Capítulo 7. O problema do conceito arte na KU
7.1. Kant e o problema da definibilidade da arte
De acordo com o § 44 da KU, “Da arte bela”, as artes podem se classificar de acordo a suas condições de possibilidade, isto é, de acordo com as condições necessárias para a produção do objeto. Destarte, as artes podem se dividir em artes mecânicas e artes estéticas, sendo as primeiras as que têm fins úteis e as segundas as que têm como alvo só o prazer que se produz a partir de uma experiência sensível. (Ak. V 304-6)
Como definição da arte mecânica, Kant nos diz que esta arte executa os atos que exige o conhecimento de um objeto possível para fazê-lo real. Como condições de possibilidade das artes mecânicas, encontramos os meios técnicos para a realização do objeto, isto é, os recursos para sua execução; um conceito do que o objeto deve ser; e também, um desenho de como o objeto cumprirá sua função, a qual está estabelecida pelo conceito do objeto e as tentativas do artesão para realizá-lo (definição do objetivo, aprendizagem, ensaio e erro, etc.). Por exemplo, um saca-rolha para garrafas de vinho envolve um conceito do que o objeto deve ser, o qual se extrai da função que é chamado a cumprir. Além disso, muitos desenhos têm sido produzidos e muitos deles têm sido produzidos de acordo com os meios técnicos disponíveis. O exemplo da Figura 4 poderia ser considerado um dos mais eficazes para o cumprimento da tarefa de sacar rolhas de garrafas de vinho.
As artes estéticas dividem-se em agradáveis e belas. A arte agradável tem como fim que “o prazer acompanhe às representações como «meras sensações».” (Ak. V 305) Requer também de meios técnicos, de um conceito do que o objeto deve ser, e de um desenho de como o objeto ou os objetos cumprirão sua função, a qual está estabelecida pelo objetivo geral de produzir um prazer que será pesquisado empiricamente. Cabe notar que, neste caso, o conceito do que o objeto ou os objetos possam ser não é equivalente com a sua função sendo que muitos objetos podem preencher a condição de produzir prazer sem que a definição do que o objeto seja dependa do prazer que produz (sendo este dependente de coisas como os gostos individuais, o contexto, a cultura, etc.). Por exemplo, no caso da decoração de mesas (Figura 5) procura-se um enfeite que não atrapalhe a atividade a desenvolver (comer), adaptando-se a certas condições de bom gosto. As flores, o desenho dos guardanapos e dos mantéis, o desenho da mesa em geral não dependem dos conceitos de flor, guardanapo, mantel ou mesa, embora estejam relacionados com ela e com o alvo da ação que será
desenvolvida com eles. Muitos objetos produzidos pelas artes mecânicas podem se ver envolvidos na produção de arte agradável.
A arte bela tem como caracterização primária que o prazer deve acompanhar às sensações como um modo de conhecimento. Isto parece supor as mesmas condições que operaram no caso anterior: meios técnicos, um conceito do que o objeto deve ser, e um desenho de como o objeto cumprirá sua função, a qual está estabelecida pelo objetivo geral de produzir um prazer na reflexão, de associar à sensação a um modo de conhecimento (gosto; comunicação). Mesmo assim, o conceito do que o objeto seja parece não estar necessariamente caracterizado pela função, senão que há de existir uma pesquisa diferente para produzi-lo.
Muitas questões surgem ante este fato. Quê conceito é este que se requer para a produção da arte bela: e o conceito do objeto como “obra de arte”; o conceito do objeto como tipo x de obra de arte (por ex. uma pintura); o conceito do que objeto como representação (símbolo) de um objeto (por. ex. Laocoonte (Figura 6))?
Pareceria que o artista requer dos três conceitos para produzir o objeto, mas o primeiro dar-nos-ia a senha do que os objetos têm que ter para produzir esse prazer específico que é o da arte bela.
Embora esta caracterização pudesse surgir para qualquer uma de estas formas de arte, no caso da arte bela apresentasse um problema especial. Nada têm em comum um saca- rolha com uma xícara; também nada tem em comum uma mesa decorada com um brinquedo. Só o fato de que sob determinada perspectiva, podemos dizer que pertencem a o mesmo tipo de produtos. Quer dizer, tanto o saca-rolha como a xícara são o resultado de um processo mecânico que pode ser reproduzido por qualquer um que tenha o conceito do que o objeto deve ser, os meios técnicos e consiga fazer um desenho apropriado para o objetivo dado no conceito (produção artesanal e seriada). A decoração de mesas e as marionetes podem ser produzidas também por qualquer um, mas não há regras para o sucesso posto que a função e o conceito do objeto não são a mesma coisa, sendo tal que o objeto produzido não cumpra com a função pelo menos em todos os casos. Ainda assim, as regras de produção podem ser aprendidas, pois estão condicionadas por variáveis empíricas (tanto biológicas como sociais ou antropológicas em geral).
Agora bem, de acordo com Kant isto não acontece no caso da arte bela. Na medida em que não é nem o fato de ser uma pintura ou uma poesia, nem o fato de ter um conteúdo determinado o que faz ao sucesso da obra, estes dois aspectos conceituais, embora relevantes, não fazem à obra de arte. Além disso, a originalidade é uma nota específica da obra de arte
que não pode ser uma mera reprodução. E também, as variáveis a ser atendidas não são empíricas, é no despertar do juízo de gosto onde o prazer acompanha as sensações como um modo de conhecimento.
A contradição fundamental que se apresenta a Kant frente à questão da arte pode se expressar nos enunciados seguintes:
a) Um produto da arte tem que ter um conceito como condição de sua possibilidade. b) Um objeto belo não poderia ter um conceito como base de determinação, pois deve comprazer ao juízo de gosto.
A necessidade de um conceito para reconhecer um objeto como “obra de arte” é claramente identificada por Kant:
[C]ada arte pressupõe regras, através de cuja fundamentação pela primeira vez um produto, se ele deve chamar-se artístico, é representado como possível. (…) [S]em uma regra precedente um produto jamais se pode chamar arte, assim a natureza do sujeito (e pela disposição da faculdade do mesmo) tem que dar a regra à arte, isto é a bela arte é possível somente como produto do gênio. (Ak. V 307)
Porém, a impossibilidade de deduzir o juízo de gosto sobre a obra de arte de um conceito e com ele a impossibilidade de deduzir a regra para a construção do objeto cai como uma pedra na “teoria” da arte de Kant:
O conceito de bela arte porém não permite que o juízo sobre a beleza do seu produto seja deduzido de qualquer regra que tenha um conceito como fundamento determinante, por conseguinte que ponha no fundamento
conceito da maneira como ele é possível. Portanto a própria arte bela não
pode ter idéia da regra segundo a qual ele deva realizar o seu produto. (Ak. V 307)
Neste capítulo tentaremos mostrar que é incorreto procurar na obra kantiana um conceito geral de obra de arte. Para isso analisaremos possíveis candidatos a preencher uma condição extremamente difícil, a saber, o conceito que torna possível que um objeto “x” seja uma obra de arte, de acordo com o modelo de técnica proposto por Kant. Uma vez que precisamos de um conceito para que o objeto seja possível, parece razoável esperar que Kant nos ofereça uma definição do que faz que objetos tão diversos como uma sinfonia, um quadro, uma igreja, etc., sejam obras de arte.