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Jornalismo e clima ético

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA VANESSA DAL FORNO BASTOS

JORNALISMO E CLIMA ÉTICO

Palhoça 2010

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VANESSA DAL FORNO BASTOS

JORNALISMO E CLIMA ÉTICO

Monografia apresentada ao Curso de Graduação em Comunicação Social, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Jornalismo.

Orientador: Prof. Jaci Rocha Gonçalves, Dr.

Palhoça 2010

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VANESSA DAL FORNO BASTOS

JORNALISMO E CLIMA ÉTICO

Esta Monografia foi julgada adequada à obtenção do título de bacharel em Comunicação Social e aprovada em sua forma final pelo Curso de Jornalismo, da Universidade do Sul de Santa Catarina.

Palhoça, 30 de novembro de 2010.

Orientador: Jaci Rocha Gonçalves, Dr. Universidade do Sul de Santa Catarina

Prof. Mauro Meurer, Esp. Universidade do Sul de Santa Catarina

Profa. Raquel Wandelli

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Dedico esta pesquisa à sociedade, aos meios de comunicação e a todo o coletivo universal da vida que de alguma forma possam fazer uso digno do escrito aqui, ao mesmo tempo em que conspiraram para que esse tema fosse escolhido por mim. Mas dedico ainda a todos aqueles, jornalistas ou não, que se preocupam com aquilo que produzem e consomem.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus acima de tudo, pois sem ele me amparando e resguardando meu caminho nada disso teria se realizado.

Aos meus pais Renato e Iara, que me deram a vida, me apoiaram, zelaram por mim a todo o momento enquanto eu trilhava meu próprio caminho, por nutrirem um amor incondicional e me derem alicerces para ser o que sou hoje.

A minha avó Odaléa, pelas palavras de carinho e suas preces para que tudo acabasse bem. Agradeço também a meus avós que não podem estar comigo fisicamente, mas com toda a certeza emanam pensamentos bons para mim onde quer que estejam.

Aos meus irmãos Renata, Renato e Tatiana, que apesar das brigas sempre me apoiaram e me amam. Foi com eles que eu aprendi o que é sentir um amor fraternal e sem interesse.

A minha sobrinha e afilhada Maria Eduarda, que é a luz da minha vida. A minha família e amigos de modo geral, especialmente a amiga-irmã Monique por mesmo longe se fazerem presentes em minha vida.

Aos colegas de sala feitos ao longo desses quatro anos, em especial a Alessandra, Karine, Mariana, Maurício, Paulo Vitor e Thomaz, pela amizade que espero estender além do campus da Universidade, o convívio diário, as risadas e os momentos de estudo.

Ao namorado Thomaz, que se transformou em uma pessoa especial, de importância sem igual em minha vida e o qual quero sempre por perto. A ele, agradeço, pelo amor, carinho, atenção, compreensão e paz nas horas de angústia.

Ao meu orientador Jaci, pelas exigências, incentivos e pelos apoios prestados. Agradeço-o ainda pela lição de humanidade aprendida, por dividir seus conhecimentos durante o semestre e pela confiança para embarcar nesse projeto.

Aos entrevistados que compartilharam da minha ideologia sobre o assunto cedendo sua bagagem cultural para que eu enriquecesse o estudo.

Enfim, agradeço a todos que de alguma forma contribuíram para a efetiva idealização e concretização desta monografia.

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“Cuidemos de não criar o anjo para que não apareça o demônio; a verdadeira defesa da ética passa pela crítica da eticidade.”

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RESUMO

A presente pesquisa se concentra em atribuir ao jornalismo e àqueles que o fazem um dinamismo ético e moral necessário à profissão. Essa verificação se encontra refletida a partir dos argumentos recolhidos, analisados e discutidos de jornalistas renomados. Estes, por sua vez, trazem para a pesquisa novos ideais, valores e virtudes essenciais adormecidos e pouco discutidos pelas mentes humanas da sociedade contemporânea. O estudo se fundamenta na ideia de um pensador orgânico para um universo menos automatizado e voltado para a essência afetiva humana e o cuidado universal de um mundo harmonioso. Outro aspecto intrínseco na pesquisa é o de uma sociedade heterogêneo-democrática enquanto visões e opiniões de mundo e de moral, porém, homogênea em termos não flexíveis, como a ética deveria ser a todos os seres perante suas escolhas propiciando dessa forma cidadãos mais críticos e criteriosos. Dentro do jornalismo, este agregado de conceitos e julgamentos, juntos, primam por profissionais crítico-criativos e solidários que zelam por disseminar conteúdos de qualidade e com princípios para todos.

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ABSTRACT

The present research focuses on journalism and assign for those who do an ethical and moral dynamism necessary to the profession. This check is finding reflected from the arguments collected, analyzed and discussed for renowned journalists. These, in his turn, bring to the research new ideals, values and virtues essential dormant and little discussed by the human minds of contemporary society. The study clings to the idea of a organic thinker to a universe less automated and geared toward the emotional essence of human care in the universal coverage of a harmonious world. Another intrinsic aspect of this research is that of a society as heterogeneous-democratic while in visions and opinions of the world and moral, but homogeneous in terms not flexible, how ethics should be to all beings before their choices providing in this form more critical and discerning citizens. Within this aggregate of journalism concepts and judgments, together, are conspicuous by professional critic-creatives and supportives who care for disseminating quality content and principles to all.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Ilustração 1 – Justiça como Justa medida, Coragem como Bem comum para toda a comunidade da vida, Sabedoria como Autolimitação e Domínio de si como Modo-de-ser-cuidado são virtudes essenciais do humano e se encontram assim esculpidas na tumba do Papa Clemente II na Catedral de Bamberg...25

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ...11

2 ETHOS HUMANO E NECESSIDADE DA ÉTICA...15

2.1 ETHOS, MORALIS E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA...16

2.2 ETHOS HUMANO E VIRTUDES ESSENCIAIS ...22

2.2.1 Bem comum para Toda a Comunidade da Vida ...26

2.2.2 Autolimitação...27

2.2.3 Justa medida ...29

2.2.4 Modo-de-ser-cuidado no ethos humano ...32

2.3 OS REFLEXOS DA ÉTICA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA ...34

3 CONCEITO DE CRÍTICA E CRITÉRIO NO COTIDIANO JORNALÍSTICO...38

3.1 A JORNALISTA COMO PENSADORA ORGÂNICA CRÍTICO-CRIATIVA E SOLIDÁRIA ...43

3.2 O JORNALISMO ÉTICO E A ARTE CRÍTICO-UTÓPICA ...46

3.3 VIRTUDES PROFISSIONAIS ESSENCIAIS DA JORNALISTA...50

4 DIALOGANDO COM JORNALISTAS ...55

5 CONCLUSÃO ...63

REFERÊNCIAS...65

GLOSSÁRIO...71

APÊNDICES ...72

APÊNDICE A – Modelo de questionário para entrevista...73

APÊNDICE B – Entrevista com Nilson Lage ...75

APÊNDICE C – Entrevista com Moacir Pereira ...78

APÊNDICE D – Entrevista com Elaine Tavares...82

APÊNDICE E – Entrevista com Á. M. M.*...87

APÊNDICE F – Entrevista com Jorge Pedro Sousa ...90

APÊNDICE G – Entrevista com Eugênio Araújo ...93

ANEXOS ...98

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ANEXO B – Fragmento da Deontologia da Comunicação e Constituição Brasileira de 05/10/1988...106 ANEXO C – Declaração Universal dos Direitos Humanos...112 ANEXO D – Fragmento do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos...

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1 INTRODUÇÃO

Hoje, no mundo, o que dita são as aparências. Antes mesmo de conhecer uma pessoa, ela já é julgada por aquilo que tem, se está na moda, qual o meio que está inserida, entre outros. Na verdade, ela não passa de mais uma mercadoria que tenta se vender a um determinado grupo social com fim de ganhar status perante a esse mesmo grupo. (FROMM, 1984). Esse tipo de pessoa, deixando-se corromper por conceitos fúteis e mesquinhos está se tornando alguém alienada na sociedade. E, por estarmos muito mecanizados, falta essa preocupação com uma produção de conteúdo cultural crítico que reforce o lado humano. Assim, aqueles que querem um mundo mais semeador de idéias pertinentes, se vêem aflitos para tentar mudar essa realidade.

Apesar de estarmos no século XXI, temos inúmeros avanços em diversos setores, parece que quanto mais o tempo passa existe menos preocupação com a ética e a moral, seja dos cidadãos, dos veículos de comunicação ou das grandes empresas. A sociedade está tendo seu espaço público democrático apropriado pelas ideias individuais, a cada dia mais o sujeito prioriza o seu eu particular em detrimento ao espírito do todo, cuja base é o cuidado para com o próximo segundo Karam (2004) e Boff (1999) .

Tudo isso porque pensar, falar e ter uma atitude ética e moral tem perdido seu valor nos dias atuais. E no âmbito jornalístico é até mais preocupante, já que nesse ramo a disseminação da informação tomou uma velocidade nunca antes vista devido a evolução tanto dos novos meios quanto dos tradicionais. Ou seja, é no jornalismo que tem por princípios repassar uma informação ao interesse público, (sem omissão e manipulação), que se quer averiguar a seguinte questão nesta pesquisa: Como a ética e a moral são construídas no profissional ou no exercício da profissão? Karam (1994) dá razões dos porquês a ética tem se tornado obsoleta para a sociedade; ele mostra que é o fluxograma ético que está cada vez mais sendo utilizado como apoio de mesas ou pegando poeira em estantes, por exemplo.

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Certamente, o discurso empresarial jornalístico, ao tornar códigos ‘trapos de papel’, ao privatizar o uso da esfera pública e de conceitos correspondentes, contribui para que o cinismo avance (KARAM, 2004, p. 129).

Desse modo, no jornalismo onde a matéria prima é a notícia, é que essa fuga de valores e virtudes se torna mais inquietante para aqueles que primam por uma comunicação feita com esmero qualitativo e não quantitativo em sua essência prognóstica de matéria orgânica. Nesse sentido, a busca por bons conteúdos e profissionais se torna incessante, a fim de estabelecer com o público crítico e criterioso uma relação de cumplicidade, onde exista o compromisso de relatar a verdade sem modificá-la restaurando então a credibilidade dos veículos perante todo o público.

Nesse cenário, uma pesquisa sobre valores e virtudes éticos e morais se torna mais que interessante, se torna urgente visto sua importância na sociedade onde vivemos, uma vez que esses conceitos e princípios essenciais estão se tornando escassos e deturpados.

[...] a voga dos códigos éticos nada tem de idealista, é profundamente sustentada pela crença de que a ética é essencial ao sucesso comercial e financeiro [...] Se a caridade-espetáculo explora a moral do sentimento, a business ethics assenta na moral do interesse bem claro: não é a consagração da ética que caracteriza a nossa época, mas a sua instrumentalização utilitarista no mundo dos negócios’ (LIPOVETSKY, 1994, p. 282).

Para fins metodológicos, a pesquisa origina-se em caráter bibliográfico oferecendo o embasamento teórico acerca do assunto estudado contextualizando-o a partir de dicionários especializados, livros, artigos, revistas e internet. Este tipo de método, segundo Vergara (2000, p. 46) consiste na análise de conteúdo previamente divulgado conexo ao tema escolhido por parte do compositor da

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pesquisa. Por sua vez, ela também serve de base para todo e qualquer outro tipo de pesquisa já que a priori sempre haverá algum elemento que necessite da busca por informações de cunho bibliográfico. Outro autor expõe as especificidades da importância e dos benefícios para quem opta por esse método:

A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente. Essa vantagem torna-se particularmente importante quando o problema de pesquisa requer dados muito dispersos pelo espaço. Por exemplo, seria impossível a um pesquisador percorrer todo o território brasileiro em busca de dados sobre população ou renda per capita; todavia, se tem à sua disposição uma bibliografia adequada, não terá maiores obstáculos para contar com as informações requeridas (GIL, 2002, p. 45).

No campo prático, para fins de atestar a veracidade da pesquisa, propõe-se realizar entrevistas em forma de questionário padronizadas com jornalistas, dando-lhe assim uma abordagem empírica. Segundo Gil (2000) a explicação do que foi averiguado com o método bibliográfico é o que se espera com a pesquisa descritiva: “As pesquisas descritivas têm como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou, então, o estabelecimento de relações entre variáveis” (GIL, 2002, p. 42).

Porém, enquanto o método bibliográfico é explicativo, a pesquisa de campo é descritiva. O primeiro pretende estabelecer o teor em que está inserida a pesquisa, ou seja, os fins. Já o segundo, visa apresentar os meios com o qual se comprova os dados previamente levantados com o método bibliográfico. Apesar de cada um seguir uma linha de raciocínio, um serve de suporte ao outro. Juntos, eles vão complementando a pesquisa e traçando um perfil único da mesma.

Já em caráter de estrutura esse trabalho irá se formar em três capítulos dentro dos quais serão discutidas suas características primordiais e subseqüentes peculiaridades. Ela fica composta da seguinte maneira:

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Após a introdução que se está discorrendo, no capítulo segundo se oferece uma introdução ao tema uma vez que traz todo um contexto de ética para os cidadãos e a sociedade a fim de ver como ela se verifica e comporta entre os mesmos. A partir daí sim, analisa-se qual a representação que esse valor tem na sociedade atual para então entrar no tema específico.

Como forma de adentrar no objeto da pesquisa, o capítulo terceiro possui a intenção de explorar como a ética se comporta no campo jornalístico num todo, desde o cotidiano dos profissionais até a confecção das notícias. Sem esquecer-se de falar da mídia, como deveria ser o fazer verdadeiro jornalismo. Outro ponto primordial do jornalismo que também será pensado é a preocupação com o que chega até o cidadão.

No capítulo quarto, o que se pretende é a verificação; tem o objetivo de mostrar as entrevistas feitas durante toda a pesquisa, bem como falar como foi esse processo e ver sua conexão de forma prática e vivaz com a teoria discutida nos capítulos anteriores. Além, é claro, de apresentar as conclusões feitas a partir dessas mesmas entrevistas.

Sendo assim, os métodos escolhidos para coordenar essa pesquisa têm por objetivo serem esclarecedores sobre as ações e condutas sociais pelos profissionais jornalistas, ou numa palavra: praxiológicos. Dessa maneira, a mesma se concentra na verificação de que forma a ética está conceituada e colocada tanto para o profissional quanto para o lugar no qual ele trabalha. E mais, se é possível a partir da ciência da ética estabelecer um sentimento de necessidade de uma reformulação ou ressignificação moral. Assim, esse próprio exercício monográfico intenciona-se como uma reflexão crítica e criteriosa para que as pessoas não se deixem virar máquinas, ou seja, serem controladas por aqueles que detêm maior poder, mas sim focalizar as possibilidades de maior humanização nas relações.

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2 ETHOS HUMANO E NECESSIDADE DA ÉTICA

Ao parar e pensar no lado humano, seja de um individuo ou de uma sociedade, observa-se que a primeira necessidade é de se armar alicerces teóricos para poder então abordar de forma fundamentada a ética e a moral em suas raízes etimológicas e históricas. Após essa análise de conceitos torna-se possível aplicá-los junto à sociedade iniciando assim uma discussão mais específica sobre o como a ética e a moral agem sobre o elemento social.

A relevância de se analisar a ética em seu espaço prático das vivências humanas e, aqui no cotidiano da atividade jornalística, se dá devido a uma grande ausência da mesma. Nesse sentido, os autores sinalizam que estamos numa crise de valores generalizada cujo resgate da ética pouco importa mediante o estado caótico em que a sociedade se encontra. Assim, pouco se faz para tirar a realidade desse abismo sociológico, clima que se reflete nas relações humanas. Segundo Marcel Gauchet, de posse dessa idéia, verifica-se que os seres humanos têm caminhado não só para um universo vazio como também para corpos sem almas (FERRY-GAUCHET, 2008). E mais:

Ele persiste assim na idéia de que vivemos a época de um afastamento e de uma separação entre o homem e Deus que não cessa de se ampliar. É essa separação que teria atingido atualmente sua amplitude máxima, de tal forma que o humanismo contemporâneo, que deveria ser pensado ou inventado em nossos dias, não seria aquele do homem-Deus, mas, ao contrário, aquele do homem sem Deus e do homem definitiva e irrevogavelmente sem Deus. (FERRY-GAUCHET, 2008, pp. 9-10).

Outro fator importante que visa salientar e agregar conteúdo para um melhor entendimento deste clima anti-ético é o estudo acerca dos valores humanos primordiais. Pode-se fazer reflexão semelhante também desde a América Latina quando se observa as mesmas preocupações dos estudiosos franceses Luc Ferry e Marcele nas idéias de Boff (1999; 2003; 2004) acerca dos valores essenciais do humano e a necessidade de estudar as grandes preocupações cada vez maiores da

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comunidade internacional quanto à utilidade de bens e serviços em prol de toda a comunidade da vida e seus sentidos.

Diante de seus próprios limites, está o posicionamento do indivíduo perante suas vontades e escolhas visando à harmonia temporal do universo. De posse da consciência crítica idealizada por Gramsci podem-se exercer com equidade os dilemas da sociedade. A preocupação do indivíduo com os seres e o mundo, enquanto formador de ideias e ações perante suas crenças, desde os que estão à sua volta e ao seu alcance, também se fazem valer no âmbito afetivo humano (BOFF, 1999/2004, pp. 83-63, 67 e 69).

Será a partir desse convívio que o universo tomará forma ética e moral enquanto ambientado por seres construtores de matéria orgânica e inorgânica humana emanadas de suas essências (FERRY, 2007, p. 85).

Daí a urgência e a dificuldade das reacções (sic) morais, humanitárias ou outras, que a percepção do mal pelo mal provoca: uma vez secularizada, será que a ética ainda é capaz de encontrar em si mesma as forças necessárias para um combate vitorioso? Não viveremos nós, pelo contrário, os efeitos inelutáveis da humanização do divino, mergulhados na era do <<pós-dever>>, afastados dos grandes ardores e das militâncias a favor do Bem? A questão merece de facto (sic) ser colocada... (FERRY, 2007, p. 85).

Diante dessa perspectiva, deseja-se discutir de que forma essa ética está intrínseca na sociedade e qual o resultado disso, já que seus valores tendem a ser invariavelmente universais.

2.1 ETHOS, MORALIS E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

Vivemos num ciclo de ideias que surgem no meio social atual conectados a conceitos de mundo, estes já vêm pré-estabelecidos de outras sociedades cujos paradigmas nós somente transformamos e adaptamos ao nosso momento presente.

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Amarradas a essa base social estão ética e a moral que servem de apoio a toda e quaisquer condutas e ações que fazemos.

Daí a importância da ética e moral, elas carregam em si o peso de toda uma humanidade, pois são a partir desses termos que todo o resto é construído, que se precisa estudar de que forma os mesmos se refletem e como isso acontece atualmente na sociedade.

Em virtude da pouca difusão dos saberes éticos expostos à sociedade sabe-se que é de extrema importância um estudo aprofundado sobre a relação entre ética e comunidade. Segundo Dussel (2002) para aqueles que buscam uma mudança ética e social esse estudo torna-se exercício do que alguns estudiosos latino-americanos denominam de utopia factível porque neles se usa dos limites empíricos para comprovar sua possibilidade real de funcionalidade, sendo esta uma necessidade para a criação de uma nova filosofia da essência do humano.

Enfim, esteja a ética no campo teórico ou prático, ela merece espaço nas reflexões das mentes dos seres racionais e nas guarnições de conteúdos divulgados mundo afora por tudo o que ela sempre representou nas sociedades antigas e, principalmente, pelo que representa para a atual. Apesar de hoje ter perdido lugar para pautas consideradas mais válidas, como politicagem, moda, febre tecnológica e outras necessidades não-dispensáveis aos seres humanos tomados em sua maioria. Porque a ética, mais do que um conceito é também a escolha de uma filosofia de vida. Enquanto a moral, por sua vez, tem suas escolhas baseada nas facetas de cada indivíduo para ser posteriormente aplicada em toda uma sociedade conforme Karam (2004).

Para dar fundamento a esses juízos, analisamos a etimologia e a semântica de palavras chaves desse estudo como ética, moral e sociedade. Com o intuito de compreender os termos, recorremos a Marques (2000) para o estudo da semântica.

A semântica é um dos caminhos que possibilitam à filosofia compreender como o ser humano elabora representações simbólicas do mundo, de que

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modo organiza e estrutura, de acordo com princípios capazes de estabelecerem a aceitabilidade e a coerência dessas representações simbólicas, objetivas e subjetivas, de dados da realidade (MARQUES, 1990, p. 16).

Ainda, para fins de entendimento das palavras e seu uso no contexto contemporâneo, Saussure (1995a/1995b) nos ajuda a entender a importância da ótica da etimologia:

A etimologia é, pois, antes de tudo, a explicação das palavras pela pesquisa de suas relações com outras palavras. Explicar quer dizer: reduzir a termos conhecidos, e em Lingüística explicar uma palavra é reduzi-la a outras palavras, (pois) não existem relações necessárias entre o som e o sentido (princípio da arbitrariedade do signo). (...)

A etimologia não se contenta em explicar palavras isoladas; faz a história de famílias de palavras, assim como a faz dos elementos formativos, prefixos, sufixos, etc. (...)

A propósito de uma palavra tomada como objeto de pesquisa, a etimologia toma emprestados seus elementos de (informação) tanto (da) fonética, (quanto da) morfologia, (da) semântica, etc. Para alcançar seus fins, serve-se de todos os meios que a Lingüística lhe põe à disposição, mas não detém sua atenção na natureza das operações que está obrigada a levar a cabo (p. 220, ver passagem correspondente na edição francesa: Saussure, 1916/1995a, pp. 259-260).

De posse do conhecimento dos métodos de análise que se utilizará podemos, então, adentrar aos objetos de fato.

A Sociedade caminha a passos largos para a contemplação do eu alienado na condição existencial. Verifica-se um vazio e total desprendimento da razão ética de ser e fazer para com o outro. Esse vazio nasce do desprezo em cuidar da nossa essência de conteúdo humano. Gonçalves-Iunskovski (2009) ajudam neste aspecto:

Esse contexto de aprofundamento sobre nosso ser e viver complexo, desafiador e provocante só é possível porque em nosso modo-de-ser-no-mundo somos Dasein, no dizer de Martin Heidegger, o que significa dizer

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que os humanos são seres-que-estão-aí-e-sabem-que-estão-aí (GONÇALVES; IUNSKOVSKI, 2009, p. 24).

Prova disso está no cerne do homem social, que é a pedra fundamental da ética, conceito que armazena todo o conjunto do eu. Entendida como uma reflexão de nossos valores e crenças, a ética tem por objetivo ser soberana perante o livre-arbítrio dos homens, oferecendo oportunidades que conduzem às diretrizes estabelecidas pela moral dito por Ferry (2007).

Como tudo na vida, a ética é apenas mais uma escolha, dentre muitas que o homem tem de tomar. Porém, com essa liberdade de decisões, vem a prerrogativa de que é necessário haver responsabilidade para não tornar esse poder um mal para si próprio. Dentro da comunicação, o profissional vê-se no dilema: para onde vou? Se ele segue seus princípios ou os da empresa.

Há quase meio século Sartre afirmou que o homem está condenado à sua liberdade. Portanto, o exercício da escolha é inerente ao ser humano a ponto de parecer uma condenação já que optar é uma tarefa difícil e implica uma situação de risco. Karam (1997) lembra Sartre para frisar que é do humano a tarefa de construir um futuro para si e saber lidar com as consequências de seus atos, sejam elas permanentes ou não: “(...) Eu procuro, portanto, a moral de hoje... tento elucidar a escolha que um homem pode fazer de si mesmo e do mundo em 1948” (SARTRE apud KARAM, 1997, p. 35). Percebe-se que Sartre fundamentou uma preocupação ética genuína, ou seja, direcionada ao indivíduo e também ao seu meio social. Ela explora “(...) os limites materiais e morais colocados”, como descreve Karam (1997, p. 35).

Resistente aos séculos, a origem da ciência da ética remonta à Antiga Grécia e seus preceitos filosóficos. A raiz de seu vocábulo é calcada na palavra grega ethos, que tem como base a ideia de caráter a partir do modo de ser do humano, uma vez que é inflexível e não admite subterfúgios (VIDAL, 1992).

Marciano Vidal (1992) explica ainda que existem duas funções principais da ciência da ética: de um lado, a crítica que averigua todas as ações e condutas

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dos indivíduos e o que as determina de modo a serem ou não passíveis do comportamento humano, tendo em vista os conceitos de autenticidade dos seres para com o mundo. De outro lado tem a função utópica que se apodera de tudo o que está desgovernado aos olhos da primeira e as idealiza a fim de se tornarem conceitos ideais para um convívio harmonioso em grupo. Juntando a dupla função crítico-utópica numa única função, a ética busca devolver a solidariedade para aqueles que a escolhem.

A ética conduz à consciência humana e a um arquétipo de valores morais objetivos. Assim, a moral emerge do interior do homem no momento de suas realizações atuando como mediadora histórico-cultural entre os preceitos éticos do ser e o livre-arbítrio do dia a dia. Noutra de suas reflexões, Vidal (1992) explora a ideia de que a moral é objetiva e serve em um campo mais prático dentro da vida do humano em sociedade. Importa nestas relações ter clara (...) a implicação da pessoa em todas as realizações humanas sejam estas de caráter econômico, político, cultural, jurídico, empresarial, etc. Em todas estas realizações não se trata de “coisas", mas de “sujeitos humanos”, isto é, de “pessoas”.

Verifica-se, então, neste contexto que a moral está intrinsecamente relacionada aos costumes, enquanto que a ética com os significados deste costume, ou melhor, relacionando-se com o caráter social e pessoal. A moral vem da raiz latina moralis, portanto, é um conceito posterior ao grego ethos que concebe a ética, um termo que englobava em seu significado o caráter, mas também costume e maneira de ser.1 Embora com fundamentos semelhantes, a ética trata de uma

realidade axiológica, isto é, relativa aos valores, cuja vertente é subjetiva, já a moral trata de componentes objetivos ao homem. Ambas as realidades, subjetiva e objetiva, não se sobrepõem à realidade primordial da pessoa, mas integram internamente está realidade. Uma transformação social, seja ela de qualquer tipo, somente adquire densidade partindo da afirmação do homem como sujeito que é uma construção que tem por base códigos morais e éticos.

1 Ethos: palavra grega. Escrita com épsilon, o ethos designava o conceito de costume (daí «etologia,); escrito com eta, o êthos referia-se ao conceito de caráter. Sem esquecer nem negar a correlação existente entre «costume» (ethos) e «caráter» (êthos), temos de dar primazia ao êthos-caráter quando se utiliza no contexto da ética. O ético tem uma relação mais direta e estreita com o caráter do que com o costume. (VIDAL, 1992, p.242).

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Qualquer formulação ética do mundo humano deve ter em conta as afirmações precedentes, que se sintetizam nesta: a pessoa é a origem e a meta de toda a atuação que pretenda ser humana e humanizadora. A Ética surge necessariamente na realidade humana porque nesta se trata, não de "coisas", mas de «sujeitos», isto é, de pessoas (VIDAL, 1992, p. 244).

Todas essas variáveis compõem o ser humano possibilitando que este se integre para coexistir. Para essa relação de convivência damos o nome de sociedade. A procedência da palavra remonta ao latim societas que deriva de socius. Juntas elas constituem a ideia de uma associação de indivíduos com interesses e finalidades mútuas em prol de uma mesma razão (OLIVEIRA, 2008).

A sociedade apresenta-se como um mosaico de nacionalidades, línguas e comunidades culturais diversificadas. Produto de mutações políticas, sociais, econômicas, tecnológicas e culturais, fruto dos fenômenos da globalização e da expansão da comunicação; viu-se nos últimos anos intensificar-se essa diversidade.

Dentro deste movimento de mudança global, a verdadeira importância reside em não perder de vista o caráter pluricultural das comunidades que formam a sociedade contemporânea. A convivência harmoniosa das diferentes comunidades não pode ser entendida sem que o sujeito aprenda a respeitar e proteger a dignidade e os valores inerentes a cada ser humano e combater toda e qualquer forma de discriminação. Isso constitui, certamente, uma das metas a serem atingidas pelo sujeito que vive neste início de século através da existência e cumprimento dos Direitos Humanos. Como importância factual, faz-se urgente a promoção de ações que estimulem o conhecimento destes direitos e deveres morais que regem a Declaração Universal (MONTORO, 2010).

Esta Declaração funciona como um código, que se mostra intrinsecamente ligado ao cerne do caráter do homem, ou seja, a ética e a moral, uma vez que atua como um julgamento, segundo a mesma, entre o certo e o errado no relacionamento de um indivíduo para com o outro e também guia a maneira de ser do homem perante os valores da justiça, da coragem e do cuidado em relação ao meio em que vive.

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Tais valores estariam em consenso com as virtudes essenciais do ser humano. A sociedade e o homem possuem finalidades diferentes, logo, a Declaração dos Direitos Humanos atua na expansão dos valores morais do indivíduo para o restante do mundo (IDEM).

O homem, não importa a época, é regido pelos mesmos valores morais e éticos. No entanto, as sociedades, com o passar do tempo, mudam os valores absolutos que as norteiam. A ética atua no âmago do indivíduo e tem seu julgamento inalterável. Já a moral é construída a partir das escolhas da pessoa para que esta seja acolhida pelo seu meio social em que está inserida. Assim sendo, a moral e a ética são as engrenagens que movem as realizações da sociedade atuando diretamente nos sujeitos que a edificam, pois induzem as tomadas de decisão a um objetivo comum para todos os indivíduos. Pode-se concluir com o jornalista Francisco José Karam que a moral com suas “(...) regras e condutas morais reflete, portanto, a sistematização social daquilo que existe na esfera moral e é objeto da reflexão ética” (KARAM, 1997, p. 33).

Dessa forma, a sociedade se vê aprisionada a um ciclo de comportamentos e juízos que juntos e sincronizados constroem o caráter ético a partir do âmago do ser humano em seu critério de costume moral. Assim, todos, cada um munido de suas particularidades vitais, caminham para um universo onde a existência valha mais do que meros conceitos espalhados ao vento e jogados às traças.

2.2 ETHOS HUMANO E VIRTUDES ESSENCIAIS

Para ter uma consciência de triagem dos valores pertinentes ao alento da alma e da essência do humano, o mundo precisa se valer, antes, de uma

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consciência individual. Esta necessita primeiro se abrir e se dispor a receber o outro, não como mais uma “pessoa” apenas, e sim, como um “agente intrínseco de bagagem vivida”, sendo alguém que está disposto a se deixar transformar por aquele conteúdo que está absorvendo.

A partir desse encontro com o outro, é tempo de lançar-se ao trabalho com dedicação e fervor para fazer do seu habitat um ambiente mais harmonioso para o convívio social, respeitando as normas éticas e morais. Porém, para que isso dê certo é necessário que se acredite na ideia, pois somente assim se poderá repassar um discurso transformador e formar uma cadeia de proteção e multiplicação para o ethos humano.

Inicialmente vindo do grego, o ethos, como explicado acima, advém do desígnio de contemplar os preceitos de caráter e costume diante dos códigos sociais estabelecidos para a convivência e conveniência arcaica, pelejada desde nossos antepassados remotos.

Por ethos entendemos o conjunto das inspirações, dos valores e dos princípios que orientarão as relações humanas para com a natureza, para com a sociedade, para com as alteridades, para consigo mesmo e para com o sentido transcendente da existência (...) (BOFF, 2003, p. 17).

Sendo assim, o ethos humano considera toda a realidade de um antagonismo nas relações compassivas da afetividade em busca do desprendimento com o lado material e do almejo da conexão de sintonia com o lado humanitário dos seres, de simplicidade e coerência em suas bases teóricas, mas complexa no contexto prático do cotidiano. Na sociedade atual essa necessidade se mostra refletida nas relações interpessoais e no descaso do mundo para com ele próprio, ou seja, precisa-se de uma reforma intelectual afetiva de forma emergencial se queremos sair do buraco escuro que corrói a alma humana.

Refletir sobre a reforma afetiva-intelectual proporcionada pelo ethos no ser humano requer alguma investigação sobre seu modo de ser concebido. Decorre daí alguma dificuldade para se pensar uma possibilidade lógica que, como uma

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utopia factível, é projetada em relação à esfera social e, também, à esfera do homem como sujeito social; esta percepção se constitui como “pedra fundamental” para aprender a cosmovisão necessária para uma reforma de valores morais e éticos. Em ambos os casos - social e sujeito social - trata-se de postular a obtenção da virtude.

Essas virtudes, cuja palavra surge do latim virtus traduzida de maneira literal como “poder”, estão ligadas fundamentalmente ao ethos humano e seriam a forma mais plena da excelência moral, não podendo existir em seres cuja formação de caráter está incompleta, como as crianças. Constituídas a partir da prática, as virtudes não são natureza, ou seja, não pertencem ao campo específico da ética, e sim da moral, necessitando de um aprendizado eficaz para garantir a ação virtuosa. A excelência moral, revelada através do uso prático das virtudes é, acima de tudo, uma disposição da moralidade. Então, para o exercício das virtudes faz-se necessário conhecer, julgar, ponderar, discernir, calcular e deliberar. Não é o mero conhecer do bem que pode dirigir a ação justa. Logo, as virtudes essenciais ao ser humano correspondem à ideia de um significado reto relativo às questões de normas de condutas, segundo Vidal (1995, p. 16).

A disposição do caráter humano teria por suposto a precedência de uma escolha dos atos a serem praticados e de um hábito firmado pela repetição para conduzir à ação reta. Nesse sentido, pode-se dizer que a virtude é hábito construído pela proximidade da relação potência e ato.

A dinâmica da potência e ato, a força para realizar uma ação no meio social e a ação efetivamente atingida, confirma a razão prática das virtudes na medida em que não se apóia necessariamente no conhecimento teórico para serem construídas pelos sujeitos, mas que tem sua construção pelo hábito da moral, pela ação propositadamente exercitada e repetida, mediante uma gama de conhecimentos pré-determinados, em potência, no caráter do homem. O comportamento seria, pois, o grande fator distintivo das virtudes dentro do ethos humano e seu modo de agir perante os outros, perante a si próprio, perante os que são próximos, perante a humanidade.

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Mais uma vez, reforça-se a tarefa de demarcar a virtude como um hábito, que só se consolida na ação. Um exemplo disto pode ser conferido na entrevista de Eugênio Araújo sobre seu dilema ético pessoal, ao final deste trabalho. Por não se tratar de assunto invariável, as virtudes não são um tema a se ensinar enquanto saber teórico. É, em verdade, um rol de costumes a serem repetidamente praticados para com as gerações mais jovens, com o fito de que estas venham a adquirir a força moral extraída das quatro virtudes essenciais ao homem social segundo Platão: Coragem, Sabedoria, Justiça e Domínio de si (VIDAL, 1995, p. 18).

Cada uma das quatro virtudes estão intimamente ligadas a outras quatro dinâmicas sociais da ética e da moral, sendo o Bem Comum para Toda a Comunidade da Vida conectada à virtude da Coragem, a Autolimitação como Sabedoria, a justa medida à Justiça e o Modo-de-ser-cuidado ao Domínio de si (BOFF, 1999/2004, pp. 83-63, 67 e 69).

Ilustração 1 – Justiça como Justa medida, Coragem como Bem comum para Toda a Comunidade da Vida, Sabedoria como Autolimitação e Domínio de si como Modo-de-ser-cuidado são virtudes essenciais do humano e se encontram assim esculpidas na tumba do Papa Clemente II na Catedral de Bamberg.

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2.2.1 Bem Comum para Toda a Comunidade da Vida

A virtude da Coragem, pensada por Platão, afirma a perseverança do sujeito perante as dificuldades e a constância na busca inflexível pelo bem, para si e para o meio em que está inserido, sendo possível ao sujeito corajoso chegar aos limites do eventual sacrifício pessoal em prol de um bem maior, comum a todos. No mundo social moderno, vivemos uma crise que, mais do que uma simples crise econômica ou política, é um colapso ético, conforme o diálogo de Luc Ferry, filósofo humanista aconfessional e o marxista ateu Marcel Gauchet, citados acima. Essa crise remete a uma questão de valores e de definição do rumo que a sociedade precisa traçar em direção ao futuro, de forma que o bem comum a toda comunidade da vida virá à tona como o marco zero de um mundo próspero. Conforme Ferry-Gauchet (2008) os homens estão se tornando órfãos de Deus. A cada dia que passa a humanidade assume um comportamento autônomo em crenças e vazio em esperança.

O homem e Deus estão separados como jamais estiveram na história da Europa e provavelmente na história do mundo e que, diz ele, saímos da era de uma autonomia a ser conquistada contra a heteronomia. Dito de outra maneira, esse processo de conquista da autonomia está terminado. Vivemos definitivamente num mundo sem Deus, no qual o homem está completamente separado do divino (FERRY-GAUCHET, 2008, p. 17).

Dentre os quatro princípios fundamentais das dinâmicas sociais éticas, cuja realização do bem comum a toda a comunidade da vida serve para recuperar e preservar o mundo e a vida, o resgate da razão com a afetividade; a Coragem desponta como virtude necessária a integrar o interior do indivíduo sendo posta em

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prática como os atos do sujeito perante o meio social. Quando o ser humano se envolve afetivamente e escolhe agir de forma a mudar os desígnios sociais em vigência a fim de contornar suas crises, começa a repensar suas atitudes transformando-as em cuidado. Ao fazer isso, tudo o que cuidamos dura bastante tempo, sana as feridas existentes e previne feridas futuras.

Em razão desta compreensão, o bem comum não pode ser apenas humano, mas de toda a comunidade terrenal e biótica com quem compartilhamos a vida e o destino. A economia política não pode cuidar apenas do bem-estar material dos seres humanos, mas de todos os demais seres que precisam (...) (BOFF, 2004, p. 66).

Assim, todo o esforço para implementar o bem estar de igualdade social para toda a vida do meio em que a pessoa se encontra pode ser traduzida como cooperação, diferente da lógica da economia e de mercado que é a competição capitalista regente no mundo moderno, é o fundamento da responsabilidade.

Para que exista a cooperação, é necessária mais colaboração, que somente surge quando diversos sujeitos unem-se sob os aspectos da virtude da Coragem, ou seja, da vontade de mudar permanentemente o mundo em prol de um bem comum a toda a vida.

2.2.2 Autolimitação

As moderações do sujeito diante da atração exercida por seus prazeres advêm da virtude da Sabedoria, sendo que esta assegura o prevalecimento da vontade sobre os instintos naturais do ser humano criando um sentido de equilíbrio

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nas tomadas de decisões e no uso dos bens criados. A Sabedoria propõe ao indivíduo uma nova perspectiva de atitude ética em relação ao mundo como forma de moldá-lo dentro da idéia de reforma afetivo-intelectual, tão necessária no dias atuais. O teólogo e filósofo Leonardo Boff destaca este trecho da “Carta da Terra” para ressaltar a necessidade urgente de mudança em relação ao nosso comportamento consumista:

Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher seu futuro: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra ou (...) arriscar a nossa destruição e da diversidade da vida (BOFF, 2004, p. 67).

Ainda, Boff cita as várias questões que evidenciam a necessidade desta reflexão “(...) só temos esta Casa Comum para habitar, seus recursos são limitados, muitos não renováveis, a água doce é o bem mais escasso da natureza (...)“ (BOFF, 2004, p. 67).

Tal reflexão ressalta a crise ética do mundo e reafirma que a causa está nas revoluções ocorridas na idade moderna, como a industrial, do conhecimento e da comunicação. Também, a prosperidade mundial se desenvolveu em um nível completamente material, ignorando um acompanhamento ético e espiritual, tendo por consequência do ato, o vazio existencial do sujeito e a contínua destruição da natureza do planeta pelo já citado buraco escuro da corrosão humana.

Em torno desse vácuo, o ser humano precisa ter plenitude em suas relações, com todas as coisas e formas de vida. Com a cultura, torna-se imprescindível a autolimitação para que o processo de reforma ético e moral do mundo venha a ser pautado pela responsabilidade coletiva, o esforço grupal do homem social em volta de um bem comum.

A autolimitação significa um sacrifício necessário que salvaguarda o Planeta, tutela interesses coletivos e funda uma cultura da simplicidade

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voluntária. Não se trata de não consumir, mas de consumir de forma responsável e solidária para com os seres vivos de hoje e que virão depois de nós. Eles também têm direito à Terra e a uma vida com qualidade (BOFF, 2004, p. 69).

Segundo o pensador e ativista brasileiro Leonardo Boff (2004) conquanto as pessoas autolimitarem-se em suas vontades e desejos primordiais de expansão e conquista, de progresso e ganhos pessoais, e adotarem um modo de ser e de viver em justa medida com o meio em que está inserido, no conceito de bem comum humano e ambiental, é possível evitar-se o enfrentamento de um futuro em que toda a sociedade viva em colapso.

2.2.3 Justa medida

A virtude da autolimitação no sujeito social tem em seu modo de ser o fundamento da justa medida no meio em que ele está inserido. A justeza da medida está intimamente conectada à virtude essencial da Justiça que assegura a força do homem perante as dificuldades e a permanente procura pelo bem. Aristóteles afirmava que ética é justiça. (PEGORARO, 1995). Assim como o justo, o homem que cultiva a justa medida cultiva o equilíbrio entre o mais e o menos. Ela pode ser sentida no âmbito pessoal de maneira negativa, como um salva-guarda limitador às pretensões, incitando a vontade de realizar um ato de violação do limite proposto pelos preceitos éticos e morais. Por outra perspectiva, a justa medida pode ser para o sujeito algo positivo que direciona as potencialidades do ser, com moderação, para uma duração mais prolongada. Isso apenas é possível graças à virtude da Justiça.

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A Justa medida e a Justiça derivam da razão que se deve considerar como a melhor parte da alma humana. A ideia de que a justa medida nos liberta da ilusão e da submissão às aparências lança a pessoa para a verdade e propósito da vida. Ao homem que perde seu objetivo durante sua existência, significa que lhe falta a medida e que não lhe pertence a Justiça e sim o pecado (HEIDEGGER, 1980). Da Boff (2004) explica esta visão de Heidegger sobre pecado, conceito remanescente da visão judaico-cristã:

Pecado é recusar o limite, é não reconhecer a condição de criatura. Apesar da expulsão, permaneceu o imperativo da justa medida na forma do "cultivar e guardar" o jardim do Éden, vale dizer, de viver a ética do cuidado. Por detrás de "cultivar" ressoa sempre "culto" e "cultura" que sinalizam o trato respeitoso da Terra (culto). E por detrás de "guardar", o aproveitamento sustentável de seus recursos para atender às necessidades humanas e não para fins de acumulação (BOFF, 2004, p.72).

O conceito de justa medida, tal como afirma Boff, situa-se na dinâmica que reconhece os seres como possuindo diferentes potenciais e necessidades, o que consequentemente desloca o ponto ideal de moderação de acordo com estas propensões, modelando a virtude da Justiça e as bases do ethos humano, tornando-o mtornando-odeltornando-o de medida ctornando-orreta, mas cuja aplicaçãtornando-o varia de actornando-ordtornando-o ctornando-om tornando-o mtornando-omenttornando-o e o meio onde o sujeito está inserido.

Como já visto, o mundo ostenta uma cultura baseada no excesso e no desrespeito aos limites éticos e morais do homem, logo, a justa medida entra como um aprendizado pessoal cujo potencial efeito é a cura para a crise da civilização moderna. As medidas da Justiça oferecem às pessoas a vida sem excessos morais, no equilíbrio dos atos perante o outro e o cuidado essencial para com o mundo que os cerca. Este desafio é constitutivo para os sujeitos em sua vida pessoal e os profissionais, mormente os da comunicação, na realidade caótica que se vive.

A cultura imperante é em tudo excessiva. Não tem o sentido da autolimitação nem o senso da justa medida. Por isso está em crise perigosa para o seu próprio futuro. O desafio é: qual a justa medida que preserve o capital natural e a sobrevivência? A justa medida é o ótimo relativo, o equilíbrio entre o mais e o menos. Por um lado, a medida é sentida

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negativamente como limite às nossas pretensões. Daí nascem a vontade e até o prazer de violar o limite. Por outro, é sentida positivamente como a capacidade de usar, de forma moderada, as potencialidades para durarem mais. Isso só é possível quando se encontra a justa medida (BOFF, 2004, p.73).

Parte da justa medida vem inflexível através dos milênios partindo das culturas resgatadas da antiguidade e cuja influência continua preciosa para a construção do pensamento moderno. Boff (2004) lembra que a representação atual da justiça, a mulher cega de posse de uma balança pronta a pesar os prós e contras de um sujeito está presente, como símbolo soberano, nas mais diversas religiões do mundo antigo. A balança e as divindades femininas serviam como guias para a justa medida. Para o indivíduo, se sua balança interior não estiver de acordo com a exterior, ou seja, em equilíbrio, não se consegue reproduzir o conhecimento adquirido a partir dos princípios fundamentais de sua religião.

Os antigos egípcios seguiam o preceito de que todo o “eu” do indivíduo deveria fluir de maneira equilibrada. Sem uma harmonia entre o interior e o exterior do homem perde-se o equilíbrio, transfigurando a justa-medida em poder destrutivo do homem para o mundo.Sempre em busca da medida em todas as coisas, os gregos e latinos acreditavam que todos aqueles que sucumbiam aos excessos e a vaidade, como os atletas olímpicos se deixando divinizar pelos fãs, deviam ser destruídos pela deusa Nêmese, cuja função era a justa-medida entre o mortal e o imortal. Boff (2004, p. 71), constata qu o “méden ágan”, frase clássica grega que se traduz como “nada em excesso” demonstra bem o pensamento do qual ainda hoje nos alimentamos.

No oriente e extremo-oriente o budismo e o hinduísmo vêem a justiça como um direito soberano e a justa-medida como uma virtude que deveria ser o critério para a valorização das pessoas. Enquanto para Buda a justeza das ações era uma atitude moral, para os hindus era um cuidado fraternal. Para ambos, a justa-medida tinha por função lançar os fundamentos de uma sociedade mais equilibrada em todos os seus aspectos (HERKENHOFF, 2010).

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O desejo de uma reformulação daquela que era a religião cultivada no Oriente pelo Irã foi a ideia do profeta persa Zarathustra. Nessa concepção, deveria se ater à preocupação de um novo dinamismo pela ação do homem para que este tivesse um mundo menos machucado por acidente como o profeta o via. Como pilares dessa re-criação de princípios primordiais estavam duas forças: Ahura Mazda, o Senhor da Vida, Sabedoria e Luz, Criador da Ordem Justa e Angra Mainyu, o Demônio da Mentira. Todo esse discurso de conceitos originou o livro sagrado do Zoroastrismo Avesta ou Zend-Avesta, de 1771 (GONÇALVES- IUNSKOVSKI, 2009).

Essa espécie de digressão, organizada para servir de eixo e dar um sentido à razão moral das religiões milenares, está homologada com a humanidade desde os primórdios um exemplo disso é o big-bang que serviu de alicerce para a ética e moral (BOFF, 2004).

2.2.4 Modo-de-ser-cuidado no ethos humano

Quando o homem se vale de incorporar ao seu estilo de vida uma preocupação com o foro íntimo humano para um bem social, este se relaciona com o Domínio de si, virtude referida acima por Platão. Para tal, o indivíduo se coloca no mundo como alguém que vê a natureza e seus elementos não como meros objetos, mas como sujeitos com os quais ele co-existe. Dessa maneira, esse indivíduos está se relacionando com o seu ethos como o modo-de-ser-cuidado referido na condição humana por Martin Heidegger. O fundador do existencialismo contemporâneo em sua obra prima Ser e Tempo que apresenta a procedência latina cura ou também pode se encontrar estudiosos que a derivam como cogitare-cogitatus e suas variáveis coyedar, coídar e cuidar como forma antiga de explicar o Cuidado como essência humana. (BOFF, 2001, pp. 83-113).

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O ser humano está sempre em busca de um sujeito ou objeto para colocar em prática toda a cura presente em seu eu interior. Segundo Heidegger (2008), o humano necessita amar e ser amado. E mais, o Cuidado é seu constitutivo:

A ‘universalidade’ transcendental do fenômeno da cura e de todos os existenciais fundamentais tem, por outro lado, a envergadura que subministra preliminarmente o solo em que toda interpretação da pre-sença se move, baseada numa concepção ôntica de mundo, que se compreenda a pre-sença como ‘cuidado com a vida’ e necessidade ou ao contrário. (HEIDEGGER, 1988, p. 265).

Segundo Boff (1999), na atual sociedade a falta de esmero e cuidado para com o universo pode ser vista na metáfora do Tamagochi. Este era um brinquedo de origem japonesa muito popular nos anos 90, que consiste em ser um bichinho eletrônico com o qual as pessoas têm de cuidar de seu bem estar: alimentando, dando banho, remédio e fazendo-o estudar. Isso é só um exemplo de como o coletivo tem se deixado influenciar por ideias e coisas que nada vão lhe acrescentar, perdendo tempo com o que não importa para criar um mundo mais harmônico.

Necessita-se sim, equipar-se de aparatos inerentes de matéria humana para irmos à luta à frente da corrente do bem-comum. Assim, o cuidado apresenta-se como uma alternativa perante as ações do sujeito, o apresenta-seu modo de apresenta-ser; em apresenta-seu significado reside o ethos essencial do humano. É através do cuidado que o homem caracteriza os princípios primordiais: virtudes, valores morais e códigos éticos, fazendo de seu viver uma harmonia sujeito-sujeito, de bem estar com o mundo e as suas ações num caminho reto.

Sem o cuidado, ele deixa de ser humano. Se não receber cuidado desde o nascimento até a morte, o ser humano desestrutura-se, definha, perde sentido e morre. Se, ao largo da vida, não fizer com cuidado tudo o que empreender, acabará por prejudicar a si mesmo e por destruir o que estiver à sua volta. Por isso o cuidado deve ser entendido na linha da essência

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humana (...). O cuidado há de estar presente em tudo. Nas palavras de Martin Heidegger: ‘cuidado significa um fenômeno ontológico - existencial, básico’. Traduzindo: um fenômeno que é a base possibilitadora da existência humana enquanto humana (BOFF, 1999, p. 34).

Então, pode-se realmente constatar que o Cuidado ocupa o patamar de crítico perante a civilização moderna e seu caminho ao limiar do abismo afetivo. O modo-de-ser-cuidado é o desvelo, solicitude, diligência, zelo, atenção, bom trato ação benéfica originária da virtude do Domínio de si, do conhecimento que o homem tem do seu sentir, e a conduta contrária e fatal à solidão da metáfora do tamagochi (BOFF, 2001), descrito supra. Ferry (2007) concorda que o Cuidado é a forma material do ser humano expressar seu amor:

O amor é evidentemente o mais visível e o mais forte, não apenas porque encarna na relação com outras pessoas, mas porque anima todas as outras esferas, desde o direito à ética, passando pela arte, pela cultura ou pela ciência. Pode-se amar um ser humano, mas também a justiça, a beleza ou a verdade (FERRY, 2007, p. 182).

O modo-de-ser-cuidado é a capacidade do homem de falar ao mundo: eu te amo.

2.3 OS REFLEXOS DA ÉTICA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

Na atualidade, a sociedade atravessa uma crise de paradigmas, resultante, segundo Karl Jaspers (2000), da ruptura do modelo racional/científico de pensamento, que contribuiu para o progresso social, mas que hoje não dá conta de responder à complexidade dos problemas que emergem dos contextos

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sócio-culturais. A ética surge neste cenário, como já dito no início deste capítulo, como um suporte aos valores fundamentais vividos pela sociedade. Por ter uma apresentação subjetiva perante o sujeito, ao contrário da moral, a ética perpassa de maneira subjacente as diferentes esferas do contexto político, educacional e cultural.

Em uma prática social, as condutas tomadas para si em frente aos problemas do cotidiano do mundo, trazem à tona a ética da cidadania. Desde o início da Grécia antiga e sua filosofia, nota-se uma profunda mudança no pensamento humano em relação ao seu conjunto de sabedorias e conhecimentos, que incitam o surgimento da necessidade do resgate e reestruturação completa da concepção da ética como reflexão e guia de normas sociais. Chega-se ao tempo onde as atitudes, virtudes e valores do comportamento humano nas relações sociais têm de ser revistas em suas raízes, para resgatar o homem do seu abismo afetivo, pois o que importa é voltar aos valores vitais, à essência humana e não apenas ao contexto ideológico do ethos.

A ética, enquanto dimensão humana, guarda um valor permanente. Diferencia-nos dos animais irracionais por construir a nossa "casa", nosso ethos, onde se forma um conjunto de costumes normativos de uma sociedade com instituições e tradições, propondo ao sujeito um modo-de-ser perante o mundo e o total equilíbrio entre trabalho e cuidado, fazendo bom uso do seu Domínio de si (JASPERS, 2000).

Entretanto, a urgência da crise ética no mundo contemporâneo e atual assume um caráter decisório. Ela nos traduz a situação da consciência do homem moderno, onde importa apenas o modo-de-ser-trabalho, o individualismo, a deslealdade, a falsa liberdade de escolha e não o cuidado, o resgate afetivo e cultural das relações éticas na moral social.

A Grécia antiga foi o berço da ética tendo em Sócrates seu primeiro artífice como observa Gonçalves (2010). Mas, como o pensamento humano transmuta com o passar do tempo, a nossa ética recebe influências de muitos outros universos culturais. O recente movimento das comunicações integrou as diversas culturas da Terra, a chamada globalização, fazendo com que as influências venham de todas as partes do mundo. Jaspers (1973) já afirmava, nos anos 60, que não

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existe mais um pensamento ocidental hermético, isolado. Em breve, segundo o filósofo e psiquiatra alemão Jaspers, haverá uma "(...) orientalização do pensamento ocidental." além de "(...) uma forte assimilação oriental do monismo imanente em oposição ao clássico dualismo ocidental que conhece a Transcendência (...)" (JASPERS, 1973, p. 111). Em verdade, esta orientalização já ocorre em nosso pensamento, através dos caminhos da experiência humana.

Ainda, este pensador remete o desabrochar espiritual do ser humano para o chamado "tempo axial", situado pelos anos 500 a.C. com três tendências fundamentais: Em primeiro, no Extremo Oriente, com as figuras de Confúcio, Lao-tsé e Buda, chamado de o caminho da experiência humana. Em segundo, na Grécia com os filósofos Parmênides, Heráclito e Platão, inspirados em Sócrates, formando o logos grego. Por final, no Médio Oriente, os profetas Elias, Isaías, Jeremias com a Palavra transcendente de Deus (JASPERS, 2000). Os seguidores de Jesus assim focam esta tradição: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda” (JOÃO 15,16).

A tradição hebraico-cristã pela bíblia doutrina seus leitores a seguirem a palavra do Criador como a verdade absoluta para a construção da ética perfeita para como utopia factível para a humanidade. Sob essa visão, os homens recebem o mandamento de dar continuidade ao trabalho de Deus na Terra, gerando, como frutos, os conceitos fundamentais de sua ética: as virtudes da justa-medida e do cuidado. A Bíblia fixa o amor como a matéria prima de todos os códigos. “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor. Isto eu vos mando: que vos ameis como eu vos amei.” (JOÃO, 15,10).

Dentro dessas tendências, vemos que a cultura ocidental, e dentro dela o ethos ocidental, origina-se da mescla do Logos e da Palavra transcendente de Deus bem como dos princípios do direito à justa-medida (JASPERS, 2000, p. 80). Mais tarde a cultura germânica inserirá sua contribuição decisiva, por meio da filosofia, e somente nos anos mais recentes, é que vivemos a mistura da existência ética ocidental com a oriental, buscando resgatar os valores mais essenciais ao

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indivíduo: o já citado modo-de-ser-cuidado e as virtudes cardinais que lidam com a crise afetiva-intelectual. “Portanto, os ideais servem como guias. São como balizas ao longo de uma caminhada; mas não nos permitem parar, como se o nosso objetivo e descanso já tivessem neles contidos” (JASPERS, 1973, p. 33).

E assim voltamos ao que abordamos no início desta explanação, cuja sociedade moderna assiste a um progresso tecnológico nunca antes presenciado, ultrapassando todas as barreiras. O fantástico progresso técnico-científico, bem como o avanço econômico-social, é apenas o primeiro passo do homem contemporâneo rumo à angústia, que o afasta do Domínio de si, da co-existência com o outro e da auto-realização. Esta crise que tomou o fim de um século e o início de outro, é o reflexo do caos ético e moral que induz o homem a uma posição de relatividade aos rumos da vida e seus juízos de valores, e também às normas éticas que são consideradas simplesmente uma questão de preferência para cada indivíduo, sem qualquer validade objetiva e real. Caímos, então, na falsa liberdade de existência, de forma que a comunicação dos homens carece de fundamentos éticos e morais, abandonando valores vitais da boa propagação de informações, como: imparcialidade, veracidade e liberdade (VIDAL, 1995).

Dessa maneira, o afastamento do humano leva à carência das virtudes essenciais. Para não haver esse colapso ético, o homem deve ser o construtor de um mundo mais crítico e procurar ser o curador do aspecto do espectro vital da condição humana.

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3 CONCEITO DE CRÍTICA E CRITÉRIO NO COTIDIANO JORNALÍSTICO

Em tempos idos, a moral e a ética eram transmitidas pela sociedade através das classes dominantes, pela aristocracia, pelos intelectuais, escritores e artistas. Mas aquela era uma época em que os nobres eram nobres, exemplos a ser seguidos por todos. No mundo moderno, as lideranças políticas, acadêmicas e empresariais não mais se preocupam em transmitir valores morais às suas futuras gerações. O noblesse oblige, a obrigação dos nobres, como antigamente cultivada, foi posta de lado. Curiosamente, mesmo com a ética posta de lado pela sociedade, nunca se falou tanto dela como agora. Como veremos ao longo deste capítulo, o jornalismo atua neste mundo com a missão de disseminar a realidade para a sociedade. Bill e Tom quando discutem o que os jornalistas devem saber e o público exigir confirma a importância desta missão: "A meta principal do jornalismo é contar a verdade de forma que as pessoas disponham de informação para sua própria independência" (KOVACH-ROSENSTIEL, 2004, p. 34).

É fato que as pessoas precisam de informação por conta de um instinto natural do ser humano. É o que se chama instinto de percepção. Os indivíduos precisam conhecer o que lhes é desconhecido no mundo para se sentirem seguros, com controle sobre o que passa ao seu redor, permitindo-lhes planejar e administrar o caminho que trilham em suas vidas (IDEM, 2004).

O jornalismo permite o acesso filtrado da informação para as pessoas e, em teoria, este repasse de conteúdo é pautado na verdade pura, na possibilidade de que cada indivíduo possa processar a informação de seu próprio modo, tirando suas próprias conclusões. Assim, a ética mostra-se como um valor fundamental para o exercício e consumo do jornalismo, pois é o único crivo que permite que a informação chegue às pessoas com independência de opinião, mercado ou Estado (GOMES, 2006).

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(...) Ele ajuda o público a por ordem nas coisas. Isso não significa simplesmente acrescentar interpretação ou análise a uma reportagem. (...) é checar se a informação é confiável e ordená-la de forma que o leitor possa entendê-la (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p. 41).

Entretanto, a realidade afirma que perante a mídia contemporânea a ética de alguns jornalistas e de algumas empresas mescla-se com interesses políticos e mercadológicos. Assim, é comum haver os profissionais do jornalismo que ignoram o princípio básico da verdade, segundo Kovach-Rosenstiel (2004), e da ideia do jornalismo como um meio democrático cujo profissional escreve para o seu leitor. É o exercício de um jornalismo sério e ético que é o carimbo do contrato com os leitores.

Mas, para falar sobre ética no jornalismo é necessário falar sobre o comportamento das pessoas, em nível individual e em nível social em uma relação à informação de interesse público democrático. O foco do jornalismo é o cidadão uma vez que é para ele que deve existir. Todas as mídias existem porque os cidadãos têm, não apenas a necessidade, mas o direito à informação. Esta garantia é fomentada pela Declaração dos Direitos Civis, de 1789 e instituída em 1948 no art. XIX da Declaração Universal dos Direitos Humanos e também pelo Artigo 5º da Constituição Federal de 1988. Nela, está assegurado o direito de que todos são iguais aos olhos da lei sem segregação de qualquer natureza.

Nota-se que para a democracia existir é fundamental que cada indivíduo tenha o direito à liberdade de opinião e expressão. Por isso reitera-se o que já fora aqui explorado, o conceito do jornalismo independente e atuante. Então, o jornalismo por si mesmo é ético, mas quando o poder age no sentido de extrair das pessoas o direito ao acesso a informação, ele está corroendo os alicerces da ética da imprensa e, em consequência, corrompendo a sociedade e sua democracia (COSTA, 2009).

Para que este jornalismo ético seja vigente no dia-a-dia é determinante que o profissional exerça um pensamento crítico sobre o fato que está trabalhando no momento, bom para o veículo que o emprega e o indivíduo que lê seu trabalho. Para que esta consciência crítica tenha fundamento, o jornalista deve possuir uma

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