CAPÍTULO II – O “LIBERALISMO” KELSENIANO NA VIENA VERMELHA E NO
3.13 Liberalismo antidemocrático e democracia antiliberal
Até este estágio da comparação entre Kelsen e Hayek já constatamos que existem diferenças relevantes entre os autores. Considerada a exposição até este ponto, parece-nos razoável concordar com a caracterização feita por Métall quanto a Kelsen ser um “defensor apassionado de la democracia” (MÉTALL, 1976, p. 116). Quanto a Hayek, plausível afirmar que se trata de um liberal convicto.
No entanto, há de se tensionar a relação existente entre a democracia e o liberalismo ainda que seja num nível superficial, ao menos para esclarecer uma questão “secundária”.
Embora ao tempo dos escritos de Hayek, as duas ideologias sejam vistas por vezes como contraditórias, em meados do século XX – quando da vitória dos países aliados sobre o nazifacismo –, inicia-se, de um modo ainda tímido, uma convergência do establishment sócio-político ocidental na afirmação de uma ordem simultaneamente liberal e democrática.
Nesse contexto, segundo Hayek, o capitalismo insurge-se como uma espécie de pressuposto da democracia, guardando com ela uma afinidade imanente:
Muitos dizem, no atual momento, que a democracia não tolerará o “capitalismo”. Se na acepção dessas pessoas “capitalismo” significa um sistema de concorrência baseado no direito de dispor livremente da propriedade privada, é muito mais importante compreender que só no âmbito de tal sistema a democracia se torna possível. No momento em que for dominada por uma doutrina coletivista, a democracia destruirá a si mesma, inevitavelmente. (HAYEK, 2010, p. 85, grifo nosso).
Em verdade, é fácil compreender o argumento de Hayek: ora, se o socialismo implica necessariamente na supressão de toda liberdade, tanto a liberdade política (participação dos governados no governo) quanto a liberdade econômica e intelectual (liberdade em relação ao governo), então a democracia só pode conviver com o capitalismo.
Hayek recupera várias distinções a respeito do liberalismo e da democracia explicitando a diferença entre o ideal liberal e o ideal democrático; e expõe os pontos convergentes e divergentes do seguinte modo:
A igualdade perante a lei gera a exigência de que todos os homens tenham também a mesma participação na elaboração da lei. É este o ponto de convergência do liberalismo tradicional e do movimento democrático. No entanto, estas duas correntes de pensamento buscam objetivos diferentes. O liberal (na acepção dada ao termo na Europa do século XIX, à qual nos ateremos ao longo deste capítulo) visa, sobretudo a limitar os poderes coercitivos de todos os governos, democráticos ou não, ao passo que o democrata dogmático só reconhece um limite para os governos – a opinião corrente da maioria. A diferença entre os dois ideais se tornará mais clara se definirmos seus opostos: o oposto de democracia é governo autoritário; o de liberalismo é totalitarismo. Nenhum dos dois sistemas exclui necessariamente o oposto do outro: a democracia pode exercer poderes totalitários, e um governo autoritário pode agir com base em princípios liberais. (HAYEK, 1983, p. 111, grifo nosso).
Hayek parece indicar um ponto que lhe parece caro, ao olhar com restrições à democracia: “Para o democrata dogmático, o fato de que a maioria queira alguma coisa é razão suficiente para que tal coisa seja considerada boa; para ele, a vontade da maioria determina não apenas o que é lei, mas também o que é boa lei” (HAYEK, 1983, p. 112). Hayek expõe as concepções liberais a respeito da regra da maioria:
O liberalismo considera desejável que seja de fato lei somente aquilo que é aceito pela maioria, mas não afirma que tal lei esteja, necessariamente, em conformidade com as características da verdadeira e boa lei. O liberalismo, de fato, tem como objetivo persuadir a maioria a observar certos princípios. Aceita o governo da maioria como método para a tomada de decisões, mas não como autoridade para determinar que decisão deva ser adotada. (HAYEK, 1983, p. 112, grifo nosso).
Insistimos em resgatar os dizeres hayekianos sobre o tema:
[...] A democracia é, em essência, um meio, um instrumento utilitário para salvaguardar a paz interna e a liberdade individual. E, como tal, não é de modo algum perfeita ou infalível. Tampouco devemos esquecer que muitas vezes houve mais liberdade cultural e espiritual sob os regimes autocráticos do que em certas democracias — e é concebível que, sob o governo de uma maioria muito homogênea e ortodoxa, o regime democrático
possa ser tão opressor quanto à pior das ditaduras. (HAYEK, 2010, p. 86).
Pois bem. Podemos dizer que nesse ponto, o entendimento de Hayek se encarrega de esclarecer que a ordem liberal não pode jamais ser subvertida, nem mesmo pela democracia, o que equivale a descobrir que a democracia liberal representativa tem, pois, um sentido bastante distinto daquele que lhe é comumente atribuído pelas visões dominantes mais triviais.
Entretanto, segundo Maksoud, Hayek é um “amante da democracia”, mas que ataca o que se chama hoje de democracia pelo motivo de ter havido o esquecimento dos ideais originais de liberdade da antiga democracia:
Hayek ataca fundo o que se chama hoje de democracia. Mostra que, antes de tudo, o defeito fatal da forma vigente de democracia é o poder ilimitado das entidades governamentais representativas. Esse poder ilimitado conduz a uma democracia de “barganha” incapaz de agir de acordo com as concepções comuns à maioria do eleitorado, que se verá “obrigada a formar e manter unida uma maioria por meio da satisfação das exigências de uma pluralidade de grupos de pressão, cada um dos quais se concordam com a concessão de benefícios especiais a outros grupos em troca de igual consideração para com seus próprios interesses especiais”. (MAKSOUD, 1985, v. 1. p. XXIV).
Para melhor entendimento das restrições à democracia feitas por Hayek, recordemos que em uma época em que se exaltavam as virtudes da economia planificada e se duvidava da capacidade das economias capitalistas de sobreviver diante de suas crises, o autor defendeu firmemente o liberalismo político-econômico, com base em sua tese central de que o Estado intervencionista conduziria ao totalitarismo, à servidão.
A tese liberal-econômica de Hayek se baseia na ideia de que o projeto de uma economia planificada só seria possível se houvesse um controle de informações sobre todos os agentes que influenciam na economia, o que seria inviável de realizar-se, além de pressupor-se com isso um modelo de democracia intervencionista, o qual entraria em conflito com as liberdades básicas do indivíduo. Assim, a busca pela justiça social conduziria à violação da liberdade individual.
Neste sentido, para Hayek, democracia poderia destruir o liberalismo, a tal ponto que meios precisam ser postos em prática para limitar a gama de assuntos a serem debatidos por processo político. Da mesma forma, embora relações de mercado viabilizem um pluralismo cultural, isto requer vigilância contra aqueles que,
em nome de seus próprios interesses, viriam a impor suas próprias agendas específicas.
Nota-se aqui, ainda que não propriamente um repúdio à democracia, ao menos certa preocupação quanto à necessidade de restrições ao poder da maioria e ao governo ilimitado. Hayek, inclusive, censura Kelsen pelo seu excessivo apego à democracia:
O próprio Kelsen já havia observado que a “liberdade fundamentalmente irrecuperável do indivíduo passa aos poucos para um plano secundário e a liberdade da coletividade social se destaca em primeiro plano” e que essa alteração do conceito de liberdade significava que “o democratismo se emancipou do liberalismo”, o que evidentemente aplaudia. (HAYEK, 1983, p. 287).
Pois bem. Este “tensionamento” entre liberalismo e democracia, ainda que produzido de modo superficial, serve-nos ao menos para esclarecer distinções conceituais e, ao mesmo tempo, permite-nos indagar em que medida essas duas ideologias (liberal e democrática) podem se aproximar no pensamento kelseniano.
***
Já vimos que para Kelsen não existe um vínculo teórico necessário entre democracia e capitalismo, nem mesmo entre liberdade política e liberdade econômica. Kelsen ainda afirma: “Do ponto de vista da ciência, livre de quaisquer julgamentos valorativos, morais ou políticos, a democracia e o liberalismo são apenas dois princípios possíveis de organização social, exatamente como o são a autocracia e o socialismo” (KELSEN, 1998b, p. 8).
Em verdade, entre o princípio da democracia e o princípio do liberalismo existe mesmo algum antagonismo, uma vez que o liberalismo implica a limitação do poder por qualquer forma de governo – o que limita também os poderes democráticos. Sendo assim, parece-nos que liberalismo e democracia apresentam-se desvinculados em Kelsen.
Entretanto, em outro excerto, Kelsen associa democracia e liberalismo político:
A vontade da comunidade, numa democracia, é sempre criada através da discussão contínua entre maioria e minoria, através da livre consideração de argumentos a favor e contra certa regulamentação de uma matéria. Essa discussão tem lugar não apenas no parlamento, mas também, e em primeiro lugar, em encontros políticos, jornais, livros e outros veículos de opinião. Uma democracia sem opinião pública é uma contradição em termos. Na medida em que a opinião pública só pode surgir onde são garantidas a liberdade intelectual, a liberdade de expressão, imprensa
e religião, a democracia coincide com o liberalismo político – embora não necessariamente com o econômico. (KELSEN, 1998b, pp. 411-412, grifo nosso).
Diante dessa assertiva, cujo conteúdo argumenta em prol da liberdade individual, torna-se plausível enxergar a democracia kelseniana como uma democracia “liberal”. Entretanto, o ideal de justiça da democracia “liberal” de Kelsen – que pode garantir a liberdade da economia, a liberdade de crença, a liberdade da ciência –, não se trata da liberdade individual clássica: segundo Kelsen, “ela pode imiscuir-se, em toda e qualquer medida, na esfera da liberdade dos indivíduos que lhe estão sujeitos” (KELSEN, 20001, p. 83).
No contexto dessa dubiedade, se apresentarmos a democracia de Kelsen como uma democracia liberal, precisaremos explicar também como o autor pode conceber a possibilidade de uma democracia “social”? Afinal, Kelsen não desarma a democracia “liberal” ao aceitar conteúdos outros a não ser os liberais? O democratismo kelseniano não está emancipado do liberalismo?
Não se deve estranhar, portanto, as assertivas de Mario Losano, quando este afirma ser Kelsen é “um representante tanto do positivismo jurídico quanto da democracia liberal” (LOSANO, 2010, p. 26); e em outro momento, ser Kelsen um “social-democrata por convicção (LOSANO, 2002, p. 27). A questão é espinhosa.
Façamos menção aqui ao relativismo de Kelsen, que talvez seja o responsável por essa indefinição:
A controvérsia entre liberalismo e socialismo, por exemplo, é em grande parte uma controvérsia não quanto ao objetivo da sociedade, mas antes quanto à maneira correta de se atingir um objetivo sobre o qual a totalidade dos homens se acha de acordo, e essa controvérsia não pode ser solucionada cientificamente, pelo menos não no presente. (KELSEN, 1998b, p. 11).
É bem verdade que se pode apontar uma maior aproximação com o liberalismo ao se considerar a questão “procedimental” da democracia kelseniana. Nesse sentido, considerando que uma concepção liberal “prefere” o procedimento à substância, é razoável associar liberalismo e democracia em Kelsen, mas talvez isso seja insuficiente.
Esta questão mereceria uma pesquisa à parte, pois demandaria uma profunda discussão sobre o que de fato define uma democracia como “liberal”: seu regime econômico? A garantia de direitos individuais? Na busca por respostas, valeria até
considerar, por exemplo, uma abordagem da democracia não como uma invenção burguesa, mas sim como nascida da luta de classes, como feito na obra de Claude Lefort, A Inveção Democrática (1983).