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Lei nº 10.639/2003 e Lei nº 12.288/2010, o Estatuto da Igualdade Racial

2. ORGANIZAÇÃO COLETIVA DA POPULAÇÃO NEGRA: PANORAMA

2.13. Lei nº 10.639/2003 e Lei nº 12.288/2010, o Estatuto da Igualdade Racial

Sancionada em 9 de janeiro de 2003, a Lei nº10.639/2003, uma das primeiras normas sancionadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, altera a Lei nº 9.394/1996 (documento que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional) para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira". A referida Lei torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares e ainda inclui no calendário escolar o dia 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra.

Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro- Brasileira.

§ 1º O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

§ 2º Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. (BRASIL, 2003)

30 Informações veiculadas no texto ―Conferência reivindica políticas de comunicação‖, disponível em:

http://www.direitoacomunicacao.org.br/content.php?option=com_content&task=view&id=5200. Acesso em

13 fev. 2013

Para regulamentar a Lei, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou em março de 2004 as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Etnicorraciais e para o Ensino de História e Cultura Afrobrasileira e Africana (Parecer CNE/CP nº. 03 de 10 de março de 2004), em que são estabelecidas orientações de conteúdos a serem incluídos e trabalhados e também as necessárias modificações nos currículos escolares, em todos os níveis e modalidades de ensino. Além disso, foi aprovada também pelo mesmo Conselho a Resolução CNE/CP nº 01, publicada em 17 de junho de 2004, que detalha os direitos e obrigações dos entes federados ante a implementação da Lei 10639/2003.

Mesmo com a Lei e suas respectivas regulamentações, sua implementação efetiva encontrou e ainda encontra alguns obstáculos, como o reduzido número de especialistas em história e cultura africana, devido ao limitado número de cursos de graduação em História que incluam formação em História da África, e a própria resistência à incorporação destes estudos por algumas instituições de ensino públicas e privadas e de secretarias estaduais e municipais de educação. Isso motivou a publicação, em 2009, pelo Governo Federal, do Plano Nacional de Implementação da Lei nº 10.639/2003: ―considerando que sua adoção ainda não se universalizou nos sistemas de ensino, há o entendimento de que é necessário fortalecer e institucionalizar essas orientações, objetivos deste documento‖ (BRASIL, 2009).

Embora publicado pelo Governo Federal, o plano tem origem no documento ―Contribuições para a Implementação da Lei nº 10.639/2003: Proposta de Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação das Relações Étnico- raciais e para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana – Lei 10.639/2003‖, elaborado por um Grupo de Trabalho Interministerial estabelecido em 2008 do qual também participaram organizações da sociedade civil.

Entretanto, conforme aponta Gomes (2010), o desencadeamento desse processo não significa o completo enraizamento da legislação na prática das escolas da educação básica, na educação superior e nos processos de formação inicial e continuada de professores. Para Gomes:

A Lei e as diretrizes entram em confronto com as práticas e com o imaginário racial presentes na estrutura e no funcionamento da educação brasileira, tais como o mito da democracia racial, o racismo ambíguo, a

ideologia do branqueamento e a naturalização das desigualdades raciais. (GOMES, 2010, p. 9)

A professora destaca, portanto, a responsabilidade do Estado na inserção da questão racial nas metas educacionais do país, no Plano Nacional da Educação, nos planos estaduais e municipais, na gestão da escola e nas práticas pedagógicas e curriculares de forma mais contundente.

Essa legislação precisa ser entendida como fruto de um processo de lutas sociais e não uma dádiva do Estado, pois enquanto uma política de ação afirmativa ela ainda é vista com muitas reservas pelo ideário republicano brasileiro, que resiste em equacionar a diversidade. Este ideário é defensor de políticas públicas universalistas e, por conseguinte, de uma postura de neutralidade da parte do Estado. Essa situação, por si só, já revela o campo conflitivo no qual se encontram as ações, programas e projetos voltados para a garantia do direito à diversidade étnico-racial desencadeadas pela Lei 10.639/03, no Brasil. (GOMES, 2010, p. 9)

Não à toa, diante da responsabilidade do Estado diante da complexidade e das múltiplas dimensões e tensões em torno da questão racial, como ressalta Gomes (2010), e do conjunto de direitos negados à população negra e reivindicados historicamente pelo Movimento Negro, o Ministério da Educação, as secretarias de educação e as escolas têm atuado para a implementação de políticas e práticas que garantam a totalidade dos direitos da população negra no que se refere à Lei 10.639/2003.

Já a Lei nº 2.288/2010, promulgada em 20 de julho de 2010, o Estatuto da Igualdade Racial, tramitou durante dez anos no Legislativo brasileiro. Iniciou sua tramitação com o Projeto de Lei (PL) 3198/2000, de autoria do então deputado Paulo Paim (PT/RS), e ao longo de uma década sofreu muitas alterações, sendo aprovado com conteúdo bem diferente da proposta original. A tramitação do PL também encontrou muitas resistências dentro do Legislativo e se deu mediante muita polêmica.

Segundo o texto da Lei, o Estatuto da Igualdade Racial destina-se a ―garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica.‖ (BRASIL, 2010).

De acordo com Silva (2012), ao se criar um estatuto de direitos específicos para a população negra, reconhece-se a posição de maior vulnerabilidade social a que este

grupo está acometido, tal como já feito para os idosos e crianças e adolescentes, por exemplo. ―A expectativa então é conquistar novo patamar para essa população, promovendo condições mais equânimes.‖ (SILVA, 2012, p. 7):

Em síntese, o Estatuto consagra a seguinte fórmula no que tange ao financiamento da política: a promoção da igualdade racial deve ser observada na implementação dos programas e ações dos PPAs e orçamentos da União. Os órgãos do Poder Executivo federal que desenvolvem ações dessa natureza devem discriminá-las em seus orçamentos durante cinco anos. Caberá a um órgão colegiado da SEPPIR o acompanhamento e avaliação das ações nas propostas orçamentárias. A transparência e a regulamentação restam como orientações. (SILVA, 2012, p. 5)

De acordo com Silva (2012), os trâmites finais e a aprovação do Estatuto provocaram um expressivo debate público em torno do tema.

Os opositores das políticas públicas com recorte racial reafirmaram a posição contrária ao estatuto, por acreditarem que medidas dessa natureza tenderiam a ―racializar‖ a sociedade brasileira e a provocar segregações exógenas à realidade nacional. Entre os argumentos centrais dessa corrente, evoca-se a pobreza como efetivo motor das desigualdades sociais. (SILVA, 2012, p. 19)

Todavia, a autora também ressalta que a aprovação do Estatuto não foi consenso entre aqueles que defendem as políticas de promoção da igualdade racial. ―Parte desse grupo apoiou o estatuto e a articulação governamental para sua aprovação, protagonizada pela SEPPIR‖ (SILVA, 2012, p. 19

).

Nesse segmento, houve reconhecimento de que não se tratava da proposta desejada, mas avaliou-se que, dentro da conjuntura conflituosa e dissonante sobre o tema, seria este o estatuto possível, abrindo-se espaço para conquistas futuras, tanto por meio de uma regulamentação mais favorável aos seus anseios, quanto pela propagação de diretrizes e orientações presentes na norma. Por outro lado, entretanto, como ressalta Silva (2012):

(...) os pontos mais concretos e que representavam demandas mais caras ao movimento negro, com significativo potencial de imediata intervenção na vida social, foram retirados, a exemplo das bases para regulamentação do sistema de cotas (ainda que a referência a ações afirmativas tenha permanecido) e do caráter cogente de parte relevante do texto. (SILVA, 2012, p. 19)

As mudanças que o PL foi sofrendo com o tempo, especialmente nos últimos anos de tramitação, o tornaram mais distante dos princípios e linhas gerais que nortearam sua formulação; foi aprovada uma proposta bem diferente da original. ―Com efeito, havia muita expectativa na definição de um instrumento que pudesse realmente intervir na expressiva desigualdade racial que assume papel estruturante na sociedade brasileira.‖ (SILVA, 2012, p. 20) Assim, como relata Silva (2012), as alterações que suprimiram medidas que poderiam intervir de maneira mais direta e imediata no quadro de desigualdades raciais provocaram um mal-estar dentro do próprio movimento negro.

CAPÍTULO 3