O aluno expande o tempo e o espaço da prática e aprendizado musical quando dá continuidade ao processo que começou na sala de aula, em casa e no tempo livre, para transpor barreiras e desafios contidos nas atividades musicais.
Mas esse espaço e tempo disponível para alguns alunos pode não ser para outros, como foi demonstrado no relato do aluno da Escola Estadual Alfa que encontrou restrições para desenvolver seus estudos em casa: “A minha única chance de tocar flauta é na escola”.
A música tornou-se imprescindível para o aluno, posteriormente à sua familiarização que se deu por meio do processo de ensino e aprendizagem no tempo e espaço escolar.
Entretanto, observam-se nos relatos dos alunos da Estadual Alfa singularidade a qual parece rara nessa faixa etária. Há certa homogeneidade no relacionamento entre as crianças e suas respectivas famílias, essas parecem reservar um pouco do seu tempo para apreciar o movimento da execução musical das crianças.
E, no contexto implícito do ato de tocar, há troca afetiva com a audiência, despertam-se sentimentos e emoções vivas, alegres, dinâmicas as quais motivam o aluno a querer tocar mais em todo e qualquer lugar.
Da mesma forma, o tempo e o lugar da prática musical foram ampliados no relato em que o aluno diz “eu toco música no ônibus”. A elaboração da idéia do aluno sobre o tema proposto ampliou a compreensão do fazer artístico e até mesmo do espaço escolar. Sendo assim, a não oferta de espaço e tempo escolar suficiente para o adequado processo de ensino e aprendizagem fez com que o aluno naturalmente buscasse solução, redefinindo seus costumes e hábitos escolares. Nesse sentido, escola passa a significar muito mais do que o seu espaço físico.
O ensino de flauta doce e de canto desenvolvido na Oficina de Sensibilização Musical do Festival de Arte da rede estudantil/FERA realizado em 2006, aplicado em sete fases distintas nas diversas regiões do Estado do Paraná (tempo e espaço): Central, Centro Sul, Noroeste, Norte Pioneiro, Norte, Oeste e Leste demonstra a diversidade que se pode encontrar nessas diferentes comunidades culturais.
O público dessa oficina constituiu-se de alunos e professores da rede pública de ensino da educação básica. O evento contou com 2033 participantes – com idade entre 10 e 18 anos – do ensino fundamental e médio nas modalidades da educação do campo, da educação indígena, da educação especial e de jovens e adultos. Cada etapa/região contou com a média de 300 alunos e professores. Os dados trabalhados nesta pesquisa foram obtidos por meio de registro das respostas de questionário estruturado e da observação dos participantes na proposta pedagógica de musicalização por meio do canto e da flauta doce nas sete regiões de realização do FERA.
Após análise quantitativa e qualitativa dos dados, observou-se que 51% dos participantes eram do ensino fundamental e 49% do ensino médio; 40% dos participantes
sabiam tocar, ao menos, um instrumento musical. Os instrumentos mais mencionados foram o violão, o teclado e a bateria (percussão).
A análise demonstrou que 59% dos alunos nunca participaram de grupo de canto (coral), e dos que cantam, 42% também tocam algum instrumento. A pergunta não se restringiu ao âmbito (tempo e espaço) escolar, portanto, dos alunos que responderam afirmativamente, essas experiências musicais podem ter ocorrido em outros segmentos da comunidade em que (os alunos) vivem.
Duas observações parecem se destacar nesses resultados – a maioria dos alunos não teve contato com atividade comum na área da música: o canto coral (comum por ser acessível – não necessita de muitos recursos materiais e humanos; congrega grande número de participantes, etc); o desenvolvimento de uma atividade musical parece favorecer o interesse para outras atividades ligadas à música, pois 42% dos alunos que cantam em coral também tocam algum instrumento musical.
O canto coral parece ser experiência musical de indiscutível alcance para a familiarização dos alunos com o universo sonoro. Segundo Joly:
Cantar é sempre uma experiência prazerosa para a criança. Através do canto ela será capaz de explorar vários tipos de vozes (falar, cantar, sussurrar, gritar, cantarolar), desenvolver o controle da voz (cantar as diferentes alturas de maneira afinada) e desenvolver um repertório de canções (JOLY, 1997, p. 10).
Por ser trabalho coletivo, o canto coral facilita o desenvolvimento social das crianças, ajuda o controle das emoções, estimula o movimento e estabelece relações com o contexto sócio-histórico da cultura local e global. Joly (1997, p. 10) afirma: “[...] a criança estará fundamentando, para toda vida, os princípios de sua compreensão musical, de sua sensibilização enquanto ser humano e de sua criatividade enquanto artista”. Portanto, há no canto coral oportunidade para o desenvolvimento pleno do aluno: aspectos cognitivos, afetivos e psicomotores são características intrínsecas desse tipo de atividade musical.
Nesse sentido, foi elaborada questão a respeito da experiência dos alunos como membros de audiência, guardadas as proporções relativas à facilidade de acesso que os grandes centros urbanos propiciam, ou seja, nos quais apresentações de diferentes estilos e gêneros musicais são ofertadas com maior freqüência.
Segundo Krüger e Hentschke, o acesso às apresentações de orquestras sinfônicas deve ser disponibilizado para o maior número possível de pessoas: “[...] é preciso minimizar
a ‘exclusão musical’, oferecendo a toda a população o acesso também a esse estilo musical, desmistificando a idéia de que a música clássica é para alguns ‘privilegiados’.” (KRÜGER e HENTSCHKE, 2003, p.43).
Além disso, os resultados analisados evidenciaram que o acesso a apresentações de música ao vivo limitou-se a execuções de banda de música/fanfarra (50%) e de canto coral (28%). Identificou-se que 12% dos alunos tinham aulas de música nas suas escolas. O índice de 12% dos alunos que afirmaram ter aulas de música nas suas escolas é significativamente excludente se for levado em conta que a Política Pedagógica da Secretaria de Estado da Educação garante, na matriz curricular de todas as escolas do Paraná, a presença do Ensino de Arte/Educação Artística na Educação Básica (Ensino Fundamental e Ensino Médio).
[...] o estabelecimento de uma carga horária mínima de duas aulas semanais de Artes durante todas as séries do Ensino Fundamental e de duas a quatro aulas semanais distribuídas no Ensino Médio; (PARANÁ, 2006a, p. 22).
Dentre esse percentual, a análise permitiu constatar que grande parte das aulas não ocorria no contexto (tempo e espaço) ‘regular’ de ensino, ou seja, não estava arrolada na carga horária prevista para o ensino de arte da matriz curricular das escolas, portanto, não extensiva (não inclusiva) a todos os alunos.
Verificou-se que o estilo musical de maior preferência dos alunos das regiões pesquisadas é o pop rock (16%), seguido de funk (13%) e de dance (11%). Onze estilos musicais estão à frente da música popular brasileira/MPB (6%) nos resultados analisados.
Esses índices revelaram que não há preferência homogênea de gêneros e estilos musicais por parte dos participantes da oficina. Certamente esse resultado reflete a diversidade presente não só em relação às preferências musicais, mas também quanto à faixa etária, questões sócio-econômicas e heranças culturais. Há outros elementos que, presentes nessa pesquisa, poderiam demonstrar diferencial de gostos e preferências: comidas, roupas, política e religião. No entanto, Adorno (1991) atribuiu responsabilização à indústria cultural na estandardização das formas de arte, a qual destrói o pensamento crítico e sufoca a individualidade. Na escola deve-se priorizar o acesso a níveis culturais de padrão estético mais elevado, diferentemente da indústria cultural que tem produzido material artístico de fácil entendimento, para que as pessoas (cultura de massa) possam consumi-lo de maneira rápida e efêmera.
No meio escolar se podem criar condições que favoreçam a socialização da cultura local, sem perder de vista a riqueza presente em cada raiz cultural manifestada em composições de estilos e gêneros diversos. Constatou-se também que a maioria dos participantes reconheceu o teatro e o cinema (33% e 25% respectivamente) como espaços culturais existentes nos seus municípios. O ensino de música na escola pode estimular a elaboração de projetos que preencham essa lacuna de falta de informação e acesso a manifestações musicais e a bens culturais.
A pesquisa identificou como relevante a incidência de 25% de respostas para o item
‘não sei’, denotando a possível falta de conhecimento dos participantes sobre a existência de espaços culturais no contexto no qual vivem. Além do meio escolar, que é o espaço organizado e estruturado para acontecer o processo de ensino e aprendizagem sistematizados, apresentações didáticas em salas de concerto, teatros e auditórios podem agregar elementos musicais diversificados para a educação musical.
Esse desconhecimento e/ou a falta de interesse dos alunos a respeito de espaços culturais existentes nos seus municípios pode ser reflexo da ausência de familiarização cultural e/ou de acesso ao ensino de arte. Pois a apreciação de obra de arte pressupõe aprendizagem (escola), a estética na perspectiva sociológica não se trata de manifestação humana natural, e sim prazer culto – erudito – aprendido (BOURDIEU e BARDEL, 2007).
Muitos municípios não contam com espaços adequados para receberem orquestra sinfônica, ou grupos de música com formação diferente do que se costuma ouvir em rádios, televisão e outros meios eletroacústicos. Mas a questão pode estar também no grau de familiarização dos alunos com o tipo de música e/ou manifestações artísticas que se espera encontrar nesses espaços, considerada por muitos como elitista.
O sistema de arte é o que se conhece como arte erudita, cuja forma de divulgação e distribuição se faz em museus, teatros etc. Legitima-se por meio dos críticos de arte e da circulação pela venda de suas obras a uma elite financeira. Esse sistema de arte tem um campo de ação restrito, pois atinge somente uma pequena parcela da população (PARANÁ, 2006a, p.
51).
No entanto, o acesso a muitos ambientes culturais se pode dar por meios que não necessitem de desembolso financeiro por parte do espectador. Parece prática, até certo ponto comum, museus e teatros abrirem as suas portas para alunos de escolas públicas assistirem a espetáculos e/ou apreciarem exposições de artes visuais.
Certamente uma visita externa requer organização e planejamento. Esse desafio parece ser interessante para a escola e professores de música. A organização e o planejamento devem fazer parte da rotina diária das ações escolares de forma que favoreçam o acesso dos alunos aos meios ditos eruditos de manifestação artística. A música, na condição de comportamento/conhecimento humano, é algo que as pessoas aprendem assim como se aprendem outros tantos conceitos.
Na escola se apresentam aos alunos composições que sejam ricas em nuances, com variações da dinâmica e timbres. Músicas que estimulem a atenção aos detalhes sonoros e rítmicos. É importante, também, tratar de questões como acústica e sons eletroacústicos quando se fala em espaço cultural ou salas de concerto.
Conquistar a atenção dos alunos para apreciação musical refinada não é tarefa fácil.
A massificação de determinados estilos e gêneros musicais acabam saturando o ouvido das pessoas que não contam com outros meios para compensá-la. Assim, muitos “aprendem” a ignorar muito do que ouvem (ABELES, 1995, p. 135).
Sobre o interesse dos alunos em desenvolver atividades musicais em hipotético tempo livre no meio escolar, a análise dos dados mostrou que “tocar um instrumento musical” obteve o índice de 31% de preferência, enquanto que ouvir músicas e cantar em grupo musical registrou 28% e 17% respectivamente.
Esses dados reunidos permitiram perceber que os alunos carecem de projetos de educação musical no meio escolar. Dos estilos e gêneros musicais com maior incidência, alguns estão associados ao movimento físico e performances visuais dos músicos. Além disso, ouve-se música com intensidade sonora alta e pouca variação da dinâmica. A apreciação musical, mais atenta às diferentes nuances da composição, perde relevância quando as obras não apresentam tratamento refinado e imaginativo dos sons e silêncios.
Cabe à escola propiciar, por meio de organização curricular, momentos de apreciação crítica, estética e histórica da música, além da prática compreendida no fazer artístico (tocar, improvisar e compor). Esses dados reunidos indicam demanda de educação musical, que possibilita às escolas a requisição de recursos humanos e materiais dos órgãos centrais e administrativos do sistema de ensino público do Estado do Paraná, para a sua implementação.