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Justa medida

No documento Jornalismo e clima ético (páginas 30-33)

2.2 ETHOS HUMANO E VIRTUDES ESSENCIAIS

2.2.3 Justa medida

responsável e solidária para com os seres vivos de hoje e que virão depois de nós. Eles também têm direito à Terra e a uma vida com qualidade (BOFF, 2004, p. 69).

Segundo o pensador e ativista brasileiro Leonardo Boff (2004) conquanto as pessoas autolimitarem-se em suas vontades e desejos primordiais de expansão e conquista, de progresso e ganhos pessoais, e adotarem um modo de ser e de viver em justa medida com o meio em que está inserido, no conceito de bem comum humano e ambiental, é possível evitar-se o enfrentamento de um futuro em que toda a sociedade viva em colapso.

2.2.3 Justa medida

A virtude da autolimitação no sujeito social tem em seu modo de ser o fundamento da justa medida no meio em que ele está inserido. A justeza da medida está intimamente conectada à virtude essencial da Justiça que assegura a força do homem perante as dificuldades e a permanente procura pelo bem. Aristóteles afirmava que ética é justiça. (PEGORARO, 1995). Assim como o justo, o homem que cultiva a justa medida cultiva o equilíbrio entre o mais e o menos. Ela pode ser sentida no âmbito pessoal de maneira negativa, como um salva-guarda limitador às pretensões, incitando a vontade de realizar um ato de violação do limite proposto pelos preceitos éticos e morais. Por outra perspectiva, a justa medida pode ser para o sujeito algo positivo que direciona as potencialidades do ser, com moderação, para uma duração mais prolongada. Isso apenas é possível graças à virtude da Justiça.

A Justa medida e a Justiça derivam da razão que se deve considerar como a melhor parte da alma humana. A ideia de que a justa medida nos liberta da ilusão e da submissão às aparências lança a pessoa para a verdade e propósito da vida. Ao homem que perde seu objetivo durante sua existência, significa que lhe falta a medida e que não lhe pertence a Justiça e sim o pecado (HEIDEGGER, 1980). Da Boff (2004) explica esta visão de Heidegger sobre pecado, conceito remanescente da visão judaico-cristã:

Pecado é recusar o limite, é não reconhecer a condição de criatura. Apesar da expulsão, permaneceu o imperativo da justa medida na forma do "cultivar e guardar" o jardim do Éden, vale dizer, de viver a ética do cuidado. Por detrás de "cultivar" ressoa sempre "culto" e "cultura" que sinalizam o trato respeitoso da Terra (culto). E por detrás de "guardar", o aproveitamento sustentável de seus recursos para atender às necessidades humanas e não para fins de acumulação (BOFF, 2004, p.72).

O conceito de justa medida, tal como afirma Boff, situa-se na dinâmica que reconhece os seres como possuindo diferentes potenciais e necessidades, o que consequentemente desloca o ponto ideal de moderação de acordo com estas propensões, modelando a virtude da Justiça e as bases do ethos humano, tornando- o modelo de medida correta, mas cuja aplicação varia de acordo com o momento e o meio onde o sujeito está inserido.

Como já visto, o mundo ostenta uma cultura baseada no excesso e no desrespeito aos limites éticos e morais do homem, logo, a justa medida entra como um aprendizado pessoal cujo potencial efeito é a cura para a crise da civilização moderna. As medidas da Justiça oferecem às pessoas a vida sem excessos morais, no equilíbrio dos atos perante o outro e o cuidado essencial para com o mundo que os cerca. Este desafio é constitutivo para os sujeitos em sua vida pessoal e os profissionais, mormente os da comunicação, na realidade caótica que se vive.

A cultura imperante é em tudo excessiva. Não tem o sentido da autolimitação nem o senso da justa medida. Por isso está em crise perigosa para o seu próprio futuro. O desafio é: qual a justa medida que preserve o capital natural e a sobrevivência? A justa medida é o ótimo relativo, o equilíbrio entre o mais e o menos. Por um lado, a medida é sentida

negativamente como limite às nossas pretensões. Daí nascem a vontade e até o prazer de violar o limite. Por outro, é sentida positivamente como a capacidade de usar, de forma moderada, as potencialidades para durarem mais. Isso só é possível quando se encontra a justa medida (BOFF, 2004, p.73).

Parte da justa medida vem inflexível através dos milênios partindo das culturas resgatadas da antiguidade e cuja influência continua preciosa para a construção do pensamento moderno. Boff (2004) lembra que a representação atual da justiça, a mulher cega de posse de uma balança pronta a pesar os prós e contras de um sujeito está presente, como símbolo soberano, nas mais diversas religiões do mundo antigo. A balança e as divindades femininas serviam como guias para a justa medida. Para o indivíduo, se sua balança interior não estiver de acordo com a exterior, ou seja, em equilíbrio, não se consegue reproduzir o conhecimento adquirido a partir dos princípios fundamentais de sua religião.

Os antigos egípcios seguiam o preceito de que todo o “eu” do indivíduo deveria fluir de maneira equilibrada. Sem uma harmonia entre o interior e o exterior do homem perde-se o equilíbrio, transfigurando a justa-medida em poder destrutivo do homem para o mundo.Sempre em busca da medida em todas as coisas, os gregos e latinos acreditavam que todos aqueles que sucumbiam aos excessos e a vaidade, como os atletas olímpicos se deixando divinizar pelos fãs, deviam ser destruídos pela deusa Nêmese, cuja função era a justa-medida entre o mortal e o imortal. Boff (2004, p. 71), constata qu o “méden ágan”, frase clássica grega que se traduz como “nada em excesso” demonstra bem o pensamento do qual ainda hoje nos alimentamos.

No oriente e extremo-oriente o budismo e o hinduísmo vêem a justiça como um direito soberano e a justa-medida como uma virtude que deveria ser o critério para a valorização das pessoas. Enquanto para Buda a justeza das ações era uma atitude moral, para os hindus era um cuidado fraternal. Para ambos, a justa- medida tinha por função lançar os fundamentos de uma sociedade mais equilibrada em todos os seus aspectos (HERKENHOFF, 2010).

O desejo de uma reformulação daquela que era a religião cultivada no Oriente pelo Irã foi a ideia do profeta persa Zarathustra. Nessa concepção, deveria se ater à preocupação de um novo dinamismo pela ação do homem para que este tivesse um mundo menos machucado por acidente como o profeta o via. Como pilares dessa re-criação de princípios primordiais estavam duas forças: Ahura Mazda, o Senhor da Vida, Sabedoria e Luz, Criador da Ordem Justa e Angra Mainyu, o Demônio da Mentira. Todo esse discurso de conceitos originou o livro sagrado do Zoroastrismo Avesta ou Zend-Avesta, de 1771 (GONÇALVES- IUNSKOVSKI, 2009).

Essa espécie de digressão, organizada para servir de eixo e dar um sentido à razão moral das religiões milenares, está homologada com a humanidade desde os primórdios um exemplo disso é o big-bang que serviu de alicerce para a ética e moral (BOFF, 2004).

2.2.4 Modo-de-ser-cuidado no ethos humano

Quando o homem se vale de incorporar ao seu estilo de vida uma preocupação com o foro íntimo humano para um bem social, este se relaciona com o Domínio de si, virtude referida acima por Platão. Para tal, o indivíduo se coloca no mundo como alguém que vê a natureza e seus elementos não como meros objetos, mas como sujeitos com os quais ele co-existe. Dessa maneira, esse indivíduos está se relacionando com o seu ethos como o modo-de-ser-cuidado referido na condição humana por Martin Heidegger. O fundador do existencialismo contemporâneo em sua obra prima Ser e Tempo que apresenta a procedência latina cura ou também pode se encontrar estudiosos que a derivam como cogitare-cogitatus e suas variáveis coyedar, coídar e cuidar como forma antiga de explicar o Cuidado como essência humana. (BOFF, 2001, pp. 83-113).

No documento Jornalismo e clima ético (páginas 30-33)

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