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3 CONSTRUÇÃO GEOGRÁFICA DO EXTREMO SUL DA BAHIA

Foto 11. BR 101, expansão da urbanização e ao fundo o eucalipto (município de Itamarajú)

4.5 A rede do eucalipto

4.5.1 Rede: objetivos e realidade

A origem das redes no Brasil pode ser entendida a partir das ações de antigos desbravadores, como os bandeirantes, que abriam picadas em direção ao interior do país com o objetivo de colonizar e explorar novas terras seja através da pecuária, agricultura, mineração ou de outras atividades que pudessem provocar a descoberta e a construção de novos lugares. No entanto, o sucesso da permanência deles nessas novas áreas dependia do abastecimento de alimentos e equipamentos vindos de outras regiões e para isso era necessária a abertura de caminhos por onde transitariam pessoas, animais e mercadorias. Com a evolução da engenharia

as trilhas e os caminhos foram progressivamente substituídos pelas estradas de ferro no transporte de bens e mercadorias; com o advento do telégrafo e em seguida do telefone, a circulação das ordens e das novidades já dispensava a figura do mensageiro (DIAS, 1995, p.142). As estradas de rodagem, as ferrovias, a criação de linhas de telégrafo e telefonia foram fundamentais no processo de formação e desenvolvimento de vários núcleos urbanos no Brasil, porém, aconteceu de maneira excludente e concentrador, haja vista que São Paulo, capital, sempre recebia os primeiros investimentos e os direcionavam no sentido de atender aos interesses de grupos econômicos e políticos que mantinham forte influência nos rumos da economia nacional. De acordo com Souza (2006, p.18) desde 1946 que “as várias constituições brasileiras garantiram sempre a sobre-representação dos estados do Nordeste e Norte sobre os do Sul e Sudeste,

especialmente em detrimento da representação paulista”. A participação ativa dos grandes produtores de café, por exemplo, na composição das sociedades das ferrovias demonstrava o poder da burguesia paulista na distribuição da melhoria de infra-estrutura do país (Dias, 1995), o que já apontava para um desvio do principal objetivo de uma rede, que é a integração de um país.

Mas a concentração de investimentos não é uma prática que aconteceu somente na cidade São Paulo, também, dentro do território baiano houve uma interferência negativa dos grandes produtores com relação à integração do estado que deveria ser feita através de trilhos. Tavares (2001, p.367) relata o seguinte panorama sobre as estradas de ferro da Bahia:

Eram onerosas e deficientes. Tinham graves defeitos de origem, um dos quais estava no traçado dos itinerários, abertos em obediência aos interesses, exigências e caprichos dos proprietários de terra nas áreas em que passavam. Por causa desse jogo oligárquico, deixaram de seguir as especificações técnicas da engenharia ferroviária. Como resultado, não atenderam às necessidades de comunicação de um estado com a extensão territorial da Bahia.

A atual discussão sobre redes, diferente da simplicidade de sua origem, exigi-se agora um estudo de um sistema que se apresenta muito mais complexo, conforme se pode observar na definição de Toledo Junior (2003, p.93): “as redes podem ser entendidas tanto como a presença de uma infra-estrutura no território quanto pelos serviços que esta permite que se realizem”. O entendimento desta complexidade vai desde relacionar quantos quilômetros de cabo de fibra óptica existem num território até o grau de influência que um lugar exerce sobre os outros a partir da grandiosidade de sua rede.

Os diversos tipos de redes se desenvolveram e se fundiram com o objetivo principal de integrar as regiões e conseqüentemente a sociedade de um país, bem como o de atender as necessidades dos diferentes seguimentos da economia. Contudo, parte deste objetivo maior ficou comprometida, haja vista, que os diversos tipos de rede se entrelaçam formando uma organização de comunicação dotada por rodovias, portos, aeroportos, ferrovias, hidrovias e grande aparato tecnológico para a transmissão de informações, que na década de 1990 começa a receber maciços investimentos da tecnologia em prol da comunicação, servirá principalmente à atuação das grandes

empresas, e que trará grandes mudanças espaciais, Conforme Amaral Filho (2002, p.03- 04),

isso implicou na formação de redes de transmissão de dados, imagens e informações, de tal forma que se passou a relativisar a importância da chamada distância espacial, fazendo assim emergir um novo conceito, o da proximidade organizacional, proporcionada pela inserção do indivíduo, empresa ou região nas redes de comunicação. Assim, essas redes se configuram num sistema complicado e delicado, porém, fundamental para as relações comerciais, e porque não dizer nas relações pessoais, tendo em vista que a rede mundial de computadores facilita a troca de informação entre as pessoas. Na visão de Coriolano; Silva (2005, p.31) a rede é formada por

integrantes que se ligam horizontalmente a uma infinidade de pontos, formando malha que pode se espalhar indefinidamente para todos os lados, sem que nenhum de seus pontos ou nós possa ser considerado principal ou central, nem representante dos demais.

Saindo da discussão sobre a questão de privilegiar ou não um determinado lugar, não se pode negligenciar numa análise sobre transformações espaciais a variável rede. A importância das redes para a dinâmica neste século pode ser entendida como um gênero de primeira necessidade, pois, se há uma interrupção abrupta e prolongada num dos seus componentes com certeza ocorrerá enormes transtornos para uma sociedade. Nesta perspectiva de análise, a rede é uma importante variável para se entender a dinâmica econômica e social num dado lugar, tendo em vista, que é através deste emaranhado (fios, estradas, trilhos, dutos e canais) organizado que são recebidas informações com maior velocidade, eficiência e simultaneidade; é por onde o transporte de pessoas e mercadorias se faz; e permite a operação de transações financeiras por todo o planeta.

O favorecimento de algumas regiões em detrimento de outras é parte da história da política econômica do país, e isto foi seguido pelos governos estaduais. No que concerne a escolha dos lugares que serão aparelhados por uma rede, Toledo Junior (2003, p.95) diz que

a concentração das redes em determinados pontos do território normalmente irá indicar lugares que são bem servidos por diversos tipos de infra-estruturas, que se dão através de investimentos públicos

e privados, mas que servirão preferencialmente a determinada parcela do território e da sociedade.

Um país que deseja aumentar a sua participação na economia mundial necessita pensar num modelo de interligação de suas regiões produtivas com os eixos de escoamento da produção. No Brasil há muitos questionamentos sobre os modelos de planos de desenvolvimento e sua eficácia no que se refere a atender de maneira igualitária todas as suas regiões, seja por dificuldades físicas, devido a diferenciação dos ambientes ou por equívocos de estratégia. Galvão; Brandão (2003, p.189) fazem uma relação entre o regime militar e o vocábulo planejamento para explicar algumas falhas na implantação e ou elaboração dele:

é que o planejamento governamental no Brasil alcançou o auge nos governos militares, quando esteve associado ao autoritarismo vigente. Assim, o planejamento terminou sendo identificado como instrumento autoritário, típico do momento da história nacional que se queria superar.

Superado este capítulo da história da política brasileira no que tange ao planejamento, os planos de integração nacional vão ter continuidade baseados na construção de rodovias com enormes extensões unindo o país nos seus pontos estratégicos, são os chamados grandes eixos rodoviários entre os quais está a BR 101 que tem um dos seus trechos passando pelo Extremo Sul da Bahia. No entanto, fatores como a falta de manutenção e a depreciação das rodovias que sustentam uma quantidade de peso muito além da sua capacidade faz com que estes grandes eixos percam parte da sua capacidade de integração regional e nacional.

No Plano Plurianual – PPA de 1996/1999 os eixões teriam a função de integrar e ocupar todas as regiões brasileiras, todavia, “prevaleceu o atendimento a interesses de segmentos particulares de produtores de commodities, através de políticas de investimento em corredores de transporte” (CASTILHO, 2003, p.14), demonstrando uma histórica tradição brasileira em privilegiar regiões política e economicamente fortes ou mais centralizadas em detrimento do restante do país, reafirmando uma política voltada para a expansão das grandes empresas no território nacional e de atender a pouquíssimos produtores, enquanto que a população é o elemento secundário desses planos.

O estado de São Paulo é o exemplo mais concreto da perpetuação de influência nos principais setores produtivos do país, exerce um poder de decisão que remete desde a época em que era uma referência na produção do café, como relata Dias (1995, p.142): “a participação dos plantadores de café nas sociedades de estradas de ferro demonstra o poder social conquistado pela burguesia paulista”. E mesmo nos nossos dias com a grande onda de privatização pela qual o país passou, sob o discurso de ampliação e maiores investimentos no setor das telecomunicações para atender a um maior número de brasileiros, foi mantida uma tradição onde “os equipamentos mais modernos e com mais capacidade de transmissão de informações se situam primeiramente nos lugares mais densamente ocupados, [...] e com maior poder econômico” (TOLEDO JÚNIOR, 2003, p.104-105). Por exemplo, a transmissão de TV através do sinal digital, neste século, chega primeiro em São Paulo para daí, depois de alguns anos, se difundir desigualmente para o resto do Brasil. Como também acontecerá com o uso da tecnologia que reduz a quantidade de partículas de enxofre no óleo diesel. Diniz (1993, p.45) apresenta uma justificativa para esta concentração histórica:

no caso do Brasil, a concentração industrial prévia e desigualdade do potencial de pesquisa e de renda dificultam um processo de desconcentração industrial para as regiões pobres ou vazias. Assim considerando, não resta dúvida que as melhores condições para a localização de atividades de alta tecnologia estão predominantemente no Estado de São Paulo e secundariamente no corredor que vai de Belo Horizonte a Porto Alegre.

Mas, mesmo dentro de São Paulo não há uma distribuição dos benefícios da tecnologia de maneira igualitária. Há os setores privilegiados como os bancos, as grandes corporações e alguns órgãos públicos, deixando uma boa parte da população excluída da evolução propiciada pelo sistema de redes, assim, este sistema, que deveria ser utilizado também como facilitador da comunicação entre os diversos setores da sociedade perde sua função social e se torna, basicamente, uma ferramenta a serviço do mercado financeiro. É através das tessituras (nós e redes) que os grandes grupos vão decidir sobre a organização do sistema territorial (RAFFESTIN, 1993).