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XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX XXXX na sede do Pôsto Indígena, na época da colheita de

D. Encontro-debate de José, bispo de Chapecó com os intrusos do Posto Indígena

2.6 Legalidade do arrendamento

Eles pagavam o Incra. Era o documento que eles tinham, e eles achavam que tinha valor,

464 SANTOS, op.cit., 1970, p. 64. 465 FERNANDES, V. op.cit., 1975.

que dava o direito pela terra.466 Do ponto de vista da segurança jurídica, os contratos de arrendamento das terras indígenas eram ilegais, o SPI não podia dispor das TI para qualquer fim, elas eram de usufruto dos indígenas.

A Constituição Federal de 1967 previa o usufruto exclusivo dos indígenas sobre as terras que habitavam:

Art. 186. É assegurada aos silvícolas a posse permanente das terras que habitam, e reconhecido o seu direito ao usufruto exclusivo dos recursos naturais e de todas as utilidades nelas existentes. (grifo nosso).467

Destaca Pontes de Miranda,468 que usufruto é pleno, compreendendo o uso e a fruição, quer se trate de minerais, de vegetais ou de animais.

A proibição também ficou evidenciada na Emenda Constitucional de 1969:

Art. 198. As terras habitadas pelos silvícolas são inalienáveis nos termos que a lei federal determinar, cabendo a sua posse permanente e ficando reconhecido o seu direito ao usufruto exclusivo das riquezas naturais e de todas as utilidades nelas existentes. (grifo nosso).469

Em 1973, com a aprovação do Estatuto do Índio, Lei 6.001/73, a proibição ao arrendamento é novamente explicitada:

466

BIANCHI, Entrevista..., op.cit., dez. 2008.

467 BRASIL. Constituição (1967). Constituição da República Federativa do Brasil.

Brasília/DF: Senado Federal, 1969.

468 MIRANDA apud CUNHA, Manuela Carneiro da. Os direitos do índio. São Paulo:

Brasiliense, 1987. p. 99.

469 BRASIL. Constituição (1967). Constituição da República Federativa do Brasil.

Art. 18: As terras indígenas não poderão ser objeto de arrendamento ou qualquer ato ou negócio jurídico que restrinja o pleno exercício da posse direta pela comunidade indígena ou pelos silvícolas.470

Não dispomos de dados totais, mas é possível deduzir, pelos depoimentos, que a maioria dos arrendatários ingressou na TI em período anterior à Constitucional Federal de 1967. Porém, mesmo que tenha ocorrido antes dessa data, o arrendamento não era legítimo, porque se tratava de terra indígena.471

A criação do Posto Indígena não apenas legitimou e permitiu que aumentasse a presença de posseiros e arrendatários no interior da TI como fez uso do solo e das matas para aumentar a receita do órgão indigenista. Segundo D’Angelis a criação do posto é datada de 1940 e a sede estava localizada na aldeia Jacu, atual aldeia sede da TI.472Silvio Coelho dos Santos defende que o posto fora criado em 1941.473 O relatório da 7ª IR elaborado em abril de 1964 informa que “o posto foi fundado em 1938, quando o diretor do SPI era o Cel. Vasconcellis.”474 O jornal A Voz do Chapecó, em 20 de abril de 1941, traz relevante informação sobre o ano da criação, em matéria assinada por Selistre de Campos, informando que, apesar da nomeação do encarregado do posto em 1940, o próprio posto ainda não havia sido instalado:

470

BRASIL. Estatuto (1973). Estatuto do Índio. Brasília/DF: Fundação Nacional do Índio. Brasília/DF: 1973.

471 As constituições de 1934 (Art. 129 - Será respeitada a posse de terras de silvícolas que nelas

se achem. permanentemente localizados, sendo-lhes, no entanto, vedado aliená-las.), de 1937

(Art. 154 - Será respeitada aos silvícolas a posse das terras em que se achem localizados em

caráter permanente, sendo-lhes, no entanto, vedado aliená-las.) e de 1946 (Art. 216 – Será respeitada aos silvícolas a posse das terras onde se acham permanentemente localizados, com a condição de não a transferirem.) enfatizaram o direito indígena às terras e à alienabilidade dessas. Entende-se que em sendo posse indígena não poderia haver sobreposição de posses, uma vez que ela implica ocupação. CUNHA. Os Direitos do Índio: Ensaios e documentos. São Paulo: Brasiliense, 1987. passim.

472 D’ANGELIS. História do Toldo Imbú. O Cacique Condá, os índios do Xapecó (SC) e as

terras do Imbú. Florianópolis: Projeto Barragens – UFSC/CNPQ. Acervo Nepi/UFSC. 1993. p. 40.

473 SANTOS, op.cit., 1970. p. 61.

474 SPI. Relatório. Relatório da 7ª IR do SPI sobre os postos do Sul. Rio de Janeiro, 1964.

Desde o mês de Novembro do ano próximo passado, estão nomeados os Encarregado e trabalhadores do Posto de Proteção aos Índios de Chapecó. Mas a organização, desse dito Posto, vai marchando muito vagarosamente (...) Alguma cousa já temos, mais uma pouca de boa vontade, e o Posto entrará em seu regular funcionamento.475 Interessa-nos saber que, com a instalação do posto e a presença permanente do chefe, alteraram-se as relações internas, seja no ingresso de arrendatários, seja na exploração de madeira, na venda de terras indígenas (caso do Canhadão, Pinhalzinho e Toldo Imbu), no controle e punição exercidos sobre os indígenas. O posto indígena passou a ser sinônimo de TI, e em vez de ser uma estrutura de assistência e proteção, virou o referencial espacial e simbólico da TI e nome de aldeia. A vida indígena passou a ser gerida, vigiada, controlada, regulada e punida pelo Posto Indígena. O Estado, em sua conduta repressora, a tutela, fazendo- se presente no centro da terra indígena. Críticas à atuação do Posto Indígena foram externadas desde os primeiros anos de presença da Pastoral Indigenista: “A presença do órgão oficial, desde a criação do posto em 1940, tem sido bastante dúbia e vacilante, quando não prejudicial à comunidade indígena.”476

Se tomarmos o ano de 1941 como referencial para a instalação do posto indígena, cerca de dois anos depois, em 1943, inicia-se o processo de arrendamento das terras.477 Pelas informações do presidente da Funai, Ismarth de Araujo Oliveira, à Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI do Índio no Congresso Nacional, em 1977, os primeiros intrusos, provavelmente não arrendatários, se instalaram na TI Xapecó nos anos 1930. Segundo ele, havia presença de intrusos há mais de 40 anos, ou em meados da década de 1930, antes mesmo da instalação do Posto Indígena pelo SPI.478

O relatório anual, de 1975, produzido pela Pastoral Indigenista de Xanxerê, observava que:

475

CAMPOS, apud MANFROI, op.cit., p. 73.

476 PASTORAL INDIGENISTA, op.cit., 1975.

477 Segundo Coelho dos Santos, assim que o Posto Indígena fora criado em 1941, foi nomeado

como primeiro encarregado o Sr. Leodônio de Quadros, que exerceu a chefia por oito meses apenas, tendo sido responsável por criar o novo espaço onde seria instalado o posto. Em março de 1942 assumiu a chefia o Sr. Francisco Fortes. SANTOS, op.cit., 1970, p. 61.

Tudo começou a (sic) uns 20 anos atrás, quando famílias, vindas do Rio Grande, foram comprando sítios dos índios com a autorização do chefe de posto, ou, simplesmente se estabelecendo dentro da área. Estas famílias que ali se estabeleciam, vendo que as terras eram boas, iam convidar seus parentes e amigos que também vinham se encostar aí, aumentando assim rapidamente o número de famílias. Depois os filhos iam casando e ficando por aí.479

Armando Bianchi recorda que quando adquiriu uma gleba, vizinha à Terra Indígena, sua mudança atravessou toda a extensão da TI, desde a localidade de Bom Jesus, hoje sede de município, até Sambura. “Recorda que existia algum brasileiro que morava ali, mas sempre de origem branca [porém foi mais tarde] quando o chefe liberou que podia entrar, liberou pra entrar e fazer sua casa e plantar e pagar uma renda.”480

Silvio Coelho dos Santos afirma que a ocupação da terra indígena por camponeses ocorreu a partir de 1948. “Desde 1948 começaram a se localizar na reserva vários colonos, especialmente italianos. Esses costumavam solicitar arrendamento de terras ao encarregado do Pôsto que, desejoso de ampliar o que se considerava “renda indígena”, em regra atendia aos apêlos dos agricultores.”481

Egon Heck observa que a penetração de camponeses ocorreu antes da década de 1950.

Foi mais a partir da década de 50, quando se começou a ocupar mais. O SPI começou o processo de arrendamento das terras. As ocupações grandes principalmente, os maiores queriam ter certa garantia, queriam ampliar muitas vezes a sua ocupação, a exploração econômica dentro da terra indígena, eles queriam buscar certo

479 PASTORAL INDIGENISTA, op.cit., 1975. 480 BIANCHI, Entrevista..., op.cit., dez 2008. 481 SANTOS, op.cit., 1970, p. 63-64.

respaldo legal, e esse respaldo legal era o arrendamento.482

A data coincide com a memória de Floriano Belino, que em meados da década de 1940 se opôs à penetração dos arrendatários porque teve de se deslocar de moradia para deixar lugar aos intrusos. Sua revolta era com a atitude do chefe de posto, que obrigou sua família a se transferir para o ouro lado da estrada. Observa que o chefe de posto recolheu pessoal de fora, e tudo foi invadido, e que esse pessoal era “tudo italianos.”483

A forma como se processava o arrendamento era simples. Iam até o posto faziam um documento de arrendamento com o chefe do posto e pagavam uma pequena taxa de arrendamento. Era a forma como o SPI vinha alimentando, vinha entrando também um bom recurso pra poder ir tocando algumas atividades de assistência básica aos índios na questão da saúde, de escola essas coisas assim.484

Os arrendatários sentiam-se amparados legalmente pelo pagamento do imposto ao Incra e a renda ao SPI. Recorda Bosseti que sua família “pagava o Incra da terra arrendada. Tá em nome de meu pai, Luis Bosseti.”485

Outros, a exemplo de Thomaz Novello, não pagavam.“Então houve uma época que fizeram um cadastramento do pessoal. O Incra fez o cadastramento, o pessoal chegou a pagar o Incra, tem gente que acho que ainda hoje deve ter os recibos, eu não paguei. Dentro da área eu não paguei.”486

Porém, a renda era paga, pelo fato de legitimar a presença dentro da Terra Indígena. Novello observa que arrendatários não faziam contrato, havendo liberdade de comercialização dos sítios. “Aí os agricultores que estavam lá dentro pagavam renda pro pessoal, aí depois começou a abrir. Em 1961,quando nós entramos, aquilo lá era livre, aberto, o pessoal entrava, não fazia

482 HECK, Entrevista..., op.cit., ago. 2009. 483 BELINO, Entrevista..., op.cit., jun. 2006. 484 Ibid., ago. 2009.

485 BOSSETI, Entrevista..., op.cit., dez. 2008. 486 NOVELLO, Entrevista..., op.cit., dez. 2008.

ficha, não fazia contrato, nada, era livre. E o chefe deixava.”487 Bosseti recorda que sua família pagava renda ao posto:

Nós pagávamos a renda (...). Dentro da área indígena com os brancos, era meio dividido, uns assinavam contrato com o posto, na época vinha umas leis pra assinar contrato, e uns não assinavam, e nós assinemos esse contrato, então tenho esse contrato aqui em casa. Eu tenho recibo que nós pagávamos a renda. Toda safra pagava a renda pro posto. Não me lembro se tinha cacique, mas chefe do posto sempre teve.488

O contrato de Luis Bosseti (figura 16) previa o pagamento de Cr$ 1.158, 00 por um período de dois anos, sendo Cr$ 529,00 em 1972 e Cr$ 629,00 em 1973, estipulado não por produção, mas por hectare de terra arrendada, sendo Cr$ 36,41 p/ha no primeiro ano e Cr$ 43,32 p/ha no segundo ano. As parcelas eram semestrais, com data para os meses de junho e dezembro.

Bosseti não lembra se havia cacique nesse período. “Não, era um cara de fora, funcionário do governo. E cacique eu me lembro depois que nós saímos da área começou a falar em cacique. Pode ser que existia, mas ele tava mais abaixo do chefe.”489

Aparentemente irrelevante, essa informação é importante porque nos auxilia a perceber o lugar dos indígenas por meio de suas lideranças, na gestão de suas terras. Pelo exposto, o chefe de posto comandava toda a intermediação com os arrendatários e administrava os recursos da renda indígena e os indígenas pouco podiam diante da situação, tanto que os arrendatários sequer sabiam da existência da figura do cacique. “Era entregue o produto aí no posto, depois o chefe é que vendia o produto, o que fazia com o dinheiro, não sei.”490

O montante arrecadado pelo SPI e posteriormente pela Funai com a renda depositada pelos arrendatários era algo significante. No período anterior à assinatura de contratos entre o SPI e os arrendatários, os poucos camponeses que pagavam depositavam em produto. Posteriormente com os contratos, conforme figuras 14 e 16, os

487 NOVELLO, Entrevista..., op.cit., dez. 2008. 488 BOSSETI, Entrevista..., op.cit., dez. 2008. 489 Ibid.