém tais delegações não devem afetar o princípio do bem comum20, por isso “esses especialistas simplesmente agem de maneira a realizar a vontade do povo” (SCHUMPETER, 1986:314).

20 Ressalte-se que para Schumpeter a centralidade da teoria clássica é que a questão técnica, em

relação aos negócios públicos, preserve a vontade do povo; nesse sentido difere da idéia de burocracia, tal como visto em Weber, a qual compete a eficiência e administração racional na transformação da ação política em administrativa.

O segundo cuida do aspecto político ou da dificuldade de “cada cidadão isolado ter de entrar em contato com todos os outros cidadãos sobre todos os assuntos a fim de fazer sua parte no governo ou administração” (SCHUMPETER, 1986:314). As figuras do parlamento, do gabinete, das comissões e de todas as instituições políticas são compelidas, como resultado final, a representar o povo, não como simples mandatários, mas como uma representação menos técnica que “expressará, refletirá ou representará a vontade do eleitorado” (SCHUMPETER, 1986:314), enquanto este é responsável por fazer valer, demonstrar e encarnar a sua vontade, estando, portanto, vinculado à idéia do bem comum.

Para Schumpeter, a validade na democracia clássica do bem comum é dada pela vontade comum. A vontade comum, dessa maneira, representa a fonte da soberania, a última instância do poder político. Isso porque, tendo em vista que existe um bem comum objetivo capaz de ser percebido por todos, e que não é afetado pelo principio da representação (uma vez que os representantes do povo realizam a vontade desse povo), tem-se por conseqüência que é o próprio povo (que valida o poder) o detentor da soberania.

A vontade comum posta pela doutrina clássica da democracia é originária dos indivíduos como o somatório das suas vontades. A vontade geral deve atrair todas as vontades individuais e, quando isso acontece, a vontade comum é objetivada no bem comum. A vontade comum, portanto, “por um lado unifica as vontades individuais e tende a soldá-las, através da vontade do povo; por outro lado, confere a esta última a dignidade ética exigida pelo credo democrático clássico” (SCHUMPETER, 1986:316).

A primeira posição que confronta a idéia de vontade comum, uma vez que é essa o pilar de validade da visão clássica, é que a idéia de fundir todas as vontades individuais e transformá-las em uma dimensão é tão inviável quanto a de se estabelecer um bem comum objetivo. Mesmo que se tenham escolhas individuais bem discernidas e balizadas, isso não é garantia de um amálgama homogêneo de vontades. “É a identificação de uma contradição prática entre forma e conteúdo da democracia que leva Schumpeter a reavaliar os conceitos de soberania, bem comum e racionalidade nas suas formulações pelos teóricos clássicos da democracia” (AVRITZER, 1996:105). Além de fortalecer a idéia de que o bem comum e soberania são contrafactuais, visto que só teriam como se realizar agregativamente, tais

noções obrigam a “atribuir à vontade dos indivíduos uma independência e uma qualidade racional que são de todo irrealista” (SCHUMPETER, 1986:317).

Para a formação da vontade comum, como somatória de vontades individuais, a vontade do indivíduo não pode ser qualquer uma, mas deve ser plena de características especiais, quais sejam: ser concebida através de uma capacidade de analisar as variáveis gerais dos negócios públicos, bem como ser capaz de, com essas informações, escolher opções para problemas locais e que lhe dizem respeito de forma criteriosamente racional.

Schumpeter observa porém que a racionalidade e a atuação responsável não são um produto inato da natureza humana. Ao contrário, é possível observar uma atuação mais responsável e uma vontade de ação mais efetiva nas esferas de maior interesse e campos de interação que dizem respeito diretamente ao mundo do indivíduo (família, igreja, associação profissional, clubes, amigos, lazer). O cidadão não tem um interesse em se aprofundar nas suas ações políticas como o faz em outras áreas, nem mesmo nas políticas locais, que lhe dizem respeito diretamente.

Desse modo, o cidadão típico cai para um nível mais baixo de desempenho mental assim que entra no campo político. Argumenta e analisa de uma maneira que prontamente reconheceria como infantil, se fosse na esfera de seus interesses reais. Mais uma vez se torna primitivo. Seu pensamento torna-se associativo e afetivo. (SCHUMPETER, 1986:319).

Desse comportamento podem-se tirar duas conclusões. A primeira é que tal desempenho mental inferior não é compatível com a formação de uma vontade comum, nem tão pouco é capaz de validar um bem comum objetivo e racional.

A segunda mostra que o pensamento afetivo e não-racional é incapaz de fomentar uma representação que estabeleça o bem comum. Ao contrário, um desempenho mental inferior, um pensamento primitivo e afetivo cria um sério problema de representação, pois um eleitor assim, mesmo em esferas mais próximas, “não se sente responsável pelo que fazem os políticos locais” (SCHUMPETER, 1986:325).

Vistas todas as críticas que pairam sobre a doutrina clássica da democracia, levando em conta, principalmente, as questões em relação ao bem comum, a representação e a soberania, Schumpeter propõe uma outra teoria da

democracia, segundo a qual “o método democrático é aquele acordo institucional para se chegar a decisões políticas em que os indivíduos adquirem o poder de decisão através de uma luta competitiva pelos votos da população” (SHUMPETER, 1986:336).

Nesse sentido, para o autor, não se deve tomar como óbvio que a democracia tenha uma natureza substantiva, mas ela deve representar um método para legitimação, através do povo, da escolha e produção do governo, mas não do seu funcionamento, pois

A definição de Schumpeter rompe definitivamente com a relação entre democracia e soberania ao transferir a fundamentação da democracia do conteúdo substantivo da vontade popular para o método de acordo com o qual decisões distintas são tomadas em conjunturas historicamente específicas (AVRITZER, 1996:107). Para Schumpeter, essa posição formal (modus procedendi) de compreensão da democracia possui várias vantagens porque aponta com maior clareza um critério de distinção do regime democrático e também estabelece o real papel da liderança neste regime, bem como o de interesses de grupos específicos, fixa o lugar da competição política, observa a relação entre democracia e liberdade individual, estabelece a função do eleitorado e a importância da regra da maioria.

Norberto Bobbio, seguindo a linha schumpteriana, forma seu conceito formal de democracia, segundo o qual cabe a esta estabelecer as regras do jogo político21, caracterizadas por procedimentos universais, onde assumem destaque as regras do sufrágio universal, das opções reais de escolha e do princípio da maioria (BOBBIO, 1994:327).

21 “1) o órgão político máximo, a quem é assinalada a função legislativa, deve ser composto de

membros direta ou indiretamente eleitos pelo povo, em eleições de primeiro ou segundo grau; 2) junto ao supremo órgão legislativo deverá haver outras instituições com dirigentes eleitos, como os órgãos da administração local ou o chefe de Estado (tal como acontece nas repúblicas); 3) todos os cidadãos que tenham atingido a maioridade, sem distinção de raça, de religião, de censo e possivelmente de sexo, devem ser eleitores; 4) todos os eleitores devem ter voto igual; 5) todos os eleitores devem ser livres em votar segundo a própria opinião formada o mais livremente possível, isto é, numa disputa livre de partidos políticos que lutam pela formação de uma representação nacional; 6) devem ser livres também no sentido em que devem ser postos em condição de ter reais alternativas (o que exclui como democrática qualquer eleição de lista única ou bloqueada); 7) tanto para as eleições dos representantes como para as decisões do órgão político supremo vale o princípio da maioria numérica, se bem que podem ser estabelecidas várias formas de maioria segundo critérios de oportunidade não definidos de uma vez para sempre; 8) nenhuma decisão tomada por maioria deve limitar os direitos da minoria, de um modo especial o direito de se tornar maioria, em paridade de condições; 9) o órgão do Governo deve gozar de confiança do Parlamento ou do chefe do poder executivo, por sua vez eleito pelo povo." (BOBBIO, 1994:327).

Devem-se, no entanto, salientar algumas críticas ao elitismo competitivo, principalmente às idéias de Schumpeter. David Held (1987) ressalta uma crítica metodológica, qual seja, a de unificar várias teorias como democracia clássica, sem estabelecer minimamente suas diferenças ou colocando-as todas sob um rótulo irrealista sem perceber suas contribuições. Indo além,

(...) todo o ataque de Schumpeter à “democracia clássica” repousa em um “erro de categoria”. Ele erroneamente supôs, como vários críticos já observaram, que a evidência empírica da natureza das democracias contemporâneas poderia diretamente ser tomada como base para refutar os ideais normativos envolvidos nos modelos clássicos (HELD, 1987:162).

Outra crítica importante refere-se à participação, visto que a ação do indivíduo enquanto cidadão, ou seja, como aquele capaz de influir nas decisões políticas da sua comunidade, para Schumpeter, é vista como uma ação inócua, com sentido emocional, infantil, ou o que é pior, a noção de cidadania como um ideal cívico, “entendido como a imersão ‘quente’ na coletividade e a identificação ardorosa com ela” (REIS, 2002:25), não é possível, pelo simples fato de o indivíduo não ser capaz, pela sua própria natureza, de realizar a ponte entre sua esfera pessoal e a esfera pública.

Tal visão reflete para Held quase uma negação do próprio ideal liberal, centrado no indivíduo como capaz de uma ação voluntária. Deste modo, incluindo nessa última crítica o pensamento de Weber, o referido autorquestiona:

Se o eleitorado é considerado como incapaz de formar julgamentos razoáveis sobre questões políticas importantes, por que ele deveria ser considerado capaz de discriminar entre grupos alternativos de líderes? Com que base poderia-se julgar adequado o veredicto do eleitorado? Se o eleitorado é capaz de avaliar líderes competentes, ele não é certamente capaz de compreender questões-chave e discriminar entre plataformas rivais? (HELD, 1987:164).

Consideram-se essas questões pertinentes e a crítica válida, porém a perspectiva para tal problema dada por Weber parece constituir um caminho diferenciado do traçado por Schumpeter, pois como visto anteriormente, Weber não compactua com a idéia de uma natureza irracional do indivíduo para questões públicas, ou pelo menos para uma ação voluntária. Ele, ao comentar sobre um agir emocional, refere-se à massa e mostra que essa, sim, é incapaz de possuir uma ação racional, antecipando um ponto importante, que posteriormente foi

sistematizado no estudo de Arrow, que resultou no chamado “Teorema da Impossibilidade” ou “Teorema de Arrow”. Segundo esse teorema, em determinadas configurações de preferências individuais, a escolha social não teria o atributo da transitividade, ou seja, mesmo que as preferências individuais se dêem de forma racional, no seu conjunto o que existe é a impossibilidade de uma decisão social ser “única e estável” (LIMONGI, 1994:5).

Assim ao se considerarem três indivíduos (I, II, III) com três diferentes opções (X, Y, Z), estabelecidas segundo as preferências da seguinte forma: I=X>Y>Z; II= Y> Z> X; III= Z> X> Y, nota-se que tais indivíduos, ao escolherem entre duas preferências, votando primeiro entre X e Y, depois entre Y e Z, e por fim entre X e Z, produzirão o seguinte resultado X>Y>Z>X, ou seja, as escolhas não são nada transitivas. Por isso a solução weberiana plebiscitária; ou seja, as alternativas do sim ou não, evita a não-transitividade.

Entretanto, mesmo essa solução não afasta a crítica acerca de uma participação ampliada, pois o elitismo competitivo, seja o de Weber, seja o de Schumpeter, caracterizou a democracia, sobretudo, como forma de escolha de lideranças e mecanismos de limitação de seus poderes. A sociedade de massa trazia como própria a incapacidade da participação política, visto que a participação emocional das massas era capaz de elevar lideranças através do carisma, porém sem a contrapartida democrática de contê-las.

No documento nilolimadeazevedo (páginas 38-45)