3 CONTEÚDO DO JUIZ NATURAL
3.4 O CONTEÚDO E O ALCANCE DO JUIZ NATURAL
3.4.3 Juiz natural: imparcialidade e independência
122
DINAMARCO, Cândido Rangel. Ob. cit. p. 226. 123
DIDIER JÚNIOR, Fredie. Pressupostos Processuais e Condições da Ação: o juízo de admissibilidade do processo. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 146.
124
DIDIER JÚNIOR, Fredie. Pressupostos Processuais e Condições da Ação: o juízo de admissibilidade do processo. Ob. cit. p. 149.
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Em sentido contrário, Ada Pellegrini Grinover, Antonio Scarance Fernandes e Antonio Magalhães Gomes Filho defendem que o princípio do juiz natural é verdadeiro pressuposto de existência do processo: “[...] o juiz natural é condição para o exercício da jurisdição. Sem ele, a própria relação processual não pode nascer, é apenas aparente, é um não-processo. Estamos aqui, inquestionavelmente, perante um verdadeiro pressuposto de existência do processo, em cuja ausência não pode se falar em mera nulidade da relação processual”. in GRINOVER, Ada Pellegrini; FERNANDES, Antonio Scarance; GOMES FILHO, Antonio Magalhães. As nulidades no processo penal. 9. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006. p. 50. Concessa venia,o assunto envolve uma questão lógica. Na hipótese de um processo não tramitar perante o seu juízo natural, não de se falar que esse não existe, haja vista que os atos foram praticados. Trata-se sim, reiterando o já dito, de um requisito de validade do processo, pois, nessa circunstância, o processo, apesar de existir, é nulo.
A imparcialidade do juiz não é apenas um mero atributo da função jurisdicional, mas sim a sua essência. Nesse sentido, merecedora de destaque, mais uma vez, é a doutrina de Cândido Dinamarco:
A imparcialidade, conquanto importantíssima, não é um valor e si própria mas fator para o culto de uma fundamental virtude democrática refletida no processo, que é a igualdade. Quer-se o juiz imparcial, para que dê tratamento igual aos litigantes ao longo do processo e na decisão da causa.126
Em relação à figura do magistrado, a imparcialidade é o seu requisito anímico, ou seja, está relacionada à isenção de animus para o julgamento de uma demanda, afastando-se de qualquer interesse material em disputa, o que não significa que o julgador deva ser descompromissado com o litígio. Pelo contrário, a imparcialidade, nesse aspecto, é uma situação jurídica passiva127, pois vincula que o resultado seja o mais justo e adequado com o ordenamento.128
126
DINAMARCO, Cândido Rangel. Ob. cit. p. 220. 127
Torquato de Castro Jr., com o aspecto central na relação homem-objeto, nos apresenta uma interessante definição de situação jurídica. Segundo ele, fortemente inspirado em Carnelutti, situação jurídica é o modo de direito que se instaura decorrente de um determinado fato jurídico, traduzindo-se na disposição normativa de sujeitos concretos diante de certo objeto. “Isto é, posicionados em certa medida de participação de uma res, que se define como seu objeto”. in CASTRO JR, Torquato de. Teoria da situação jurídica em direito privado nacional. São Paulo: Editora Saraiva, 1985. p. 50.
Já para André Fontes, a situação jurídica constitui uma conseqüência da norma jurídica. No seu entender, a própria relação jurídica constitui uma situação jurídica. Entretanto, adverte que tal ótica da conseqüência normativa tolhe ainda mais um especial atributo do qual é desprovida a relação jurídica: a de não se referir apenas ao sujeito, mas também ao objeto do direito.
Em pensamento mais simples e imediato, de acordo com André Fontes, a situação jurídica é titularizada por uma pessoa, pela concretização de uma norma jurídica. Logo, ela constitui a prescrição derivada de uma descrição legal realizada, de modo que a situação jurídica é posterior em relação ao fato.
Além disso, interessantes são as classificações da situação jurídica trazidas pelo autor. Como muito bem aduzido, os critérios ora apresentados não são exaurientes, mas de fundamental importância para sua compreensão.
Dentre elas, as mais importantes são as que dividem as situações jurídicas em objetivas e subjetivas. As primeiras são aquelas imediatamente estabelecidas pela norma jurídica e derivadas, em regra, de um ato voluntário, atribuindo alguma condição de vantagem a alguém. Comumente admitem a possibilidade de renúncia e, na maior parte das vezes, resultam da mera aplicação da lei. Já a situação jurídica subjetiva é aquela em que se encontra uma pessoa diante da aplicação de uma norma jurídica. Estas últimas se subdividem em ativas e passivas. Trata-se de uma subclassificação que atribui vantagem ao sujeito em face do efeito de uma determinada norma. Assim, as situações jurídicas subjetivas passivas só podem ser entendidas em função de suas
Não basta o juízo competente, objetivamente capaz, é necessário que seja imparcial, subjetivamente capaz.129
Ora, seria absurdo o Estado, após chamar para si a atribuição de solucionar conflitos, permitir que seus agentes, nesse momento ‘presentando’ o próprio Estado, o fizessem movidos por interesses próprios, sem o comprometimento com o valor da justiça.
Entretanto, não se deve presumir que a exigência de imparcialidade esteja conectada a uma suposta exigência de neutralidade do juiz. Esta é absolutamente impossível, haja vista que o juiz, como qualquer ser humano, exerce suas atribuições embasado em razão e emoção. Ao julgar, o magistrado está amparado em premissas de índole ideológica, cultural, econômica etc.130
Em suma, os juízes têm total e legítima liberdade para interpretar os textos legais e os fatos, seguindo os valores da sociedade.
O próprio sistema de pluralidade de graus de jurisdição e a publicidade dos atos processuais operam em favor da imparcialidade, uma vez que funcionam como freios a possíveis excessos e parcialidades.
Tanto assim que, apesar da Constituição não dedicar termos à imparcialidade do juiz, contém nesta uma série de dispositivos com o fito de assegurar que todas as demandas postas em juízo sejam processadas e julgadas por juízes imparciais.
Nesse diapasão, para que um cidadão seja validamente julgado pelo seu juízo natural, além de legítima e regularmente investido no exercício da jurisdição (nos termos dos artigos 93, inciso I; 101, parágrafo único; 104, parágrafo
simetrias ativas. Aquelas são entendidas como qualquer situação de desvantagem ou de sujeição ao poder ou gravame. in FONTES, André. A pretensão como situação jurídica subjetiva. Belo Horizonte: Editora Del Rey, 2002. p. 90.
128
CABRAL, Antônio do Passo. Imparcialidade e impartialidade. Por uma teoria sobre repartição e incompatibilidade de funções nos processos civil e penal. Teoria do Processo. In: Didier Jr, Fredie; Jordão, Eduardo Ferreira (coord.). Salvador: JusPODIVM, 2008. p. 103.
129
DIDIER JÚNIOR, Fredie. Ob. cit. p. 92. 130
Em outro tipo de leitura, Antônio do Passo Cabral defende que imparcialidade é sinônimo de neutralidade, na medida em que aquela significa que a motivação do magistrado é justamente a correção no seu proceder, para que a solução proferida seja a “justa/legal”. in Imparcialidade e impartialidade. Ob. cit.. p. 101.
único; 107; 119; e 123, parágrafo único; todos da Constituição Federal), deve o órgão julgador dispor das garantias ínsitas do seu exercício normal e autônomo, quais sejam, vitaliciedade, independência política e jurídica, inamovibilidade e, por fim, irredutibilidade dos seus vencimentos131 (incisos VIII e VIII-A do artigo 93 e artigo 95, também da Constituição Federal).
Assim, ao proibir os juízos de exceção, além de cercar os magistrados com uma série de prerrogativas e impedimentos, garantindo a naturalidade dos juízos, objetiva a Constituição deixar os julgadores longes e imunes de qualquer influência danosa.
Conclusivas são os ensinamentos de Piero Calamandrei:
A asegurar la imparcialidad de los jueces tiende también la garantía fundamental de orden constitucional que tradicionalmente se denomina del ‘juez natural’ [...].132
Deste modo, a imparcialidade do juiz, como já mencionado, não é apenas um mero atributo da função jurisdicional, mas sim a sua essência. Em vista disso, o caráter aderente do juiz no processo, pela completa jurisdicionalização deste, leva a uma nova elaboração da garantia do juiz natural, não mais como um simples atributo deste, mas como um pressuposto de sua própria existência.
Vale trazer, mais uma vez, a lição de Luigi Ferrajoli:
A escolha do modelo de juiz – de seus requisitos pessoais, de suas modalidades de seleção e recrutamento, de sua posição constitucional, dos critérios de determinação de suas competências e das formas de controle de sua atividade – de fato está ligada ao modelo de juízo previamente escolhido, e, portanto, à fonte de legitimação
de modo geral atribuída à jurisdição.133 (grifo)
131
Nesse sentido: TUCCI, Rogério Lauria. Direitos e Garantias Individuais no Processo Penal Brasileiro. 2. ed. São Paulo: Revistas dos Tribunais, 2004. p. 110.
132
CALAMANDREI, Piero. Instituciones de Derecho Procesal Civil. Buenos Aires: Ediciones Jurídicas Europa-America, 1962. p. 47.
133
Infere-se, portanto, que mais do que um direito subjetivo do cidadão, o juiz natural é a garantia da própria jurisdição, seu elemento essencial, sua qualificação substancial. Em suma, sem a garantia do juiz natural, mormente o seu aspecto substancial, não há função jurisdicional.134