CONSTRUCTION OF IUS ECCLESIA: LAW AS A FORM OF SEPARATION BETWIXT RELIGION AND STATE
2 O PAPA E O IMPERADOR
As relações entre o Papa e o Imperador nem sempre foram pacíficas durante o final do Império Romano do Ocidente e a Idade Média.
No final do século V, após Odoacro ter destronado Rômulo Augusto em 476, o papa Gelásio I enfrentava o avanço do cesaropapismo dos imperadores bizantinos que indicavam desejo de adentrar nos assuntos organizacionais da Igreja Católica. Em carta dirigida ao Imperador Anastácio I, o papa estabelece os conceitos de potestas do imperador e auctoritas papal130 em uma tentativa de delimitar as
130 Os dois conceitos não significam, exatamente, poder e autoridade como o falso cognato nos levaria a concluir. De fato, auctoritas está ligada ao poder jurídico de autorizar um ato enquanto potestas é concernente ao poder de execução. Essa distinção é adequadamente feita por Cícero em seu De legibus: “Sequitur enim: ‘Eius decreta rata sunto.’ Nam ita se res habet, ut si senatus dominus sit publici consilii, quodque is creverit defendant omnes, et si ordines reliqui principis ordinis consilio rem publicam gubernari velint, possit ex temperatione iuris, cum potestas in populo, auctoritas in senatu sit, teneri ille moderatus et concors civitatis status, praesertim si proximae legi parebitur; nam proximum est: ‘Is ordo vitio careto, ceteris specimen esto.’”
Percebe-se que a distinção é uma analogia ao poder que o povo exerce em relação a auctoritas que pertence ao senado (auctoritas in senatu sit). Cícero define a auctoritas como sendo o órgão mediador, conselheiro das vontades populares (CICERO, 2014, livro 3, 28)
esferas de influência dos regentes temporais e espirituais e declarar a autonomia organizacional da Igreja (MENACHE, 2012, p. 59).
Na carta, Gelásio esclarece Anastácio que o papa e seus minis-tros são os responsáveis pela salvação eterna de todos os homens, de modo que a missão da ecclesia é de natureza atemporal e transcen-dente. Aos imperadores e aos demais governantes seculares, cabe a obrigação de zelar pelos seres humanos em sua vida terrena. Gelásio entende que o dever da Igreja e de seus sacerdotes mostra-se de maior responsabilidade, posto ser objeto de análise no Julgamento Final (SOUZA e BARBOSA, 1997, p. 16).131
Cria-se o que ficou conhecido como “Doutrina das Duas Espadas”
ou “Teoria das Duas Espadas” (BERMAN, 1997, p. 93). A analogia é oriunda da passagem do Evangelho de Lucas 22, 38-39 em que os discípulos aproximaram-se de Jesus apresentando duas espadas e este responde com um misterioso “É o suficiente” (CASPARY, 1979 p.
3). Ao longo de toda a hagiografia medieval, contudo, as duas espadas misteriosamente aludidas por Jesus Cristo ganharam a tradicional forma de “poder temporal” e “poder espiritual” que conhecemos hoje (LOVE, 1967, p. 72).
Em vista de resguardar o seu “poder espiritual” de interferên-cias não desejadas das autoridades seculares, Gelásio convoca
131 A carta em questão dirigida de Gelásio a Anastácio é catalogada como epístola 8 na série de correspondências deste papa. A carta em questão se encontra traduzida, na íntegra, em SOUZA (2012, pp. 34-35) da qual se destaca o esclarecedor trecho: “Augusto Imperador, são principalmente dois os poderes através dos quais se governa o mundo: a autoridade sagrada dos pontífices e o poder real. Destes dois, é mais grave o peso dos sacerdotes, pois estes deverão prestar contas na ocasião do julgamento divino inclusive pelos próprios reis da humanidade. [...] Ora, no tocante ao governo da administração pública, os próprios sacerdotes, cientes de que o poder te foi conferido pela vontade divina, obedecem às tuas leis [...]. De modo que a todos os sacerdotes em geral, que administram retamente os divinos mistérios, convém que os corações dos fiéis lhes sejam submissos. Tanto mais, por acaso, não se deve prestar obediência à cabeça da Sé Apostólica [...]? Como Tua Piedade sabe, nada pode colocar-se, graças a recursos puramente humanos, acima da posição daquele a quem o chamado de Cristo preferiu a todos os outros e a quem a Igreja reconheceu e venerou sempre como seu primado. As coisas fundamentais por disposição divina podem ser atacadas pela vanglória humana, mas não podem indubitavelmente vir a ser conquistadas por nenhum poder humano.”
Dionísio, o Exíguo, para compilar as decisões canônicas aufe-ridas em concílios e decretais em ordem cronológica (GIBERT, 1987, p. 18). Desta forma, o papa avança na direção da ius ecclesia tanto teoricamente, ao expressar para o imperador a teoria das duas espadas e a independência da Igreja face o poder secular, quanto praticamente, na criação de um direito próprio mediante a compilação de decisões da Igreja.
Todavia, no decorrer do Medievo, as relações entre a Igreja e o poder secular alteraram-se, integrando e, por conseguinte, confun-dindo os poderes, entre o rei que defende a fé cristã e o papado que consagra e abençoa os reis cristãos que lutam a favor da cris-tandade, ameaçada por inimigos externos, como muçulmanos, mongóis, bem como por adversários internos que se contrapunham à autoridade papal, como os cristãos bizantinos e todos os hereges.
(LE GOFF, 2019, p. 44).
A nova situação política obrigava o papado da época a buscar uma nova forma de oferecer e resguardar a unidade da comuni-dade cristã. Tendo a fé como única força de coesão, remontando aos antigos cristãos que, na figura de Bardaisan, conceberam o primado de unidade ao proclamar que, onde quer que seja o lugar e as leis, jamais se poderia olvidar da palavra do Messias (BROWN, 1999, p. 22).
Vale lembrar, contudo, que a Igreja Católica enfrentava uma indevida intromissão em sua organização por parte das elites locais, como os reis, príncipes e senhores, assim como das renas-centes comunas da Península Itálica. A tentativa de centralização do poder, por meio da figura do Imperador, forçou a Igreja a lutar pela recuperação de sua independência, garantindo ao sacerdócio a manutenção e a deliberação sobre as coisas sacras (BERMAN, 1997, p. 93). Contudo, a aposta do papado não produziria os frutos esperados e, nos séculos seguintes, a Igreja assistiria a um completo controle dos Imperadores sobre os assuntos sagrados e, principalmente, sobre o clero. Além disso, após o enfraque-cimento do Sacro Império Romano do Ocidente e após a morte do Papa Silvestre II, o poder do papado tornou-se refém da elite romana (LE GOFF, 2017, p. 85).
A instituição eclesiástica tentava se resguardar das indevidas ingerências e interferências seculares de toda forma. Contudo, ao que se assistiu foi uma apropriação do direito canônico em prol dos interesses temporais (GIBERT, 1987, p. 92). Grande escândalo ocorre quando aparecem os forjados decretos de Isidoro: em meados do século IX, autoridades seculares falsificaram uma série de cartas e, aleivosamente, atribuíram-nas como sendo de decretais e concílios nos séculos IV e V (BERMAN, 1997, p. 93).
Isoladamente, Nicolau I tentou asseverar a auctoritas papal não somente sobre o clero, mas também sobre reis e imperadores, ao estabelecer que estes não poderiam nomear bispos ou abades para ocupar as sedes vacantes, bem como o clero não poderia se imis-cuir na jurisdição secular (BERMAN, 1997, p. 93). Todavia, Nicolau I restou ignorado por reis e imperadores, e o papado desceu ao seu ponto mais baixo no século IX – período conhecido por saeculum obscurum (ZÖLLER, 2019, p. 80).
A decadência da figura do imperador e o enfraquecimento do papado legou o comando da Igreja às elites locais (LE GOFF, 2017, p.
85). Desta maneira, surgiram figuras débeis no papado, como Bento IX, nomeado para satisfazer os interesses da elite romana (MANN, 1913). Com o vácuo do poder pontifício, o imperador ganhou força no início do século XI e passou a exercer anômala influência sobre o papado, gerando escândalo quando Henrique III adentrou na cidade de Roma para ser coroado e viu uma disputa entre três papas rivais – entre eles Bento IX (BERMAN, 1997, pp. 93-94). Este parece ter sido o ponto mais baixo atingido pelo papado, o que provocou as mudanças que levaram à Reforma Gregoriana.