A partir das intenções iniciais de leitura e escrita de textos é que todo trabalho escolar deve se organizar e prosseguir. Em linhas gerais, o professo indígena deve, ao planejar e realizar seu trabalho com a escrita, estar sempre pensando sobre as seguintes questões:
• A escrita é uma atividade que exige muito mais reflexão e elabo-ração do que a oralidade. Quando falamos, a não ser em situações excepcionais (numa palestra, por exemplo), estabelecemos um con-tato direto com as pessoas. Essas pessoas têm uma participação ativa, elas colaboram na conversação. Elas podem definir o rumo da conversa, podem fazer perguntas e comentários, podem pedir esclarecimentos, e assim por diante. Quando falamos, podemos ter momentos de hesitação. Podemos fazer correções, reelaborar o nosso pensamento, podemos parar para pensar. Quando falamos nós va-mos elaborando, construindo, trabalhando a linguagem no mesmo momento em que a estamos utilizando. Quando escrevemos, por outro lado, não contamos com a participação direta das pessoas. Os leitores dos textos que escrevemos - mesmo que sejam nossos co-nhecidos, como no caso das cartas pessoais - não participam, jun-tamente conosco, do ato de escrever nossos textos. Não podemos contar com eles, por exemplo, para nos ajudar a identificar passa-gens pouco claras. Eles não estão presentes para pedir mais infor-mações sobre determinados assuntos. Assim, o bom escritor é aque-le que sempre planeja o texto e, ao escrever, escolhe muito bem suas palavras e a maneira como as combina nas sentenças. O bom escritor sabe, com clareza, o que vai escrever (uma carta ou um bilhete?), para quem vai escrever (para um amigo, para uma autori-dade, para ser lido por uma só pessoa, por muitas?), o que quer dizer (qual é o assunto?), que efeito quer causar com o seu texto (convencer alguém de alguma coisa? ser atendido? fazer rir?). • Um texto escrito só existe em função de quem o irá 1er e é por isso
que é muito importante levar os alunos não apenas a imaginar quem serão os leitores dos textos que eles produzem, mas também e a ter sempre em mente esse perfil do leitor no momento do planejamen-to, da escrita, da revisão e da eventual reelaboração dos seus textos. Apenas representando de maneira adequada o leitor de um texto, podemos, no papel de escritores, avaliar se o texto está escrito em linguagem adequada, do ponto de vista de seu grau de formalidade; se contém todas as informações relevantes para o seu entendimen-to; se utilizamos os melhores argumentos para convencer nossos leitores, quando for o caso, e assim por diante. Reconhecer o papel importante da figura do leitor no momento da produção dos nossos textos significa, em termos práticos, que devemos planejar os tex-tos, do ponto de vista de sua forma e de seu conteúdo; que devemos
elaborar, quando for o caso, esquemas, rascunhos, versões iniciais que deverão ser reelaboradas; que devemos 1er os nossos próprios textos com o objetivo de fazer as correções e revisões que possam nos parecer necessárias.
• Todo trabalho com a leitura, desenvolvido na escola, deve ter por objetivo a formação de bons leitores. E o que significa ser um bom
leitor? Como ele se comporta? Os leitores maduros escolhem muito
bem os textos que lêem. Eles interrompem a leitura, se acham que o texto não é agradável, interessante ou não parece ser importante. Essas pessoas costumam 1er de maneira não linear, ou seja, elas pulam trechos, voltam atrás nas páginas, relêem passagens, algumas vezes verificando o que vem à frente. Elas usam tudo o que aparece no texto (ilustrações, títulos...) para fazer inferências e previsões sobre como uma narrativa vai se desenvolver, que argu-mentos o autor do texto vai levantar... Os bons leitores, portanto, têm uma enorme liberdade com relação aos textos. Os bons leitores sabem, inclusive, identificar que textos exigem uma leitura mais rigorosa e organizada e que textos podem ser lidos mais "livremen-te". Também é característica do leitor fluente a sua capacidade de 1er silenciosamente, sem necessidade de mexer os lábios. O bom leitor não precisa "1er" letra por letra, sílaba por sílaba. Essa capa-cidade permite também uma boa leitura em voz alta, quando este tipo de leitura é necessário.
• Não são somente as palavras e as sentenças escritas que traduzem o sentido pretendido pelo autor de um texto. Ele é também o resulta-do da maneira como as sentenças são organizadas graficamente em parágrafos, nas páginas, e da escolha de desenhos e ilustrações, de tabelas, da utilização de recursos gráficos como o tipo de letra, o sublinhado, o itálico, o negrito, as maiúsculas etc. usados para real-çar, destacar certas palavras ou trechos do texto. O bom leitor é aquele que sabe "1er", sabe interpretar todas essas indicações e o bom escritor é aquele que sabe utilizá-las com eficiência.
• Uma discussão oral, seja em língua indígena, seja em português, deve sempre preceder o trabalho com a leitura. Antes de 1er um texto, o professor deve apresentar e discutir o assunto com os alu-nos. Deve chamar a atenção para o título do texto, para sua apre-sentação visual, para o nome do autor, para o título do livro, para as ilustrações, se houver. São essas fases preparatórias que motivam o aluno a 1er e o ajudam a construir a significação daquele texto, a começar a perceber do que é que o autor vai falar. Dependendo do estágio de desenvolvimento da classe, após uma primeira leitura do texto pelo professor, em voz alta, ou pelos alunos, individualmen-te, pode-se discutir: quais foram as intenções do autor, que palavras foram usadas, para qual aspecto o autor deu mais importância e
LÍNGUAS
como ele fez isso. Tirar conclusões, perceber o que não foi dito no texto, permite ao aluno ir além e, a partir daí, produzir, ele mesmo um texto.
• Finalmente, deve-se também levar em conta o fato de que a escrita pode ser utilizada para a produção de diferentes tipos ou
modali-dades de texto. Como a língua portuguesa é língua oficial e tem
ampla tradição de escrita, há uma maior variedade de tipos de tex-tos escritex-tos nessa língua do que em línguas indígenas. De qualquer maneira, os alunos deverão, na escola, entrar em contato com a maior diversidade de textos possível, em ambas as línguas, para que possam aprender a reconhecê-los e a manuseá-los, tirando de-les o melhor proveito para suas necessidades ou interesses. As dife-rentes modalidades de textos devem ser trabalhadas de forma que os alunos percebam suas características particulares, comparándo-os uns com outrcomparándo-os.
A seguir, são apresentadas as características de alguns tipos de texto e algumas possibilidades de prática de leitura e escrita. Algumas dessas práticas podem ser desenvolvidas tanto em língua indígena, quanto em língua portuguesa. No momento atual, boa parte delas, entretanto, só se aplica ao português. O professor deve, ao avaliar a utilidade das práticas aqui apresentadas, levar em consideração a idade, a necessidade e o interesse de seus alunos. Ele deve, também, ter clareza sobre o que pretende ensinar com esta ou aquela atividade, já que é impossível ensinar tudo de uma só vez.
Contos, crônicas, histórias, relatos
Relatos escritos de viagens, de festas, de pescarias, de caça, de fatos do dia-a-dia, assim como histórias imaginadas pelo autor, fornecem elementos para a análise da organização do texto escrito, no que se refere à seqüência das idéias e aos sinais gráficos utilizados (travessão, pontos de interrogação, ex-clamação etc). É nesse tipo de textos, se escritos em português, que freqüentemente aparecem expressões típicas de discursos orais indígenas ("sim, eu vou contar", "no tempo de antigamente", "os mais velhos contam").
Esses textos podem ser bem explorados por meio do desenho: após a leitura, pode-se pedir que os alunos desenhem sobre o que leram e depois escrevam sobre o que desenharam. Alunos iniciantes podem aprender a seqüenciar fatos, ordenar idéias, localizar eventos e caracterizar personagens por intermédio, por exemplo, de histórias em quadrinhos. Histórias desse tipo podem ser apresentadas aos alunos sem palavras, para que, pelos indícios do desenho, eles possam, fazendo suposições, criar um texto primeiro oralmente e, depois, com a ajuda do professor, por escrito. Pode-se, também, suprimir o último quadrinho de uma história, e dar ao aluno a tarefa de tentar descobrir ou criar um final para ela.
Exercícios desse tipo, além de despertarem a vontade de aprender a 1er escrever, levam o aluno a observar, a pensar, a tirar conclusões, a fazer antecipações e a verificar se suas antecipações estavam corretas. Esses ele- mentos serão muito importantes para que, mais tarde, ele se torne capaz de compreender textos mais complexos.