H. PARA QUE ESTUDAR HISTÓRIA MAS ESCOLAS INDÍGENAS
1. O trabalho do professor
Na preocupação de desenvolver um trabalho pedagógico que valorize o sa-do aluno e, ao mesmo tempo, contribua para a ampliação de seus conhecimen-, o professor pode criar situações de: • conversas sobre o que cada um entende sobre o que é a História e qual a sua importância; • seleção dos temas considerados históricos; • conversas sobre o que se sabe sobre o tema histórico estudado; • pesquisas para colher informações históricas através de conversas com outras pessoas da comunidade; • observações e análises de objetos (utensílios, instrumentos, vestimentas), comparações entre as construções locais e as de outros lugares, distinção de suas técnicas e de seus materiais; • estudos envolvendo diferentes áreas de conhecimento (por exemplo: História, Geografia, Línguas e Ciências); • organização dos conhecimentos históricos escolares por meio de produções de desenhos, maquetes, painéis, montagem de exposição. Cabe ao professor provocar e organizar a discussão sobre as informações ; os alunos já possuem, as novas informações que trazem de pesquisas, as con-sões tiradas na confrontação de dados e de debates. O resultado das atividades, registros variados, pode ficar fixado em painéis ou na parede, para que todos sam consultá-lo em diferentes momentos, principalmente quando for necessário recorrer a ele para
estabelecer comparações e relações entre as informações de diferentes etapas de um trabalho. Faz parte do trabalho do professor: • propor estudo de temas considerados históricos;
• estimular o interesse dos alunos por esses temas;
• incentivar os alunos a socializarem o que sabem sobre o tema histórico em debate;
• integrar o estudo histórico aos temas desenvolvidos em diferentes áreas de conhecimento;
• considerar diferentes formas de representação (gráficas, cartográficas, li-terárias, numéricas), nos estudos históricos, como possibilidades de traba-lhos interdisciplinares;
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• estimular pesquisas históricas em fontes diversas e debates com conclusões coletivas, que incluam concordâncias, diferenciações e/ou divergências- • auxiliar os alunos nos trabalhos escolares (seleção do que e como pesquisarorganização de pesquisas, registros de conclusões coletivas) relativos aos estudos históricos;
• informar o que sabe à classe sobre o tema histórico em estudo; e
• criar situações para que os alunos comparem o que sabiam antes e o que de novo aprenderam sobre o tema histórico estudado.
Dependendo dos temas selecionados para estudo e dos objetivos a serem alcançados, o professor pode criar diferentes recursos didáticos para o estudo da História. Por exemplo, pode considerar as situações em que os alunos são incen-tivados a pesquisar e a observar o cotidiano na aldeia, a ouvir e registrar (por escrito ou em fitas de áudio ou de vídeo) lembranças, mitos e narrativas dos mais velhos, a produzir textos e desenhos sobre os marcadores de tempo, os conheci-mentos sobre a natureza, as festas, as danças, as pinturas no corpo e as técnicas de produzir objetos, enfeites, instrumentos de trabalho e casas.
Para trabalhar com a história na sala de aula da minha escola, eu tenho que descobrir atividades para fazer meus alunos entenderem o que é história.
Primeiro, o professor tem pequenas histórias sobre diferentes aconteci-mentos da aldeia...
Manoel Sabóia, professor Kaxinawá, AC
1.1. A importância da comparação
Os elementos socioculturais, como os que foram citados acima, podem ser materiais informativos e recursos didáticos para o desenvolvimento de estudos histó-ricos comparativos. Cabe ao professor e à comunidade estar sempre avaliando as fer-inas de utilização dessas pesquisas e registros e suas possíveis influências nos hábitos cotidianos da aldeia.
Quando os relatos orais forem registrados por escrito ou gravados em fitas e utilizados como material didático, os estudantes precisam aprender também a reco-nhecer que, apesar de existir a possibilidade de essa versão ser registrada, lida e relida, isto não significa que ela deve ser usada para fixar definitivamente uma me-mória. O registro dos relatos não deve servir para interromper o processo de per-manente reconstrução de seus significados.
Na história, é importante estudar o modo de vida de sociedades diferentes. O estudante pode reconhecer, nas diferenças, aquilo que é específico de seu povo. O estudo da história de sociedades que, de algum modo, compartilham com seu povo problemáticas ou elementos culturais comuns, também pode ser interessante. Neste caso, o aluno pode projetar as suas vivências cotidianas em diferentes tempos e espaços.
Os intercâmbios e os confrontos são freqüentes na história do mundo. Acon-tece entre as sociedades que realizam comércio e troca, que disputam territórios ou que vivem espacialmente próximas. Ocorre também entre culturas que nunca man-tiveram contato direto mas que, de algum modo, estabeleceram relações por espa-lharem ou pegarem, umas das outras, idéias, técnicas ou conhecimentos. É interes-sante, por exemplo, estudar os elementos da cultura material que possam facilitar o contato com essas histórias: instrumentos de trabalho, utensílios, meios de comuni-cação, alimentos, vestimentas, construções.
A história de uma sociedade geralmente mantém relações com a história de outras sociedades. No caso da história brasileira, por exemplo, não se pode negar que fazem parte dela muitos acontecimentos da história dos povos indígenas, da Europa, da África e da Ásia. Neste caso, o professor pode criar atividades didáti-cas de confrontação das interpretações e das memórias construídas por cada soci-edade. Em certos casos, deve considerar que pode existir mais de uma versão histórica construída pelo mesmo povo e que cada versão foi produzida em uma época e mantém compromissos com valores de grupos sociais. Para inúmeros acon-tecimentos da história brasileira, existem muitas versões históricas e muitas memó-rias preservadas pela população, que explicam um mesmo evento de formas dife-rentes.
1.2. Materiais e recursos didáticos
Se o professor escolher estudar um acontecimento histórico vivido por seu povo e pela população brasileira, pode utilizar depoimentos de pessoas, textos ou gravuras encontrados em livros, enciclopédias, materiais didáticos, revistas e jor-nais. Se o fato escolhido envolver outros povos indígenas, pode pesquisar alguns
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Existem panelas, panelões e tachos de fazer beiju, feitos de barro, de origem Waurá. Na alimentação usamos sal de aguapé feito pelos Aweti e Mehinaku. Na dança e festa temos Takwara que os povos do Alto Xingu aprenderam com Bakairi. Essa dança se expandiu de aldeia em aldeia até chegar no Kamaiurá. Hoje nessa festa tocamos as músicas de origem Yudjá. A famosa festa Jawari que é ce-lebrada pelos povos indíge-nas do Alto Xingu de ano em ano éde origem Trumai, Pro-fessor Kanawayuri, proPro-fessor Kamaiurá, Parque do Xingu, MT.
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registros produzidos por eles e/ou consultar estudos sobre aqueles povos. Tanto em um caso como no outro, os alunos podem pesquisar também as memórias pre-servadas por sua comunidade, comparar as versões das outras sociedades, distin-guir os seus diferentes pontos de vista e destacar o que é específico da memória de seu povo.Neste trabalho, o professor pode estimular também debates para a identifi-cação de valores presentes em cada versão, que possam estar transmitindo pre-conceitos, desigualdades, dominação, discriminação ou solidariedade, identidade cooperação, lutas e interesses comuns.
Algumas problemáticas históricas podem ser consideradas:
• em uma mesma época existem sociedades com modos de vida diferentes; • em uma época e sociedade podem existir modos de vida que predominam; • mesmo compartilhando alguns elementos culturais comuns, em uma mesma
sociedade e época podem conviver indivíduos e grupos com modos diver-sos de viver e de pensar;
• em todas as sociedades ocorrem mudanças ao longo do tempo;
• alguns modos de viver e valores podem sofrer mudanças mais rápidas em uma sociedade, enquanto outros podem permanecer por mais tempo; e • para se compreender um acontecimento de uma época e sociedade é
im-portante dimensionar seu contexto, suas circunstâncias históricas, isto é, compreendê-lo nas suas relações com outros acontecimentos - políticos, econômicos, sociais e culturais - que ocorreram antes, depois ou simulta-neamente.
E recomendado trabalhar com diferentes fontes de informação como relatos orais, objetos, músicas, construções, gravuras, fotografias, filmes, pois possibilitam ao aluno distinguir diferentes linguagens, técnicas, estéticas, simbologias e mensa-gens, e compreendê-las como expressões e obras sociais, culturais e históricas.