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imagem dos bandeirantes (paulistas) como símbolo de bravura, ousadia, progresso, integridade,

11 Santa Isabel, rio Tibagi e rio Paranapanema

1857 – não executado Fonte: Relatórios dos Presidentes da Província; MOTA, op.cit., 2000, p.42.

O aldeamento de São Pedro de Alcântara era ocupado por “600 índios – 270 Cayuás [Kaiowa] e 330 Coroados”, população relativa ao ano de 1865 – contava ainda com “60 pessoal e 43 africanos”. Os Kaiowa foram trazidos das margens direita do rio Paraná, atual Mato

199

“Palmas é desconhecido apezar das diligências feitas para se conhecer ( ...) sobre Palmas, visto que não tendo elle a mesma organização dos outros, vivendo os índios de mistura com a população civilizada e sobre si, não pôde o diretor prestar informações exactas sobre esse aldeamento.” LISBOA, op.cit. p. 67. No relatório de 1855 o presidente da província, Zacarias de Góes, mencionava que no aldeamento de Palmas não tinha missionários. No entanto, MOTA (op.cit., 2000, p. 157.) informa que a criação desde aldeamento ocorreu em 30 de setembro de 1869.

200 “Desde 14 de outubro de 1858 foi autorisada a creação d’este aldeamento, a qual acaba de

ser realisada. Ao cidadão Joaquim Antono de Moraes Dutra, que nomeei para dirigi-o, dei as instrucções precisas, afim de quanto antes fundar a aldeã, preparando logo os meios indispensáveis ao abastecimento do logar”. CARDOSO, José Francisco. Relatório do

presidente da província do Paraná. Apresentado pelo seu presidente José Francisco Cardoso,

no dia 1º de março de 1860 á Assembléa Legislativa da provincia do Paranã na abertura da 1.a sessão da 4.a legislatura pelo presidente, Curityba: Typ. de Candido Martins Lopes, 1860. Segundo Lucio Mota (op.cit., 2000, p.42), esse aldeamento foi extinto em 1861.

201 Ibid., p.42 202 Ibid.

Grosso do Sul, em 1852, para o aldeamento Jatay,203 com o objetivo de atender aos interesses comerciais do Barão de Antonina.204

Figura 8. Aldeamentos indígenas na província do Paraná colonial.

Fonte. MOTA, op.cit., 2000, p. 42. Adaptado por Carina Santos de Almeida. Em 1856 o vice-presidente informava que “existem hoje na província três aldeamentos de aborigenes mansos: o de Guarapuava, o de Palmas e o de Jathay.”205

203 FLEURY, op.cit., p.58.

Em 1892, já no Brasil República, no governo do Paraná “continuava o pensamento de agrupar os índios em aldeamentos (...) prova disso, ainda em março de 1891, o Estado do Paraná procurou fundar o aldeamento de Catanduvas no extremo oeste do Paraná, entre Guarapuava (...) a Foz do Iguaçu.”206

Há registro de um aldeamento indígena em Chapecó. Em 1876, José Correa Bittencourt, diretor-geral dos índios da província, escreve ao presidente da província do Paraná, Adolpho Lamenha Lins, solicitando reembolso do gasto com ferragens e víveres fornecidos aos índios do Chapecó/PR quando esses estavam em Curitiba/PR.207 Em outro documento o diretor-geral dos índios da província do Paraná, informa ao presidente, Adolpho Lamenha Lins que chegaram a Curitiba 32 índios vindos do aldeamento de Chapecó, aos quais foram dadas acomodações; solicita, então, autorização para fornecimento de alimentos (figura 9).208

Notemos que não há dados relativos à existência de aldeamento em Chapecó, inclusive o próprio relatório do presidente de província relativo ao ano de 1876, apresentado à assembleia provincial em 1877, informa haver na província apenas quatro aldeamentos, denominados São Pedro de Alcântara, São Jerônimo, Paranapanema e S. Tomaz de Papanduva.209 Pode ter havido uma força de expressão do diretor-geral, desejando referir-se apenas a uma aldeia. Há diversos registros de presença de indígenas em Chapecó, no entanto, o documento acima foi a única fonte que localizamos relativa à existência de um “aldeamento.” O local Chapecó referia-se à região do atual município de Xanxerê, onde

205 ROHAN, Henrique de Beaurepaire. Relatório do presidente da província do Paraná

apresentado à Assembleia Legislativa Provincial no dia 1.o de março de 1856, foi lida pelo vice-presidente em exercício, Henrique de Beaurepaire Rohan. Curityba: Typ. Paranaense de C. Martins Lopes, 1856. p.53.

206 MOTA e NOVAK, op.cit., p.137.

207 ARQUIVO PÚBLICO DO PARANÁ. Documento. Microfilme: 1536.2. Nota:

AP496.15.145. Curitiba: 31/08/1876.

208 ARQUIVO PÚBLICO DO PARANÁ. Documento. Microfilme: 1522.4. Nota:

AP482.1.192 Curitiba: 1876. “Tenho a honra de levar ao conhecimento de v. exma que chegarão hoje a esta capital vindos do aldeamento do Chapecó, 32 índios entre homens, mulheres e crianças, aos quais já dei a necessária acomodação. No mesmo tempo, peço a E. Exª autorização para fornecer-lhes o preciso alimento.”

em 2 de março de 1882 foi instalada a Colônia Militar do Chapecó,210 e não o atual município de Chapecó, que recebe esse nome no século XX, com a definição da sede municipal em 1931.211 Um terceiro aspecto que desejamos mencionar é a grafia do nome Xapecó, que aparece grafado com “CH” e não com “X”.212

210 O governo imperial baixou a Lei nº 729, de 9 de novembro de 1850 regulamentando as

Colônias Militares que seriam criadas no Império do Brasil. Através do Decreto 2.502 de 16 de novembro de 1859, criava as colônias Militares de Chapecó e Chopin: “Hei por bem crear mais duas colonias militares na Provincia do Paraná, as quaes serão estabelecidas, huma nos Campos do Erê ao occidente dos rios Chapecó e Chopim, e outra nos Campos do Xagú ao occidente dos de Guarapuava, nos pontos que forem designados pelo Presidente da Provincia, e deverão reger-se pelas Instrucções que com este baixão, assignadas por João de Almeida Pereira Filho, do Meu Conselho, Ministro e Secretario de Estado dos Negocios do Imperio, que assim o tenha entendido e faça executar.” (BRASIL, apud, PIAZZA, Walter F. A colonização de Santa Catarina. 3. ed. Florianópolis: Lunardelli, 1994. p. 216) Piazza observa que o objetivo das colônias era proteger a fronteira com a Argentina: “face à disputa das nossas fronteiras oeste com a República Argentina, para garantir a integridade do nosso território” (PIAZZA, op.cit., p. 216.). O antigo Artigo 2º do referido Decreto estabelecia que “essas colônias são destinadas à defesa da fronteira, à proteção dos habitantes dos campos de Palmas e Erê, Xagu e Guarapuava, contra a invasão dos índios, e a chamar os ditos Índios, com auxílio da catechese à civilização” (Ibid). Porém, a portaria de instalação foi criada apenas em 1880, tendo sido encarregado o Capitão José Bernardino Bormann responsável para fundar a Colônia Militar do Chapecó. PIAZZA, op.cit., p. 218.

211 O município de Chapecó foi criado pela Lei 1.147, de 25 de agosto de 1917. Sua sede

localizava-se no Passo Bormann conhecido como Passo do Carneiro, em 1919 foi transferida para Xanxerê, em 1923 volta a Passo Bormann, em 1929 retorna a Xanxerê e finalmente em 1931 é transferida para Passo dos Índios, atual centro de Chapecó. BELLANI, op.cit., 2006. p. 75.

212 A grafia Xapecó (com “X” ou “CH”) foi tema de amplos debates na “Comissão Regional

Territorial do Paiz,” que tinha como relator da divisão estadual o deputado estadual do Partido Social Democrata/PSD Cid Loures Ribas. “No parecer, o deputado Cid Loures Ribas constatou que a palavra Chapecó, por iniciar com “ch” não era de origem indígena, e, portanto, não poder ser de origem Kaingang (...) prevaleceu o CH”. MANFROI N. M. S. A História dos

Kaingáng da Terra Indígena Xapecó (SC) nos artigos de Antonio Selistre de campos:

Jornal A Voz de Chapecó 1939/1952. 2008. Dissertação (mestrado em História Cultural), Programa de Pós-Graduação em História, CFH/UFSC, Florianópolis, 2008. Para os indígenas, a palavra Xapecó pronuncia-se xá embtekó (LANGE; BLOEMER; NACKE, op.cit., fl. 555) ou xá+én+mbitkó (D’ANGELIS, op.cit., 2006. p. 309.) Concluímos que o debate em torno da grafia tem conotação ideológica uma vez que o nome da cidade grafado com CH seria menos identificado com os Kaingang. PIAZZA (op.cit., p.218) informa que José Bernardino Bormann, diretor da Colônia Militar do Chapecó, grafava Xapecó com “X”.

Figura 9. Documento do diretor geral dos índios ao presidente da província à chegada de 32 indígenas do “aldeamento do Chapecó”. A data atribuída é de 1876.

Fonte. ARQUIVO PÚBLICO DO PARANÁ. Documento. Microfilme: 1522.4. Nota: AP482.1.192 Curitiba: 1876.

Os indígenas que viviam na Campina do Gregório (local onde hoje se encontra a cidade de Chapecó) nunca chegaram a conviver em aldeamento próprio. O chefe de polícia interino da província do Paraná, Joaquim José Teixeira, envia ofício ao presidente da província do Paraná, Joaquim de Almeida Faria Sobrinho, informando a posição do subdelegado de polícia do distrito de São Sebastião do Passo do Carneiro sobre conveniência de aldear os indígenas existentes na Campina do Gregório, pertencentes ao grupo do cacique major Venâncio.213 O local Passo do Carneiro era a vila onde atualmente encontra-se Passo Bormann, distrito de Chapecó. O nome “Campina do Gregório” fazia referência ao cacique Gregório, sogro de José Raimundo Fortes, que teria estabelecido uma fazenda com 160 mil hectares em 1839 na atual cidade de Chapecó. Os indígenas a quem se refere o documento seriam ascendentes dos que hoje vivem nas proximidades de Chapecó.214 Atualmente há três aldeias – Toldo Chimbangue, Pinhal e Kondá (estes últimos tinham sua aldeia em Passo dos Índios) – e há reivindicações de outra terra localizada no distrito de Goio-En.215

Tendo os aldeamentos o objetivo de atrair os indígenas e “civilizá-los” pela fé católica e pelo trabalho, não havia necessidade de criar um aldeamento para indígenas aliados, ou já em contato amistoso com os não indígenas. Por esse motivo, concluímos que não foi concretizado os aldeamentos de Chapecó e Passo do Carneiro.

Sobre a região do atual oeste de Santa Catarina há outros registros sobre a presença indígena que não precisam com exatidão o local. O primeiro documento é atribuído ao presidente da província do Paraná, João José Pedrosa, destinado ao ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Manoel Buarque de Macedo, informando que os índios de Palmas foram a Curitiba para manifestar o desejo de ser aldeados; sugere que as comissões encarregadas da fundação das colônias militares de Chapecó/PR e do Erê/PR fiquem responsáveis por

213 ARQUIVO PÚBLICO DO PARANÁ. Documento. Microfilme: 1941.2. Nota:

AP812.13.130/131. Curitiba: 1887.

214 FORTES, Adílio. A proto-história do município de Chapecó: oeste de Santa Catarina.

Chapecó: Carthago Editorial, 1990.

215 CIMI SUL Documento. Quadro das terras indígenas do sul do Brasil. Documento a

atraí-los e aldeá-los.216 Em 1883 havia um diretor civil no aldeamento de Palmas, João Carneiro Marcondes. Há no Arquivo Púbico um registro do referido diretor afirmando ser urgente a necessidade de aldear os índios de Palmas em um único ponto, e informa ainda que estão passando dificuldades, pois a verba de cinco contos de réis, que o governo teria concedido para o chefe da comissão militar do Chapecó para o aldeamento, nunca foi utilizada para isso. Solicita providências.217 O que leva a crer que não se tratava apenas de indígenas que viviam no aldeamento de Palmas, mas na região de Palmas, sugerindo que deveria haver diversos Toldos pela região e que deveriam ser aldeados num único lugar.

A população indígena nos aldeamentos era minúscula se comparada às que permaneciam em suas aldeias nos campos e sertões.

Em 1855, o número de indígenas que “viviam como feras” eram mais de 10 mil, segundo o relatório do presidente da província. Evidentemente que todo dado sobre população vivendo fora de aldeamento deve ser tomado com cautela, tendo em vista as circunstâncias em que eles eram apresentados.218 Vinte e três anos depois os dados indicam uma população de 3 a 4 mil “vagando nos sertões” e cerca de 800 a 900 nos aldeamentos.

Calcula-se em 03 a 04 mil índios os que vagueam nos sertões do Jatahy, Ivahy, Paranapanema, Tibagy, S. Jeronimo, Palmas e Guarapuava. Destes, 800 a 900 tem apparecido nos aldeamentos de S. Je, S. Pedro d’Al., e no do Paranapanema, em diversas épocas do anno.219 Os indígenas pouco interesse tinham nos aldeamentos. “Tanto é que em 1855, o cacique Virí com seu grupo realiza uma incursão nos Campos do Chagú, com ordens para submeter os índios daquele lugar

216 ARQUIVO PÚBLICO DO PARANÁ. Documento. Condições de acesso: Original Nota:

C283.221.253. Curitiba: 13/11/1880.

217 ARQUIVO PÚBLICO DO PARANÁ. Documento. Condições de acesso: Microfilme:

1821.1. Nota: AP700.21.86/87. Palmas: 17/05/1883.

218 ROHAN, op.cit., p. 49. 219 LISBOA, op.cit.,. p. 66.

aos ditames de aldeamento projetado para essa região.”220

Considerando o desconhecimento dos sertões, o pouco interesse que eles despertavam no não indígena e a facilidade com que os Kaingang se locomoviam, não é exagero dizer que em fins do século XIX para cada indígena aldeado havia outros 10 fora dos aldeamentos, vivendo em aldeias “livres”, denominadas Toldos. Pelas evidências nos documentos, esses indígenas não estavam alheios aos acontecimentos da província, especialmente nas relações com fazendeiros, posseiros e governo.

Em 1884 o presidente capitão Tourinho ao visitar as colônias militares a sudoeste, registrou que em Palmas havia três assentamentos de indígenas: “(...) um próximo á Villa, outro no passo da Balsa, junto a margem esquerda do Chapecó, e o terceiro no lugar denominado “Formiga” a 3.5 legoas da colônia. Ignoro qual seja a população approximada d’esses toldos (...). ”221

Na região de Campo Erê, ou Kampo-rê, a noroeste da atual TI Xapecó, no divisor de águas do rio Xupin e Xáembetko, na picada para Corrientes, “foram encontrados outros grupos Kaingang que habitavam a região” pelo ano de 1865.222

Nos campos que formam as cabeceiras do rio Irani também havia aldeia indígena, registrada por Pinto Bandeira, em 1840: “(...) tribo de selvagens, de que já falamos, comandada por Condá, a qual tantos receios causava, por estar até então estabelecida em uma campina chamada Iranin, a duas léguas do sertão.”223

As referências documentadas da existência dos Toldos limitam- se àqueles nas margens dos caminhos, o que leva a crer que havia muitos outros, que nunca foram mencionados pela historiografia, mas que ficaram registrados na memória oral indígena.224

220 DURAT, Cristiano Augusto. Francisco Luiz Tigre Gacon, Índio: um personagem na vila de

Guarapuava (Século XIX). In: IV ENCONTRO ESCRAVIDÃO E LIBERDADE NO BRASIL MERIDIONAL, 2009, Curitiba. Anais... Curitiba, 2009. s/p.

221 PARANÁ. Governador. 1884 a Apud MOTA, op.cit., 2000, p. 161. 222 MOTA, op.cit., 2000, p. 160.

223

BANDEIRA, Joaquim José Pinto. Notícias da descoberta dos campos de Palmas apud CIMI REGIONAL SUL. Toldo Chimbangue: op.cit., 1984, p. 11.

224 No município de Fraiburgo, no meio oeste de SC, ocorreu uma ocupação Kaingang, em

2010, em terra considerada de seus antepassados, que fora abandonada no início do século durante o conflito conhecido como Contestado. Nos arquivos por nós pesquisados e nas referências etnográficas não localizamos qualquer menção a esse local, o que leva a crer que Toldos foram extintos e deles não ficaram registros. BRIGHENTI, Clovis Antonio;

Os aldeamentos cumpriam um objetivo fundamental, que era liberar as terras para as fazendas. Carneiro da Cunha lembra que no século XIX o Brasil foi caracterizado pela heterogeneidade de três sistemas políticos, “mas para caracterizar o século como um todo, pode- se dizer que a questão indígena deixa de ser uma questão essencialmente de mão de obra para se tornar uma questão de terras.”225

Observa que em determinadas regiões de povoamento antigo a mão de obra ainda é requisitada, mas na “frente de expansão (...) são sem dúvida a conquista territorial e a segurança dos caminhos e dos colonos os motores do processo.”226

Essa opinião é partilhada por Celestino de Almeida, ao observar que, “a partir de 1861, o encargo da catequese e civilização dos índios passou ao Ministério dos Negócios, Agricultura, Comércio e Obras Públicas, evidenciando que, no século XIX, a questão dos índios tornara-se, em algumas regiões, essencialmente uma questão de terras.”227

Essa análise, fundamental para compreender a política macro, não explica a complexidade das relações e a atenção que os indígenas vão receber dos presidentes de província, sendo citados em praticamente todos os relatórios desde 1854 – relativo ao ano de 1853 – até o final do século. O interesse nas terras não estava dissociado da necessidade de transformar o indígena em “civilizado”. É nesse sentido que destacamos o empenho dos presidentes da província em garantir condições para que ocorresse a transformação. Havia o desejo de que esse potencial de mão de obra pudesse contribuir com a agricultura, indústria e outros serviços. Na concepção da província o indígena não tinha serventia para as demandas da sociedade em seu estado natural, assim, o aldeamento tinha como atribuição fazer essa passagem, transformar o “selvagem” em “civilizado”. O vice-presidente Henrique de Beaurepaire Rohan, em comunicado à assembleia provincial em 1856, apavorado com os 10 mil indígenas “piores que feras”, que existiam na província, diz que não basta os capuchinos ensinar o jejum e a castidade, mas é necessário