4.1. Elementos da liberdade natural
4.1.2. Lei natural
Locke define, no capítulo II do Segundo tratado, a lei natural como a lei que rege o estado de natureza e “que a todos obriga”, identificando-a com a própria razão, que é, ela mesma, esta lei544.
Como descrito na subseção precedente, por ser um estado de liberdade e igualdade absolutas, em que ninguém possui mais que os outros,
542 Lena HALDENNIUS, Locke and the non-arbitrary. In: European Journal of Political Theory. London:
Sage publications, 2003.
543 Cf. HALDENNIUS, Op. cit., p. 262.
544Cf. LOCKE, Dois tratados sobre o governo, Op.cit., p. 384.
196 vigoram, no estado de natureza, as normas provenientes da razão, que se destinam à ordenação da paz e à conservação da humanidade, impedindo que os homens violem os direitos de seus semelhantes, prejudicando-se entre si. É a observância da razão, portanto, que confere aos homens a perspectiva de sua independência e igualdade em relação aos demais seres humanos, impondo a norma segundo a qual nenhum homem pode lesar outro homem em sua vida, sua saúde, sua liberdade ou seus bens.
É da relação de igualdade que há entre “nós mesmos e aqueles que são como nós”545 que a razão natural extrai os preceitos e cânones para a direção da vida, em especial – conforme argumento desenvolvido por Hooker546 e incorporado por Locke – o dever que têm os homens de se amarem mutuamente, pois o desejo do homem de ser amado impõe-lhe a obrigação de amar da mesma forma a seu igual, uma vez que deve ser aplicada uma medida comum para coisas iguais. A igualdade e a liberdade são, assim, a base da reciprocidade que no estado de natureza determina todo poder e toda a competência que um homem possa vir a exercer sobre outro homem.
O respeito à razão obriga os homens, segundo Locke, à sua autoconservação e, na medida do possível e desde que a sua própria autoconservação não esteja ameaçada, a zelar pela conservação do restante da humanidade, impedindo a destruição da vida, da liberdade ou dos bens de outra pessoa. A lei natural, que tem por objetivo a manutenção da paz e a conservação da humanidade, confere a todos os homens, assim, o poder de executá-la, punindo os transgressores da razão natural com pena suficiente para reprimir as violações, preservando o inocente e refreando o transgressor. Ao conceber esse poder executivo da lei natural como um dever de todos os homens no estado de natureza, Locke acentua, assim, que a interferência na esfera de liberdade do agressor para imposição da lei natural é fundamental para a paz e a preservação da humanidade, que deve ser priorizada em detrimento da liberdade individual547.
545 Op. cit., p. 384.
546 Richard HOOKER, Of the laws of ecclesiastical polity. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.
547 Cf. LOCKE, Op. cit., p. 85.
197 Como analisa Antônio C. dos Santos, a centralidade da autoconservação na teoria de Locke é uma das marcas da modernidade de seu pensamento político, pois se retomarmos em uma fórmula sucinta a dicotomia entre a liberdade dos antigos e a liberdade dos modernos, traçada por Benjamin Constant, poderíamos dizer que se os antigos buscavam a “vida boa”, enquanto os modernos preocupam-se com a conservação da existência. Dessa forma, como assinala Santos, “a autoconservação tornou-se, assim, algo sagrado na modernidade, num mundo que racionaliza a religião, mas não se afasta de sua moralidade”548. É essa moralidade baseada na sobrevivência e na conservação da humanidade que será expressa pela concepção lockeana de lei natural.
De acordo com D. A. Lloyd Thomas, embora Locke não tenha reservado, no Segundo tratado, uma parte para a exposição sistemática da lei natural, o filósofo possui sobre ela uma concepção coerente, que pode ser reconstruída a partir de suas frequentes, embora dispersas, referências à lei natural no Segundo tratado, bem como de seus escritos de juventude, especialmente os Ensaios sobre a lei de natureza549.
Com efeito, no Segundo tratado Locke descreve sucintamente o conteúdo da lei natural como um comando para a defesa da “paz e a conservação de toda a humanidade”550. Uma análise bem mais detalhada da concepção da lei de natureza é realizada por Locke, seguindo o velho estilo escolástico, nos Ensaios sobre a lei de natureza551.
Locke inicia os Ensaios recorrendo a um argumento de redução ao absurdo, ao constatar que qualquer um que já tenha refletido sobre
548 Antônio Carlos dos SANTOS, John Locke e o argumento da economia para a tolerância. In:
Trans/Form/Ação, Marília, v. 36, nº 1, p. 9-24, Jan/Abril, 2013, p. 9.
549 Cf. Op.cit., p.15.
550 Cf. LOCKE, Dois tratados sobre o governo, Op. Cit., § 7, p. 385.
551 Os Ensaios são reflexões preparatórias ou paralelas que constituem, segundo GOLDIE, a pré-história do Segundo tratado. Por isso, podem ser lidos, de acordo com esse comentador, como um “palimpsesto do desenvolvimento intelectual de Locke”. Como destaca GOLDIE, o termo Ensaios utilizado para designar a exposição sobre a lei da natureza é equivocado, pois os nove textos escritos por LOCKE são, na verdade, dissertações no tradicional formato escolástico, nas quais LOCKE expõe os argumentos favoráveis juntamente com as objeções contrárias às questões relacionadas à lei natural. Os Ensaios fazem parte dos escritos não publicados em vida por LOCKE e que ficaram conhecidos como a “Coleção Lovelace”.
Juntamente com um grande volume de documentos, tais textos permaneceram praticamente desconhecidos até serem transferidos do escritório de LOCKE para a biblioteca de Oxford, em 1942. Cf. Mark GOLDIE, Introdução. In: John LOCKE, Ensaios políticos. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. XI-XIII.
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“Deus Todo-poderoso, ou o invariável consenso de toda a humanidade a todo tempo e em todos os lugares, ou mesmo sobre si mesmo ou sua consciência” não poderá acreditar facilmente que só o homem tenha vindo ao mundo totalmente isento de qualquer lei aplicável a si, diferentemente do restante da ordem criada, que possui “leis válidas e fixas de operação apropriadas à sua natureza”552.
Para Locke, a lei natural é designada de diversas maneiras, podendo ser equiparada ao “bem ou virtude moral” perseguidos pelos “filósofos de outrora (e entre eles especialmente os estoicos)”, à “reta razão”, entendida como
“certos princípios definidos de ação dos quais emergem todas as virtudes e tudo quanto é necessário para a moldagem apropriada da moralidade” e à noção mais ampla de “lei de natureza”, que inclui a ideia de uma “lei que cada um pode detectar meramente pela luz plantada em nós pela natureza”, isto é, pela “regra de viver de acordo com a natureza que os estoicos tanto enfatizam”553.
Entre todas as distintas designações, Locke considera que a menos apropriada é “reta razão” ou “ditado da razão”, já que não é a razão que estabelece a lei da natureza, mas antes “a busca e descobre como lei instituída como um poder superior e implantada em nossos corações”. Considerar os ditames da razão como a própria lei de natureza representaria uma violação da
“dignidade do legislador supremo”, pois a razão não é “mais autora dessa lei do que sua intérprete”554.
Dessa forma, a lei natural é, para Locke, o decreto divino que pode ser percebido por todos os homens pela luz da natureza e interpretado pela razão, e que possui todos os requisitos de uma lei propriamente dita, isto é, uma lei em sentido forte, pois “estabelece o que se deve e o que não se deve fazer”555, obrigando a todos.
Para Locke, a existência da lei da natureza pode ser provada por cinco diferentes argumentos, que são descritos minuciosamente nos Ensaios
552 Cf. LOCKE, Ensaios políticos, Op. cit., p. 101.
553 Cf. Op. cit., p. 102.
554 Cf. Op. cit., p. 102.
555 Cf. Op. cit., p. 102.
199 sobre a lei de natureza556. Entre tais argumentos, pode-se destacar a recuperação da noção descrita por Aristóteles na Ética a Nicômaco557, segundo a qual, de acordo com Locke, “a função própria do homem é agir de acordo com a razão, de tal modo que o homem deve, necessariamente, fazer o que a razão prescreve”558. Assim, a existência de princípios morais universais pode ser evidenciada pela uniformidade das definições de virtudes, que são invariáveis entre todos os homens a despeito das eventuais discordâncias sobre alguns princípios. De acordo com Locke, a grande semelhança entre as leis positivas dos diferentes povos seria uma demonstração da existência de um “conceito ou obrigação antecedente a tais leis”, pois se não houvesse uma obrigação moral comum a orientar a edição das leis, não haveria tanto acordo entre as leis dos mais diferentes povos, e a “virtude seria uma coisa entre os índios e outra entre os romanos”559.
Após uma detalhada apresentação dos argumentos que demonstram a existência da lei de natureza, Locke passa a analisar a forma como podemos conhecê-la, passando a investigar, dentre os tipos de conhecimento por ele identificados – a inscrição, a tradição e a experiência sensorial – quais deles podem ser fonte de conhecimento da lei natural. De acordo com Goldie, tais conhecimentos poderiam também ser designados, respectivamente, conhecimento inato, conhecimento recebido ou herdado e dados dos sentidos560.
Com relação ao conhecimento inato, Locke apresenta três diferentes argumentos para sustentar, em consonância com a exposição realizada no Ensaio sobre o entendimento humano, que a lei natural não está inscrita no coração ou na mente dos homens, uma vez que a afirmação segundo a qual “as almas dos homens, quando nascem, são pouco mais que tábulas rasas, aptas a
556 Para uma análise detalhada dos cinco argumentos apresentados por LOCKE para demonstração da existência da lei natural, cf. Rodrigo R. SOUSA, O conceito de liberdade no “Segundo Tratado sobre o Governo”, de John Locke, Op. cit.
557 Cf. ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. São Paulo: Atlas, 2009, p. 25-28.
558 Cf. LOCKE, Op. cit., p. 103.
559 Cf. LOCKE, Op. cit., p. 104.
560 Cf. Op. cit., p. 110.
200 receber todas as espécies de impressões” não foi provada, embora “muitos tenham laborado para essa finalidade”561.
Nesse argumento, é preciso notar que, apesar da categórica recusa em conceber a lei natural a partir da noção de ideias inatas – que é empreendida por Locke tanto nos Ensaios quanto no Ensaio sobre o entendimento humano – o filósofo afirma, no Segundo tratado, que o direito de matar um assassino é amplamente reconhecido como decorrente da lei natural “tão claramente estava isso inscrito no coração dos homens562”. Essa aparente contradição pode ser explicada, inicialmente, como decorrência do estilo argumentativo de superposição de ideias utilizado por Locke nos Tratados. Além disso, a formulação de Locke no Segundo tratado pode ser compreendida a partir da descrição da faculdade da razão empreendida pelo filósofo em The Reasonableness of Christianity, em que a razão é concebida como uma “centelha da natureza divina”:
(...) Deus, pela luz da razão, revelou a toda a humanidade, que fizesse uso dessa luz, que ele é bom e misericordioso. A mesma centelha da natureza divina e do conhecimento no homem, que faz dele um homem, mostrou a ele a lei a que está submetido, por ser homem; mostrou a ele também o modo de se reconciliar com seu misericordioso, bom e compassivo Criador e Pai de seu ser, quando ele tiver transgredido essa lei. Aquele que fez uso dessa luz do Senhor, que logrou encontrar qual era o seu dever, não pode deixar de encontrar também o caminho para a reconciliação e o perdão, se falhou em cumprir o seu dever: contudo, se não usou sua razão desse modo, se pôs de lado ou negligenciou essa luz, não conseguirá, talvez, enxergar nenhum dos dois563.
Assim, a razão, como faculdade que torna os homens semelhantes ao Criador, é o que nos permite, segundo Locke, iluminar o mundo em busca do conhecimento de todas as coisas. Contudo, ela não se identifica com a própria lei de natureza, pois é na verdade a sua intérprete. Ao aludir, no Segundo tratado, a algo “inscrito no coração dos homens”, Locke procura dar
561 Com esse argumento, conforme salienta GOLDIE, LOCKE faz uma alusão implícita a DESCARTES. A referência explícita foi apagada por LOCKE do manuscrito dos Ensaios, que continham em seu primeiro esboço uma menção expressa a DESCARTES como alguém que “laborou para demonstrar a teoria das ideias inatas”. Cf. LOCKE, Ensaios Políticos, Op. cit., p. 119. Para uma compreensão da teoria das ideias inatas de DESCARTES, Cf. DESCARTES, Discurso do método. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
562 Cf. Op. cit., p. 390.
563 Cf. John LOCKE. The Reasonableness of Christianity, as Delivered in the Scriptures In: The Works of John Locke in Nine Volumes, Vol. 6, .London: Rivington, 1824, p. 133.