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3.1 Trabalho parassubordinado no Brasil

3.1.2 A legislação brasileira e o trabalho parassubordinado

3.1.2.5 Lei n 13.352, de 2016: Profissional-parceiro

A Lei n. 12.592, de 2012, dispõe sobre o exercício da profissão de Cabeleireiro, Barbeiro, Esteticista, Manicure, Pedicure, Depilador e Maquiador, que são os profissionais que exercem atividades de “higiene e embelezamento capilar, estético, facial e corporal dos indivíduos” (art. 1º, caput e parágrafo único) (BRASIL, 2012).

Em 2016, a Lei n. 13.352 acrescentou os art. 1º-A, 1º-B, 1º-C e 1º-D à Lei n.12.592, de 2012. Esses novos artigos introduziram e regulamentaram o contrato de parceria que poderá ser celebrado pelos salões de beleza e os referidos profissionais.

Conforme previsão legal, esse contrato de parceria tem que ser escrito, firmado pelas partes, perante duas testemunhas, e homologado pelo sindicato da categoria profissional ou, na ausência deste, pelo órgão local do Ministério do Trabalho.

O salão que é parte do contrato recebe a denominação de salão-parceiro. O profissional recebe a denominação de profissional-parceiro, e pode ser qualificado, para fins tributários, como pequeno empresário, microempresário ou microempreendedor individual.

Compete ao salão-parceiro fazer os recebimentos e pagamentos relativos aos serviços prestados pelo profissional-parceiro, bem como efetuar as retenções e recolhimentos de tributos incidente sobre a cota-parte deste, recebidas a título de atividades de prestação de serviços de beleza.

Ao salão-parceiro cabe a cota-parte relativa ao aluguel de bens móveis e utensílios para o desenvolvimento das atividades do profissional e pelos serviços “de gestão, de apoio administrativo, de escritório, de cobrança e recebimento de valores transitórios recebidos de clientes das atividades de serviços de beleza” (§ 4º do art. 1º-A). Além disso, a cota-parte do profissional-parceiro não é considerada receita bruta do salão-parceiro (BRASIL, 2012).

O profissional-parceiro não assume os riscos do negócio do salão-parceiro e, mesmo inscrito como pessoa jurídica, tem garantida a assistência do sindicato da categoria profissional ou, na ausência deste, do órgão local do Ministério do Trabalho. Cabe a este órgão, inclusive, a fiscalização, autuação e aplicação de sanções pelo desrespeito à legislação trabalhista.

O contrato de parceria precisa conter algumas cláusulas obrigatórias, para: (i) fixar valores da cota-parte do salão-parceiro; (ii) deixar clara a obrigação do salão-parceiro de reter e recolher tributos devidos pelo profissional-parceiro; (iii) fixar forma e prazo de pagamento do profissional-parceiro; (iv) prever os direitos do profissional-parceiro quanto ao

uso de bens materiais para exercer suas atividades, bem como ao acesso e circulação no estabelecimento do salão-parceiro; (v) permitir a rescisão unilateral por qualquer das partes, mediante aviso prévio de, no mínimo, trinta dias; (vi) estabelecer responsabilidades das partes quanto à manutenção de materiais e equipamentos, às condições de funcionamento do negócio e ao bom atendimento dos clientes; e (vii) prever a obrigação de o profissional-parceiro estar em situação regular com as autoridades fazendárias (incisos I a VII do § 10 do art. 1º-A).

A lei especificou, ainda, que não haverá relação de emprego ou de sociedade entre salão-parceiro e o profissional parceiro enquanto vigorar a relação de parceria (§ 11 do art. 1º-A). Por outro lado, dispôs que haverá relação de emprego se não existir contrato de parceria formalizado nos termos legais ou se o profissional-parceiro exercer funções diferentes das estabelecidas no contrato de parceria (art. 1º-C).

O legislador, portanto, disciplinou uma relação de trabalho que, na prática, poderá conter os elementos da parassubordinação, desenhados pela doutrina estrangeira: pessoalidade, continuidade e coordenação.

O profissional-parceiro não detém os meios de produção, nem se responsabiliza pelos riscos do negócio do salão-parceiro, cuja atividade econômica confunde com sua atividade profissional – prestação de serviços de beleza. Pela lei, o profissional- parceiro pagará pelo aluguel dos bens que utilizar e pela gestão dos valores que ele receber dos serviços que prestar aos clientes.

Ainda que o profissional-parceiro esteja inscrito como pessoa jurídica, a pessoalidade não será afastada e nem afetará sua representação sindical.

Evidentemente, para ser frutífera para ambas as partes, a parceria exigirá a continuidade na prestação dos serviços pelo profissional-parceiro.

O profissional-parceiro exercerá suas atividades dentro do estabelecimento do salão-parceiro, cabendo a este centralizar e gerir todos os recebimentos e pagamentos das atividades prestadas pelo profissional-parceiro.

E mais, para fluir a parceria, as partes deverão observar regras atinentes à manutenção de materiais e equipamentos, ao funcionamento do estabelecimento e ao bom atendimento dos clientes. Essas diretrizes, certamente, serão postas pelo salão-parceiro, em cuja organização empresarial estarão inseridas as atividades do profissional-parceiro.

Haverá, por conseguinte, um vínculo de coordenação, instrumentalizado por um contrato, cuja inexistência implicará automático reconhecimento do vínculo de emprego.

Neste ponto, uma questão se apresenta: para admitir essa parceria, teria o legislador brasileiro assumido um conceito reduzido de subordinação trabalhista?

O texto legal não evidencia a resposta.

Por um lado, é certo que a constituição de pessoa jurídica pelo trabalhador não afasta o reconhecimento do vínculo empregatício (art. 9º da CLT). Além disso, também é certo que, para não admitir-se o vínculo de emprego em uma relação de trabalho, em que estejam presentes a prestação de serviços por pessoa física, pessoalidade, onerosidade e não eventualidade, é necessária a ausência da subordinação trabalhista. Assim, é a compreensão reduzida do conceito de subordinação (ligada à heterodireção forte e constante) que justifica a ausência de relação de emprego na parceria firmada entre o salão-parceiro e o profissional.

De outro lado, a lei deixa claro que, na relação jurídica por ela regulamentada, estão presentes todos os elementos da relação de emprego (inclusive a subordinação), pois basta a não formalização do contrato, nos moldes legais, para o vínculo empregatício ser reconhecido automaticamente. Tal tratamento, ainda que sob as vestes da proteção do trabalhador, revela que o que o legislador quis não foi exatamente proteger e sim garantir que uma relação de emprego tenha sua natureza alterada com a mera formalização de um contrato de parceria.

Essa segunda opção ganha mais força quando se analisa os direitos conferidos ao profissional-parceiro (enquanto trabalhador). Nesse tocante, o legislador apenas dispôs que caberá ao salão-parceiro preservar e manter condições adequadas de trabalho do profissional- parceiro, com a especial preocupação de ele ter condições de cumprir as normas sanitárias atinentes à esterilização de materiais e utensílios usados para atender os clientes (art. 1º-B e art. 4º).

A ideia do contrato de parceria não é nova no ordenamento jurídico pátrio. Desde 1964, a Lei n. 4.504 (Estatuto da Terra) e seu regulamento (Decreto n. 59.566, de 1966) disciplinam o contrato de parceria rural (agrícola, pecuária, agroindustrial e extrativa), por meio do qual o parceiro presta serviços nas terras de outra pessoa, mediante partilha dos riscos e dos frutos, produtos ou lucros obtidos, observados os percentuais legais mínimos.

Para alguns, por intermédio da parceria rural, as partes estabelecem uma sociedade sui generis, com associação para exercício conjunto de um empreendimento, com a assunção de responsabilidades por ambas as partes (ALMEIDA; BUAINAIN, 2013, p. 331).

Para outros, a parceria rural configura verdadeira relação de trabalho, pois não há repartição de lucros, tal como numa sociedade, e sim partilha dos frutos do trabalho de uma das partes. Segundo Merçon (2007, p. 113), “o trabalhador aliena parte do produto de seu trabalho ao parceiro-proprietário, o qual, por sua vez, concorre com a terra nua e, facultativamente, com as instalações e insumos – fazendo, portanto, as vezes do capitalista”.

Maior (2007, p. 65-66), além de criticar o contrato de parceria rural, por entender o parceiro rural como verdadeiro empregado, vez que ele vende “sua força de trabalho de forma contínua, para a satisfação do interesse alheio”, lembrou que o art. 17 da Lei n. 5.889, de 1973, permite a aplicação de direitos trabalhistas àquele trabalhador, ainda que ele não se encaixe no conceito de empregado rural.

No contrato de parceria da Lei n. 12.592, de 2012, não só foi afastada qualquer relação de sociedade entre o salão-parceiro e o profissional-parceiro, como não foram estendidos direitos trabalhistas a este, que não detém os meios de produção e não assume os riscos do negócio daquele. Aliás, nos termos legais, por esse contrato, o salão-parceiro passa a ser considerado credor, não da força de trabalho alheio, e sim da contraprestação pela disponibilização e cessão de uso dos instrumentos de trabalho.

Nesse passo, a legislação, novamente, privilegiou a autonomia, sem preocupar- se com o obreiro e sua hipossuficiência na relação jurídica, lembrando que a garantia de assistência e exigência de registro do contrato no ente sindical ou no órgão do Ministério do Trabalho não significa reconhecimento de direitos trabalhistas.