2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.5 LEI DOS CRIMES AMBIENTAIS (LEI Nº 9.605/1998)
A Lei dos Crimes Ambientais (LCA) apresenta uma penalização mais rigorosa para diversas ações que antes não eram consideradas crimes, ou eram regulamentados por uma legislação esparsa, com textos desatualizados ou conflitantes.
A LCA além de estabelecer a prevalência dos interesses coletivos sobre os individuais, apresenta maior clareza na individualização da responsabilidade criminal, ao prever penas alternativas à prisão, tais como: a prestação de serviços à comunidade, a cassação de licença e a interdição temporária de direitos, como o de exercer cargo, função ou mandato públicos, ou mesmo de contratar com o poder público.
Essa Lei, no Art 3º, prevê penas restritivas de direito a ‘pessoas jurídicas’, tais como: a suspensão de seu funcionamento, interdição temporária, proibição de contratar com o Poder Público, bem como dele obter subsídios, subvenções ou doações.
As penas restritivas de direitos estão relacionadas à exigência de reparação do dano: “Retribuir o mal concreto do crime, com o mal concreto da pena, na concreta personalidade do criminoso”.19
Esta Lei prevê a possibilidade de apreensão dos instrumentos utilizados para agredir o ambiente, que poderão ser vendidos, doados ou destruídos; penaliza quem danificar ninho, abrigo ou criadouro natural, e prevê a punição para quem abandonar substâncias tóxicas, perigosas ou nocivas à saúde humana ou ao ambiente.
Proíbe, ainda, a autorização de queimadas sem vistoria em Unidades de Conservação, mas não prevê qual é o órgão competente para emitir a autorização para essas queimadas,
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HUNGRIA, Nélson; FRAGOSO, Heleno C. Comentários ao Código Penal. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1978. t.1.
estabelecendo tão somente o prazo de 15 dias para emissão das respectivas autorizações sob pena de ocorrer uma autorização tácita (sem vistoria).
O Ministério Público utiliza-se da LCA para efetuar ações mediadoras junto às Prefeituras Municipais, no trato das atividades de degradação do meio ambiente, como por exemplo, o lançamento de esgotos domésticos e resíduos sólidos urbanos a céu aberto.
No Art 15, são previstas as circuntâncias que agravam a pena, que são os casos em que o dano ambiental for cometido à noite, domingos, feriados, em épocas de seca ou inundação, devido ao fato de que em tais momentos é mais difícil à sua fiscalização e o próprio combate ao resultado, sendo o objetivo do legislador punir aqueles que se aproveitam de tais situações para cometer atos ilícitos.
Antes da vigência dessa Lei, os crimes contra a flora e fauna eram regulamentados como oriundos do direito à propriedade, as leis em vigor não regulamentavam a proteção ambiental como instrumento essencial à saúde do ser humano.
A LCA revogou parcialmente a Lei de Proteção a Fauna20, afirmando que o ambiente deve ser protegido não em razão de ser um bem passível de apreensão e propriedade, mas em razão de ser um bem de uso comum do povo.
A fauna brasileira é protegida igualmente de eventuais desequilíbrios ecológicos causados pela introdução de espécime que possam causar danos e conseqüências incalculáveis.
No Art 32 a Lei prevê que praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos, constitui-se crime, no entanto,
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BRASIL. Lei N° 5.197, de 03 de janeiro de 1967. Dispõe sobre a Proteção à Fauna. Disponível em: www.lei.adv.br/5197-67.htm. Acesso em: 24 mai. 03.
ela não define o que é “praticar abuso”, permitindo que qualquer ato de experimento, pesquisa ou ensino seja considerado crime, quando resultar em sofrimento para o animal.
A LCA, em seu Art 40, estabelece que as Unidades de Conservação compreendem de forma ampla todos os parques nacionais, estaduais ou municipais, sendo neste ponto claramente abusiva, pois criminaliza desnecessariamente uma conduta difusa.
Prevê ainda, no Art 41, que o crime de incêndio em matas e florestas pode ser cometido por omissão, quando presente o dever jurídico de impedir o resultado, sendo também admissível a sua tentativa se o mesmo causar poluição. A penalização da ação de soltar balões, do Art 42, apresenta uma lacuna por não envolver a conduta de quem os adquire, guarda ou mantém em depósito, não preve um agravamento da pena para os casos em que ocorrer incêndios.
É crime segundo o Art 49: “destruir, danificar, lesar ou maltratar plantas de ornamentação de logradouros públicos ou em propriedade privada alheia”. Pelo rigor legislativo, chega-se ao absurdo de entender como ação criminosa o ato de pisar, mesmo que involuntariamente, nas plantas de praças públicas, havendo uma desproporcionalidade entre a sanção privativa de liberdade e o prejuízo causado.
O funcionário público que conceder licença, autorização ou permissão para atividades, obras ou serviços, em desacordo com as normas ambientais, pode ser penalizado, segundo o Art 67, também, caso venha a cometer esse crime sem o dolo, ou seja, sem a intenção voluntária.
O Art. 76º da LCA permite identificar, em cada situação, o titular da competência para utilizar o poder de polícia administrativo. O dispositivo não fixa regras de ‘prevalência’ entre as multas impostas simultaneamente por Estados e Municípios. Esse artigo apresenta multas
administrativas situadas entre 50 reais e 50 milhões de reais, observando-se que nunca poderão ser inferiores ao benefício econômico esperado pelo infrator com a sua conduta.
Essa multa, além de poder ser aplicada cumulativamente com outras espécies de multas, tem seu valor triplicado para os casos em que ocorrer reincidência da infração. As pessoas jurídicas que atuam na área ambiental ou cultural e integram a Administração Pública estão habilitadas a receber os valores arrecadados provenientes da aplicação de multas.
A maior multa (168 milhões de reais), baseada na Lei 9605/98 registrada até 2002, foi aplicada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais e Renováveis (IBAMA) à empresa Estatal Petróleo Brasileiro SA (PETROBRÁS), em decorrência do vazamento de óleo no Rio Iguaçu (Paraná), no dia 16 de julho de 2000.
A multa aplicada teve seu valor triplicado, tendo em vista que a Estatal foi reincidente dentro de um prazo inferior a três anos; também foi aplicada a multa triplicada de um milhão de reais por ter causado prejuízo à fauna aquática no mesmo rio, bem como a multa (também triplicada) de cinco milhões de reais por ter danificado 150 hectares de terras localizadas dentro de uma área de preservação permanente.21
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