• Nenhum resultado encontrado

Com relação ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina, por se tratar de uma corte com maior amplitude na análise dos fatos, encontram-se decisões com maior diversidade de entendimento.

Em uma pesquisa recente, referente aos anos 2014/2015/2016, tendo como expressões “denunciação lide”, “regresso”, “responsabilidade” e “Estado”, pode-se citar, inicialmente, a Apelação Cível n. 2014.074152-5, de Mondaí, cujo relator foi o Desembargador Jaime Ramos, em julgamento ocorrido no dia 7-5-2015. A ementa desse acórdão foi assim elaborada:

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL - AGRAVO RETIDO - REJEIÇÃO DO PEDIDO DE DENUNCIAÇÃO DA LIDE - INTERVENÇÃO INOPORTUNA

POR DEMANDAR PROVA DA CULPA DO AGENTE PÚBLICO

LITISDENUNCIADO - DURAÇÃO RAZOÁVEL DO PROCESSO -

RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO - ACIDENTE DE TRÂNSITO - VIATURA POLICIAL QUE EFETUA MANOBRA DE DESVIO DE PEDESTRE QUE CAMINHAVA PELO MEIO DA RUA E COLIDE COM VEÍCULO DE PARTICULAR QUE ESTAVA REGULARMENTE ESTACIONADO - DANOS MATERIAIS COMPROVADOS - DEVER DE INDENIZAR - JUROS DE MORA E CORREÇÃO MONETÁRIA - APLICAÇÃO DA LEI 11.960/2009 ATÉ 25.03.2015 - RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO.

Cabe denunciação da lide ao agente público responsável pelo acidente de trânsito que causou danos a terceiro, contudo, em face da necessidade de comprovar a culpa do litisdenunciado, não é recomendável no processo em que o prejudicado pleiteia indenização.

O Estado responde pela indenização dos danos materiais ocasionados em veículo regularmente estacionado por viatura policial que teve de efetuar desvio para não atropelar pedestre que desavisadamente caminhava pelo meio da rua (SANTA CATARINA, 2015a).

Neste caso, há expressa menção de que a denunciação à lide é, teoricamente, cabível. Todavia, porque a sua aceitação resultaria na necessidade de comprovar a culpa do motorista do veículo, e, por isso, ampliaria o tempo de duração da ação, não se mostrava recomendável.

A ideia trazida pelo colegiado julgador fica mais clara quando analisamos o inteiro teor do acórdão:

[...] os entes Públicos têm direito de regresso contra os agentes públicos que, por dolo ou culpa causarem danos a terceiros e podem exercê-lo na própria ação em que lhe é exigida a responsabilidade civil objetiva.

[...]

Não obstante, não se mostra razoável determinar o retorno do processo à fase postulatória, com a citação do litisdenunciado e posterior instrução (já que esta é absolutamente necessária para a verificação da culpa do agente público), o que não garantiria "a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação" que é um dos princípios relativos à efetividade da prestação jurisdicional introduzido pela Emenda Constitucional n. 45/03 no inciso LXXVIII do art. 5º da Constituição Federal de 1988.

Não fora isso, na hipótese o Estado alega que o policial litisdenunciado não agiu com culpa, daí porque não é possível estender a ele o processo, em lide secundária. Assim é que no caso concreto não consulta os interesses da Justiça e do processo o deferimento da denunciação da lide.

Essa solução não retira do Estado, o direito de mover contra quem pretendia denunciar da lide, se for considerado culpado, a ação regressiva, nos termos do que lhe autorizam os arts. 37, § 6º, da Constituição Federal; e 43 do Código Civil.

Em outra oportunidade, a corte catarinense também considerou como facultativa a denunciação à lide, mas foi peremptória em afirmar que ela somente seria aceita se não resultasse em prejuízo ao autor da ação principal. Referida discussão foi travada na Apelação Cível n. 2010.005530-5, de relatoria do Desembargador Rodolfo C. R. S. Tridapalli, com julgamento datado de 16-9-2014. No momento da ementa, ficou expresso:

APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE COBRANÇA - RECEBIMENTO DE CRÉDITO DECORRENTE DE DUPLICATA LEVADA A PROTESTO - VALORES RETIDOS INDEVIDAMENTE PELO TABELIONATO - DENUNCIAÇÃO DA LIDE AOS NOTÁRIOS - DESCABIMENTO EM FACE DA POSSIBILIDADE DE COMPROMETIMENTO DA CELERIDADE PROCESSUAL – [...]

- É facultativa a denunciação da lide feita pelo Estado ao agente público supostamente causador de danos contra terceiros, de modo que o magistrado não está obrigado a acolhê-la caso entenda que essa intervenção poderá comprometer a celeridade na entrega da prestação jurisdicional, sobretudo em razão da inserção de novos fatos e fundamentos jurídicos a serem discutidos no processo para a apuração da responsabilidade civil, que, na ação de regresso, deixará de ser objetiva e necessitará da comprovação da culpa do servidor (art. 37, § 6º, da Constituição Federal). – [...] (SANTA CATARINA, 2014).

Estes dois precedentes do Tribunal de Justiça de Santa Catarina podem indicar que esta corte entende que a denunciação da lide para os casos envolvendo o direito de regresso em ação de indenização contra o Estado, além de serem facultativas, somente serão aceitas se não causarem prejuízo à vítima. Na linha de pensamento, encontra-se também, como exemplo, o Agravo de Instrumento n. 0140663-68.2014.8.24.0000, tendo como relator o Desembargador Sérgio Roberto Baasch Luz, julgado em 12-04-2016 e o Agravo de Instrumento n. 2014.025175-8, cuja decisão remete a 21-7-2015 e seu relator o Desembargador Vanderlei Romer (SANTA CATARINA, 2016, 2015b).

Mas, encerrando o exame dos julgados da mencionada corte estadual, vale destacar uma decisão em que, diante da particularidade do caso, reputou-se necessário acolher o pedido de denunciação à lide do servidor envolvido no fato ilícito: é o caso do Agravo de Instrumento n. 2012.005930-9, cujo julgamento ocorreu em 22-5-2012 e foi relator o Desembargador Luiz Cézar Medeiros. Apesar de escapar ao espaço temporal da pesquisa, sua menção decorre do diferente entendimento utilizado ao caso.

Naquela ocasião, cidadão ajuizou ação de indenização contra o Estado de Santa Catarina e um médico que, atendendo no Sistema Único de Saúde, teria exigido certa quantidade em dinheiro para a realização de um exame médico. O Estado denunciou à lide o corréu, alegando que teria direito à ação de regresso contra o mesmo e, por isso, justificava-se tal pessoa, já corréu, figurar na ação também como litisdenunciado. Ao analisar o caso, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina deu razão ao Estado. A ementa do acórdão traz uma síntese do objeto da discussão:

PROCESSUAL CIVIL - AÇÃO DE INDENZAÇÃO MOVIDA EM FACE DO ESTADO DE SANTA CATARINA E DO MÉDICO A QUEM SE ATRIBUI A COBRANÇA PARA A REALIZAÇÃO DE EXAME EM NOSOCÔMIO PÚBLICO - DENUNCIAÇÃO DA LIDE AO CLÍNICO CO-RÉU - INTRODUÇÃO DE FUNDAMENTO JURÍDICO NOVO - INOCORRÊNCIA - ILEGITIMIDADE DO ENTE PÚBLICO EM RELAÇÃO AO PLEITO DE RESTITUIÇÃO DO VALOR PAGO

A denunciação da lide, nos termos do art. 70, III, do Código de Processo Civil, é imperativa "àquele que estiver obrigado, pela lei ou pelo contrato, a indenizar em ação regressiva, o prejuízo do que perder a demanda", não se podendo introduzir fundamento jurídico novo, sob pena de violação dos princípios da economia e celeridade processuais.

A ação indenizatória movida contra o Estado e a prestadora de serviço público tem por fundamento a responsabilidade objetiva, com fulcro no art. 37, §6º, da Constituição Federal. Em regra, a integração da lide pelos supostos responsáveis, requerida por meio de pedido de denunciação da lide, introduz discussão acerca da culpa ou dolo daqueles.

Entretanto, excepcionalmente se autoriza a adoção dessa medida quando não há possibilidade de averiguar a responsabilidade do Poder Público sem o exame acurado da ocorrência dos fatos atribuídos aos agentes, cujos elementos probatórios não se encontram na esfera de disponibilidade e da possibilidade de a Administração produzi-los. Ademais, na medida em que já integra a lide na condição de co-réu, o exame do elemento subjetivo na conduta do servidor público peremptoriamente será alvo do meritum causae, não havendo que se falar em tumulto processual (SANTA CATARINA, 2012).

Ao analisar o corpo do acórdão, observa-se que a Câmara julgadora não desconhece os entendimentos relacionados à facultatividade da denunciação a lide, nem que a sua existência poderá prejudicar o autor da ação, já vítima de uma ação do Poder Público. Entretanto, na situação posta neste julgamento, havia uma particularidade: o servidor público a quem a Administração teria direito de ajuizar ação regressiva também figurava no pólo

passivo da ação indenizatória. E, ao constatar que a conduta do médico já seria analisada por ocasião da ação principal, o colegiado entendeu que não haveria prejuízo ao autor, vítima do ilícito administrativo. É o que se pode extrair deste trecho do voto do relator:

Como é sabido, a denunciação da lide se traduz num chamamento à garantia, ou seja, trata-se de uma ação incidente de regresso, proposta pelo denunciante contra o denunciado, nas hipóteses legais, tendo sido instituída em vista dos princípios da economia e celeridade processuais.

Assim, somente será admissível se o denunciado estiver obrigado a garantir o resultado da demanda. Noutros termos, apenas se a perda da primeira ação automaticamente gerar a responsabilidade do segundo garante.

Conforme ensina a jurisprudência, "só se permite a denunciação da lide, na exegese

restritiva necessária que se faz ao inc. III do art. 70 do CPC, quando há relação jurídica de garantia propriamente dita entre o denunciante e o denunciado. A aplicação restrita refere-se aos casos em que a lei ou o contrato asseguram, previamente, à parte o direito regressivo contra o obrigado a indenizar o prejuízo, não assim no caso de mera possibilidade de vir a nascer aquele direito regressivo, a

posteriori, com a sentença condenatória" (RT-598/171).

Por certo, infere-se que não é permitida na denunciação a introdução de fundamento jurídico novo, ausente na demanda originária, que não seja a responsabilidade direta, decorrente da lei ou do contrato, sob pena de retardamento da prestação jurisdicional.

[...].

Dessa feita, as pessoas jurídicas de direito público e as prestadoras de serviço público respondem pelo ato prejudicial por conta da responsabilidade objetiva prevista no supracitado § 6º do art. 37 da Constituição Federal. Já os clínicos tem a sua obrigação fundada na responsabilidade subjetiva, conforme se denota da parte final do mesmo dispositivo constitucional. Noutras palavras: enquanto o dever ressarcitório do nosocômio público pela indenização exsurge de forma direta, a do agente responsável se condiciona à verificação de que tenha ele concorrido com dolo ou culpa para o desencadeamento dos fatos.

Sustento o entendimento de que a discussão em relação a culpa ou dolo do agente, que eventualmente reinvindicará dilação probatória, com prova testemunhal ou até mesmo pericial, é exatamente a introdução de fundamento jurídico novo, vedado na seara da denunciação da lide.

[...]

Não obstante, excepcionalmente se autoriza a denunciação da lide ao agente envolvido no evento danoso narrado pelo particular.

[...]

Assim sendo, a despeito das discussões doutrinárias e jurisprudenciais que ainda envolvem o tema, na hipótese em que se examina a responsabilidade do nosocômio público decorrente da atuação do profissional de saúde, a aferição de causal dever reparatório perpassa, inevitavelmente, pela apreciação da conduta destes clínicos, se negligente, imprudente, imperita ou mesmo dolosa. Ou seja, não há meio de se furtar à análise do elemento subjetivo – a culpa –, visto que, restando demonstrado pela entidade a ausência de culpa na conduta do profissional, subsiste, em verdade, rompimento do nexo causal, o que desnatura a correlata obrigação reparatória. [...]

A bem da verdade, em oposição ao suscitado na decisão singular, a intervenção de terceiro com o intento de denunciar o co-réu, médico que supostamente procedeu a cobrança pelo exame realizado em hospital público, denota-se oportuna a efetivar os princípios que fundamentam o instituto, uma vez que evita eventual propositura de ação regressiva da pessoa jurídica em caso de condenação. Ademais, tendo em vista que o clínico integra a lide na condição de litisconsorte passivo, o exame do elemento subjetivo na sua conduta peremptoriamente será alvo do meritum causae da demanda em testilha.

De toda forma, conforme frisado, não se cuida de incluir um fundamento novo à lide, bem assim não há que se aduzir a ocorrência de tumulto processual com a integração deste agente ao feito na condição de litisdenunciado.

Com efeito, nessas circunstâncias em que para a apuração da responsabilidade do Poder Público se torna imprescindível o exaurimento da análise relativa à conduta do suposto responsável, desviando-se da regra geral, impende seja autorizada a denunciação da lide àquele envolvido na narrativa do fatos.

Vale mencionar que, embora buscando-se as decisões mais atuais, não foi possível encontrar na jurisprudência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina referência à nova disposição da denunciação à lide (CPC/2015, art. 125), dada a alteração ser bastante recente, impossibilitando que o tema fosse objeto de exame pela referida corte.