CAPÍTULO 6 – LEI Nº 10.438/2002 E REGULAMENTAÇÃO ATUAL
6.4 LEI Nº 10.438/2002 E UNIVERSALIZAÇÃO DO USO
6.4.1 Critérios definidos pela Lei nº 10.438/2002
A Lei nº 10.438/2002 definiu os critérios para a inclusão de unidades consumidoras na subclasse residencial baixa renda, que anteriormente eram determinados pelas distribuidoras e homologados pelo Dnaee.
O art. 1º, § 1º, da norma legal estabelece que a residência atendida por circuito monofásico e que tenha consumo mensal inferior a 80 kWh seja considerada, para efeitos de classificação, como baixa renda, sem a necessidade de nenhuma outra comprovação.
Para consumos na faixa entre 80 a 220 kWh/mês, mantido o tipo de atendimento monofásico, a Lei determinou que a Aneel estabelecesse outros critérios para a classificação. O art. 1º, § 5º, determinou que, após o prazo de 180 dias sem regulamentação, o critério exclusivo de consumo mensal seria estendido para esses consumidores.
Lei nº 10.438, de 26 de abril de 2002
Art. 1º [...]
§ 1º O rateio dos custos relativos à contratação de capacidade de geração ou potência (kW) referidos no caput não se aplica ao consumidor integrante da subclasse residencial baixa renda, assim considerado aquele que, atendido por circuito monofásico, tenha consumo mensal inferior a 80 kWh/mês ou cujo consumo situe-se entre 80 e 220 kWh/mês, neste caso desde que observe o máximo regional compreendido na faixa e não seja excluído da subclasse por outros critérios de enquadramento a serem definidos pela Aneel.
[...]
§ 5º A regulamentação da Aneel de que trata o § 1º, referente aos consumidores com faixa de consumo mensal entre 80 e 220 kWh, será publicada no prazo de até 180 (cento e oitenta) dias e, ultrapassado este prazo sem regulamentação, será estendido a eles também o critério de enquadramento baseado exclusivamente no consumo mensal.
6.4.2 Regulamentação da tarifa residencial baixa renda
A Aneel, por meio da Resolução nº 246, de 30 de abril de 2002, estabelece que as unidades consumidoras atendidas por circuito monofásico ou bifásico equivalente e com média de consumo mensal dos últimos 12 meses inferior a 80 kWh, sejam classificadas na subclasse residencial baixa renda, com direito ao desconto previsto. Adicionalmente, para mitigar a inclusão de residência de veraneio, conforme determinado pelo art. 1º, § 7º, da Lei nº 10.438/2002, a regulamentação determina a exclusão da unidade com dois consumos registrados acima de 120 kWh/mês no período de um ano, mesmo que tenha média mensal inferior a 80 kWh nesse intervalo.
Para aquelas com consumo na faixa entre 80 e 220 kWh, o Decreto nº 4.336, de 15 de agosto de 2002, determinava que a Aneel observasse os mesmos critérios sócio-
econômicos estabelecidos no art. 3º do Decreto nº 4.102, de 24 de janeiro de 2002 que regulamenta o Programa “Auxílio-Gás”, destinado a subsidiar o preço do gás liquefeito de petróleo para famílias baixa renda.
Esse programa identifica as famílias alvo como aquelas com renda mensal per capita máxima equivalente a meio salário mínimo e integrantes do Cadastramento Único62 para Programas Sociais do Governo Federal ou dos programas Bolsa Escola63 ou Bolsa Alimentação64.
A Resolução nº 485, de 29 de agosto de 2002, fixa as regras de classificação com base nos critérios sócio-econômicos definidos pelo Decreto nº 4.336/2002, para as unidades com consumo médio mensal entre 80 e 220 kWh atendidas por circuito monofásico. Para obter o benefício da tarifa social, inicialmente, o responsável pela unidade consumidora deveria estar inscrito no Cadastro Único dos Programas Sociais do Governo Federal ou em um dos programas Bolsa Escola ou Bolsa Alimentação. A agência determina que, para efeito de classificação, sejam considerados esquemas de fornecimento de energia: monofásico a dois condutores (fase e neutro), monofásico a três condutores (monofásico com neutro intermediário) e o fase-fase em sistemas com secundário sem neutro.
Resolução nº 485, de 29 de agosto de 2002
Art. 1º Estabelecer, na forma desta Resolução, as condições para a classificação na subclasse residencial baixa renda de unidade consumidora com consumo mensal entre 80 e 220 kWh, que seja atendida por circuito monofásico.
62 O Cadastro Único é um banco de dados, centralizado na Caixa Econômica Federal, com o cadastro de todas as famílias com renda mensal de até meio salário mínimo por pessoa que tem por objetivo mecanismo para focalizar as políticas públicas nas famílias em situação de extrema pobreza.
63O Programa Bolsa Escola, criado em 2001 pelo Ministério da Educação, visa promover a educação das crianças de 6 a 15 anos de famílias com renda per capita mensal inferior a R$ 90,00, assegurando sua permanência na escola, por meio de incentivo financeiro de R$ 15,00, por aluno, limitado a 3 beneficiários por família.
64
O Programa Bolsa Alimentação, criado pelo Ministério da Saúde, consiste na promoção das condições de saúde e nutrição de gestantes, mães amamentando seus filhos menores de seis meses (nutrizes) e crianças de 6 meses a 6 anos e 11 meses de idade, em risco nutricional, pertencentes a famílias sem renda ou que possuam renda mensal de até R$ 90,00 per capita, mediante a complementação da renda familiar (R$15,00 por beneficiário até o limite de R$ 45,00) e o fomento à realização de ações básicas de saúde com enfoque predominantemente preventivo.
§ 1º Consideram-se como circuito monofásico, para efeito de classificação na subclasse residencial baixa renda, os seguintes esquemas de fornecimento de energia elétrica: I - monofásico a dois condutores (fase e neutro); e
II - monofásico a três condutores (monofásico com neutro intermediário).
§ 2º Considera-se como equivalente a circuito monofásico o fornecimento fase-fase em sistemas com secundário sem neutro.
A Lei nº 10.836, de 9 de janeiro de 2004, originária da conversão da Medida Provisória nº 132/2003, criou o Programa Bolsa Família65, unificando os programas de transferência de renda (Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Programa Nacional de Acesso à Alimentação também conhecido como “Fome Zero” e Auxílio-Gás) e mantendo como base o Cadastro Único.
Dessa forma, a Aneel, por meio das Resoluções nº 694/2003 e nº 44/2004, alterou a Resolução nº 485/2002 estabelecendo a diretriz de que as famílias cadastradas pelo Governo Federal com renda per capita até R$ 100,00 sejam as beneficiárias dos descontos dados na tarifa de energia elétrica da subclasse baixa renda. Durante o processo de unificação dos programas sociais, os consumidores ainda não atendidos pelo Programa Bolsa Família, devem comprovar a inscrição no Cadastro Único dos Programas Sociais ou em um dos programas de transferência de renda do Governo Federal.
Resolução nº 485, de 29 de agosto de 2002, com redação dada pela Resolução nº 44/2004
Art. 2º Deverá ser classificada na subclasse residencial baixa renda, sem prejuízo do que determina a Resolução nº 246, de 2002, a unidade consumidora que tenha consumo mensal entre 80 e 220 kWh, calculado com base na média dos últimos 12 (doze) meses, e seja habitada por unidade familiar cujo responsável esteja apto a receber os benefícios financeiros do Programa Bolsa Família, do Governo Federal.
§ 1º Para receber o benefício da subvenção econômica destinada à subclasse residencial baixa renda, o responsável pela unidade consumidora deverá estar inscrito no Cadastro Único do Governo Federal e enquadrar-se nas condições que o habilitem a ser beneficiário do Programa Bolsa Família, observando-se o respectivo período de transição e unificação a que se refere o § 2º deste artigo.
§ 2º Até que seja concluída a unificação dos procedimentos de gestão e execução das ações de transferência de renda do Governo Federal e alcançado o objetivo de
65 O Programa Bolsa Família prevê dois tipos de benefícios financeiros. O benefício básico corresponde a R$ 50,00 e destina-se às famílias em situação de extrema pobreza (R$ 50,00 de renda mensal per capita). O benefício variável corresponde a R$ 15,00 por pessoa, limitado a três benefícios, e destina-se às famílias em situação de extrema pobreza e de pobreza (até R$ 100,00 de renda mensal per capita) que tenham em sua composição gestantes, nutrizes (mulher que amamenta) ou crianças até doze anos ou adolescentes até quinze.
concessão de um único benefício por meio do Programa Bolsa Família, o responsável pela unidade consumidora deverá comprovar:
I - sua inscrição no Cadastramento Único para Programas Sociais do Governo Federal, criado pelo Decreto nº 3.877, de 24 de julho de 2001; ou
II - ser beneficiário do Programa Bolsa Escola, instituído pela Lei nº 10.219, de 11 de abril de 2001; ou
III - ser beneficiário do Programa Bolsa Alimentação, instituído pela Medida Provisória nº 2.206-1, de 6 de setembro de 2001; ou
IV - ser beneficiário do Programa Auxílio-Gás, instituído pelo Decreto nº 4.102, de 24 de janeiro de 2002; ou
V – ser beneficiário do Programa Cartão Alimentação, instituído pela Medida Provisória nº 108, de 27 de fevereiro de 2003.
A Resolução nº 485/2002 estabeleceu que, durante o prazo de 90 dias66, contados a partir da sua publicação, ficaria preservado o benefício dos descontos da tarifa baixa renda para os consumidores que atendessem somente aos critérios de classificação anteriores à Lei nº 10.438/2002.
No entanto, em virtude das dificuldades das Prefeituras realizarem o cadastramento dos consumidores nos programas sociais do Governo Federal67, tais como infra- estrutura, recursos financeiros e disponibilidade de pessoal, e atendendo às solicitações das entidades de defesa do consumidor, esse prazo para vigência simultânea dos critérios foi sucessivamente prorrogado pela Aneel: inicialmente até 31 de março de 2003 (Resolução nº 609/2002), até 30 de junho de 2003 (Resolução nº 136/2003), novamente até 31 de dezembro de 2003 (Resolução nº 308/2003) e finalmente até 29 de fevereiro de 2004, pela Resolução nº 694/2003.
Esta última regulamentação, com nova redação dada pela Resolução nº 44/2004, prevê que o consumidor que, embora não esteja inscrito nos programas sociais, se considere apto a ser beneficiário das ações de transferência de renda previstas na política social do Governo Federal, deve enviar à distribuidora declaração de que a renda da respectiva unidade familiar (até R$ 100,00 per capita) o habilita a continuar a receber o benefício da tarifa para consumidores baixa renda.
Nesse caso, o potencial beneficiário teria que, até 31 de julho de 2004, comprovar sua inscrição no Programa Bolsa Família, pois do contrário seria excluído desta
66 Até 27 de novembro de 2002.
67 Segundo a Aneel (2003c), até junho de 2003, somente cerca de 800 mil consumidores tinham comprovado inscrição.
classificação. Esse prazo foi prorrogado para 28 de fevereiro de 2005, pela Resolução nº 76, de 30 de julho de 2004.
Nos critérios anteriores à Lei nº 10.438/2002, o consumidor classificado na subclasse residencial baixa renda poderia consumir sem perder o benefício até o denominado limite regional. Caso o consumo mensal fosse maior, independentemente da inclusão por outros critérios previstos, tais como as condições de moradia ou a renda familiar, o consumidor perdia o benefício dos descontos tarifários.
A nova regulamentação da Aneel altera esse conceito admitindo, para a inclusão na subclasse, um valor máximo único para todo o País (220 kWh/mês), mantendo, porém, o limite regional para aplicação da tarifa diferenciada.
Dessa forma, o consumidor cadastrado nos programas sociais do Governo Federal (ou o potencial beneficiário, respeitando o prazo até 28 de fevereiro de 2005) poderá, mantendo a média anual de 220 kWh/mês, consumir acima do limite regional tendo ainda direito aos descontos tarifários. Somente a parcela do consumo mensal que ultrapassar o máximo regional será valorada pela tarifa do Subgrupo B1 – Residencial68, ou seja, sem descontos.
Em resumo, a regulamentação atual prevê que são classificadas na subclasse residencial baixa renda: as unidades atendidas por sistema monofásico com consumo até 80 kWh e, aquelas, com consumo entre 80 e 220 kWh/mês, cujos responsáveis sejam beneficiários do Programa Bolsa Família.