5. REFLEXÕES ACERCA DAS LEGISLAÇÕES E DIRETRIZES DA EDUCAÇÃO
6.3. Os usos dos instrumentoconversas
6.3. Os usos dos instrumentoconversas
Nas idas à Escola Estadual Maria Ortiz, percebemos que vários alunos ficavam incomodados em conversar conosco quanto aos assuntos relacionados à nossa pesquisa. Ou seja, as questões de gênero e sexualidades. Além disso, percebíamos que a pedagoga da escola criava certos impecílios para que eu estivesse em sala de aula conversando com os estudantes. Então, tivemos que pensar que outra forma de aproximação que reduzisse a timidez e assegurasse o anonimato dos estudantes, ao mesmo tempo, que garantisse a escuta dessas vozes.
Por conta dessas questões, pensamos na aplicação de um instrumentoconversa que poderia ser uma maneira de os estudantes se sentirem à vontade em responder o que realmente achavam sobre esses temas sem o receio de serem julgados por seus colegas.
Assim, conversamos com a pedagoga sobre a aplicação dos instrumentosconversas e ela concordou desde que fosse aplicado em uma aula vaga.
Infelizmente, não pudemos estar no momento quando da aplicação dos instrumentosconversas, pela resistência da própria profissional. Isso fez, que a aplicação desse instrumento se desse de forma aleatória.
Os instrumentoconversas foram aplicados pela pedagoga da escola em uma turma de primeiro ano, uma do segundo ano e outra do terceiro ano do Ensino Médio, considerando o grande quantitativo de alunos, conforme mencionamos quando tratamos dos caminhos teórico-metodológicos da pesquisa. Assim, dos 358 estudantes do turno matutino, 52 responderam as questões do instrumentoconversa.
Informamos que, devido ao grande número de respostas conjugado ao quantitativo de perguntas, tomamos a liberdade para catalogar esses dados em
90
gráficos, bem como transcreveremos ou apresentaremos fotodigilitalizações das respostas desses estudantes.
Abaixo, transcrevemos as perguntas que foram arroladas no referido instrumento:
Qual o bairro e Município onde você mora?
Por que você estuda nesta escola?
Você tem amigos ou conhecidos que sejam gays, lésbicas, travestis ou transgêneros? Você convive com esse/a colega
na escola ou em outros lugares? Por quê?
Como você reagiria se um colega lhe dissesse que é gay, lésbica, bissexual, travesti, transexual ou transgênero? Se já aconteceu, comente como foi a experiência para
você?
O que você sente quando um casal homossexual mostra sentimentos (andar de mãos dadas, beijar, abraçar) em público da mesma maneira que um casal de
homem e mulher?
Você pensa que é correto tratar de maneira diferente pessoas que gostam de pessoas do mesmo sexo? Por quê?
Você acha importante que assuntos como orientação sexual e diversidade de gênero sejam abordados em sala de aula? Por quê?
Você já presenciou colegas serem maltratados na escola por serem gays, lésbicas, transgêneros ou travestis? Como você se sentiu?
Você sabe o que é e para que serve o Plano Estadual de Educação do Estado do Espírito Santo?
Você sabia que as expressões diversidade de “gênero” e orientação sexual foram retirados do Plano Estadual de Educação do Estado do Espírito Santo? O que você
acha dessa atitude?
Você gostaria que assuntos como diversidade sexual
(bissexualidade/homossexualidade) ou identidade de gênero (exemplos:
travestilidade, transexualidade) fossem mais abordados, ou abordados de forma diferentes na escola? Como?
Quer acrescentar algum comentário? Fique à vontade!
91
Quando perguntamos aos estudantes o local de suas residências, na pergunta “Qual o bairro e Município onde você mora? ”, confirmando as nossas expectativas quanto ao local de residência dos alunos, muitos são de diferentes Municípios da Região da Grande Vitória, considerando a localização estratégica da escola (Figura 20)
Figura 20. Exemplos de localidades
92
Figura 21. Municípios onde residem os alunos que responderam ao instrumentoconversas.
Pela ilustração acima, notamos que 27 alunos e alunas residem em Vitória, 20 em Cariacica, 3 em Vila Velha e, 2 alunos preferiram não identificar o Município em que residem.
Trazemos agora, um dado que entendemos ser pertinente, referente ao quantitativo de alunos e alunas por turmas, conforme Figura 22.
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Figura 22. Quantitativo de alunos e alunas por turma que responderam aos instrumentoconversas
Percebemos que cinquenta e dois alunos e alunas responderam ao instrumentosconversa, sendo 19 da turma do 1º ano do Ensino Médio, 19 3º Ano do Ensino Médio, 12 alunos do Segundo Ano do Ensino Médio e, 2 alunos preferiram não identificar a sua turma.
Prosseguindo na aplicação dos nossos instrumentoconversas, referente a pergunta: “Por que você estuda nesta escola? ”, encontramos muitas respostas interessantes:
Porque ela é mais próxima da minha casa e nela consigo ter um desenvolvimento melhor (ALUNA).
Porque o ensino é bom (ALUNO).
Pois é uma escola ótima (ALUNO)
Porque é a mais perto da minha casa (ALUNA)
Porque quero ser alguém bem-sucedido na vida (ALUNO) Meus pais quiseram me colocar aqui (ALUNA).
19
12 19
2
Alunos por Turma
1º Ano Ensimo Médio 2º Ano Ensimo Médio 3º Ano Ensimo Médio Não Informado
94 Por que sou obrigado (ALUNO)
Porque minha mãe gosta dessa escola (ALUNA).
Gosto muito de tudo aqui (ALUNA).
Porque eu escolhi estudar nessa escola (ALUNA)
A maior parte dos estudantes, os quais responderam a referida questão, afirmaram que estudam naquela escola devido à qualidade de ensino, podendo nos dar pistas de que gostam de estudar naquela escola, contudo, outros afirmaram que estão naquela escola pela opção ou conveniência de seus pais.
Em relação a terceira pergunta do instrumento “Você tem amigos ou conhecidos que sejam gays, lésbicas, travestis ou transgêneros? Você convive com esse/a colega na escola ou em outros lugares? Por quê?”
A grande maioria dos estudantes respondeu que possui amigos ou amigas que são LGBTTTIs (Figura 23) e, que convivem de forma harmoniosa com os seus colegas que sejam gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, mas um aluno em especial respondeu: “Eu espancava não quero ter colega gay (...) não gosto de ficar perto de gay” (ALUNO).
Figura 23. Resposta à pergunta se os alunos possuem amigos ou amigas LGBTTTI.
44 8
Possuem amigos ou amigas LGBTTTI?
SIM NÂO
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Pela figura acima, dos 52 alunos que responderam aos instrumentosconversas, 44 possuem amigos que são gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, demonstrando assim, o respeito e acolhimento que os alunos e alunas possuem pelas diversidades de orientação sexual e diversidade de gênero.
Isso pode nos indicar, que os estudantes são mais acolhedores em relação às diversidades. Porém, o fato desse aluno em especial, dizer o que realmente sentia quando estava perto de uma pessoa gay, nos mostrou que nem todos os alunos ou alunas daquela escola são tolerantes e respeitam as diferenças.
No decorrer dos instrumentosconverssa, muitos alunos disseram que não há relação entre religião e intolerância homofóbica e transfóbica, pois o fato de acreditarem em uma determinada religião, independentemente da qual fosse, não faria com que tratassem com desprezo um amigo ou amiga que fosse gay, lésbica ou transgênero.
Assim, considerando essa informação prestada pelos estudantes, quando de suas respostas aos instrumentos de aproximação, consideramos pertinente catalogar o quantitativo de jovens que informaram qual era sua religião (Figura 24).
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Figura 24. Religião informada pelos estudantes que responderam aos instrumentoconversas
Pelos dados acima, notamos que os estudantes declaram sua religião da seguinte maneira: 18 evangélica; 12 cristã; 04 católica, 01 Testemunha de Jeová; 01 agnóstico ou agnóstica; 01 não respondeu esta informação e 15 optaram por não preencher este dado. Assim, notamos que 36 estudantes informaram ter alguma religião.
Conjugando a Figura 23 e figura 24, nos dá indícios de o fato de os estudantes possuírem alguma religião, não é fator determinante para intolerância com os seus colegas, muito pelo contrário. Segundo os alunos e alunas, que responderam ao instrumentosconversa e que possuem alguma religião, os mesmos afirmam conviver de forma harmoniosa com colegas que possuem orientação sexual divergente da heterossexual, ou então que possuam identidade de gênero divergente
18
4 15
1 1 1
12
Religião
Evangélica Católica Não Declarado Nenhuma Agnóstico Testemunha de Jeová Cristã
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da cisgeneridade, ou seja, de que suas crenças não interferem no modo como os alunos e alunas acolhem as diversidades de identidade de gênero e orientação sexual.
Porém, durante nossa pesquisa, também presenciamos narrativas de intolerância homofóbica/transfóbica por motivações religiosas, como nas conversas no movimento de ocupação realizadas na escola Paes Barreto, onde um aluno nos disse que acreditava que “uma família só era formada por homem e mulher”, pois era
“evangélico e acreditava na Bíblia” (ALUNO).
Na sequência em relação a indagação “Como você reagiria se um colega lhe dissesse que é gay, lésbica, bissexual, travesti, transexual ou transgênero? Se já aconteceu, comente como foi a experiência para você? ”, a Figura 25 vai nos mostrar o seguinte dado, conforme a respostas dos estudantes: dos 52 alunos que responderam ao instrumento, 35 (67%) reagiriam normalmente caso um amigo ou amiga lhe contassem que são da população LGBTTTI, 06 não julgariam mas continuariam a amizade, 02 ficariam surpresos/assustados, 02 não saberiam como reagiriam, 01 levaria na brincadeira, 03 não responderam essa questão, 02 disseram que essa situação nunca lhes ocorreu e, 1 aluno respondeu que espancaria esse colega, pois ele não gosta ficar perto de gays (ALUNO).
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Figura 25. Resposta dos alunos quanto a sua reação caso descobrissem se seus amigos lhe contassem que é LGBTTTI.
Assim, percebemos que a aplicação dos instrumentosconversa foi benéfica, pois provavelmente o aluno que respondeu que espancaria o seu colega, se o mesmo fosse gay, muito provavelmente, não se sentiria seguro em fazer tal afirmação durante as visitas que realizamos naquela escola.
Nessa resposta do instrumentoconversa, um aluno informou que é bissexual, bem como uma aluna informou, também nesta questão, que é lésbica (Figura 26).
3
35 2
2
6
1 1 2
Reação
Não informado Normal Supreso/Assustado Não sabe como reagiria Não julgaria Espancaria Levaria na brincadeira Nunca aconteceu
99
Figura 26. Respostas aos instrumentosconversa
Essas respostas foram muito positivas, pois em diversos encontros que tivemos com os alunos e alunas daquela escola, não houve afirmações desse tipo.
Logo, entendemos que a aplicação dos instrumentosconversa, tendo em vista a garantia do anonimato, conferiu segurança e liberdade para que esses alunos pudessem afirmar que possuem homossexualidade ou bissexualidade.
Acreditamos que caso o instrumento não tivesse sido aplicado, a obtenção desse resultado não seria possível, tendo em vista, o medo de que esses alunos e alunas possuem ainda de serem estigmatizados ou discriminados por seus colegas, professores, e demais participantes do cotidiano daquela escola.
Isso porque, apesar dos dados apontarem que grande parte dos jovens consideram como normal ter um amigo ou amiga que não seja heterossexual ou até
100
mesmo cisgênero, nota-se que ainda há preconceitos a serem combatidos dentro daquele ambiente escolar e de tantos outros.
Desenvolvendo o levantamento quanto as respostas desses jovens, em relação a pergunta de número 5 “O que você sente quando um casal homossexual mostra sentimentos (andar de mãos dadas, beijar, abraçar) em público da mesma maneira que um casal de homem e mulher?. Apontamos a Figura 27:
Figura 27: Sentimentos dos estudantes só ver um casal homossexual demonstrando afetividades em público
De acordo, com o gráfico apontado logo acima, de acordo com as afirmações dos jovens, os mesmos parecem respeitar cada vez mais as diversidades
1 34 1 5
1 2
3
2 1 1 1
Sentimentos dos alunos ao verem demonstração de afeto em público de um casal homossexual
Normal/Indiferente Desconfortável Assustado Constrangido Reprovação
Não soube responder Não informado Estranho
Preferiu não responder Nunca presenciou
Admitiu que possui um relacionamento homossexual e demonstram em público sua afetivade
101
de orientação sexual e identidade de gênero, pois do total dos 52 alunos e alunas, 34 responderam considerar como normal, um casal homossexual demonstrar sentimentos em público.
Seguindo na análise dos instrumentosconversa, as respostas da pergunta anterior coadunam com a pergunta 6, logo a seguir (Figura 28): “Você pensa que é correto tratar de maneira diferente pessoas que gostam de pessoas do mesmo sexo?
Por quê?”.
Figura 28. Respostas dos alunos que responderam ao instrumentoconversas sobre se pessoas homossexuais devem ser tratadas de forma diferente
Assim, conforme apontamos anteriormente, no mesmo sentido levantado na maioria das respostas anteriores, praticamente todos os alunos responderam que não acham correto que pessoas que homossexuais sejam tratadas de forma diferente das heterossexuais, o que indica que, apesar dos relatos de maustratos e constrangimentos sofridos por estudantes LGBTTTI, os alunos possuem a consciência necessária sobre direito de todos a um tratamento igualitário. Inclusive, até mesmo o aluno que respondeu anteriormente que espancaria seu colega se descobrisse que o mesmo fosse gay, surpreendentemente respondeu que não achava que pessoas homossexuais devem ser tratadas de maneira diferente das heterossexuais.
51
1 0
10 20 30 40 50 60
Não Sim
Pessoas homossexuais devem ser tratadas de maneira diferente das heterossexuais?
102
Continuando as interpretações das respostas desses praticantes cotidianos (CERTEAU, 1994), um importante indicio apareceu quando do questionamento: “Você acha importante que assuntos como orientação sexual e diversidade de gênero sejam abordados em sala de aula? Por quê?”. Conforme Figura 29 e figura 30.
Figura 29. Respostas dos estudantes a pergunta 7 dos instrumentoconversas
Figura 30. Fotodigitalização de alguns alunos que responderam à pergunta 7 dos instrumentoconversas
Percebemos, que boa parte dos alunos acham importante assuntos como orientação sexual e diversidade de gênero sejam tratados na sala de aula. Contudo, percebemos que ainda esse assunto encontra resistência por parte de alguns alunos que responderam aos instrumentoconversas.
40
11
1 0
5 10 15 20 25 30 35 40 45
Sim Não Não
responderam
Orientação sexual e diversidade de gênero devem ser
abordados em sala de aula?
103
Aprofundando as verificações quanto as respostas desses jovens, interessante dado se apresentou quando da pergunta 8 (Figura 31):
Você já presenciou colegas serem maltratados na escola por serem gays, lésbicas, transgêneros ou travestis? “como você se sentiu?
Figura 31. Levantamento das respostas dos alunos a questão 8 dos instrumentoconversas
Vemos acima, um número expressivo de alunos que afirmaram terem presenciado alguma forma de maltrato, dentro da escola, por motivações homofóbicas ou transfóbicas, indicando que talvez essas violências sejam mais recorrentes do que foi afirmado pela maioria. Porém, ao contrário do afirmado pela maioria, o aluno que afirmou sua bissexualidade, nos relatou que já foi agredido por sua condição, justamente pelas pessoas que considerava seus amigos. Essa resposta, somada ao relato dos professores sobre a aluna transexual que abandonou a escola devido a discriminações transfóbicas, ocorridas justamente naquele ambiente, nos indica que talvez as respostas dos alunos no nosso instrumento, não condizem totalmente com a realidade.
A seguir, iremos trabalhar em conjunto dois gráficos referentes as perguntas 9 e 10 dos instrumentosconversas: “Você sabe o que é e para que serve o Plano Estadual de Educação do Estado do Espírito Santo? ” E “Você sabia que as expressões diversidade de “gênero” e orientação sexual foram retirados do Plano Estadual de Educação do Estado do Espírito Santo? O que você acha dessa atitude?, pois, além de se referirem ao mesmo assunto (PEE), grande parte das respostas,
Você já presenciou colegas serem maltratados na escola por serem gays, lésbicas, transgêneros ou travestis? Como você se sentiu?
104
Infelizmente, 75% dos alunos que responderam ao instrumentosconversa, não sabem o que é o Plano Estadual de Educação e, muito menos a sua finalidade (Figura 32). Logo, se a maioria deles não sabe o que é o PEE, concluímos então, que muitos deles não teriam como saber que as expressões “gênero” e “orientação sexual”
foram suprimidas, quando de sua promulgação (Figura 33). Assim, se não possuem o conhecimento da importância do PEE para sua vida escolar e para sua escola, como podem questionar, contestar ou até mesmo acompanhar a implementação das políticas de educação?
Figura 32. Resposta dos alunos que responderam à pergunta 9 dos instrumentoconversas 39
9
4 0
5 10 15 20 25 30 35 40 45
Não Sim Não responderam
Você sabe o que é e para que serve o Plano Estadual de
Educação?
105
Figura 33. Resposta dos alunos que responderam à questão 10 dos instrumentoconversas
Um dos fatos interessantes foi que os alunos e alunas dizem desconhecer a existência do Plano Estadual de Educação, bem como não sabiam que os termos diversidades de “gênero” e “orientação sexual” foram retirados quando da aprovação do PEE.
Os Planos de Educação, de todas as esferas, são macro-políticas que versam sobre as metas e diretrizes da educação, sendo, portanto, de interesse de todos aqueles que são afetados por ele de alguma forma. O que nos perguntamos é:
Por que esses jovens não têm conhecimento sobre o PEE? Por que a discussão do Plano Estadual de Educação não é tratada dentro da escola ou, então, não é informada pela mídia ou pelos órgãos governamentais competentes? Qual o interesse dessas políticas serem votadas por “baixo dos panos”, no “calar da noite” como foi votado o PEE do Espírito Santo?
Questões/pistas para problematizarmos os interesses das instituições de poder para que os jovens não tenham conhecimento das questões políticas que afetem seus cotidianos escolares, justamente para que eles não venham a participar ativamente, como protagonistas, de lutas e resistências. Talvez para serem mais facilmente manipulados. Adultos silenciados. Massas de manobra.
39
5
8
0 5 10 15 20 25 30 35 40 45
Não Sim Não respoderam
Você sabia que as expressões diversidades de gênero e
orientação sexual foram retiradas do PEE?
106
Em relação à pergunta:
Você gostaria que assuntos como diversidade sexual (bissexualidade/homossexualidade) ou identidade de gênero (exemplos:
travestilidade, transexualidade) fossem mais abordados, ou abordados de forma diferentes na escola? Como?
Percebemos pelas respostas dadas e também nas conversas com alguns estudantes durante dos movimentos que participamos, que a maioria dos jovens afirma ser favorável que esses assuntos sejam abordados, de forma diferente, em seus cotidianos escolares (Figura 34).
Figura 34. Respostas dos alunos que responderam à pergunta 11 dos instrumentoconversas
Como já dissemos, a maioria dos alunos acredita que tais assuntos devem ser abordados de forma diferente, por meio de palestras ou abordados “não como um problema, mas sim como uma situação comum” (ALUNA); de “maneira informativa”
(ALUNO); “onde todos respeitem a todos” (ALUNA); “com criatividade” (ALUNO)”;
“como um debate ou pesquisas levadas a sério, não com pessoas zombando de uma pesquisa”; e “de forma dinâmica e didática para que todos vejam que ser gay, lésbica, bissexual, etc., é tão normal quanto ser hétero” (ALUNA).
Dessa maneira, segundo as respostas dos estudantes no instrumentoconversa, verificamos que essas juventudes possuem um interesse pelos diálogos sobre as pluralidades sexuais.
35 14
2 1
Assuntos como diversidade sexual e identidade de gênero devem ser tratados de forma diferentes nas escolas?
Sim Não Não Sabem Já são abordados
107
Finalmente, quando perguntamos se queriam acrescentar algum outro comentário, sentimos que a grande maioria dos alunos do 3º ano do ensino médio, ao responder, consideraram as perguntas desse instrumentoconversa “ridículas”,
“desnecessárias” e “sem sentido”. Por que será que se colocaram assim? Será que esse ainda é um assunto/tema que não pode ser falado? Será que alguns, mesmo sem dizer, são impedidos pelas religiões/igrejas que frequentam de tratar desses assuntos? Será que, apesar de jovens, os preconceitos falam mais forte do que as práticas de amorosidade?
Além desses possíveis, não podemos deixar de considerar que na Escola Maria Ortiz, nós enfrentamos os obstáculos colocados pela pedagoga em relação a nossa aproximação com os estudantes e, de alguma forma, ao fato de a aplicação do instrumentoconversa não poder ser realizada por mim. Talvez, se isso não tivesse ocorrido, poderia contar-lhes melhor sobre a pesquisa que desejávamos fazer e o valor dessa temática na produção de uma vida mais bonita. Também poderíamos ter dito aos estudantes sobre a importância e os objetivos do PEE em suas implicações para as escolas. Quem sabe assim, teriam respondido de outro modo. De qualquer maneira, quando nos lançamentos nas pesquisas com os cotidianos (FERRAÇO, 2003) estamos sujeitos aos diferentes enfrentamentos que surgem nessas redes.
Como nem tudo está perdido, ao contrário dessas respostas que nos desanimaram, encontramos outras positivas e de esperança que nos animaram a continuar com a pesquisa (Figura 35).
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Figura 35. Respostas positivas dos instrumentosconversas aplicados.
Depois das leituras do que foi dito no instrumentoconversa, dos encontros com outros jovens, das conversas com os/as professores/as e pensando sobre diferentes situações que foram levantadas na escola, sentimos que, apesar da grande maioria afirmar não alimentar preconceitos e ser contrária a quaisquer formas de discriminação e de diminuição do outro (LARROSA, 2004), ou seja, de ser contrária aos processos de exclusão dos colegas gays, lésbicas, bissexuais ou transgêneros, ainda existem nessas redes de relações um número significativo situações e práticas, nem sempre vistas e possíveis de serem captadas, da ordem das táticas sutis, sorrateiras (CERTEAU, 1994) que nos dão indícios (GINZBURG, 1989) do contrário.
Dessa maneira, essas pistas e indícios (GINZBURG, 1989) evidenciam uma necessidade de ampliarmos as conversas, de continuarmos ocupando lugares de lutas, de (re)existirmos afirmando uma escola e um currículo que apostem nas diferenças como modos de acolher o outro como legítimo outro na convivência (MATURANA, 1998), e apostando na força das docências como possibilidades de
Dessa maneira, essas pistas e indícios (GINZBURG, 1989) evidenciam uma necessidade de ampliarmos as conversas, de continuarmos ocupando lugares de lutas, de (re)existirmos afirmando uma escola e um currículo que apostem nas diferenças como modos de acolher o outro como legítimo outro na convivência (MATURANA, 1998), e apostando na força das docências como possibilidades de