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3 CONSTRUÇÃO GEOGRÁFICA DO EXTREMO SUL DA BAHIA

Foto 06. Antigo Complexo da Cia Itamarajú Agro-Industrial na BA

4 EUCALIPTIZAÇÃO: UM PROCESSO DE ESPECIALIZAÇÃO DO EXTREMO SUL DA BAHIA?

4.1 O eucalipto transformando e criando espaços

4.1.2 A Klabin em Telêmaco Borba (PR)

Neste segundo utilizou-se como referência um estudo que Bacha (1998) desenvolveu sobre a evolução da produção de papel e celulose no Brasil com levantamento de dados entre o período de 1950 a 1993, mais especificamente no estado do Paraná. Dentre dos lugares do Paraná onde a Klabin atua, talvez, o que mais instiga os pesquisadores seja o município de Telêmaco Borba. Localizado na porção Centro Oriental do Paraná, com uma área de 1.225 km², distante a 249 km de Curitiba e com uma população estimada em 65.797 habitantes, o município nasceu diretamente da ação da Klabin.

Apesar de o texto de Bacha (1998) enfatizar uma experiência de sucesso no que concerne ao complexo de celulose no Paraná, outros antagonismos desta atividade econômica são postos em questão como, por exemplo, a extinção ou a redução de espécies da flora e da fauna. Bacha (1998, p.99) não nega que há estes riscos para o meio ambiente, no entanto, ele assegura estas possibilidades existem em “qualquer atividade agrícola exercida em monocultura de grandes extensões”. Esta afirmação do autor provoca a formulação de algumas interrogações: a que se deve ao fato de as florestas homogêneas sofrerem tantas contestações, sejam elas de cunho científico ou ideológico? Existe um interesse puro em proteger o meio ambiente e preservar sociedades rurais? Porque os outros tipos de monocultura caminham na sua expansão na mesma proporção ou até maior que a do eucalipto e, no entanto, não recebem a mesma dedicação? Não que se duvide das propostas de debate sobre o tema, que, aliás, são relevantes e necessárias, mas, que sejam coordenadas sob uma perspectiva holística, onde as empresas, os poderes públicos, pesquisadores e a sociedade organizada tentem

chegar a um denominador em busca de uma convivência possível dentro do contexto econômico, social e ambiental.

As plantations no Brasil ocorrem desde seu período colonial onde os embates se concentravam não contra as enormes extensões de terras, geralmente comandadas por uma única família, que cultivavam um único produto, mas, lutava-se contra a exploração do trabalho escravo. No Sul da Bahia não se questionava a dimensão das áreas produtoras de cacau, mas, sim, o sistema da política coronelista. E, agora, na era da modificação genética de alguns grãos, também, não é contestada a imensidão de suas lavouras, mas a atuação da ciência ou o monopólio de uma empresa na área de agricultura e biotecnologia.

Não se contesta, de forma alguma, a importância histórica dos movimentos ambientalistas, afinal se ainda existem grandes áreas preservadas no Brasil e no mundo é, em grande parte, devido a suas atuações. Por outro lado, algumas de suas posturas poderiam ser repensadas para que eles possam continuar contribuindo. “Não dá mais para pensar que basta proteger áreas para solucionar os problemas, porque os conflitos aumentam e resultam em casos e mais casos de violência e morte” (BECKER, 2005, p.13). Dizer que não se come eucalipto não se justifica para que haja depredação de patrimônios públicos e de laboratórios de pesquisa. Porque então não pressionar as empresas que incluam nos seus projetos a utilização do eucalipto como fonte de renda dentro das associações?

É preciso reconhecer que o mundo mudou e que as relações das grandes empresas com o meio ambiente também têm mudado. O consumidor moderno não se preocupa somente com o seu bem-estar, mas faz uma espécie de vigilância ambiental a distância sobre as empresas de quem compra, e no seguimento de celulose e papel este comportamento não é diferente. De acordo com Tachizawa (2006, p.29) há uma “expansão da consciência coletiva em relação ao meio e à complexidade das atuais demandas ambientais que a sociedade repassa às organizações induz a um novo posicionamento por parte das organizações em face de tais questões”. Dentro desta mesma linha de raciocínio, Bacha (1998, p.121-122) dirá que “os consumidores acenam com uma preferência futura por celulose e papel oriundos de matas plantadas conduzidas com práticas ambientalmente adequadas”. Portanto, se no passado a conservação do meio ambiente significava gastos para as grandes empresas, nos dias atuais se revela como mais um elemento de sua consolidação nos mercados interno e externo.

A atuação da Klabin, também estudada por Piquet (1998), no município de Telêmaco Borba (PR) teve repercussões semelhantes ao caso do município de Aracruz, desde os fatores ambientais e sociais até as contradições sobre o seu papel no que tange ao desenvolvimento dos lugares que receberam os impactos do seu complexo industrial. Para Bacha (1998, p.121) a Klabin é um caso de sucesso porque, “elaborou um sistema de produção de madeira que pode ser considerado um esquema adequado de plantio de florestas com a preocupação de preservar a biodiversidade e com retornos sociais significativos, ao mesmo tempo em que a empresa obtém lucratividade”. Em suma, os dois casos apresentam semelhanças quanto às interferências positivas e negativas no meio. Entretanto, no primeiro caso a empresa chegou numa cidade pronta, isto é construída ao longo da historio do território capixaba, e que aparentemente não conseguiu estabelecer uma relação pacífica entre os seus empregados que eram discriminados através da arquitetura dentro do bairro construído, bem como com os citadinos do município de Aracruz. Já no segundo caso, a fábrica construiu a cidade oferecendo toda infra-estrutura urbana bem como nas zonas rurais.

Estes dois exemplos (Aracruz Celulose S.A. e Klabin) mostram que uma mesma atividade econômica desenvolvida em lugares diferentes adquire comportamentos, também, diferenciados. O seu funcionamento vai depender da “história do lugar, as condições existentes no momento da internalização (quando o que é externo a uma área se torna interno) e o jogo de relações que estabelecerá entre o que chega e o que preexiste” (SANTOS, 1996, p.47). Portanto, o eucalipto também terá repercussões desiguais nos lugares do Extremo Sul da Bahia.