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Procedimento da Denunciação da Lide e Comportamento Processual do Denunciado

3.3 EXERCÍCIO DO DIREITO DE REGRESSO NA VIA JURISDICIONAL

3.3.2 Denunciação da lide

3.3.2.4 Procedimento da Denunciação da Lide e Comportamento Processual do Denunciado

A denunciação da lide depende, exclusivamente, da vontade do denunciante, e não de concordância da parte adversária ou da concordância do denunciado (GRECO, 2015). A intervenção do denunciado pode ocorrer em qualquer dos polos do processo, passando a assumir dupla função do processo: é assistente do denunciante na ação principal e é réu da ação regressiva proposta pelo denunciante; ajuda o denunciante a defender o seu direito e por outro se defende na ação regressiva. Se o denunciante for vencedor na ação principal, ele estará livre da responsabilidade regressiva, por isso tem interesse em ajudá-lo (MARINONI; ARENHART; MITIDIERO, 2015). Se a intervenção for requerida pelo autor, essa deverá vir na petição inicial; se for requerida pelo réu, na contestação (artigo 126, CPC).

O artigo 127, CPC, disciplina a hipótese de a denunciação ser feita pelo autor e as possibilidades de atuação do denunciado, que nesse caso poderá assumir a posição de litisconsorte do denunciante e acrescentar novos argumentos à petição inicial, tudo antes de a citação do réu ser determinada (BRASIL, 2015a).

O artigo 128, CPC, disciplina as possibilidades de atuação do denunciado quando a citação é feita pelo réu. Se o denunciado aceitar e contestar o pedido formulado pelo autor, o processo prosseguirá entre o autor, de um lado e, de outro, o denunciante, assistido pelo denunciado (artigo 128, I, CPC). Por outro lado, se o denunciado for revel o denunciante pode reconhecer o pedido do autor e prosseguir na busca da indenização regressiva (artigo 128, II, CPC). Ou ainda, se o denunciado confessar os fatos alegados pelo autor, poderá o denunciante prosseguir na sua defesa ou reconhecer o pedido do autor, avançando na ação regressiva (MARINONI; ARENHART; MITIDIERO, 2015).

Importa salientar que o artigo 128, incisos I e II, não permite ao denunciado recusar a denunciação, mas apenas repudiar a ação regressiva, alegando o descabimento da denunciação com o intuito de afastar sua responsabilidade. No entanto, ele ficará vinculado ao processamento e julgamento da causa até o final, porque não há, em sede de denunciação da

lide, a possibilidade do terceiro interveniente recusar a integração da relação processual. A demanda prosseguirá normalmente entre autor e réu, permanecendo a ação regressiva contra o denunciado, que estará vinculado até o final da causa principal (GRECO, 2015).

Note-se, ainda, que não há propriamente uma relação estabelecida entre o denunciado e o adversário do denunciante. Trata-se de duas ações distintas, em que o julgamento da ação regressiva depende do resultado da ação principal. Desta forma, a sentença que julgar favorável a ação em favor do adversário do denunciante, apenas poderá condenar este na obrigação, posteriormente, avaliando-se a procedência da ação regressiva. Por essa razão, não se pode considerar o denunciado como litisconsorte do denunciante (MARINONI; ARENHART; MITIDIERO, 2015).

Esse também é o entendimento de Cândido Rangel Dinamarco (2009, p. 165), para quem, na hipótese de denunciação da lide, o denunciado será sempre assistente do denunciante, conforme entendimento a seguir:

É impróprio falar em litisconsórcio em casos como esse, porque a mera denúncia da lide não amplia o objeto do processo e não põe o denunciado na condição de autor ou de réu em relação à demanda pendente. Feita pelo réu, como é mais freqüente (embora possa sê-lo também pelo autor), o terceiro não é colocado como réu também, nem se põe em posição de poder ser condenado em favor do autor inicial do processo. [...] Aquele é inserido no processo, com o objetivo de ajudar o denunciante a ter melhor sucesso em relação à causa pendente, é assistente deste: se nada pede para si, e nada foi pedido em relação a ele, esse terceiro não é autor e não é réu. Não é litisconsorte, portanto, senão mero assistente – ainda que assistente litisconsorcial, ou seja, qualificado.

No entanto, o denunciado pode ser condenado diretamente em face do autor da ação principal conforme disposto no artigo 128, parágrafo único, CPC, o qual permite expressamente o cumprimento da sentença contra o denunciado pelo réu “nos limites da condenação deste na ação regressiva” (BRASIL, 2015a).

Por fim, efetivada a denunciação da lide, cria-se uma cumulação objetiva eventual de demandas no processo, uma vez que concebem duas ações no processo, em que a segunda somente será apreciada, caso a principal venha a resultar em prejuízo para o denunciante conforme dispõe o artigo 129, CPC (BRASIL, 2015a).

3.4 PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO REGRESSIVA

O exame da prescrição da pretensão regressiva refere-se ao tempo que o Estado dispõe para exercer o seu direito de regresso contra o agente público responsável pelo dano, outrora quitado pela administração.

No que diz respeito à prescrição da ação do Estado em face de seu agente, o artigo 37, § 5º da CRFB assim dispõe: “A lei estabelecerá os prazos de prescrição para ilícitos praticados por qualquer agente, servidor ou não, que causem prejuízos ao erário, ressalvadas as respectivas ações de ressarcimento”.

José dos Santos Carvalho Filho (2015, p. 609) afirma que pelo texto constitucional é possível concluir que, no caso de ilícitos oriundos de agentes do Poder Público, admitiu-se ações prescritíveis e ações imprescritíveis. “Assim, em se tratando de efeitos administrativos e penais, advindos da conduta ilícita, haverá prescritibilidade, na forma estabelecida pela lei. [...] Consequentemente, no que concerne à pretensão ressarcitória do Estado, a Constituição assegura a imprescritibilidade da ação”.

Nessa mesma linha, Diogenes Gasparini (2012) afirma que o direito da Administração Pública de recompor seu patrimônio ofendido por comportamento culposo ou doloso de seus agentes, não prescreve, conforme estabelece o § 5º do artigo 37 da CRFB, embora prescreva o ilícito que tenha lhe dado causa.

No entanto, parte da doutrina adota entendimento diverso, no qual não se pode admitir que o Estado mantenha o direito de ação de modo eterno. Nesse sentido, consideram que a imprescritibilidade não pode ser acolhida, sob pena de gerar efeitos incompatíveis com a própria Constituição, a qual valoriza a segurança jurídica (JUSTEN FILHO, 2014).

De acordo com Canotilho e outros (2014, p. 902) a prescritibilidade é regra geral no sistema jurídico brasileiro e “nada mais é do que um mecanismo para absorção de incertezas. Para eliminá-las o ordenamento jurídico cuidará de impor limites temporais”.

Nesse ponto de vista, em desfavor da imprescritibilidade, Celso Antônio Bandeira de Mello (2013, p. 1080) argumenta:

Com ela estaria consagrada a minimização ou eliminação prática do direito de defesa daquele a quem se houvesse increpado dano ao erário, pois ninguém guarda documentação que lhe seria necessária além de um prazo razoável, de regra não demasiadamente longo. De fato, o Poder Público pode manter seus arquivos, por período de tempo longuíssimo, elementos prestantes para brandir suas increpações contra terceiros, mas o mesmo não sucede com estes, que terminariam inermes perante argüições desfavoráveis que se lhes fizessem.

No que diz respeito ao prazo de prescrição Celso Antônio Bandeira de Mello (2013) propõe os mesmos prazos prescricionais apontados para a decretação de invalidade de atos viciados. Por outro lado, Canotilho e outros (2014) entendem que a Constituição deveria trabalhar com os prazos do Código Civil, por se tratar de ressarcimento.

4 MOMENTO PROCESSUAL PARA O EXERCÍCIO DO DIREITO DE

REGRESSO PELO ESTADO CONTRA O AGENTE PÚBLICO CAUSADOR DE DANO

Parece não prevalecer qualquer dúvida, em face do sistema constitucional, de que à Administração Pública é garantido o direito de regresso contra o servidor responsável pelo dano, que tenha atuado com dolo ou culpa, para efeito de recobrar o que pagou à vítima do ilícito civil. Portanto, efetuando-se a condenação do Estado, surge o direito de regresso, devendo acionar o funcionário com a finalidade de ressarcir-se do montante pago por ordem da sentença judicial.

À primeira vista, é plenamente possível ao Estado, quando demandado em juízo pela vítima do ato ilícito, com base na sua responsabilidade objetiva (art. 37, § 6º, CFRB), promover a denunciação da lide ao servidor responsável, segundo art. 125, II, do CPC, visando, paralelamente, fazer atuar seu direito de regresso. Caso não seja promovida esta medida, não se impede que, em momento posterior, venha o Estado buscar o ressarcimento por meio da ação regressiva (RIZARDO, 2015).

A questão, entretanto, não é tão simples como parece, havendo anunciada divergência na doutrina – de direito administrativo e de direito processual civil – a respeito do cabimento ou não da denunciação da lide do Estado ao agente responsável. O exame do tema é pertinente, porque a discussão em torno da denunciação da lide ou da ação regressiva autônoma, no caso de responsabilidade civil do Estado, vai ao encontro da problemática abordada no presente trabalho, a qual se reitera, diz respeito ao momento processual para o exercício do direito de regresso da administração pública em face do servidor causador de dano.

Desse modo, pretende-se, nesse capítulo, apresentar os princípios constitucionais do processo civil relacionados ao direito de regresso, bem como o entendimento doutrinário dos autores de direito administrativo e de direito processual civil e, por fim, pesquisa de julgados relativos ao tema no Superior Tribunal de Justiça e Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

4.1 PRINCÍPIOS DE DIREITO PROCESSUAL RELACIONADOS AO DIREITO DE