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4. PARTICIPAÇÃO SOCIAL NAS POLÍTICAS PÚBLICAS

5.5. Balanço da atuação dos três segmentos e avaliação da 1ª Confecom

5.5.3. Poder Público

Os três integrantes da CON que foram entrevistados também convergem com relação ao papel de mediação que Poder Público federal desempenhou a contento durante a Conferência. Valente (2013) acrescenta que o papel do governo ia além, ―já que a Conferência era um evento dele próprio, então ele era organizador, mas teve que mediar o conflito dentro da organização‖. Valente (2013) avalia ainda que o Poder Público buscou, o tempo inteiro, ―tentar garantir a Conferência do jeito que os empresários queriam e tentar garantir que eles participassem‖.

Eu não acho que foi um problema o governo ter se curvado às exigências dos empresários. Foi o papel do governo fazer isso. Eu não esperava muita coisa diferente. Eu acho que foi ruim o governo não ter tensionado em determinados momentos para manter determinadas características do que é uma Conferência. O que a gente dizia é que ‗é mentira que nós não queremos os empresários na conferência. O que nós queremos é que essa Conferência seja uma Conferência‘. Não um seminário da segurança dos empresários, entendeu? Então do ponto de vista democrático, o governo falhou ao não se impor e falar: ‗olha, todas as Conferências no mundo inteiro são assim, então essa também vai ser‘. Do ponto de vista dos interesses do governo de manter os três setores lá ele cumpriu o papel que ele tinha que cumprir. Para mim o maior problema do governo não está no processo da conferência, está no pós, ao não encaminhar nada. (VALENTE, 2013)

Em relação à demora do governo em realizar a 1ª Confecom, visto que ela foi a última de um ciclo de 74 conferências que o governo Lula realizou nos seus dois mandatos e aconteceu no penúltimo ano de governo, Valente (2013) afirma que há uma dificuldade em tudo que o governo faz na área de comunicação, por não querer ir de encontro ao empresariado do setor.

O governo já tinha resolvido uma demanda grande da radiodifusão que era o modelo de TV digital. O governo lançou mão daquela que seria a sua medida democratizante, que foi a criação da EBC. Então eu acho que a avaliação dentro do governo é que estava meio esgotado, que não ia muito além daquilo e da democratização, com muitas aspas, que no fundo é regionalização da distribuição de verbas publicitárias. Eu acho que a avaliação dentro do governo é que isso já era revolucionário, não precisa de mais nada. E a discussão que estava mais colocada naquele momento

era a discussão do PL 2976 que aí não era política do governo, era para resolver no Congresso. Óbvio que o governo era um agente importante. Então a conferência ia vir muito mais para embolar o meio de campo, ia poder gerar um conjunto de compromissos para o governo.

Já Lopes (2013) reconhece a disposição inicial do governo em realizar a Confecom e em construir o marco regulatório, mas avalia e lamenta que, na mudança do Governo Lula para o Governo Dilma (2011-2014), foram jogadas fora as perspectivas que o movimento tinha nesse sentido.

Não se implementou nada do que foi contemplado da Confecom, mas, no período, no processo anterior à Conferência, o governo se mostrou com interesse de realizar esse debate e de legitimá-lo com a participação do setor empresarial que, embora enfraquecesse o sentido real de uma Conferência, pôde viabilizar que o conjunto da sociedade participasse e trouxesse a legitimidade para que o que fosse definido na Conferência pudesse ser transformado em política pública. (LOPES, 2013)

Sobre o não encaminhamento de propostas pós-Confecom, Valente (2013) ironiza e propõe: ―Eu não descobri até agora por que o governo resolveu chamar a Conferência. Eu acho que você devia tentar entrevistar o Lula. Até hoje eu não sei‖. (VALENTE, 2013)

O representante do Ministério da Cultura na CON, Octavio Pieranti, acredita que o processo da Confecom foi uma espécie de catarse nacional, sobretudo porque ―estavam todos calados há muito tempo sobre aquelas questões sobre as quais se estava discutindo ali‖. E, nesse processo de catarse, ele reforça o papel de mediação desempenhado pelo governo, que se fez necessário e fundamental por conta das divergências que apareciam e se acentuavam entre sociedade civil e empresários.

Ao longo desse processo como um todo, já antes das etapas, existia, digamos assim, a figura da catarse, do desabafo coletivo. E aos poucos essa situação foi se acirrando com segmentos da sociedade civil, claramente se opondo aos representantes do empresariado. O que cabe ao governo no momento desses? Qual era o nosso principal objetivo? Chegar ao fim daquele processo, com uma Conferência de pé e uma Conferência que tivesse importância pelas suas propostas. Isso era muito claro para os representantes do governo. E qual poderia ser o papel do governo no âmbito da comissão organizadora e no âmbito nas etapas estaduais e

76 O Projeto de Lei 29, de 2007, (PL 29/2007), transformou-se na Lei nº 12.485/2011, conhecida também

como Lei do SeAC (Serviço Acesso Condicionado), que regulamenta o serviço de TV por assinatura no Brasil.

municipais? Deveria ser um papel de mediação e no âmbito da comissão organizadora deveria trabalhar com as regras, para que aquela conferência pudesse ser realizada. (PIERANTI, 2013)

Sobre a atuação do Poder Legislativo, Pieranti ressalta a participação no âmbito da CON, da deputada Luiza Erundina (PSB-SP) que, segundo ele, salvo manifestações de vez em quando de algum deputado especifico, era uma presença constante nas reuniões da comissão.

Ela participou desse debate com afinco, durante todo o tempo. Diria que ela é uma referência para todo mundo que faz o debate, seja sociedade, seja governo, seja empresariado, concordando ou não com a posição dela. E no cenário democrático, as pessoas podem ou não concordar com a opinião dela, mas ninguém deixou de valorizar o papel de lutadora, de defensora daquele processo que foi um papel desempenhado por ela. Então, digamos que o Poder Legislativo se fazia representar por ela, em grande parte de nossas reuniões. E uma presença qualificada de alguém que estava preocupada com o mérito, mas que também tinha a noção, total noção de que aquela comissão tinha a árdua tarefa de viabilizar aquela conferência, uma conferência que reunia todas as polêmicas que você conhece. (PIERANTI, 2013)

Pieranti (2013) identifica como grande mérito desse período o fato de ter-se tratado de políticas de comunicações como algo natural e próprio do cenário democrático. ―Imagino que hoje a sociedade brasileira tenha uma convicção, e os empresários também têm essa convicção, de que esse debate deve ser feito de forma democrática". (PIERANTI, 2013)

Primeiro, a mídia não se debatia. A mídia brasileira não debatia políticas de comunicação. Debatia política de saúde, política de educação, política pública do que quer que fosse, mas não debatia políticas públicas de comunicação. E quando esse debate era pautado pelo governo, por menor que ele fosse, por menor o tópico, recebia uma saraivada de críticas. E eu acho que isso foi conquistado. É claro que há radicalismos e dependendo de qual seja a proposta em discussão, vão surgir questionamentos. E que vão jogar de novos os argumentos da censura, os argumentos do controle, etc. Mas eu não diria que esse seja um comportamento majoritário. Mesmo na mídia hoje. Se você pegar, por exemplo, pequenos eventos que vão debater determinados temas, antigamente, grandes empresários não participavam desse tipo de eventos. Hoje eles participam. Enfim, você tem uma construção democrática e a construção desse tema é igual à construção da democracia. Você vai construindo dia a dia, fortalecendo dia a dia, mas ela nunca está construída. O prédio nunca termina. Tem sempre o reboco, tem sempre o teto, tem sempre mais um andar. (PIERANTI, 2013)

Mas, para Pieranti (2013), há pouquíssimo tempo a mídia era refratária e criticava sempre que se tentava fazer esse debate, por isso ele acredita que o governo demorou tanto em realizar a 1ª Conferência Nacional de Comunicação. ―Além disso, o governo teve que enfrentar uma série de crises pela sua própria composição popular de esquerda, e depois centro-esquerda, enfim, com a incorporação de outros atores. Teve que fazer uma série de debates outros anteriores e muitas vezes ficou dependente de uma agenda colocada pela mídia‖. (PIERANTI, 2013) E também acredita que uma certa fragilidade institucional da sociedade civil e do empresariado do setor também possa ter influenciado nessa demora.

Não dá para comparar movimentos sociais que nasceram em 1988, por volta disso, um pouco antes ou um pouco depois, com determinados movimentos sociais que existem há décadas e que já enfrentaram a Ditadura, que já passaram por todo o período de redemocratização que ganharam fonte de financiamento, que ganharam estrutura, que formaram dirigentes nos mais diferentes setores. São realidades muito distintas. O movimento social de Comunicação é muito recente. Tão recente quanto a nossa democracia. Na verdade, a imensa maioria dele nasce na década de 1990. E hoje basicamente você já tem novos quadros que nasceram ou da Confecom ou um pouco antes da Confecom. Então não existia uma cultura, salvo raríssimas exceções de algumas entidades específicas, como a FENAJ que atua nisso há muito tempo. O FNDC, mas aí é uma reunião de uma série de entidades, estava aí há muito tempo. Mas, por exemplo, o Conselho Federal de Psicologia tinha mergulhado nesse debate não há tanto tempo assim. A ARPUB (Associação Brasileira de Rádios Públicas) que não estava aí há tanto tempo. Enfim, isso tudo foi se moldando já na virada dos anos 1990 para o novo século XXI. (PIERANTI, 2013)

Finalmente, Pieranti acredita que o debate sobre políticas de comunicações demorou a se firmar e acontecer publicamente por meio de uma Conferência Nacional por tino político do presidente, ―que sempre teve muito tino político‖. Para Pieranti, ele provavelmente viu que já se havia pautado determinados debates, alguns com sucesso outros sem sucesso, mas que tinha-se já uma massa crítica preparada para fazer essa discussão.

Esse era um debate interditado e precisava ser aberto, como foram tantos no governo do presidente Lula. E aí decidiu-se fazer a Confecom naquele momento, que era como você disse, digamos o último momento viável. O segundo governo não poderia terminar sem isso. Pensando em termos de governo, como é que foi essa composição de governo? Você tinha

algumas pessoas do MinC que debatiam esse tema com maior ou menor profundidade: que debatiam de forma tangencial, que estavam lá debatendo pontos de cultura, porque participaram do Encontro Nacional de Cultura, que fizeram o Fórum de TVs Públicas. E aí você tem a chegada de pessoas que estavam nesse debate de políticas de comunicação até a medula, desde sua época de pesquisadores, que era o meu caso, era o caso do James, por exemplo, que surgiram no Minc naquele momento dadas as circunstâncias. (...) Você tinha o Ministério das Comunicações ainda com pouca massa crítica, mas tinha a Secretaria Geral querendo fazer o debate da mobilização, e a SECOM, muito em função de seu ministro (Franklin Martins) e de seu secretário executivo, Ottoni Fernandes, que faleceu recentemente e foi uma perda, diga-se de passagem, que, muito em função da vivência deles, achavam que era hora de fazer esse debate. A partir dali, o governo conseguiu trazer quadros que já estavam na máquina pública e que começaram a fazer essa discussão ou que se aprofundaram nessa discussão.

Assim, Pieranti também acredita que a Confecom teve um papel de formação de quadros no governo federal. De acordo com o entrevistado, do Grupo de Trabalho Interministerial criado ainda pelo governo Lula no ano de 2010, para começar a discutir o que seriam as bases de uma nova legislação para as comunicações no país, saem diversos quadros que, no governo Dilma, vão para o Ministério das Comunicações, para a Anatel e para diversos outros órgãos estratégicos que podem fazer o debate da comunicação render. ―São pessoas que já estavam umbilicalmente ligadas ao debate das comunicações no país, nos mais diferentes órgãos, e que são uma massa crítica que vai ser responsável, ou uma das responsáveis pela participação nas construções possíveis para os próximos anos‖. (PIERANTI, 2013)