LEGAL STANDARDS OF ANTISEMITISM IN BRAZIL
2 JUDAÍSMO E PRECONCEITO
Os judeus pertencem a um povo sinistro, apartado de todos os outros, não somente por seus costumes, mas por características comuns:
arrogante ainda que servil, legalista ainda que corrupto, extravagante ainda que secreto. Sempre em busca do lucro, os judeus são impla-cáveis na mesma medida que ardilosos. Leais apenas a si mesmos, onde quer que se estabeleçam formam um Estado dentro do Estado, predando as sociedades em que secretamente habitam. Sua mão oculta controla os bancos, os comércios e a mídia. E quando revolu-ções ocorrem ou narevolu-ções vão à guerra, são os judeus que - de forma coesa, poderosa, astuta e insistente - invariavelmente puxam os fios e colhem os frutos. (KLUG, 2014, p. 7)
Há uma grande dificuldade em catalogar os estudos jurídicos sobre o ódio contra judeus em nosso país. São raros os esforços autóctones de reflexão a respeito da condição judaica no Brasil em uma análise específica sobre judeus e o judaísmo que não
desemboquem em um estudo comparativo com outras minorias discriminadas, como os negros e índios. Esta constatação pode revelar o próprio sucesso da integração da comunidade judaica na sociedade brasileira, motivo pelo qual não são geradas angústias específicas com relação ao preconceito brasileiro em parte desta comunidade (SORJ, 2015).
À míngua de estudos específicos, Sorj (2015) ressalta a ausência de reflexão da própria comunidade sobre as peculiaridades do judaísmo no Brasil. Em uma situação defensiva, a qual se apoia em estudos defasados e teorias importadas do contexto de Israel e da Europa, o discurso centrado no antissemitismo e na memória das perseguições sofridas pelo povo judeu leva muito pouco em conside-ração a experiência real do jovem judeu brasileiro.
Já os estudos que versam sobre o tema são demasiadamente generalistas, tratando de forma idêntica o ódio em desfavor do judaísmo latino-americano e aquele visto nos Estados Unidos ou em Israel, o que acaba, por também, demonstrar a insensibilidade com relação às diferenças culturais e à idiossincrasia brasileira.
Assim, por exemplo, não é suficientemente estudada a enorme distância existente entre o modo de vida judaico na Argentina, no qual o antissemitismo é uma experiência cotidiana, da vivência dos judeus no Brasil. Isto ratifica a necessidade de verticalização em tais questões, antes de os mecanismos jurídicos que tutelam a comunidade judaica no Brasil serem estudados propriamente (CARNEIRO, 2007).
Epelboim (2006) enfatiza que a aquisição, a transmissão e a manutenção de heranças culturais implicam a percepção, por parte da pessoa israelita, do pertencimento a um grupo etnicamente dife-rente dos demais. No aspecto educacional, a condição de judeu pode ser transmitida ao longo das gerações por meio de modos formais:
escolas israelitas e sinagogas; ou informais: clubes (como a Hebraica na cidade de São Paulo), participação em entidades assistenciais, grupos sociais, tradições familiares, etc.
De forma a agregar todos esses aspectos, a definição sobre o judaísmo recai, sobretudo, na associação do indivíduo com o sentimento de pertença à comunidade judaica. Assim, é possível
defender a identidade judaica daquele que assim a proclamar, desde que presente o nexo subjetivo cultural.
Lafer (2005, p. 81) em seu parecer ao Supremo Tribunal Federal, no caso Ellwanger ressalta o seguinte poema do folclore pernambucano, que refletia o preconceito contra os israelitas desde outrora no Brasil:
Quem matou meu passarinho? Foi judeu, não foi cristão. Meu passa-rinho tão manso. Que comia em minhas mãos. Quem cospe em cristão é judeu. Quem promete e falta é judeu. Quem come carne em dia da Paixão é judeu. Judeu bebe sangue de gente. Judeu é que come carne de menino novo.
O antissemitismo pode ser identificado como uma prática ou ideia que se fundamenta na percepção do sujeito social (indivíduo, comunidade, instituição ou nação), a exemplo do judeu conspirador, dominante ou trapaceiro. Contemporaneamente a discriminação odiosa contra os judeus assume diversas formas e pode ser entendida como um gênero dos quais se extraem várias espécies. A intrínseca relação entre o antissemitismo e o antissionismo pode demonstrar a faceta no novo antissemitismo.
Há o crescimento de ideias oposicionistas que sustentam a equi-paração do tratamento dispensado pelos israelitas aos palestinos àquele praticado pelos nazistas aos judeus. Mencionando o Relatório nº 17/7700 encaminhado ao Parlamento Federal Alemão, que cola-cionou os resultados da pesquisa realizada em 2011, estima-se que 49% da população alemã concorde plenamente com a seguinte afirmação: o que os judeus de Israel fazem com os palestinos hoje é basicamente idêntico ao que os nazistas fizeram com judeus no passado (WETZEL; LONGERICH, 2011).
Assim, o indivíduo preconceituoso que outrora encontrava um contexto social de maior leniência para expor seu discurso de ódio, hoje o oculta através de uma retórica com viés politizado.
Segundo Seyferth (1981, p. 9-21), o elo entre os atributos de identidade e o conceito de um sentimento nacional (desvin-culação de uma pátria geográfica) são fundamentais para entendimento da ocorrência do ódio contra estrangeiros. Buscar
as origens comuns, o sentimento nacionalista e a negação ao estrangeiro são os mecanismos que unem uma nação, em patamar superior à própria ideia de pátria geografia. Daí a importância dada ao sangue (raça, etnia, etc.) e ao idioma como elementos fundamentais da nacionalidade. Não é à toa que no alemão, a palavra volk137 signifique simultaneamente nação, etnia e povo. A conexão que une o povo (ou nação) é designada na língua germânica de volksgemeinschaft e deutschtum, que significa uma comunidade de interesses e uma cultura, raça e língua comuns – a consciência nacional alemã.
O extremismo de identidades e o fundamentalismo de seus porta-dores são perceptíveis no corpo e nas ações dos indivíduos, em suas roupas e no estilo de vida. Os integrantes mais ortodoxos são mais facilmente reconhecíveis na medida em que consomem mais bens compatíveis com seus padrões de identidade. Podemos constatar o aumento da ortodoxia no Judaísmo pelo aumento do consumo estritamente direcionado e pelo crescimento da segregação de suas entidades, que de um modo ou outro devem ser reconhecidas como desencaixes sociais ou órgãos glocais. (GUERTZENSTEIN, 2008, p. 98-99)
De igual forma, pode-se concluir que os judeus vêm formando uma espécie de ummah israelita, a saber, uma identidade cultural sem amarras com determinado território. Diferentemente do islã globalizado, o judaísmo globalizado não necessariamente obedece
137 É interessante o paralelo na medida em que os conceitos sobre a identidade dos povos alemão e judeu se convergem em alguns aspectos. Muito embora a doutrina nacional-socialista tenha com um de seus pilares a contiguidade territorial no que se denominava lebensraum (espaço vital), como um substrato territorial mínimo para o desenvolvimento pleno dos povos germânico, romano e ariano, a reunião dos povos dentro de uma identidade unificada (pangermanismo) destaca como o conceito de povo (volk) ganha importância na formação do organismo nazista. De fato, os direitos individuais eram relegados aos interesses públicos de uma “comunidade imaginada”, submissa aos desígnios do Führer. Nesta comunidade, o fundamento mais importante era o princípio moral nacional, os atributos vitais da nação e a primazia das leis da vida social e em comunidade, a saber, os verdadeiros elos entre o volk e Hitler. Assim muitas destas características parecem também ser apreendidas no estudo da identidade nacional do povo de Israel.
à primazia do caráter religioso. Esta configuração de identidade merece ser assistida em sua plenitude.
No momento em que o indivíduo judeu é percebido conforme as características advindas de um estereótipo específico, formado por meio de categorias típicas do judeu imaginário, ocorre o antissemi-tismo. No que diz respeito ao antissionismo e Israel, incluindo-se aí tanto as posições contrárias à existência do Estado, quanto àquelas que criticam as decisões políticas de seu governo. Considerou-se que, quando são percebidas como representante do judeu, isto é, de traços construídos pelo antissemitismo acerca dos judeus, tais manifestações devem ser reconhecidas como expressões de antisse-mitismo (SORJ, 2007).
Contemporaneamente a discriminação odiosa contra os judeus assume diversas formas e pode ser entendida como um gênero dos quais se extraem várias espécies. A intrínseca relação entre o antissemitismo e o antissionismo pode ser sumarizada da forma apresentada a seguir.