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Kelsen e Heller: Teoria do Estado “sem” Estado

No documento Tensões no liberalismo de Kelsen (páginas 75-80)

CAPÍTULO II – O “LIBERALISMO” KELSENIANO NA VIENA VERMELHA E NO

2.3 Kelsen e o “Debate de Weimar”

2.3.2 Kelsen e Heller: Teoria do Estado “sem” Estado

Na seção anterior, constatamos a existência de uma vinculação de Kelsen ao liberalismo promovida por um autor da “direita”, dentro das fileiras dos juristas

proteção da mesma frente a fugazes tentativas de mudança”. Cf. “Legislador Negativo” na obra de

alemães (Schmitt); nesta, expomos a crítica de outro alemão envolvido no Debate de Weimar, mas agora um socialdemocrata não-marxista, a saber: Hermann Heller.

Segundo o professor Bercovici, toda a elaboração teórica de Heller sobre Estado, soberania e Estado Social de Direito, vincula-se às suas concepções políticas socialistas, tendo como objetivo a sua realização em um Estado Socialista:

Heller era um reformista, na linha de Ferdinand Lassalle, que teria tentado reunir a concepção de Estado de Hegel com as teorias econômicas do marxismo, propondo a ideia do Estado da classe operária (Staatsidee des Arbeiterstandes) como o grau mais elevado de socialização dos homens. Ele não era um revolucionário. O marxismo, segundo Heller, possuía o mérito de ter uma visão de totalidade, reagindo às tentativas liberais de isolar o Estado da realidade social. No entanto, o marxismo subordinou a atividade estatal à atividade social, entendendo esta última como exclusivamente econômica. Com sua visão de Estado fundada em Hegel, Heller foi um severo crítico do determinismo econômico do marxismo, bem como das concepções de Estado e de ditadura do proletariado do marxismo ortodoxo, taxadas por ele de economicistas e anarquistas, por proporem o fim do Estado. [...] Para Heller, o Estado deve ser concebido partindo da totalidade da realidade social, dentro da qual a atividade econômica é apenas um momento, embora decisivo na sociedade capitalista. (BERCOVICI, 2003b, p. 98, grifo noso).68

Heller se colocava contrário as ideias nacionalistas e liberais que se figuravam como opções para a crise do Estado:

EI nacionalismo y el demoliberalismo crean la ficcion de que el Estado es la expresion de la voluntad de una comunidad solidaria de interesses y de la unidad del pueblo; el primero en cuanto hace emanar la unidad estatal del espiritu nacional del pueblo, y el segundo porque, en confianza en la armenia “natural” del libre juego de las fuerzas, cree que puede establecerse automaticamente una volante gbtbale como resultado de los egoismos individuales que se limitan a sí mismos por consideraciones racionales, voluntad que debe aparecer, basta donde sea posible, sin intervencion de autoridad ninguna y sin ninguna especie de coaccion organizadora. EI demoliberalismo reconoce, sin duda, al Estado cierta autonomia al considerarlo como una institucion juridica para garantizar los derechos subjetivos, pero, de esta suerte, queda relativizado exclusivamente a esa funcion de proteccion jurídica y viene a perder, como autoridad impersonal de la ley, autonornia frente al derecho. (HELLER, 1942, p. 183, grifo nosso).

Embora tivesse sido um discípulo de Kelsen e professor austríaco de Direito Público, e compartilhasse com Kelsen que uma sociedade política poderia encontrar o sentido das limitações do Estado de Direito, Hermann Heller discordava das concepções teóricas kelsenianas (HERRERA, 1997, p. 78).

68 A teoria do Estado de Hermann Heller não recebeu, em solo nacional, a atenção que merece. Na

Para Heller, as formulações de Kelsen implicavam numa “Teoria do Estado sem Estado”, numa “Teoria do direito sem direito”, numa “ciência normativa sem normatividade” e num “positivismo sem positividade”. Nos dizeres do próprio Heller:

EI intento kelseniano de disolver al Estado en el derecho constituye una doctrina exclusivamente formal de un Derecho Natural sin contenido. La “doctrina pura del derecho” no conduce a la representación de una autoridad impesonal del derecho, sino a la de una autoridad del derecho depurada de todo contenido etico y sociologico. AI identificar, como hace Kelsen, el Estado con el Derecho, por fuerza habrá de desaparecer, con Ia legalidad peculiar del Estado, la autonomía de la Teoría del Estado. No hay más que una Teoria “normativa” del Estado como Teoría del Derecho, a que, como tal, “es también la Sociologia del Estado” [...] Desde el momento en que se liquida la necesaria tensión entre Derecho y Estado, echándose unilateralmente del lado del Derecho, parece muy fácil fundamentar la validez del Derecho frente al Estado. Pero tal aparencia se desvanece al descubrir que la Teoría kelseniana del Estado sin Estado se presenta como imposible porque, a la vez, es una Teoría del Derecho sin Derecho, una ciencia normativa sin normatividade y un positivismo sin positividad. Como el Estado es absorbido completamente por el derecho y, en cuanto sujeto de derecho, no es otra cosa que “el derecho como sujeto” [...], las nornas jurídicas de Kelsen han de establecerse y asegurarse a sí mismas, o sea que carecen de positividad. (HELLER, 1942, pp. 215-216, grifo nosso).

Politicamente, Heller defende uma democracia socialista que consagraria a unidade política na pluralidade democrática (e não uma “procedimentalização” da democracia, como em Kelsen). Ao desenvolver sua teoria jurídica, Heller tem como alvo principal a teoria jurídica de Kelsen: para ele, a formalidade da teoria cede espaço para a positivação de valores liberais.

Para Heller, a teoria kelseniana representava “la absolutización metódica del liberalismo y de su ‘libertad del Estado’” (HERRERA, 1997, p. 112). Segundo o próprio Heller:

Al negar la relación dialectica entre el Estado y el derecho, así como la formacion de 'poder por el derecho y la de derecho por el poder, habia que enfrentarse con el dilema de reducir el derecho al Estado o negar la legalidad peculiar de este y disolverlo en el derecho. Para el liberalisrno, poco amigo del Estado, la consecuencia era clara, Desde el punto de vista de la historia del espiritu, la eliminación del caracter de realidad del Estado en beneficio del derecho podia enlazarse con la idea jusnaturalista de la autoridad impersonal de la ley, la qual, como orden natural, habla de ser conocida y realizada por la razon humana. Se creia que las leyes inmutables de este ordre naturel podian obligar de modo inmediato e incondicionado a los destinatarios, prescindiendo de toda autoridad humana e incluso de la voluntad divina; es decir, se creia posible ordenar la realidad social sin apelar a la autoridade. (HELLER, 1942, p. 215).

Por um lado, Heller não se contenta com a formalidade do Estado de Direito liberal, que teria como única finalidade a de garantir uma “segurança jurídica” apta a doar previsibilidade às relações capitalistas; mas, por outro, Heller não deseja abolir o Estado de Direito de forma geral.

Heller afirmará “aprovamos o Estado autoritário, tanto por motivos socialistas como político-nacionais”, o que, em termos práticos, significa transformar o Estado liberal em um Estado socialista de direito, mas não eliminar o Estado de Direito em geral, porquanto deveria-se manter a separação dos poderes e os direitos fundamentais, todavia, sob a égide de uma economia planificada estatalmente, que coletivize os meios de produção, submetendo-os à autoridade do Estado (BERCOVICI, 2004, p. 132).

Recuperemos o excerto supramencionado: “transformar o Estado liberal em um Estado socialista de direito, mas não eliminar o Estado de Direito em geral”. Pois bem. Cabe agora a pergunta (retórica): alguma similaridade com as teorias de Kelsen?

2.4 Considerações finais do capítulo

Resgatamos neste capítulo algumas das mais essenciais controvérsias do período do entreguerras que de alguma forma associavam o nome de Kelsen ao liberalismo, tanto na Viena Vermelha como no Debate de Weimar.

Do ponto de vista histórico, tivemos a oportunidade de apreender que as formulações teóricas kelsenianas serviram ao governo da socialdemocracia (desvinculando-as de seu nascedouro liberal) e de que o próprio Kelsen-cidadão permaneceu muito próximo a essa doutrina política.

Especula-se que os teóricos socialistas que acusaram Kelsen de ser liberal estavam mais preocupados em encontrar uma teoria positiva do Estado, mas sem atribuir deliberadamente a serventia das formulações kelsenianas, num contexto de virada política e teórica no marxismo.

Do ponto de vista de resultado conceitual da TPD, o Estado kelseniano não é mais do que uma personificação da totalidade das regras de uma ordem jurídica específica. Por outro lado, o parlamentarismo e o princípio do compromisso kelsenianos não são apresentados com algo apolítico, consoante à crítica feita ao parlamentarismo liberal. Assim, em termos estritamente teóricos, nada se prova

quanto à trivial vinculação Kelsen/liberalismo. Ressalte-se ainda que o próprio Kelsen criticava o liberalismo nessa época. Sua empreitada teórica parece ser “democrática” e não “liberal”.

CAPÍTULO III – O “ANTI-LIBERALISMO” KELSENIANO NO CONFRONTO COM HAYEK

No documento Tensões no liberalismo de Kelsen (páginas 75-80)