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2 A MORTE DE UMA ESTRELA: COMUNICAÇÃO E PODER EM TORNO DE UMA VIDA

4.1 A morte calvário

A história da morte de João Hélio começou a se desenrolar na noite do dia 07 de fevereiro de 2007, em um assalto a carro, no cruzamento da Rua João Vicente com a Estrada Henrique de Melo, no Bairro Oswaldo Cruz, localizado na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Enquanto estava parada em seu carro, com sua filha ao lado e o seu filho João Hélio no banco traseiro, Rosa Cristina foi abordada por três homens armados que anunciaram um assalto. Ela e sua filha abandonaram o veículo. Quando Cristina tentou pegar o filho, que estava no banco traseiro do veículo, os assaltantes arrancaram em seu carro. João Hélio ficou preso ao cinto do banco traseiro do carro e acabou sendo arrastado por cerca de sete quilômetros. Na época, várias testemunhas do acontecimento vieram a público afirmando que tentaram desesperadamente avisar os assaltantes que o menino estava preso ao cinto, mas eles teriam ignorado os alertas das pessoas.

A Revista Veja, em sua edição do dia 14 de Fevereiro de 2007, deu notoriedade ao caso - a matéria traz diversas discussões a respeito do caso, que serão abordadas ao longo do capítulo em momentos distintos -, publicando em seu

decorrer uma imagem do percurso percorrido pelos assaltantes. Intitulado ―Rastro de

Horror‖, o mapa revela todo percurso transcorrido com o corpo do menino. Observa- se que foram percorridos quatro Bairros da Capital carioca: Oswaldo Cruz, Madureira, Campinho e Cascadura, onde o carro foi abandonado pelos assaltantes.

Figura 18 - Rastro de Horror.

Ao descrever o acontecimento, os jornais, em suas primeiras notícias, já denunciavam que o caso seria tratado como um ato ―bárbaro‖, causado por ―monstros‖ e que, dentre outras coisas, denunciava o ―fim da civilização‖. No dia seguinte à morte de João Hélio, o Jornal Hoje, da TV Globo, começou com Sandra Annenberg informando que o telejornal iniciava ―com uma história de crueldade e covardia de assaltantes no Rio de Janeiro. E que deixa o País perplexo‖ (CRIANÇA, 2007). Ao narrar o acontecimento, ela abre um bloco de reportagens que traz depoimentos de duas testemunhas não identificadas na matéria. A primeira relata a sua tentativa de seguir em uma moto o carro com o menino. A segunda ressalta que trafegava em seu carro quando viu o veículo roubado arrastando o menino. Esta

testemunha relata que muitas pessoas gritaram: ―para, para, para‖, mas não foram

atendidas pelos assaltantes, que seguiram pelas ruas com o corpo do menino pendurado no cinto de segurança.

A matéria continua com depoimentos de pessoas que se emocionam ao falar do caso, destacando o fato de que era impossível não chorar diante do acontecimento. Ao final, o Jornal encerra-se com a voz embargada de Sandra Annenberg informando que a Polícia Militar tentou perseguir os assaltantes após receber a denúncia, mas não obteve sucesso, encontrando o menino já morto, ainda preso ao cinto do carro, que havia sido abandonado pelos assaltantes. Para fechar,

esforçando-se para conter o choro, Sandra diz que ―o corpo de João Hélio

Fernandes de seis anos está no Instituto Médico Legal‖. A matéria do Jornal Hoje exemplifica sentimentos que permearam o acontecimento. Em relação aos acusados, como se discutirá adiante, não lhes restou espaço para qualquer tipo de manifestação, sendo os mesmos classificados como monstros, bárbaros, desumanos, covardes e cruéis. Além desse dado, a relação dos jornalistas com a notícia foi um fato marcante desse acontecimento que comoveu os profissionais envolvidos na cobertura do caso João Hélio.

Diante da falta de mistério ou sentido, em um acontecimento que poderia ser narrado com toda riqueza de detalhes, restaram às instâncias de produção recorrerem a discursos que ressaltassem o caráter dramático do acontecimento,

enfatizando os sentimentos produzidos por um crime que ―chocou o país‖ e a própria

imprensa. Despertou atenção na análise crítica do discurso das reportagens sobre o crime a expressão de sentimentos dos jornalistas responsáveis pela produção dos conteúdos. Lágrimas, angústia e revolta dos produtores de conteúdos para a

imprensa se tornaram públicos com a finalidade de ressaltar a dimensão dramática do acontecimento. Assim, o Portal O Globo Online deu visibilidade a discursos produzidos com intuito de transmitir a dor dos produtores a respeito do acontecimento, como presente nos textos de Selma Schmidt, intitulado ―A matéria que mais me comoveu‖ (2007), e de Ancelmo Gois, ―Dia terrível para ser jornalista‖ (2007).

Ser repórter não nos torna imunes ao sentimento, à emoção. Especialmente quando, mais que repórter, se é mãe. É muito difícil conter as lágrimas quando a gente tem de apurar e escrever sobre um crime bárbaro como o do João Hélio. Durante todo o tempo em que participei da cobertura, na quinta-feira, um pensamento me atormentou: em vez do João Hélio poderia ser meu filho, o filho de qualquer um de nós, cidadãos cariocas que têm de conviver com o avanço da violência. Que mãe, preocupada com a segurança de sua criança, não põe o filho pequeno no banco de trás do carro, numa cadeirinha e preso com cinto de segurança? Como imaginar que bandidos sequer permitam que uma mãe retire seu filho de apenas 6 anos do carro, antes de roubarem o veículo? (SCHMIDT, 2007).

Os críticos costumam dizer que nós, operários da notícia, somos insensíveis. A fama vem do dia a dia, que nos obriga (especialmente no Rio) a coberturas cada vez mais dramáticas. Mas há, sim, fatos que nos levam às lágrimas - como a terrível história de João Hélio, o menino arrastado por sete quilômetros pelos bandidos que roubaram o carro de sua mãe. (GOIS, 2007).

Schmidt ressalta um sentimento que foi central na abordagem escolhida pelos meios de comunicação para abordar a morte de João Hélio. Uma morte em um dia comum, como qualquer outro, em que se desdobravam ações decorrentes da rotina comum de uma mãe de classe média com seus dois filhos. O ato de preocupação e cuidado com a segurança da criança, ao deixá-la no banco traseiro do veículo com o cinto de segurança, foi um elemento decisivo na morte, e este cuidado transformado em elemento crucial da tragédia. Para a imprensa, não fazia sentido a consequência da ação dos envolvidos ter promovido uma cena brutal que foi testemunhada pela mãe e outras pessoas que gritaram tentando avisar a respeito

da situação. Diante da ―barbaridade‖, como destaca Schmidt, foi difícil escrever

sobre o acontecimento por não ser possível encontrar nas palavras uma explicação que oferecesse uma explicação razoável, restando transformar em discurso o sentimento de perplexidade produzido pelo acontecimento.

Outro dado importante revelado pela repórter é a própria angústia de ser um profissional comprometido com a reponsabilidade de narrar o acontecimento. Fato compartilhado por Ancelmo, que, ao responder às críticas sobre insensibilidade

comuns aos jornalistas, ressalta que tais acontecimentos não deixam de produzir tristeza e lágrimas nos profissionais comprometidos em transformar as mortes de pessoas como João Hélio em notícia. Ao destacar seu próprio sentimento de mãe, Schmidt ressalta um elo social e emocional que faz parte da vida social como referência de um conteúdo intersubjetivo que organiza sentidos de práticas de toda sociedade. Não foi possível falar sem retratar a dor da mãe, que foi testemunha dos últimos momentos do menino.

Neste modelo de construção da notícia, em que a dor é agenciada como um efeito sobre a própria elaboração das instâncias de produção, é importante destacar que, conforme destaca Mouillaud (2002, p. 38), pôr em visibilidade o

acontecimento não pressupõe apenas uma forma de fazer, mas ―contém

modalidades de poder e do dever‖. Assim, as notícias têm um caráter imperativo,

como é possível observar nesse e nos demais acontecimentos estudados nesta tese. A dor evidenciada pela mãe e sentida pelos jornalistas é aquilo que a sociedade deve saber em virtude do acontecimento. Ao falar da morte de João Hélio, os meios de comunicação não apenas se preocuparam em descrever as emoções da família, mas se tornaram veículo de transmissão da emoção de seus produtores. Assim, como o discurso indignado de Willian Bonner, no caso Tim Lopes, as lágrimas e desolações dos jornalistas que produziram conteúdos sobre a morte de João Hélio foram componentes presentes em matérias que não apenas descreviam o caso, mas, sobretudo, expressavam emoções e reflexões sobre um crime que as instâncias de produção julgavam afetar a sociedade como um todo.

Como demonstrado na imagem que abre esse capítulo, o sofrimento da mãe de João Hélio foi considerado um foco das notícias sobre o caso. Além da perda de seu filho, ela era a porta voz do acontecimento, sendo a responsável pelo fio condutor da narrativa composta por ações e sentimentos que se transformaram em notícias a partir do seu relato. Ao contrário das mortes de Isabella e Tim Lopes, cujos acusados eram os únicos a disporem da verdade sobre o acontecimento, a morte de João Hélio teve como testemunha a sua própria mãe. O valor de seu testemunho teve uma dimensão muito significativa, pois em seu relato não apenas o desdobramento dos pequenos golpes que tornaram o acontecimento possível foi foco. Sobretudo, o seu desespero diante do acontecimento foi pautado nos meios de

comunicação como reflexo de seu estado de choque diante da cena ―brutal‖ que foi

obrigada a presenciar79.

Seu testemunho ecoou nos meios de comunicação, podendo ser observado pelo público em uma entrevista concedida ao Programa Fantástico e em um depoimento dado ao final de um capítulo da Novela Páginas da Vida, ambos produtos da Rede Globo de Televisão. Em seu discurso, ela narra tanto as ações de cada pessoa presente na cena do crime quanto o seu sofrimento diante de algo que escapou das suas possibilidades de evitar a morte do filho.

Fátima Bernardes: Rosa Cristina, você consegue lembrar da cena exatamente como ela aconteceu?

Rosa Cristina: Acho que posso me lembrar, posso não ser perfeita em alguns detalhes. Eu vinha na via que é o retorno para a minha casa e é uma via de mão dupla. Tinha um sinal e um carro parado na frente. Eu sei que à noite não devemos parar em sinal, mas tinha um carro já parado. Nesse momento, em que o sinal estava fechado, dois homens correram e foram para cima dos carros. Na mesma hora em que eles entraram nos carros, dois de trás já saíram armados para cima da gente, desse carro que estava na frente. E ele falou: ‗sai sua vagabunda‘. E eu pedi para tirar meu filho e disse: ‗sai Aline, sai e tira seu irmão‘. Aí eu puxei ele e falei: ‗o cinto está aqui, calma que eu vou tirar‘. E ele: ‗não, sua vagabunda, anda logo‘. E bateu a porta e eu não pude fazer nada.

Fátima Bernardes: Em nenhum momento você imaginava nem reagir, você já estava entregando o seu carro.

Rosa Cristina: Eu entreguei tudo, nunca reagi. Já fui assaltada e entreguei tudo. Eu só quis o meu filho. Eu queria o meu filho. Quando eu vi que ele foi arrastado, eu sabia que não tinha como corrigir aquilo, como livrar ele da morte.

Fátima Bernardes: Quando você foi abordada, você consegue lembrar quem assumiu o volante?

Rosa Cristina: A pessoa que saltou do lado esquerdo, me rendeu, assumiu a direção e desses dois era o mais alto. E esse foi o que viu eu tirar o João e eu falei ‗o cinto ainda está aqui, espera que eu vou tirar‘. E ele: ‗vai logo sua vagabunda‘, entrou no carro e arrancou.

Fátima Bernardes: Mas a porta de trás permanecia aberta com você tentando tirar o menino?

Rosa Cristina: Isso, aí na hora que ele me xingou ele empurrou, bateu a porta e eu ainda tentei levantar o cinto e não consegui porque ele arrancou. (DESABAFO..., 2007).

No dia 7 de Fevereiro, eu fui levar meus dois filhos para fazer evangelização, como toda quarta-feira. Eu fui sozinha porque o meu marido não podia ir comigo. Na volta, eu fui abordada e nesse assalto arrastaram o meu filho preso ao cinto de segurança por sete quilômetros. Eu queria ter poderes, poderes de super-herói mesmo, de poder levantar voo e tirar meu filho daquela situação. Eu corri, corri com a minha filha. Mas eu sabia que ali o fim dele já tava traçado.

(PAIS..., 2007).

79 Para uma discussão sobre o trauma gerado por mortes violentas, ver SOARES, G. A. D. et al. As

O testemunho da mãe possibilitou que não houvesse grandes mistérios sobre como o crime havia acontecido, pois o relato era objetivo. Um relato que poderia ser de um dia qualquer ou de um assalto sem consequência, mas que, a partir da maneira como aconteceu, ganhou notoriedade, mobilizando os meios de comunicação a produzir material a respeito do acontecimento. Na entrevista, a mãe narra a ação dos assaltantes, que a ameaçaram com armas empunhadas em sua direção e a ofenderam com palavras de baixo calão. Ela ressalta que não ofereceu nenhuma resistência, agindo como se deveria agir qualquer vítima prudente em conservar sua integridade física e de seus filhos. Não obstante, os assaltantes não lhe deram a chance de resgatar seu filho, que, ao ficar preso no cinto de segurança, foi arrastado pela ação, interpretada como deliberada, dos assaltantes.

O discurso, então, busca dar sentido para as sensações experimentadas naquele momento, diante da impossibilidade de resgatar seu filho e da certeza de que sua vida havia se encerrado de maneira brutal em uma ação que poderia ter tido outro final, desde que os assaltantes tivessem permitido que ela retirasse João Hélio.

O testemunho da mãe de João Hélio fala de um acontecimento que ela experimentou em sua vida cotidiana. Ao falar do acontecimento, ela fala não apenas de uma experiência, mas também de um conhecimento produzido pela experiência que pode ser observado como ―um conhecimento pelo sofrimento‖ (DAS, 2008). Veena Das (2008) interpreta esse tipo de conhecimento como uma forma de conhecer produzida pela relação entre a formação do sujeito e a experiência da subjetivação, compreendida por ela a partir do trabalho de Foucault sobre as

prisões80. Para Veena Das, assim como a prisão invade a alma do preso para

produzi-lo, a experiência da violência invade a vítima para produzi-la. A sua vida é a

vida traduzida pelo conhecimento do sofrimento causado pela experiência81. Assim,

como ressalta Jimeno (2008, p. 287), recuperar a experiência da violência no

testemunho torna possível ―el transito entre esta como acto único, subjetivo y como

experiência social‖. Posto isto, compreende-se que, ao ser agenciado pelas instâncias de produção, o testemunho da mãe de João Hélio torna a experiência

80 Ver FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 35ª ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

81 Veena Das (2008) fala desse tipo de conhecimento como um conocimiento envenenado. Ver DAS,

V. El acto de presenciar: violencia, conocimiento envenenado y subjetividade. In: DAS, Veena. Sujetos del dolor, agentes de dignidade. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, Facultad de Ciencias Humanas, Pontificia Universidad Javeriana. Instituto Pensar, 2008.

vivida constitutiva tanto do acontecimento como noticia, quanto de subjetividades produzidas pela maneira que ele é retratado.

Além do testemunho da mãe, as falas e emoções do pai de João Hélio, Hélio, também aparecem como elementos que interessam à notícia em sua intencionalidade de transmitir e expressar a dor pela perda de um filho.

Quando ela me ligou pra dizer o que tinha acontecido eu fiquei louco em casa, peguei meu carro, fui dar a ré, bati com o carro, liguei pro meu irmão e pedi que ligasse para a polícia. Eu estava sem camisa, do jeito que eu estava eu fui. Inclusive as pessoas foram muito solidárias na rua. Acho até que eu passei por ela em outro carro procurando, um rapaz que estava na rua me arranjou uma camisa, me levou até a delegacia. Eu fiquei cego, desesperado, prevendo que alguma coisa muito ruim ia acontecer. (DESABAFO..., 2007).

Seu desespero, diante do acontecimento incompreensível, é narrado por ele a partir de atitudes que o refletem. Desespero produzido por saber de algo que o arranca de sua rotina e de suas expectativas de homem comum para transportá-lo violentamente para o acontecimento conhecido. Essa situação traduz o que Soares et. al (2006) observaram em relação ao fato de que, para uma pessoa experimentar e saber da morte de um ente querido, é algo que a coloca em uma situação

―emocional difícil‖ e traumática cujas consequências refletem em seu próprio corpo82.

Ao longo da entrevista concedida ao Fantástico, o pai de João Hélio relata que a sua dor é acompanhada das lembranças do filho. Para ele, o sofrimento é ―muito grande‖, pois representa a perda de um filho estimado e amado. João Hélio é

retratado em suas falas como uma ―criança muito especial‖. Ao resgatar essa

memória, ele ressalta como o filho estava feliz devido à mudança que faria com a família para outra casa. Este novo lar estava sendo preparado na intenção de proporcionar ao filho e à irmã mais espaço e conforto. A casa nova, em que João

teria ―um quarto só para ele‖, é o símbolo de tudo aquilo que morte interrompeu. Ela

é o contrapondo simbólico da casa velha, traduzida na fala do pai como lugar em que ele e sua família não suportam mais estar. A casa velha perdeu seu sentido em função das lembranças que guarda e do sofrimento que elas causam em seus moradores. São as lembranças do filho que o pai, em virtude de sua ausência na cena, busca resgatar para falar e compor de sentido o acontecimento.

82 É importante ressaltar que, ao longo do texto, a análise se apoia na perspectiva de compreender as

pessoas que passam por uma experiência, como a do pai de João Hélio, como sobreviventes, mas Soares et. al. (2006) destacam que os efeitos emocionais dessa experiência são tão fortes que essas pessoas podem ser vistas como vítimas secundárias.

Assim, os últimos momentos com João Hélio também são resgatados em suas falas para as instâncias de produção como forma de expressar sua dor e tornar

o acontecimento traduzível pela via dos sentimentos comunicados83. Em seu

depoimento ao final da Novela Páginas da Vida, ele destaca que:

O dia em que aconteceu essa, essa brutalidade. Durante o dia, foi um dia até atípico, né. Ele fazia futebol de salão e nesse dia eu tive que resolver um problema exatamente do lado do clube. Como tava aguardando uma pessoa chegar, eu resolvi assisti-lo. Ele marcou, ele marcou um gol durante o jogo. Ele fez um gol que hoje até o professor falou que pela primeira vez ele fez um gol durante o jogo, né! E eu tenho certeza que naquele momento que eu vibrei junto com ele, participei, todo pai que tiver me assistindo agora vai tá sentindo a minha dor. Como é acompanhar o filho no futebol, vibrar com ele, participar, ser pai acima de tudo. Então, esse momento vai ficar marcado, como todos os outros, vai ficar marcado para sempre. Essa foi a nossa despedida. Que através de um crime brutal... [encerra com choro sem conclusão da última frase]. (PAIS..., 2007)

Todos os discursos dos pais de João Hélio, exibidos nos meios de comunicação, tencionavam transmitir a ideia de que a dor sentida por eles poderia ser sentida por qualquer pai ou mãe que pudesse imaginar o que significa a morte de um filho amado e cuidado com todo carinho. No discurso do pai, não se visualiza

uma narrativa ―estarrecedora‖ e reconstitutiva da cena, como presente nos relatos

da mãe, mas observa-se um sofrimento compartilhado pelos dois e que busca encontrar eco em suas iniciativas de tentar compartilhar esse sentimento com demais pessoas que tomam conhecimento da sua dor pelos meios de comunicação. Os afetos pertinentes à vida em família são formas pela qual o sofrimento é comunicado, tentando criar conexão intersubjetiva com os que o podem pela relação mediada pelo canal de televisão. Verifica-se nos depoimentos apresentados