1.3 BARROCA NÃO: ASPECTOS DE UMA CIDADE COSMOPOLITA
1.3.2 A Juiz de Fora, distante do Barroco
Embora apresentamos a importância do barroco para o estado de Minas Gerais e para o Brasil, somos cientes que a região da Zona da Mata mineira, onde se localiza Juiz de Fora se originou-se no final desse período, tendo seu crescimento à margem da mineração e do desenvolvimento do estilo predominante no país no século XVIII. Dessa forma, a historiadora Maraliz Christo (1994) observa que
Enquanto as cidades barrocas se formam e se guiam pelos sinos das igrejas, a população de Juiz de Fora teve sua vida normatizada pelos apitos das fábricas de estilo neoclássico e o bater dos tamancos de seus operários de ambos os sexos e diversas nacionalidades (CHRISTO, 1994, p. 10).
Com o notório distanciamento das cidades barrocas, Christo (1994) aponta, a partir de referências ao memorialista juiz-forano Pedro Nava, que na cidade da Zona da Mata,
as festas barrocas são aqui esquecidas. Enquanto os trabalhadores iam aos circos de cavalinhos, cervejarias e piqueniques do 1º de maio, a elite se divertia em saraus, em visitas às fazendas, “jogando florete [...] caçando macuco, de paletó e boné de veludo, [...] atirando aos pratos, aos pombos” ou em “viagens freqüentes ao Rio de Janeiro – onde muito se podia” (CHRISTO, 1994, p. 14).
Ao observarmos os traços arquitetônicos trazidos pelos imigrantes, por exemplo, vemos que a cidade pouco se inspirou nos moldes da arquitetura barroca mineira. O jornalista e artista plástico João Guimarães Vieira, o Guima (1978, s/p.) recorda das poucas construções
semelhantes ao estilo Barroco: “Da arquitetura típica de Minas, apenas um ou outro sobrado na Avenida Rio Branco e o prédio da Fazenda Velha, ou Fazenda do Juiz de Fora, que o protesto dos intelectuais não impediu que fosse demolido nos anos quarenta”.
O Álbum Juiz de Fora em Dois Tempos (1996) também nos apresenta a tendência arquitetônica local do município considerado cosmopolita, em detrimento do antigo estilo colonial, que levava preocupação à Igreja, tendo em vista os ideais de modernidade, considerados motivos para o afastamento dos fiéis nos ritos religiosos.
No lugar de catedrais, fábricas. Sem a opulência do barroco, o estilo neoclássico e eclético de seus prédios e a racionalidade da arquitetura industrial, que opõe chaminés às torres devotas. Sem a marca da cultura colonial mineira, Juiz de Fora distingue-se pelo cosmopolismo – urbana, moderna. [...] Cidade de operários, imigrantes e pioneiros que, no ritmo das engrenagens dos teares, fizeram-na ingressar no progresso da nova civilização que se anunciava nas metrópoles europeias (ÁLBUM, 1996, p. 1).
Nesse sentido, o conjunto arquitetônico da Praça Antônio Carlos reforça traços da arquitetura projetada pelos imigrantes europeus (ÁLBUM, 1996, p. 96-99). O espaço abrigou a fábrica de meias Antônio Meurer, fundada em 1901, pioneira da indústria de tecidos de malha em Minas Gerais, o antigo prédio da Alfandega Ferroviária (atual instalação da 4ª Região Militar), a antiga Companhia Mineira de Eletricidade (atual Castelinho da Cemig), o antigo prédio da cadeia (atual Escola Normal), a fábrica de cimento amianto e de materiais de construção da construtora Pantaleone Arcuri, Timponi & Cia (ÁLBUM, 1996, p. 96-99).
A inserção de outros estilos arquitetônicos caracterizou Juiz de Fora por um padrão eclético, com construções em Art Noveau, Art Deco, como descrito no site da Prefeitura (2019):
O estilo eclético das construções permite a integração de várias manifestações arquitetônicas do passado, responsáveis por encontrarmos, na cidade, construções que lembrem castelos medievais, igrejas que imitam o gótico europeu ou a fachada de um templo grego. No final da primeira década do século XX, observa-se também construções em estilo Art Noveau, muito fácil de reconhecer graças ao uso de uma rica decoração nas fachadas das casas, onde predominam as linhas curvas, imitando fitas, flores..., demonstrando a habilidade dos trabalhadores daquele tempo e a riqueza dos moradores [...].
O Art Deco. Buscando uma maior racionalidade, esse estilo reduziu a decoração das fachadas a formas mais retas, mais geométricas. Nas fachadas, ao invés da pintura, se usou muito revestimento de pó de pedra, em tons cinza ou ferrugem (ARQUITETURA ECLÉTICA, 2019).
A modernidade em Juiz de Fora tinha ligação direta com os traços culturais vindos do Rio de Janeiro, devido principalmente à sua adjacência geográfica de apenas 184 km, o que
aproximava ainda mais as duas cidades. Ao passo que a distância entre Belo Horizonte, capital do estado e Juiz de Fora era de 272 km (MUSSE, 2008). Dessa forma,
a proximidade geográfica entre Juiz de Fora e Rio de Janeiro facilita o contato com a cidade carioca, que desde a chegada da Família Real, em 1808, estava empenhada em um projeto civilizador de apagar os traços da colônia e se tornar uma capital europeia.
[...] o contato de Juiz de Fora com a efervescência cultural do Rio de Janeiro sempre existiu e acreditamos que aqui sempre ecoou (LINS; BRANDÃO, 2012, p. 45).
Podia-se comparar o ideal de progresso urbano com o que era vivido na capital fluminense, uma inspiração com traços europeus para Juiz de Fora, como demonstrado no próprio site da Prefeitura (2019). Contudo, verificamos no trecho a seguir que, embora fosse uma cidade receptiva, eram frequentes os embates entre as diferentes denominações.
Mais europeia que colonial, Juiz de Fora, cidade do século XIX, em estreita vinculação com o dinamismo do Rio de Janeiro, não participou da cultura colonial mineira. Seu desenvolvimento industrial, pautado pela modernização capitalista, trouxe para a cidade, além de apitos das fábricas e da luz elétrica, o desejo de civilizar-se nos moldes dos centros europeus. Seus teatros, cinemas e intensa atividade literária refletiam a vontade de criar uma nova imagem para a cidade, fugindo à tradição escravista. [...] Inicialmente, percebe-se uma cidade mais aberta. A distância dos centros barrocos, somada à prosperidade econômica, atraiu interesses mais variados.
Aqui residiam católicos, protestantes, espíritas, maçons, liberais, republicanos, monarquistas.... Embora houvesse conflitos entre eles, a cidade se mostrava receptiva ao debate de ideias (BREVE HISTÓRICO, 2019, grifo nosso).
Na concepção dos juiz-foranos da época, segundo Christo (1994), “[...] civilizar-se significava estar próximo à vida mundana do Rio de Janeiro, se prendendo nas teias de um
‘colonialismo interno’; ser ‘carioca do brejo’”. Ou mesmo como citava o poeta Murilo Mendes31, ser juiz-forano era ser um ‘trecho de terra cercado de piano por todos os lados’”
(CHRISTO, 1994, p. 12).
A cidade ainda mantinha uma respeitável tradição cultural, com diversos e importantes colégios, pelos jornais que passaram a ser editados a partir de 1870. Poetas, jornalistas e educadores reforçavam a Confraria Literária Mineira, fundada em 1896, e a Academia Mineira de Letras, instalada na cidade em 1909. Nomes como Oscar da Gama, Belmiro Braga, Murilo Mendes, Pedro Nava, Estevão de Oliveira, e, mais tarde, o cineasta João Carriço, figuravam
31 Murilo Mendes nasceu em Juiz de Fora, foi poeta e prosador, expoente do surrealismo no movimento modernista brasileiro.
como alguns intelectuais juiz-foranos que exibiram Juiz de Fora no cenário nacional da cultura (LINS; BRANDÃO, 2012, p. 63).
A proximidade com o Rio de Janeiro rendeu à cidade mineira o apelido Cariocas do Brejo, que pode ser entendido, segundo Maria Carlota de Souza Paula (1976), por Juiz de Fora possuir algumas características relacionadas ao Rio de Janeiro.
Somos pejorativamente apelidados de “cariocas do brejo” por outros mineiros, que vêem com reservas esse nosso impasse de identidade histórica cultual. “Cariocas”, porque importamos muito, vivemos o que vem lá de fora (Rio), e do “brejo” porque ainda não pisamos na terra firme do solo mineiro, e ainda não assumimos a nossa identidade (PAULA, 1976, p. 78).
Paula (1976) também afirma que tal proximidade com a capital do Rio de Janeiro e a distância de outras cidades do estado de Minas Gerais foram aspectos vistos como empecilho para que Juiz de Fora se tornasse capital mineira. A cidade
[...] foi recusada por não apresentar condições de se tornar um centro verdadeiro. Sua localização dificultava a comunicação com grande parte do Estado e seus fortes vínculos com o Rio de Janeiro desviavam os interesses locais para este centro [...]. As vias, que a certa altura confluíam, se desviavam a carrear o produto de exportação para o porto, levando para fora do estado quase toda a força de dinamização que poderiam promover (PAULA, 1976, p. 78).
Assim, encontramos no jornalista Rodrigo Barbosa (1981) a descrição de Eudes Arantes, fundador do jornal Binômio, de Belo Horizonte: “Juiz de Fora é uma cidade frustrada.
Ela teve tudo para ser capital e foi castrada. Por isso, ela nutre um ódio profundo de Belo Horizonte” (BARBOSA, 1981, p. 1). Isso porque, o pioneirismo da Manchester Mineira que reforçava o ideal de modernidade, não deu conta de abrigar a capital estadual, por situar-se geograficamente à margem do Estado, sem manter ligação central com outros municípios mineiros, do norte de Minas, do Sul, e do Triângulo, por exemplo.