4 APLICABILIDADE DO JUIZ NATURAL
4.2 HIPÓTESES DE APLICABILIDADE DO JUIZ NATURAL
4.2.3 O juízo arbitral e o juízo natural
Havendo conflito de interesses entre os particulares, a Lei n. 9.307 de 1996 autoriza as partes, desde que capazes, a nomearem um terceiro para a resolver o litígio. Trata-se da heterocomposição da disputa estabelecida.195 Em outras palavras, havendo uma convergência de vontades no sentido de nomear um terceiro, com o escopo de oferecer uma solução ao litígio, que não o juiz estatal, comprometendo, assim, os litigantes a acatarem sua decisão, tem-se a arbitragem.
Desse modo, a arbitragem, por ser método alternativo de solução dos conflitos de natureza patrimonial disponível196, tem adquirido cada vez mais prestígio na sociedade contemporânea, sobretudo por ser um instrumento hábil a atingir os objetivos para os quais foi idealizada.197 É que a demora nas soluções dos conflitos, pela via judicial, termina por acirrar ainda mais os ânimos dos litigantes, fazendo com que procurem outros meios mais céleres de solução de conflitos de interesses.
Nesse sentido, o ponto fulcral da arbitragem é a autonomia da vontade, ou seja, a liberdade dos contratantes para estabelecer o modo pelo qual
195
Cf. FURTADO, Paulo. Juízo Arbitral. 2. ed. Salvador: Nova Alvorada, 1995. p. 50. 196
De acordo com o artigo 1º da Lei n. 9.307 de 1996, devidamente seguido pela jurisprudência dos tribunais:
De acordo com o art. 1º da Lei nº 9.307/96 somente os direitos disponíveis podem ser dirimidos por meio da arbitragem [...]. De fato, a cláusula compromissória pactuada entre as partes o foi por pessoas capazes, tendo o contrato, por objeto, direitos patrimoniais disponíveis, como exige o art. 1º da Lei de Arbitragem. (TJRJ – Apelação Cível n. 28020/2002. Décima Terceira Câmara Cível. Rel. Des. Ademir Paulo Pimentel. j. 27.03.2003)
197
FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias. Manual da Arbitragem. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997. p. 12.
o litígio será resolvido. Tanto assim que, apesar de ser regra a aplicação do direito, é possível, por opção das partes, a aplicação direta da equidade198 como modelo para a solução das demandas, 199 funcionando o árbitro, nesta última hipótese, como uma espécie de mediador amigável.200
Pedro Batista Martins, comentando a Lei de Arbitragem, preleciona que:
Arbitragem e liberdade caminham juntas, amalgamadas como causa e efeito. Liberdade é a própria gênese do instituto. O seu DNA comprova essa assertiva. A autonomia da vontade é da essência do instituto desde os seus primórdios. É a mola propulsora e indissociável da arbitragem.201
E completa:
Com fundamento nesse princípio é possível afastar os potenciais conflitos de jurisdição, tão comuns nas discussões judiciais atinentes aos negócios internacionais. É a autonomia da vontade que viabiliza a nomeação de árbitros, em detrimento da sujeição da causa aos juízes togados. Enfim, a liberdade é a tônica no sistema do direito arbitral. A arbitragem existe e se processa por ela, com ela e para ela.202
Logo, consoante os parágrafos do artigo 2º, poderão as partes escolher quais são as regras de direito que serão aplicadas, estabelecendo, inclusive, que a arbitragem se efetive com base nos princípios gerais do direito,
198
Carlos Alberto Carmona ensina que, por oposição ao direito estrito, decidem os árbitros por equidade quando, desde que autorizados pelo sistema jurídico, afastam o direito posto que estimam injusto no caso concreto, aplicando o que entender adequado, sem que isso possa ensejar qualquer vício no julgamento. (in Arbitragem e Processo. São Paulo: Malheiros, 1998. p. 62)
199
Cf. artigo 2º da Lei 9.307 de 1996. 200
NERY JÚNIOR, Nelson. Princípios do Processo Civil na Constituição Federal. 7. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2002. p. 85
201
MARTINS, Pedro A. Batista. Apontamentos sobre a lei de arbitragem. Rio de Janeiro: Forense, 2008. p. 45.
202
desde que não haja violação aos bons costumes e à ordem pública.
Cabe ao árbitro, ao proferir sua decisão, seja por direito ou por equidade, observar todos os requisitos obrigatórios da sentença arbitral previstos no artigo 26 da referida legislação, sob pena de nulidade.203 A ausência de qualquer desses elementos poderá gerar uma ação de nulidade de sentença arbitral.204
Vale ressaltar que, nos termos do inciso IV do artigo 475-N do Código de Processo Civil, a sentença proferida pelo juízo arbitral constitui título executivo judicial, devendo ser executada no Judiciário, uma vez que o árbitro não possui competência para executar suas próprias sentenças.
Assim sendo, poder-se-ia imaginar a inconstitucionalidade da lei de arbitragem, em razão da inafastabilidade do controle jurisdicional e, por conseguinte, do juiz natural, já que a Constituição Federal não admite juízo ou tribunal de exceção.
A análise mais cuidadosa da questão, todavia, faz com que a percepção seja completamente diferente. Ora, de início, como já dito alhures, a arbitragem é mera faculdade das partes, uma vez que não há qualquer dispositivo legal que as obrigue a se submeterem ao juízo arbitral. Este, portanto, é o resultado de um livre acordo entre as partes. Em outras palavras, as partes dispõem de autonomia para escolher entre o Judiciário e o juízo arbitral.
Como muito bem ressaltado por Leonardo Carneiro Cunha, a Constituição Federal “não admite é que dispositivo legal obrigue as partes a submeterem suas divergências a árbitros, vedando acesso aos órgãos jurisdicionais”.205 Portanto, não há de se falar em qualquer mácula a inafastabilidade do controle jurisdicional, ainda mais porquanto qualquer nulidade do juízo arbitral poderá ser revista perante o Poder Judiciário.
203
Art. 32. É nula a sentença arbitral se: [...]
III – não contiver os requisitos do art. 26 desta Lei. 204
Art. 33. A parte interessada poderá pleitear ao órgão do Poder Judiciário competente a decretação da nulidade da sentença arbitral, nos casos previstos nesta Lei.
205
CUNHA, Leonardo José Carneiro da. Jurisdição e competência. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 78.
Da mesma forma, o juízo arbitral se coaduna perfeitamente com o princípio do juiz natural,206 pois estes são escolhidos pelas próprias partes para solucionarem questões relativas a direitos disponíveis, sem qualquer obrigatoriedade imposta pela lei. Note-se que, em tal grau, o compromisso arbitral não passa de um negócio jurídico celebrado entre as partes, devidamente capazes, que se obrigam ao crivo de uma sentença proferida por um juízo não togado e por elas escolhido, a fim de resolver um conflito concernente a um direito disponível. Afinal, consoante as lições de Nelson Nery Júnior, contratos e negócios jurídicos também existem no direito processual.207
Outrossim, a instituição do juízo arbitral é uma espécie de justiça privada, cabendo a jurisdição estatal respeitar o compromisso como qualquer outra convenção privada.208 Ademais, o árbitro exerce verdadeira jurisdição, tanto que sua decisão se reveste com a autoridade da coisa julgada.209 E mais: o próprio Estado reconhece a jurisdição do julgamento arbitral, uma vez que confere a suas decisões a natureza de título executivo, como o susomencionado. Nesses termos, deduz-se que não há qualquer incompatibilidade entre o juízo arbitral e o princípio do juiz natural.