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1.3 BARROCA NÃO: ASPECTOS DE UMA CIDADE COSMOPOLITA

1.3.1 Minas Gerais: um estado marcado pelo Barroco

A Itália pode ser considerada um dos berços da origem do estilo barroco. A Reforma Protestante27 (1517-1648) teria sido o marco inicial do movimento, objetivando a Contrarreforma Católica28, uma maneira tocante de atingir os fiéis, utilizando-se da arte como um meio de se difundir a religião e sua influência, como nos aponta Souza (2019, p. 17).

Buscando então rever suas concepções, a Igreja Católica buscará, dentro do movimento Barroco, resgatar suas concepções de fé. De diferentes formas, a arte desse estilo estará ligada à religiosidade, abarcando características diferentes em cada região onde se desenvolveu (SOUZA, 2019, p. 17).

27 Movimento reformista cristão que surgiu no século XVI, questionando práticas da Igreja Católica. Liderado por Martinho Lutero, simbolizado pela publicação de suas 95 Teses em 31 de outubro de 1517 na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. Criticava os abusos do clero, evoluindo para uma proposta de reforma no catolicismo romano a partir da mudança em diversos pontos da doutrina da Igreja Católica Romana, com base no que Lutero entendia como um retorno às escrituras sagradas. Lutero foi apoiado por vários religiosos e governantes europeus provocando uma revolução religiosa, iniciada no Sacro Império, estendendo-se pela Suíça, França, Países Baixos, Inglaterra, Escandinávia e algumas partes do Leste europeu, principalmente os Países Bálticos e a Hungria. O resultado da Reforma Protestante foi a divisão da chamada Igreja do Ocidente entre os católicos romanos e os reformadores protestantes, originando o protestantismo.

28 Resposta da Igreja Católica à Reforma Protestante, iniciada em 1545 no Concílio de Trento. Estabeleceu medidas como a retomada do Tribunal do Santo Ofício, a criação do Index Librorum Prohibitorum, com uma relação de livros proibidos pela Igreja e o incentivo à catequese dos povos do Novo Mundo, com a criação de novas ordens religiosas. Incluía-se nessa reforma a reafirmação da autoridade papal, a manutenção do celibato eclesiástico, a reforma das ordens religiosas, a edição do catecismo tridentino, reformas e instituições de seminários e universidades, a supressão de abusos envolvendo indulgências e a adoção da Vulgata como tradução oficial da Bíblia.

Em relação a nomenclatura barroco, são presumidas versões para tal alcunha. Segundo Vale (2016), a primeira, faz referência à palavra de origem francesa barrueco, que pode significar algo irregular ou imperfeito, como “uma pérola imperfeita”, exagerado, extravagante, ridículo” (VALE, 2016, p 17). Já Lemos (2008), ao apresentar o movimento como inspiração da Contrarreforma, observa a significação originária da palavra, advinda do espanhol e do português.

O barroco foi inspirado na Contra-Reforma, movimento pelo qual a Igreja Católica, apoiada no absolutismo, buscou repensar-se e reestruturar-se frente aos avanços do protestantismo. O termo barroco vem do espanhol e do português, significando em nosso idioma, entre outras coisas – segundo o dicionário Raphael Bluteau, o mais antigo da língua – “a arte de fazer figuras de barro” e “pérola tosca e desigual, que não é comprida nem redonda” (LEMOS, 2008, p. 39/40).

Sobre as características desse período, o autor acrescenta o excesso de detalhes e a utilização do contraste nas obras de arte.

Barroco é uma arte caracterizada pela teatralidade, pelo excesso e exuberância de detalhes, pela passionalidade. O contraste entre claro e escuro, que caracteriza as obras do período, seria um espelho do conflito entre teocentrismo e antropocentrismo, ou seja, a fé em Deus e a dúvida com relação a religião e as verdades estabelecidas, coexistindo num mesmo espaço e tempo (LEMOS, 2008, p. 39-40).

Em sequência ao Barroco, a Europa no século XVIII vivenciava o período conhecido por Rococó29, enquanto o Brasil desfrutava o auge do estilo sacro, que chegou ao continente europeu dois séculos antes. Todavia, conforme Lemos (2008), nas terras brasileiras, especialmente em Minas Gerais, o movimento adquiriu as formas portuguesas que se adaptaram às três raças prevalentes no território brasileiro, formadas pelos brancos, pelos negros e pelos indígenas.

As diversas descobertas científicas incitaram muitas dúvidas, sobretudo no campo religioso e o barroco passou por esse momento de transição. A literatura portuguesa, por exemplo, teve como maior representante o padre Antônio Vieira e suas obras Sermões, escritas em estilo conceptista, baseadas no doutrinamento das populações cristãs, tornou-se uma importante forma de expressão.

29 Iniciado na França, no século XVIII, se caracterizava por uma arte requintada, aristocrática e convencional e expressando apenas sentimentos agradáveis, procurando dominar a técnica de uma perfeita execução.

Além da exuberância a partir do emprego do ouro e das pedras preciosas, Lins e Brandão (2012) recordam que o Barroco mineiro recebeu forte influência da religiosidade católica portuguesa, apresentando suas características em consonância com o período aurífero de Minas Gerais.

A religiosidade que veio de Portugal (cheia de pompa, reafirmava a fé católica contra o crescente protestantismo), o fascínio pelo ouro e o desejo de afirmação e autonomia são a base para explicar o vigor do movimento artístico mineiro que não se restringia apenas às artes, mas se estendia ao estilo de vida do homem barroco, que preocupado com a efemeridade da vida se sente o desejo de aproveitá-la, mas teme pela salvação espiritual, resultando no sentimento contraditório característico desse período (LINS;

BRANDÃO, 2012, p. 39).

Souza (2019) também acredita que o “período do ouro” possibilitou o desenvolvimento do estilo, que também marcou a arte, a literatura, a escultura, a música, a pintura, entre outros aspectos artísticos e culturais do Brasil, juntamente com a religiosidade própria dos fiéis católicos.

A exploração aurífera faz com que nessa região se criem condições para um notável desenvolvimento cultural, que teve, principalmente na arte religiosa, o desenvolvimento do barroco mineiro. Nas Gerais foi forte a presença de irmandades e ordens terceiras de iniciativa dos próprios fiéis, visto a proibição de clérigos na capitania por uma política restritiva da Coroa Portuguesa (SOUZA, 2019, p. 38).

Citamos a cidade de Ouro Preto30 (MG) como expoente do estilo Barroco, sendo capital da Província de Minas Gerais até 1823, e capital do estado até 1897, ano da inauguração de Belo Horizonte. De acordo com Rivera (2002), “Ouro Preto é uma das mais importantes cidades históricas do Brasil. Até 1711 tinha o nome de Arraial das Minas Gerais de Ouro Preto. Em 1711 e 1712, chamou-se Vila Rica de Albuquerque. Teve a denominação de Vila Rica de 1712 a 1823” (RIVERA, 2002, p.23). Parte do legado barroco nessa cidade se deve às obras dos importantes mestres Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730-1814), e Ataíde, que em pedra sabão, esculpiu várias igrejas e monumentos locais.

Em relação aos templos barrocos, Souza (2019) ressalta as Igrejas “São Francisco de Paula; Nossa Senhora do Carmo; Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia, Santa Efigênia;

30 A cidade é reconhecida pela Unesco como Cidade Monumento Mundial, passou a fazer parte do Patrimônio Cultural da Humanidade.

Nossa Senhora das Dores; São Francisco de Assis; Nossa Senhora do Rosário; Nossa Senhora da Conceição [...]” (SOUZA, 2019, p. 60), como exemplares desse estilo de época.

Outros pontos de Ouro Preto que resgatam o período Barroco são o Museu da Inconfidência, Museu da Arte Sacra, Museu do Aleijadinho, Museu da Casa dos Contos e o Museu da Ciência e da Técnica (SOUZA, 2019, p. 61).

Além de Ouro Preto, destacamos as cidades de Mariana, Sabará, São João Del’Rei, Tiradentes, Diamantina e Congonhas, como referências desse período. Em Congonhas ressaltamos a obra de Alejadinho, “Os doze profetas”, esculpidos em pedra sabão (SOUZA, 2019, p. 67). O município também abriga o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, representando o ponto alto da expressão barroca brasileira.