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A Lei 4.121 foi introduzida no Brasil em 27/08/1962. Anteriormente a ela, a mulher casada não gozava da sua capacidade plena. Era incapaz relativamente a certos atos e à maneira de exercê-los. Percebe-se isso ao confrontarmos a redação do Código Civil de 1916 com a nova redação da Lei 4.121/62. Passaremos, portanto, à análise de alguns artigos do Código de 1916 e como ficaram a partir da Lei 4.121/62.

No art. 6º do Código de 1916, temos:

Art.6 – são incapazes, relativamente a certos actos (art.147 n.1), ou à maneira de os exercê-los – os maiores de dezesseis e menores de vinte e um annos [...]; II – As mulheres casadas, emquanto (sic) subsistir a sociedade conjugal; III – Os pródigos; IV – Os silvícolas74. (Grifo nosso)

Entretanto, na nova redação, com a lei 4.121/62 exclui-se o parágrafo II concernente às mulheres. Temos, portanto, a retirada da mulher casada do grupo dos incapazes relativamente a certos atos e à maneira de exercê-los. Ruth Bueno menciona que o que pretendia o Código Civil ao atribuir incapacidade relativa à mulher nada mais era que buscar apoio para regular os direitos de família, delegando o predomínio da autoridade do marido75.

Outro artigo a ter mudado sua redação é o 233: “O marido é o chefe da sociedade conjugal”. Com a Lei 4.121/62, assim dispõe o referido art.: “O marido é o chefe da sociedade conjugal, função que exerce com a colaboração da mulher, no interesse comum do casal e dos filhos”. (arts. 240, 247 e 251). Vemos que a chefia da sociedade conjugal – outrora de competência exclusiva do marido – torna-se limitada com o Estatuto da Mulher Casada, uma vez que ressalta a necessidade da colaboração das mulheres com a finalidade de visar ao interesse do casal e dos filhos. Ainda no art. 233, o inciso III – “Ao marido é dado o direito de fixar e mudar o

73 As análises feitas sobre o Estatuto da Mulher Casada foram baseadas na obra de: BUENO, Ruth. Regime jurídico da mulher casada. 3ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 1972.

domicílio da família”, assim passou a viger: “Ao marido compete o direito de fixar o domicílio da família, ressalvada a possibilidade de recorrer a mulher ao juiz, no caso de deliberação que a prejudique”. Fica expresso assim ao marido que o mesmo não poderá, a arbítrio seu e com prejuízo para a mulher, fixar o domicílio do casal de acordo com a sua exclusiva conveniência, porque assiste às mulheres o direito de recurso ao juiz76.

Com relação ao item “Manutenção da família”, Ruth Bueno relata que considera uma das grandes melhorias da Lei 4.121/62 o caráter de obrigatoriedade para que as mulheres contribuam com as despesas comuns, desde que tenham benefícios próprios. Segundo a autora, uma grande incoerência permeia as reivindicações dos direitos para as mulheres: a não aceitação do ônus que tais direitos deve necessariamente decorrer. A autora reforça que a grande dificuldade de equiparação plena dos direitos das mulheres aos dos homens está na dependência econômica.

Assim, no art. 233, inciso IV, está: “Compete ao marido prover a manutenção da família”. Com o art. 2º da Lei 4.121/62, assim passa a viger: “A mulher tendo bens ou rendimentos próprios, será obrigada, como no regime da separação de bens, a contribuir para as despesas comuns, se os bens comuns forem insuficientes para atendê-las”77.

Para Ruth Bueno, tal proposição é criticável na medida em que condicionou à insuficiência dos bens comuns e à existência de bens e rendimentos próprios da mulher a sua contribuição para as despesas comuns. Segundo a mesma, deveriam ter determinado pura e simplesmente que ao casal compete o sustento da família, excluindo o inciso IV do art. 233.

Com relação à “Direção material e moral da família”, Ruth Bueno enfatiza o art. 240 do Código Civil que assim dispõe: “a mulher assume, pelo casamento, com os apelidos do marido, a condição de sua companheira, consorte e auxiliar nos encargos da família”. Com a nova redação da Lei 4.121/62, assim fica o art. 240: “A mulher assume, com o casamento, os apelidos do marido e a condição de sua companheira, consorte e colaboradora dos encargos da família, cumprindo-lhe velar pela direção material e moral desta”78.

A retirada do marido da posição de chefe exclusivo da sociedade conjugal, porque não poderia mais exercer esse encargo sem a colaboração da mulher, inovou ao retirar a mulher

75 BUENO, Ruth. Regime jurídico da mulher casada. op. cit. p. 14. 76 Ibid., p. 20.

77 Ibid., p. 20. 78 Ibid., p. 22.

da condição de auxiliar do marido. Com a referida lei, tanto o marido quanto a mulher se unirão no desempenho dos encargos da família. O termo auxiliar, outrora utilizado, poderia significar, quando muito, a direção dos trabalhos domésticos. Outro ponto de grande relevância é o acréscimo dado com a referida Lei, ao dispor que cumpre à mulher velar pela direção material e moral da família, atribuindo-lhe a mesma participação ativa no âmbito familiar.

Outro ponto de destaque está no item “Autorização marital”, o art. 242 do Código Civil assim versava sobre tal item:

A mulher não pode, sem autorização do marido: I – praticar atos que este não poderia sem o consentimento da mulher; II – alienar, ou gravar ônus real os imóveis de seu domínio particular, qualquer que seja o regime dos bens; III – alienar os seus direitos reais sobre imóveis de outrem; IV – aceitar ou repudiar herança ou legado; V – aceitar tutela, curatela ou outro múnus público; VI – litigar em juízo cível ou comercial, a não ser nos casos indicados nos arts. 248 e 251; VII – exercer profissão; VIII – contrair obrigações que possam importar em alheação de bens do casal; IX – aceitar mandato79.

Com a nova redação da Lei, assim passou a viger:

A mulher não pode, sem autorização do marido: I – praticar os atos que este não poderia sem o consentimento da mulher; II – alienar, ou gravar de ônus real os imóveis de seu domínio particular, qualquer que seja o regime de bens; III – alienar os seus direitos reais sobre imóveis de outrem; IV – contrair obrigações que possam importar em alheação de bens do casal80.

Em nenhum outro artigo a incapacidade dada à mulher pela sociedade ficou tão claramente expressa como nesse artigo. Os dois textos, o novo e o velho, são idênticos até o inciso III; os incisos IV a VII e o IX do texto antigo foram suprimidos; ficou, sob o nº IV, o inciso VII do texto revogado. Em suma, nesse artigo, os avanços foram poucos e a Lei 4.121/62 manteve, com a mesma redação, o art. 242 nos incisos I, II, III, e VIII. O primeiro faz depender da autorização marital os mesmos atos para cuja prática o marido necessite da autorização da mulher. O segundo e o terceiro se referem a direitos reais sobre imóveis e o oitavo veda à mulher contrair obrigações que possam importar em alheação dos bens do casal. Ainda em 1962, as mulheres continuavam a serem consideradas desprovidas de raciocínio e sem capacidade de administração dos bens do casal e até delas mesmas.

Um item que foi abolido e que merece destaque se refere à retirada da autorização do marido para que a mulher pudesse exercer profissão, uma vitória de muitas mulheres que, por

79 BRASIL. Código Civil. 2004. op. cit. p. 1554.

vezes, ficavam presas aos seus maridos financeiramente pelo fato de os mesmos não permitirem que elas trabalhassem fora do recinto do lar. Aferradas à velha tradição que mantinha as mulheres sob a condição de submissas ao marido, muitas foram as dificuldades para a ampla aplicação dessa Lei, especialmente no que tange ao comércio.

Muitos outros artigos ganharam nova redação e a Lei 4.121/62, denominada Estatuto da Mulher Casada, sendo lei civil, modificadora do Código Civil, veio regular inteiramente, e de forma nova, a situação jurídica das mulheres casadas. Ainda que não tenham sido as leis que “permitiram” às mulheres uma vida com menor subordinação, uma vez que foram as mesmas que conquistaram o espaço e a legitimação no discurso social, não se pode deixar de entrever os méritos do Estatuto, que teve como “carro-chefe” a abolição da incapacidade feminina, revogando diversas normas discriminatórias. Outro fator importantíssimo e já ressaltado foi a consagração do princípio de livre exercício da profissão das mulheres casadas, permitindo que estas tivessem aparato legal para ingressarem livremente no mercado de trabalho, tornando-as economicamente produtiva, aumentando a importância das mulheres nas relações de poder no interior da família. Esse aumento do poder econômico feminino trouxe decisivas modificações no relacionamento pessoal entre os cônjuges.

A Lei 4.121/62 em muito contribuiu para as conquistas das mulheres, entretanto, vale enfatizar que essa mudança foi árdua e demorada e restaram muitas desigualdades, como a permanência dos homens como chefe da família; o pátrio poder que eles continuaram a exercer "com a colaboração das mulheres"; o direito do marido de fixar o domicílio familiar – mas o arbítrio masculino foi bastante reduzido, pois às mulheres foi facultado o direito de socorrerem-se no judiciário em caso de deliberação que as prejudicasse –; manteve a obrigatoriedade do uso do patronímico do marido e, por fim, a existência de direitos diferenciados em desfavor das mulheres, sendo revogados apenas com o Código Civil de 2002.

Apesar das continuidades no que tange à desigualdade entre os gêneros, não podemos deixar de reiterar os grandes avanços obtidos com a Lei 4.121/62. Ela foi um marco na conquista das mulheres em prol da sua independência, pois, afinal, se hoje as mulheres casadas, ao menos teoricamente, têm os mesmos direitos que os maridos – e somente não poderão praticar sozinhas aqueles atos que o cônjuge está impedido de realizar sem sua assistência –, muito se deve ao Estatuto da Mulher Casada.