O estudo da dinâmica estabelecida em escola específica do Município de Curitiba demonstrou como as políticas públicas e a legislação educacional afetaram o cotidiano das práticas pedagógicas, da relação entre alunos e professores, professores e comunidade em geral.
A descrição baseada nas políticas públicas constantes no Currículo para a Educação Básica do Estado do Paraná, especificamente o Ciclo Básico de Alfabetização/CBA e os desdobramentos da sua implementação gradativa da 1ª a 8ª série, na década de 1990 mostrou a ocorrência de duas situações inéditas: a possibilidade de contratação professor de Educação Artística para as séries iniciais, quebrando hegemonia da função unidocente no Ensino Fundamental de 1ª a 4ª série e, a instituição de 2 horas de aula semanais para as turmas regulares do Ciclo Básico de Alfabetização/CBA com professores regentes de Educação Artística e Educação Física.
Assim, percebe-se como determinada resolução secretarial pode interferir diretamente na lógica do tempo e do espaço escolar. Nesse contexto estariam as bases constituintes de outra vertente para a presença dos professores de Arte e Educação Física no CBA: a hora atividade do regente de classe. Enquanto as turmas tinham aulas de arte e educação física, os regentes de classe estariam na escola, na hora-atividade preparando aulas, estudando, avaliando, bem como reunidos com a equipe pedagógica da escola.
Os professores de Educação Artística e Educação Física não tinham direito à hora-atividade. Interessante observar essa forma diferenciada de tratamento, como se esses professores (de Arte e Educação Física) não tivessem – igualmente – a responsabilidade de
avaliar, participar de reuniões pedagógicas, preparar suas aulas e inovar na sua prática.
Como parece óbvio que os mesmos tinham de realizar tais atividades, esse tempo de trabalho pedagógico foi realizado sem o devido reconhecimento expresso em remuneração salarial.
Essa constatação denota a intencionalidade política de ação específica, ou seja, a presença do ensino de Arte (e de Educação Física) na escola serviu para ocupar o tempo e espaço necessário para o regente de classe preparar a sua prática pedagógica.
Os dados da pesquisa mostraram grande variação na carga horária da área de Arte, nas matrizes curriculares de nove escolas da rede estadual de ensino do Município de Curitiba, no período de 2000 a 2009: involução de 27,27% em 2001 e evolução para 36,36%
em 2003. Em 2004 a carga horária de arte tornou a cair para o índice de –18,2%. Entre os anos de 2003 e 2004 a queda foi de 40%. O maior índice constatado foi de 150% de evolução se for levado em conta o ano de 2004 e 2009. Cabe observar que essas situações de evolução e involução aconteceram após série de documentos diretivos da Secretaria de Estado da Educação, cujo objetivo seria a adequação à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996.
Quanto às matrizes curriculares analisadas verificou-se, diante de variação acima explicitada na área de Arte, que a estrutura curricular se mostrou fragmentada, frágil, descontínua, não-sistematizada e desorganizada. Pode-se considerar, a partir dessa constatação, que as escolas demonstraram desorientação diante das pressões internas e externas na constituição do currículo.
Parece que as políticas públicas que vêm sendo adotadas no Estado do Paraná, nos últimos anos, se mostram evidentes em relação à restrição de acesso às diferentes manifestações musicais para os alunos da Rede Estadual de Educação participantes do FERA.
O índice de 12% de alunos que confirmaram ter aulas de música (não necessariamente nas dependências da escola e no horário dito “normal” de aula) mostra a distância em que se encontra o acesso à cultura, do que está explícito na Constituição brasileira:
O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e o acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais (BRASIL, Art. 215, CONSTITUIÇÃO FEDERAL).
Nesse sentido, o conhecimento constitucional de acesso aos bens culturais da humanidade e o exercício dos direitos culturais devem ser estimulados prioritariamente pela escola – poder público – e requeridos pelas comunidades escolares – sociedade civil.
A escassez de recursos humanos e financeiros dos municípios de pequeno porte pode dificultar o acesso dos munícipes aos bens culturais que lhes são de direito. No Capítulo IV da Lei nº 8069/90 Art. 54, o legislador garante: “É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente: [...] § 1º O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo”
(BRASIL, 2004). O termo Público representa interesse individual e da sociedade civil. O termo subjetivo pressupõe que a qualquer tempo o indivíduo ou o coletivo da sociedade pode requerer do Estado a sua oferta.
Parece que o espaço ideal de se ampliar o exercício dos direitos de acesso à cultura para todos os alunos é o meio escolar. A escola – além de possuir equipe de profissionais especializada em educação – pode organizar, estruturar e planejar como se dá o processo de socialização dos bens culturais e do conhecimento musical.
Os dados apresentados nessa pesquisa apontaram para demanda de educação musical surgida a partir de levantamento hipotético presente no questionário aplicado aos participantes da Oficina de Sensibilização Musical no Festival de Arte da Rede Estudantil/Fera. Escola atenta a esse indicativo – que surgiu a partir do interesse de alunos e alunas – pode, por meio do seu projeto político pedagógico, desenvolver ações planejadas para atender à oferta do ensino de música.
Para isso, os recursos humanos e materiais devem ser previstos e providos pela instituição mantenedora a partir da constituição obrigatória da presença do ensino de arte na matriz curricular (LDBEN 9394/96). Essa pode ser a primeira e urgente ação liderada por representantes da comunidade escolar, tendo em vista a obrigação legal da escola (poder público) em oferecer a Educação Musical e direito do alunado recebê-la.
Em conseqüência, a escola pode oferecer atividades extracurriculares para os alunos complementarem e suplementarem a formação musical presente na matriz curricular da base nacional comum com apoio da comunidade e/ou da instituição mantenedora. Assim, a atividade extracurricular é entendida como extensão da sala de aula, que pressupõe a mediação do processo de ensino e aprendizagem por professor que busca formação contínua e permanente na área musical e compreende as especificidades do contexto sociocultural da comunidade escolar.
Dados da pesquisa24 indicam que na medida em que os alunos avançam na idade aumenta o interesse em estudar algum instrumento musical. Observa-se que a partir dos 16 anos, mais da metade dos alunos se expressa musicalmente por meio de instrumento musical.
Esses dados impulsionaram a se fazer a seguinte reflexão: - os alunos adolescentes têm interesse em instrumentos musicais porque gostam ou porque o seu entorno proporcionou oportunidade de se obter contato com eles? De acordo com o levantamento realizado na pesquisa, é possível interpretar que os alunos buscam conhecer mais profundamente instrumentos musicais conforme amadurecem. Parece que esse comportamento está relacionado à questão atitudinal de interesse pessoal. A respeito da iniciativa própria dos alunos de instrumentos musicais quanto à autonomia de aprendizagem, Marques e Montandon (2006, p. 124) descrevem:
[...] muitos alunos de instrumento musical, por iniciativa própria, procuram conhecimentos e habilidades relacionados à execução, além daqueles fornecidos em aula pelo professor ou pelo programa do curso. São conhecimentos e habilidades buscados de formas e em contextos diferentes. Esses alunos chegam a surpreender professores que esperam apenas que eles cumpram o programa curricular – expectativa vigente nas práticas educacionais nas quais é dominante seguir programas à risca, em seu conteúdo prático e objetivo, muitas vezes ignorando que há vida fora da sala de aula.
O processo de aprendizagem relacionado ao ato de tocar instrumento musical influencia e recebe influências a partir de algumas condições: oportunidades, relacionamento, disponibilidade, condições sócio-econômicas, contexto cultural etc.
De acordo com as Diretrizes Curriculares de Arte do Paraná outros elementos devem ser levados em conta quando se trata de alunos do Ensino Médio:
Por sua vez, é importante ter em vista que os alunos do Ensino Médio apresentam uma vivência maior e um capital cultural constituído em outros espaços sociais além da escola: família, grupos, associações, religião e outros. Além disso, têm um percurso escolar mais amplo, com conhecimentos artísticos relativos à Música, às Artes Visuais, ao Teatro e à Dança (PARANÁ, 2006a, p. 65).
No entanto, é possível afirmar, igualmente, que os alunos gostam daquilo que passam a conhecer. Muitos relatos dos alunos revelaram que, após o primeiro contato com
24 Gráfico 11 – Dados sobre a idade e a execução de instrumento musical.
o instrumento musical, houve despertar para a continuidade no estudo de música. Nesse sentido, a educação musical contida na matriz curricular das escolas (Área de Arte) tem por objetivo facilitar o acesso à multiplicidade de manifestações da cultura local e de outras culturas. A música auxilia o aluno a estabelecer relações com outras formas do conhecimento artístico como o teatro, o cinema, as artes visuais e a dança.
Assim, conhecer os espaços culturais e as produções artísticas dos municípios em que se vive contribui para o aprimoramento da identidade cultural enquanto cidadãos plenos.
Não somente pelos traços arquitetônicos que descrevem período histórico de conceitos e estéticas construtivas, mas nas relações que se pode fazer entre o espaço material e as representações artísticas vividas nesse espaço.
O acesso a apresentações musicais de diferentes estilos e gêneros favorece a familiarização musical. Quando se está diante de grupo musical que se apresenta ao vivo se estabelecem inúmeras relações: reconhecimento do tema, identificação dos elementos e momentos da obra, as semelhanças e diferenças melódicas, rítmicas e harmônicas, o desempenho dos músicos, o nome e a sonoridade dos instrumentos. Essas relações que se fazem ao ouvir e ver apresentações musicais conduzem o espectador a assimilar e a se apropriar desses conteúdos, dos elementos formais e estéticos da música.
Quanto mais ricas forem as experiências como membros de audiência, maior será a capacidade de se apreenderem os dados musicais, tornando a audição mais prazerosa, pois familiar. Para que isso aconteça da melhor forma possível é preciso oportunizar – para todos – o acesso à diversidade musical (fazer cumprir o que reza a LDBEN 9394/96): é preciso dar tempo e espaço para a educação musical nas escolas, ambiente privilegiado para aproximar os alunos e a comunidade escolar do universo artístico e musical.