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CAPÍTULO III - METODOLOGIA DA PESQUISA

3.2 Procedimento metodológico

3.2.3. Lócus da pesquisa

Para melhor compreender o contexto em que esta pesquisa se desenvolveu, descrevo a seguir a Escola Agrotécnica Federal de Cáceres, uma escola de ensino profissionalizante, apresentando as diretrizes que a norteavam no período em que se situa este estudo, bem como seu objetivo, sua missão, sua filosofia e sua estrutura física, administrativa e pedagógica, do período da sua criação até o momento da pesquisa.

Em conversas informais com alguns precursores da Escola Agrotécnica Federal de Cáceres, relataram-nos que a escolha do local para a implantação da escola foi uma decisão polêmica cercada de interesses políticos, pois as terras escolhidas, a priori, eram fracas, sem água, local de difícil acesso, como bem descreve Lima (2000, p. 9), um dos primeiros funcionários da instituição, em sua pesquisa sobre a construção da referida unidade escolar:

A construção da Escola Agrotécnica Federal de Cáceres foi iniciada em julho de 1979. O acesso era muito difícil até a chegada ao local da construção.

Naquela época, a estrada não tinha tráfego adequado, e por isso era complicado levar o material até aquele local. Então surgiu outro problema, pois no local não havia água e tudo ficava complicado. Por isso o chefe da construção, teve que contratar um homem, que tinha um caminhão tanque, para levar água.

Na década de 60, estimulados pelo disposto no artigo 100 da Lei Federal n.º 024/61, uma série de experimentos educacionais orientados para a profissionalização de jovens foi posta em prática no território nacional, tais como o GOT - Ginásios Orientados para o Trabalho e o PREMEM - Programa de Expansão e Melhoria do Ensino Médio.

Diante da expansão das fronteiras agrícolas do Estado de Mato Grosso na década de 80, o governo federal criou a Escola Agrotécnica Federal de Cáceres – EAFC, em 17 de agosto de 1980, com a participação do MEC/PREMEM, do Governo do Estado de Mato Grosso e Prefeitura Municipal de Cáceres-MT44, cujos recursos para sua edificação foram alavancados com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

A Escola Agrotécnica Federal de Cáceres, quando de sua criação, estava subordinada ao MEC e à COAGRI – Coordenação Nacional do Ensino Agropecuário, órgão este que, por muitos anos, dirigiu o ensino agrícola no Brasil. A EAFC foi autorizada a funcionar em 17 de agosto de 1980, inicialmente oferecendo o curso Técnico em Agropecuária. A escola tinha como objetivo proporcionar a formação de técnicos nessa área, em nível do 2º grau, dentro da filosofia “Aprender a fazer, fazendo”, baseada no sistema “Escola-Fazenda”,45 mediante o currículo integrado46e na vigência da LDB nº. 5.692/71.

A escola, em seu princípio, funcionava em Regime de Internato, onde se ofereciam aos alunos oriundos de outras cidades, além da hospedagem, todas as refeições na instituição;

e em Regime de Semi-Internato, onde parte dos alunos permanecia o dia todo na escola, nela almoçava e à tarde retornava as suas casas; e ainda em Regime de Externato, destinado a alunos que freqüentavam os dois períodos escolares, porém retornavam as suas casas, mesmo para o almoço.

No período pesquisado, 2002 a 2004, por questões orçamentárias, permaneceram apenas os regimes de Internato e Externato, conseqüência esta proveniente da reforma educacional da época, mas, muito mais, dos inúmeros e constantes cortes orçamentários que sofreram todas as unidades escolares pertencentes à esfera federal.

3.2.3.1 Localização, área e infra-estrutura

A Escola Agrotécnica Federal de Cáceres está localizada no município de Cáceres, cidade situada no extremo norte do pantanal mato-grossense e se encontra a nove quilômetros do centro da cidade, percurso este efetuado pelos alunos, alunas, servidores e comunidade externa em ônibus contratado, vãs, em bicicletas e veículos particulares e, por vezes, a pé,

44 Diário Oficial da União, seção I, de 21 de março de 1980.

45 Sistema Escola-Fazenda: funciona como fazenda-modelo. 2. As Escolas-fazenda conjugam o ensino com a produção. Assim, as tarefas, como a plantação e a comercialização, são feitas pelos alunos, que, desse modo, são preparados para administrar uma propriedade agrícola.

46 O Ensino Médio e Técnico se fundiram de acordo com LDB nº. 5.692, de 11 de agosto de 1971. Ver modelo de Grade Curricular do Sistema Integrado, Anexo G.

pela conveniência e, mormente pela situação econômica de alguns alunos. Veja-se mapa abaixo.

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Figura 5 - Mapa do Estado de Mato Grosso. Localização da cidade de Cáceres47.

Conforme mapa acima, a EAFC, além de se situar em um lugar estratégico no Estado de Mato Grosso, abrindo espaços para estudantes de uma macroregião de seu entorno, possibilita oportunidades para estudantes de Estados vizinhos e da Bolívia48.

47 Fonte: <http:// www.guiageografico.com/>, Acesso em 04 de abr. de 2007.

A escola ocupa uma área de 3.200.000 m², sendo 25% do total da área destinados à reserva florestal. O restante é ocupado por obras e projetos agropecuários produtivos e educacionais, como se pode observar nesta foto aérea, abaixo.

Figura 6 - Vista aérea parcial da EAFC

Atualmente, a área construída da escola, que é de 30.000 m²49, encontra-se em expansão.

No pavilhão pedagógico central, além das salas de aulas em número de 07, existem os laboratórios de física, química, biologia e dois de informática. Some-se a isso a biblioteca (6.900 obras) com sala individual e em grupo para estudos, e um auditório com capacidade para 100 pessoas.

As salas de aulas são equipadas com ar-condicionado, ventiladores, quadro de giz e quadro branco. As práticas pedagógicas dos docentes podem ser incrementadas com uso de aparelhos como retroprojetores, data show, televisores, aparelhos de som e vídeos.

48 Pela dificuldade de continuidade de estudos dos irmãos bolivianos residentes na cidade fronteiriça mais próxima – San Mathias, a EAFC tem participado de convênios bilaterais, recebendo alunos para o ensino profissional e enviando alunos concluintes para prosseguimento de estudos em universidades bolivianas.

49 Dados do Inventário de Bens Móveis, Imóveis e Semoventes existente em 31/12/2004, da Seção de Material de Patrimônio da EAF/C.

De maneira geral, toda a infra-estrutura da EAFC se encontra em bom estado de conservação e, periodicamente, quando necessário, algumas reformas são efetivadas.

3.2.3.2 Organização administrativa e pedagógica

A Escola Agrotécnica Federal de Cáceres, inicialmente, esteve subordinada à Coordenação Nacional do Ensino Agropecuário – COAGRI. Posteriormente, esteve sob a égide da Secretaria de Ensino do 2º. Grau – SESG, Secretaria Nacional de Educação Tecnológica – SENETE, Secretaria de Educação Média e Tecnológica – SEMTEC e por último, a Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica - SETEC.

A incorporação da Escola Agrotécnica Federal de Cáceres pela União se deu por força do Decreto nº. 93.971, de 23 de janeiro de 1987.50

O nome inicial das escolas agrotécnicas espalhadas pelo Brasil limitava-se apenas à Escola Agrotécnica. Com o Decreto nº. 83.935, de 4 de abril de 197951, todas as escolas agrotécnicas do País passaram a receber a designação de Escola Agrotécnica Federal e, assim, essa instituição, a partir desse decreto, denominou-se Escola Agrotécnica Federal de Cáceres.

No ano de 1994, pela Lei nº. 8.731, de 16 de novembro de 199352, as escolas agrotécnicas do País se transformaram em autarquias53, o que significou grande avanço para tais instituições escolares, pois, com autonomia administrativa e pedagógica, elas puderam agir com maior liberdade, adequando todos os serviços à realidade local e regional.

Quando de sua inauguração e funcionamento em 1980, a escola contava com 9 professores e 23 servidores administrativos. Com o passar dos anos, novos cursos técnicos foram iniciados buscando atender às especificidades regionais do mercado de trabalho. Em 2002, a instituição possuía 104 servidores, dos quais 74 eram técnico-administrativos e 30 docentes (15 para o Ensino Técnico e 15 para o Médio). Oferecia cursos de formação profissional nas seguintes áreas: Agropecuária – com habilitações técnicas em agropecuária, agricultura, zootecnia e agroindústria (pós-médio); Meio ambiente – com habilitação em floresta; Informática – com habilitação em processamento de dados (pós-médio).

A seguir, duas fotos do setor de fruticultura, que bem retratam a filosofia da época

“Aprender a fazer e fazer para aprender”.

50 Diário Oficial da União, seção II – nº. 104, 1º. de junho de 1979.

51 Diário Oficial da União, seção I – Parte I, de setembro de 1979.

52 Diário Oficial da União, Ano CXXXI – nº. 218, de 17 de novembro de 1993.

53 Autarquia: trouxe para as escolas federais, maior autonomia administrativa e financeira, poder de decisão e condição de auto-suficiência.

Figura 7 - Foto do setor de fruticultura (1984) Acervo da EAFC

Figura 8 - Foto do setor de fruticultura (1984) Acervo da EAFC

A estrutura organizacional administrativa54 segue o Regimento Interno. Quanto à gestão da escola, ela é dirigida por um Diretor-Geral, nomeado pelo Ministro de Estado da Educação, eleito para um mandato de quatro anos, por consulta aos três segmentos da instituição: alunos, servidores administrativos e docentes.

Sem dúvida, uma capacidade organizacional invejável, que retrata a grandiosidade dessas escolas de ensino profissional do Brasil, que ao todo perfazem um total de 45 unidades atualmente, e possuem totais condições para se tornarem referência da educação nacional, como a maioria delas já é.

54 Anexo H.

Quando de sua fundação (1980) até 1998, a sistemática pedagógica curricular em funcionamento na EAFC se baseava no sistema integrado, em que o currículo era composto de disciplinas do núcleo comum e da parte diversificada55, conforme previa a Lei 5.692/71.

A terminologia Currículo Integrado, não obstante sua exatidão de sentido era compreendida de forma equivocada pela maioria dos professores, pois as disciplinas do núcleo comum (médio) e da parte diversificada (técnica), ainda que oferecida na mesma escola e ao mesmo tempo, raramente se permitiam uma integração e uma interdisciplinarização de fato, se bem que sempre era pensada, mas a integração prevista não ocorria.

Para compreender o ensino da época, é importante recorrer ao artigo 4º. da Lei 5.692, sobre o Ensino do 1º e 2º graus: Os currículos do 1º. e 2º. Graus terão um núcleo comum, obrigatório em âmbito nacional, e uma parte diversificada para atender, conforme as necessidades e possibilidades concretas, às peculiaridades locais, aos planos dos estabelecimentos e às diferenças individuais dos alunos56.

Romanelli (1978) observa em um de seus artigos: para dar cumprimento a seu dispositivo, o Conselho Federal de Educação foi incumbido de fixar as matérias do núcleo comum para cada nível, limitando-se, no entanto, à definição dos seus objetivos e à sua amplitude, e de fixar, também, o mínimo a ser exigido em cada habilitação profissional para o 2º grau.

Como observado em outra instância, esta sistemática pedagógica ficou em evidência até 1998, quando então, diante da LDB nº. 9.394/96 e legislação complementar empreendeu-se uma reforma ampla da educação profissional que resultou em uma nova estrutura organizacional pedagógica, conforme descritas logo abaixo.

Em 1998, diante dos novos marcos legais da reforma do ensino profissionalizante, o regimento unificado das escolas profissionais de nível federal se apresentava, em suas finalidades, da seguinte maneira:

I - oferecer educação tecnológica com vistas à formação, à qualificação, à requalificação e à reprofissionalização de jovens, adultos e trabalhadores em geral, nos moldes do Decreto 2.208, de 17 de abril de 1997, para os diversos setores da economia, especialmente de agropecuária e agroindustrial;

II - realizar pesquisas tecnológicas e desenvolver novos processos, produtos e serviços, em articulação com os setores produtivos, especialmente os da agropecuária e agroindústria, e com a sociedade em geral;

III – desenvolver estratégias de educação continuada.

55 Anexo G.

56 Brasil. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº. 5.692 de 11 de agosto de 1971.

Percebe-se aí que a lei se volta totalmente para o ensino profissional, buscando extinguir definitivamente o Ensino Médio das escolas de ensino profissionalizante, um desejo claro do governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, à época.

Os objetivos da escola, de acordo com o mesmo regimento previam:

I – Desenvolver educação profissionalizante nos diversos níveis, básico, técnico e tecnológico, capacitando profissionais para o mundo do trabalho, investindo no fortalecimento da cidadania;

II – colaborar com o desenvolvimento agropecuário, agroindustrial e de serviços da região, através de ações articuladas com o setor produtivo e a sociedade em geral;

III – incentivar e operacionalizar os diversos mecanismos de pesquisa e extensão;

IV – oportunizar outras formas de ensino na forma da legislação vigente;

VI – zelar pela legislação e normas vigentes e pelo cumprimento da proposta pedagógica adotada pela Escola;

VII – assegurar uma gestão administrativa e uma prática pedagógica de qualidade;

VIII – garantir uma avaliação institucional dinâmica e constante, com a participação dos diversos segmentos envolvidos.

Mais uma vez, fica evidenciado que as políticas de desmanche do Ensino Médio nas escolas profissionalizantes eram a meta do governo da época, além do fato de que esta reforma educacional, incentivada por organismos internacionais, foi imposta às instituições.

Nessa esteira, descreve Frigotto & Ciavatta (2004, p. 1): todas as decisões governamentais foram sendo tomadas pelo alto, pelo Poder Executivo, mediante medidas provisórias e decretos, ou por leis conquistadas no Parlamento por meio de troca de favores.

O período em que o ensino profissional sofreu a reforma perdurou até 2004. Com o governo Luis Inácio Lula da Silva o sistema de Currículo Integrado foi retomado pelo Decreto nº 5.154/04, com pouquíssimas alterações, como já mencionado anteriormente.

A seguir, uma foto (fig. 9) do ano de 2007 de alunos do Curso de Técnico Agropecuária Integrado ao Ensino Médio, participando de aulas das disciplinas do núcleo comum. Essa mesma turma no contraturno se dirige aos setores para as aulas da parte diversificada.

Figura 9 - Foto sala de aula da EAFC (2007). Acervo particular.

Com a figura acima, percebem-se as boas condições que a escola oferece a seus alunos, com salas de aulas amplas, arejadas, confortáveis, com ar-condicionado, vidros com película para diminuição dos raios solares.

Na foto seguinte, os alunos se encontram em plena aula prática no Setor de Horticultura, demonstração clara de que teoria e prática devem caminhar juntas para o aprendizado suceder com eficácia.

Figura 10 - Foto do setor de horticultura. Acervo da Escola.57

57 Mais fotos, ver Anexos F e N.

Na foto da página anterior, vêem-se os alunos em aprendizagem, irrigando a horta da escola. Mais tarde, os produtos aí colhidos serão servidos no refeitório para os próprios alunos, e o excedente é comercializado.

CAPÍTULO IV

LUZES E SOMBRAS DE UMA ESCOLA DE ENSINO PROFISSIONALIZANTE

Eu me transferi da Escola Agrotécnica Federal de Cáceres por achar que sua forma de ensino não iria mudar, porque já existiam boatos de que a escola mostrava um ensino mais rigoroso e tradicional. Sendo assim, não querendo correr o risco de perder mais um ano, por conta disso decidi me transferir.

(Aluno transferido da 1ª série da EAFC, 2004)

A coleta de dados teve como objetivo identificar as causas que levaram alunos da Escola Agrotécnica Federal de Cáceres a se transferirem para outras escolas da cidade de Cáceres e região, bem assim, perceber como os sujeitos pesquisados vêem a escola, seu processo educacional e suas relações interacionais.

Para facilitar a organização e análise dos dados coletados, esse capítulo foi estruturado em dois grandes eixos.

O primeiro - Organização Pedagógica da Escola Agrotécnica Federal de Cáceres por diferentes olhares - refere-se a uma análise de como os vários sujeitos percebem e vêem a organização do trabalho pedagógico da escola. Na organização do material coletado, utilizei o critério de reincidência de palavras e idéias e, conseqüentemente, essas palavras e idéias foram categorizadas e subcategorizadas para melhor compreensão. Sete categorias e cinco subcategorias foram agrupadas: Planejamento, Processo Ensino-aprendizagem, com as subcategorias: Tempo do Aluno, Tempo do Professor; Avaliação da Aprendizagem e suas respectivas subcategorias: Medo da Avaliação, Atribuição de Notas; Recuperação da

Aprendizagem; Reprovação; Postura dos Docentes no Processo Educativo; Qualidade de Ensino.

O segundo - Relação entre os Principais Atores Escolares da Escola Agrotécnica Federal de Cáceres - também está estruturado em categorias e subcategorias. Categorias:

Relação Professor-aluno; Relação Professor-Equipe Pedagógica; Relação Aluno-Aluno.

Subcategorias: Relação Positiva e Relação Conflituosa.

4.1 Organização pedagógica da escola Agrotécnica Federal de Cáceres por diferentes