2 A MORTE DE UMA ESTRELA: COMUNICAÇÃO E PODER EM TORNO DE UMA VIDA
4.3 A lei como forma de conter a maldade e interromper um ciclo de morte
A repercussão da morte calvário de Joao Hélio foi traduzida, no Programa de Televisão do Observatório da Imprensa, em um texto de Alberto Dines, lido para seus telespectadores com intuito de ressaltar questões abertas pelo acontecimento
que, dentre outras coisas, revelavam que ―algo começa a acontecer‖.
OI NA TV
Algo começa a acontecer
Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.
Os telejornais desta noite (27/2) estavam encharcados de sangue. Sangue de crianças manchando as mãos de criminosos pouco mais velhos do que crianças, numa rotina duplamente trágica. Mas algo começa a acontecer. Vinte dias depois, o menino João Hélio venceu a inércia e continua em pauta, emocionando e indignando o país inteiro. É um milagre de persistência, considerando que sobreviveu ao carnaval e superou nossa vocação para a amnésia.
Para esta sobrevivência, triste reconhecer, foram decisivas as bárbaras circunstâncias do assassinato do menino. Mas há outro dado que convém acrescentar: a revolta foi encabeçada pelas mulheres. Foram elas que empurraram o debate para uma esfera muito além da política convencional e até agora jamais alcançada.
Embora não tenham se confrontado diretamente, governo e imprensa estiveram e ainda estão em posições opostas e conflitantes. Porque a imprensa foi tão bem-sucedida na mobilização da sociedade, o governo trancou-se e aferrou-se à questão da diminuição da maioridade penal esquecido do seu papel maior como o narrador das grandes comoções nacionais.
Conviver com as dúvidas
Para compensar a frieza e o distanciamento do mundo oficial, surgiram iniciativas individuais que revelaram o sentido de comunhão e comunidade há muito tempo arquivado. Entre estas iniciativas, a da família de Candido Portinari que abriu mão dos direitos de reprodução de cinco mil obras do nosso maior pintor, desde que utilizadas em mensagens de solidariedade. A perplexidade do filósofo Renato Janine Ribeiro diante da crueldade que domina a cena brasileira é outro momento de excepcional importância neste episódio. Estamos aprendendo a encarar e conviver com o sofrimento, com as dúvidas.
Por tudo isso, essa é uma quaresma que dificilmente será esquecida. Ela pode marcar o reencontro com a nossa humanidade. (DINES, 2007b).
Como fez parte de outras notícias, a ideia de um acontecimento marcado de sangue é retomada para falar de um caso que persistiu em permear conteúdos, mesmo quando já se esperava que ele fosse substituído por novos casos de interesse midiático. A barbaridade é resgatada como elemento constitutivo da intrigante persistência, ressaltada por Dines, com que a morte do menino era relembrada, principalmente a partir das manifestações advindas das mulheres, mães que, sobretudo, expressaram sua dor, sua revolta e o seu desejo de mudança social. O autor, em seu discurso, relata o conflito entre os meios de comunicação, perplexos pela morte calvário, e o governo, que, como será discutido aqui, ponderou sobre manifestações a favor de mudanças nas leis penais e aplicação de medidas emergenciais no plano da segurança pública. Ao resgatar o conteúdo das manifestações sociais, é importante compreender a maneira pela qual a imprensa noticiou homenagens, passeatas, sentimentos de indignação e revolta que tencionaram o Estado em prol de medidas eficientes para contenção do ciclo de horror presente nos testemunhos oculares da morte calvário.
Dentre as homenagens prestadas a João Hélio, com ampla cobertura dos meios de comunicação que buscavam formas de fazer reverberar as manifestações populares em seu discurso, destacou-se a passeata do dia 10 de Fevereiro de 2002. A manifestação teve seu inicio no Bairro Oswaldo Cruz e percorreu o mesmo percurso feito pelo corpo de João Hélio preso ao cinto de segurança. Tal atitude revela a dimensão simbólica do acontecimento, encenado como uma via crucis que precisava ser percorrida para se guardar na memória a dor e o sofrimento causados a um menino de seis anos. Essa via crucis constitutiva da morte calvário, tratada como exemplar da morte do próprio Cristo, não podia ser relembrada sem um significado objetivo. Esse significado teria que ser construído e transmitido às pessoas no intuito da morte calvário ser resgatada, rememorada e instituída como símbolo do desejo de não haver possibilidade para esse sofrimento se repetir.
Por isso, os meios de comunicação fizeram um esforço significativo para expressar não apenas a comoção social presente na passeata, mas, sobretudo, seu conteúdo simbólico, expresso em múltiplas ações e palavras que objetivavam criar um elo afetivo capaz de comunicar a dor e revolta dos manifestantes. Os sentimentos de indignação expressos na passeata e reproduzidos pelos meios de comunicação atentavam para a necessidade de mudanças sociais profundas nas formas de atuação das agências de segurança e justiça do Estado brasileiro. O
Portal G1 deu visibilidade à passeata registrando que, mesmo diante de um sol forte, os manifestantes se mantiveram solidários ao sofrimento da família, prestando sua homenagem, fazendo questão de expressar seus sentimentos de indignação e revolta diante do acontecimento. Nas falas de manifestantes destacadas pelo G1, encontram-se as seguintes argumentações sobre o caráter do ato público:
―O importante é vir para a rua, debater, discutir e aprender. Não podemos aceitar passivamente ser massacrados pela violência e não fazer nada‖, disse o manifestante Daltro Jacques.
―Enquanto um jovem de 16 anos puder fumar maconha, segurar uma arma, assaltar e matar gente, ele não pode ser considerado jovem. Temos que mudar a lei. Se ele pode votar, ele pode ir para a cadeia‖, argumentou Herculano Campos, presidente da Associação de Moradores de Belford Roxo, que fez um caixão em homenagem ao menino.
A estudante Vanessa Dias Miranda, de 19 anos, resume o desejo de muitos presentes: ―Quero paz, justiça. Imagine a mãe do João, como está. Vim dar uma força para ela. Tenho um filho de quatro anos, e se aconteceu com ela, pode acontecer com qualquer um", lamentou (MANIFESTANTES..., 2007). Os pensamentos evidenciados pelas argumentações dos manifestantes revelam o caráter dinâmico do acontecimento que, ao provocar sentimentos de dor e revolta, é ressignificado no campo das reivindicações sociais. A ideia de que a morte não poderia ser aceita passivamente revela a tentativa de dar um sentido ao ato provocado por uma ação desprovida de significação. Por isso, exigia-se que as pessoas se mobilizassem para expressar sua dor e exigir providências das instituições em prol de recuperar a ordem social cingida pela crueldade e brutalidade expressa na morte calvário de um menino de seis anos. A lei, em sua materialidade e abstração, aparece como objeto das manifestações ao ser reportada em relação às suas possibilidades de corrigir comportamentos desviantes que frustram e ofendem as expectativas de interação social. Ela é aquilo que deve ser manejado na busca de uma sociedade que atenda aos anseios manifestos pelos integrantes da passeata. Paz e justiça foram palavras usadas quase como sinônimos ou expressões de representações que se complementam, pois sem uma não há a outra, fazendo-se necessário, para uma sociedade ter paz, que seja feita justiça aos que sofrem em nome da conduta perturbadora de outros.
Outro momento marcante das homenagens prestadas a João Hélio, também destacado pelos meios de comunicação, foi o ato protagonizado por jogadores de Botafogo e Flamengo em um dos maiores clássicos do futebol carioca. No dia seguinte à passeata realizada no Rio de Janeiro, os jogadores das duas
equipes entraram em campo com uma faixa preta nos ombros e um cartaz que dizia: ―Chega, queremos paz - homenagem a João Hélio‖. No Estádio Maracanã, cerca de cinquenta mil pessoas prestaram um minuto de silêncio intenso, reproduzido em diversos canais de televisão como um momento de profunda dor compartilhada entre aqueles que exigiam, por meio dessa atitude, paz. A efetivação da paz, como definida nas expectativas presentes nas manifestações decorrentes da morte de João Hélio, retrata o caráter problemático das discussões abertas pelo acontecimento, na medida em que o alcance dessa meta tencionava pensar dimensões importantes da vida social no País.
Para se ater aos aspectos problematizados de maior significação na cobertura do acontecimento pelos meios de comunicação, ressalta-se aqui duas questões fundamentais provenientes da pressão das manifestações sobre o Estado: 1) ações efetivas no campo da segurança pública capazes de conter o sentimento de insegurança proveniente de crimes como o protagonizado pelos acusados de matar João Hélio; 2) mudanças nas leis penais, com destaque para o problema da maior idade penal.
Em primeiro lugar, diferente dos outros dois casos apresentados, a morte calvário de João Hélio pode ser vista, acompanhada e testemunhada por pessoas que, durante toda a repercussão do caso, demonstraram estarrecimento diante de ―tamanha brutalidade‖. A visualização desse acontecimento tornou o assassinato de João Hélio um dos crimes urbanos considerados emblemáticos dos sentimentos de insegurança que permeiam não apenas a cidade do Rio de Janeiro, mas
praticamente todas as grandes áreas metropolitanas do País94. A imprensa,
novamente, assim como na morte de Tim Lopes, criou uma pressão sobre o Governo de Sérgio Cabral, eleito em 2007, ao dar visibilidade aos problemas de segurança e às reinvindicações de providências efetivas para contenção do crime.
Dessa vez, não apenas o problema da violência nas favelas pautava as notícias, mas a disseminação da violência por toda a cidade foi o mote para os conteúdos elaborados pelas instâncias de produção. Como nos outros casos, o acontecimento ter ocorrido na cidade do Rio de Janeiro é aspecto importante das suas possibilidades de generalização, pois a capital carioca, embora fosse o lugar do acontecimento, vivenciava uma situação comum às outras cidades brasileiras.
94 Sobre os índices e os padrões de homicídio no Brasil, ver WAISELFISZ, J. J. Mapa da violência
Pela sua posição representativa no cenário nacional, os problemas de segurança pública experimentados no Rio de Janeiro possibilitaram uma discussão que não ficou circunscrita ao Governo do Rio, pois, para instâncias de produção interessadas nos problemas evidenciados pelo crime, era preciso providências do Governo Federal.
O Jornal Folha de São Paulo deu destaque a como as manifestações decorrentes do acontecimento influenciaram a discussão sobre projetos contra violência e ações no campo da segurança pública nas esferas de poder legislativo e executivo da União. As matérias abaixo apresentam notícias produzidas para tratar de debates, manifestações, votações de projetos e medidas de segurança pública associadas pela Folha de São Paulo, em graus de intensidade distintos, à morte de
João Hélio95.
Quadro 3 - Matérias sobre ações no campo da segurança pública que fizeram referência ao caso João Hélio, disponíveis a partir da busca por palavra chave ―João Hélio‖ no Portal Folha.com. 250. Folha.com - Cotidiano - Morte de menino no Rio altera pauta de votações da Câmara - 09/02/2007
248. Folha.com - Cotidiano - Para Lula, morte de garoto arrastado foi "gesto de barbaridade" - 09/02/2007
234. Folha.com - Cotidiano - Ellen Gracie defende cautela na discussão de projetos sobre violência - 12/02/2007
230. Folha.com - Cotidiano - Senador quer comissão com o nome de João Hélio para discutir violência - 12/02/2007
228. Folha.com - Cotidiano - Chinaglia diz que Câmara não vai votar projetos contra violência sob pressão - 12/02/2007
220. Folha.com - Cotidiano - Câmara deve votar três projetos contra violência nesta semana - 13/02/2007
217. Folha.com - Cotidiano - Senado vota hoje projeto que proíbe cortar recursos da área de segurança - 13/02/2007
216. Folha.com - Cotidiano - Lula pede a Congresso cautela na votação de pacote de segurança - 13/02/2007
214. Folha.com - Cotidiano - Senado aprova projeto que proíbe corte de gastos do Orçamento para segurança - 13/02/2007
203. Folha.com - Cotidiano - Parlamentares querem votar projeto que pune preso flagrado com celular - 14/02/2007
196. Folha.com - Cotidiano - Câmara restringe semi-aberto para autores de crimes hediondos - 14/02/2007
195. Folha.com - Cotidiano - Câmara aprova um ano de detenção para preso flagrado com celular - 15/02/2007
193. Folha.com - Cotidiano - Câmara reduz benefício para crime hediondo - 15/02/2007
95 As notícias se referem, de maneiras distintas, à morte do menino. Em boa parte delas, o
acontecimento é apresentado como o principal mobilizador das reportagens, enquanto em outros há apenas uma associação que o relaciona a uma discussão mais ampla, juntamente com outros casos emblemáticos ocorridos em 2007.
190. Folha.com - Cotidiano - Projetos aumentam pena para adultos que envolverem adolescentes em crimes - 15/02/2007
189. Folha.com - Cotidiano - Pressionado após morte de menino, Congresso aprova 5 projetos antiviolência - 15/02/2007
184. Folha.com - Cotidiano - Depois do Carnaval, Câmara diminui votações de projetos contra violência - 15/02/2007
170. Folha.com - Cotidiano - Projetos de lei sobre segurança estavam parados havia 4 anos - 18/02/2007
163. Folha.com - Cotidiano - "Não há mágica contra violência", diz ministro - 23/02/2007 131. Folha.com - Brasil - Governadores e Congresso se reúnem por projetos de segurança - 28/02/2007
127. Folha.com - Cotidiano - Governadores do Sudeste entregam pacote de segurança ao Congresso - 28/02/2007
126. Folha.com - Cotidiano - Congresso promete a governadores analisar pacote de segurança - 28/02/2007
119. Folha.com - Cotidiano - União e Estados prometem não bloquear dinheiro da segurança - 06/03/2007
111. Folha.com - Cotidiano - CCJ do Senado aprova dois projetos de segurança, mas adia fundo - 07/03/2007
109. Folha.com - Cotidiano - CCJ do Senado aprova projeto que endurece penas por crimes hediondos - 07/03/2007
100. Folha.com - Cotidiano - CCJ do Senado aprova criação de fundo de combate à violência - 14/03/2007
94. Folha.com - Cotidiano - CCJ aprova projeto que define crime organizado e agrava pena - 21/03/2007
90. Folha.com - Cotidiano - CCJ do Senado aprova dobrar pena de quadrilhas com adolescentes - 28/03/2007
88. Folha.com - Cotidiano - Comissão do Senado avalia projeto de instalar bloqueadores em prisões - 10/04/2007
86. Folha.com - Brasil - Lula recebe pedido oficial para que Forças Armadas atuem no Rio - 11/04/2007
85. Folha.com - Cotidiano - Cabral quer Forças Armadas no Rio por um ano; governo avalia pedido - 11/04/2007
84. Folha.com - Cotidiano - Governo federal avalia envio das Forças Armadas ao Rio - 12/04/2007
83. Folha.com - Cotidiano - Lula autoriza uso das Forças Armadas no Rio; envio de tropas será definido - 12/04/2007
82. Folha.com - Cotidiano - Reunião define atuação das Forças Armadas contra a violência no Rio - 16/04/2007
81. Folha.com - Cotidiano - Cabral quer que Exército patrulhe rodovias no Grande Rio - 16/04/2007
57. Folha.com - Cotidiano - Senadores aprovam novo projeto de instalar bloqueadores em prisões - 04/07/2007
Fonte: Disponível em:
<http://search.folha.com.br/search?q=%22Jo%E3o%20H%E9lio%22&site=online &sr=226>. Acesso em: 20 out. 2010.
Como é possível observar, logo depois da morte de João Hélio a pauta de discussão e votação da Câmara dos Deputados foi alterada em virtude da sua morte calvário ter produzido efeitos políticos importantes. A repercussão nos meios de comunicação foi um dos fatores que nortearam essa mudança na arena legislativa.
Conforme noticiou a Folha de São Paulo, Arlindo Chinaglia, então presidente da Câmara, colocou em pauta nas votações da Casa projetos na área de segurança que, segundo jornal, ―estavam adormecidos‖, à espera de apreciação dos deputados federais. A reportagem da Folha chama atenção para o fato dos projetos terem ido à discussão em virtude de apelos de parlamentares que chamaram atenção do Presidente para urgência dessa discussão.
O jornal demonstrou que, ao todo, seriam colocados em votação nove projetos que abordavam, dentre outras coisas, mudanças no Código de Processo Penal relativas a casos de violência, considerando que o Projeto de Lei (PL) 6.739/06 tratava especificamente da questão dos crimes hediondos. Segundo a matéria da Folha, ―o projeto estabelece que condenados por crimes hediondos devem ficar mais tempo na cadeia antes de receberem o benefício da progressão
penal - que permite cumprir parte da pena em regime semi-aberto‖ (GUERREIRO,
G.; MATAIS, A., 2007). É importante ressaltar que, como destaca matéria da Folha, naquele momento nenhum dos projetos colocados na pauta da Câmara dos Deputados tratava da questão da maior idade penal, que será discutida no tópico seguinte. Ademais, os projetos colocados em pauta remetiam a uma discussão posterior a acontecimentos ocorridos no ano de 2006, após os ataques do Primeiro
Comando da Capital (PCC)96 ocorridos na cidade de São Paulo.
Uma semana depois da discussão sobre a mudança da Pauta da Câmara dos Deputados, a Folha de São Paulo noticiou que a Câmara havia aprovado por unanimidade a PL 6793/06. A PL aumentou o tempo mínimo para que um preso, condenado por um crime hediondo, pudesse ter direito à requisição de progressão de regime fechado para semiaberto. Apesar da urgência demonstrada pelo poder legislativo em colocar em pauta projetos que visavam reforçar e criar novos dispositivos de controle social da violência, os jornais deram atenção às manifestações de integrantes dos poderes legislativo, judiciário e executivo que argumentaram ser preciso ter cuidado no uso desses procedimentos. Para eles, era
96 Segundo Adorno e Salla (2007), o Primeiro Comando da Capital (PCC) é uma organização
criminosa cujo centro irradiador de suas ações está estruturado no interior do sistema prisional de São Paulo. Em maio de 2006, o PCC foi responsável por uma onda de violência que causou uma surpreendente ―paralisação das atividades na maior cidade do país‖ (p. 7), além de terem mobilizado rebeliões em 73 presídios do Estado. Caldeira (2002, p. 45) destacou que os membros do PCC descrevem a organização como um partido e ―justificam suas ações criminais e o ciclo de terror que comandam nos presídios em nome da justiça, da paz e da liberdade‖. Sobre o PCC, ver: BIONDI, K. Junto e misturado: uma etnografia do PCC. São Paulo, Terceiro Nome/Fapesp, 2010.
perigoso votar temas dessa natureza em meio ao cenário de comoção social provocado pela morte de João Hélio.
No dia 12 de fevereiro, a Folha deu visibilidade à argumentação de Helen Gracie, então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Em depoimento publicado na Folha, Gracie afirmou que "geralmente se discute mudança da legislação quando há clima de comoção e emoção no país e isso não é a melhor
hora da discussão‖ (MATIAS, 2007). A Presidente do STF também ressaltou que ―a
questão da criminalidade é bem mais ampla do que endurecimento de pena e dos regimes prisionais" (idem). No mesmo dia, a Folha ressaltou manifestação de Arlindo Chinaglia que negou estar cedendo a pressão popular para acelerar a votação dos projetos incluídos na pauta da Câmara dos Deputados. Segundo o Presidente da Câmara, ―não há necessidade de acontecer um caso novo para que nós saibamos que temos um drama nesse país. Anunciamos antes da duríssima tragédia essa
definição [da pauta]‖ (GUERREIRO, 2007a).
As discussões presentes nos meios de comunicação - principalmente aquelas que fizeram uma conexão direta do crime com as votações na Câmara - evidenciaram a dimensão biopolítica da morte calvário, cujo impacto possibilitou às instâncias de produção ter fôlego para continuar pautando o acontecimento a partir da sua reverberação no poder legislativo. Isto demonstra como, no interior da arena política, os repertórios seguem uma dinâmica de relação com o acontecimento, mas as manifestações refletem um compromisso maior com o bem público, que deve ser afirmado para além das dinâmicas ativadas pelo acontecimento.
Assim, a morte calvário do menino é algo que desperta atenção e reconhecimento dos agentes responsáveis pela condução dos dispositivos de controle e normalização das condutas, mas, ao mesmo tempo, eles se utilizam da
sua posição de homens públicos97 para afirmar um compromisso que ultrapassa as
dimensões referentes às eventualidades expostas pelo acontecimento. Os meios de comunicação têm um papel fundamental na produção dos sentidos presentes nessa trama, na medida em que polemizam as condutas do poder em suas dimensões performáticas. Ao questionar os responsáveis pelo cuidado com o bem público, as instância de produção criam conexões entre a morte calvário e os seus possíveis efeitos, mesmo quando negados, nas esferas de organização legal da sociedade.
97 Sobre o homem público e transformações nas suas representações ver SENNETT, R. O declínio
O próprio Presidente Lula se manifestou a respeito da repercussão da morte de João Hélio nas votações de projetos de segurança, ressaltando a necessidade de cautela em virtude do momento de comoção social pelo qual passava o País. A Folha deu destaque à manifestação do Presidente nas palavras de Ideli Salvatti, então líder do PT no Senado. Segundo ela,