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Lançamento definitivo: elementos constitutivos

No documento MESTRADO EM DIREITO SÃO PAULO 2011 (páginas 135-139)

CAPÍTULO IV – Revisão do lançamento tributário

4.4. A partir de que momento é possível a revisão do lançamento?

4.4.2. Lançamento definitivo: elementos constitutivos

Lançamento definitivo, no sentido de inalterável, é figura inexistente no nosso ordenamento, pois, como já destacado no item precedente, quase tudo no direito pode ser modificado ou suprimido.

Para fins desse trabalho, o lançamento será definitivo quando estiver pronto e acabado, ou seja, quando preencher os requisitos mínimos para qualificá-lo como lançamento e o sujeito passivo for notificado da sua existência.

O lançamento é, antes de tudo, uma norma jurídica, mas se diferencia das demais regras justamente por possuir certas características específicas. Portanto, para determinar se se trata de um lançamento definitivo,

temos que verificar se: (i) estamos diante de uma norma jurídica; e (iii) se essa norma jurídica é da espécie lançamento. Ou seja, deve-se determinar se o elemento em questão está incluído ou não nos conjuntos denotados pelas palavras “norma jurídica” e “lançamento”.210

Como é possível perceber, tais conjuntos não são independentes. Muito pelo contrário. Há, aqui, uma relação de inclusão, pois os elementos que compõem a classe “lançamento” estão, todos eles, incluídos na classe “direito”, sendo a primeira uma subclasse da segunda:

De fato, todo lançamento é uma norma jurídica, mas nem toda norma jurídica é um lançamento. A classe representada pela palavra “lançamento” representa apenas uma pequena parte do direito positivo. Podemos, pois, falar em relação gênero/espécie. O direito positivo (mundo jurídico) é gênero do qual o lançamento é espécie.

Como já ressaltado no capítulo I, uma norma é jurídica quando pode ser aplicada coercitivamente pelo Poder Judiciário em caso de descumprimento de suas disposições e, para tanto, é necessário o preenchimento genérico dos seguintes requisitos: (i) ter sido produzida por um

210 Ao tratar desse tema, Cezar Mortari observa que são duas são as formas de representar um

conjunto: mediante a enumeração de seus elementos ou fazendo a descrição das propriedades comuns aos seus elementos. Não sendo possível a enumeração, “a solução é fazer uma descrição do conjunto, o que se consegue por meio de uma propriedade comum aos elementos do conjunto, e só a eles (...)”. (Introdução à lógica. Campinas: UNESP, 2007, p. 43)

Direito positivo

sujeito competente dentro do direito; (ii) mediante um procedimento previsto no ordenamento; e (iii) a fim de dirigir as ações dos indivíduos. Além disso, é indispensável a regular comunicação do sujeito passivo do tributo.211

Mas, para que a norma jurídica possa ser qualificada como lançamento, é necessário, ainda, que observe os “pressupostos de existência” referidos no capítulo III, quais sejam: (i) objeto/conteúdo: norma individual e concreta que, no seu antecedente, descreve a ocorrência de um fato jurídico tributário e, no seu consequente, prevê uma relação jurídica tributária, ou seja, que prevê o dever de pagar um tributo; e (ii) pertinência à função administrativa: ter sido introduzido no ordenamento por um sujeito no exercício da função administrativa.

Se observados esses requisitos, estaremos diante de norma jurídica (gênero), da espécie lançamento, passível de revisão. Do contrário, podemos estar diante de figura que sequer ingressou no ordenamento ou, se o fez, não pode ser qualificada como lançamento, não estando sujeita, portanto, à disciplina ora estudada.212

Ressaltamos, contudo, que este posicionamento não é unânime na doutrina. Paulo de Barros Carvalho, por exemplo, afirma que, para que uma norma se enquadre na classe designada pela palavra lançamento, é necessário que preencha os seguintes requisitos: (i) sujeito competente; (ii) objeto lícito; e (iii) forma prescrita ou não defesa em lei.

211 “Um ato administrativo tem-se por pronto e acabado quando, reunindo os elementos que a

ordem jurídica prescrever como indispensáveis à sua compostura, vier a ser oficialmente comunicado ao destinatário.” (Paulo de Barros Carvalho, Curso de direito tributário, p. 428)

212 “[...] Se o lançamento é ato administrativo, instrumento introdutório de norma individual e

concreta no ordenamento positivo, desde que atinja os requisitos jurídicos para seu acabamento, dado a conhecer ao destinatário seu inteiro teor, ingressa no sistema, passando a integrá-lo. Outra coisa, porém, é a possibilidade de vir a ser modificado, consoante as técnicas previstas para esse fim. A susceptibilidade a impugnações é predicado de todos os atos administrativos.” (Paulo de Barros Carvalho, Curso de direito tributário, p. 427).

No ato jurídico administrativo encontramos os requisitos de essência do gênero atos jurídicos, isto é, agente capaz, objeto lícito, possível, determinado ou determinável, e forma prescrita ou não defesa em lei (CC, art. 104), além de elementos que lhe dão especificidade, quais sejam os motivos e a finalidade.213

Como se percebe, esse autor parte da premissa de que algo só ingressa no sistema de direito positivo se não contiver vícios no sujeito, no procedimento ou na matéria.

Nosso sistema de referência, contudo, é diverso. Partimos da premissa de que é possível o ingresso, no ordenamento, de normas que contém vícios. A sua juridicidade decorrerá justamente da possibilidade de ser aplicada coercitivamente, até que um órgão do sistema reconheça sua invalidade.

É importante ressaltar, por fim, que, uma vez preenchido os requisitos de existência, o lançamento ingressa no ordenamento jurídico, o que não significa dizer que passa a gozar dos atributos que acompanham essa espécie de atos.

Quatro são, em regra, os atributos indicados pelos administrativistas para qualificar os atos administrativos: (i) presunção de legitimidade; (ii) exigibilidade; (iii) imperatividade; e (iv) executoriedade.

No entanto, apenas dois deles acompanham o lançamento. Com efeito, não há dúvida que o lançamento, assim como os demais atos administrativos, é tido como regular, válido, até que se demonstre o contrário, ou seja, que possui vícios (presunção de legitimidade). De igual forma, a exigibilidade lhe é inerente, pois, uma vez não cumprido pelo sujeito passivo o dever por ele constituído, está o Poder Público autorizado a constituir as

penalidades decorrentes desse descumprimento e, se for o caso, se socorrer do Poder Judiciário para exigir o pagamento dos valores em questão.

O mesmo não se pode falar dos demais atributos. Como observa Paulo de Barros Carvalho, não pode a Administração gravar a conduta do administrado salvo nas situações expressamente previstas na lei, não havendo, pois, que se falar em imperatividade. 214 A executoriedade, por outro lado, está ausente pelo simples fato de a Fazenda Pública não possuir recursos próprios para promover a execução patrimonial do sujeito passivo. Trata-se de competência privativa do Poder Judiciário.215

No documento MESTRADO EM DIREITO SÃO PAULO 2011 (páginas 135-139)