Com raízes históricas na Antiguidade, o abandono era regulamentado pelo Direito Romano através do ius exponendi que autorizava o pai de família a rejeitar um filho recém-nascido, enviando-o para um lugar público conhecido como forum olitorum. Essas circunstâncias jurídicas perduraram inalteradas até o século V, quando algumas reformas procuraram incentivar o acolhimento. Ao mesmo tempo, a questão do abandono em si era deixada em aberto devido, em grande medida, ao fato de ser uma prática corriqueira e até considerada necessária para os grupos sociais mais miseráveis. Em 331, foram impostas restrições ao direito de pátrio poder em casos de abandono condicionando a recuperação dos filhos ao ressarcimento das despesas de amamentação, criação e educação dos enjeitados efetuadas pelos acolhedores. Em 374, a alimentação dos filhos foi considerada um dever paterno, ao mesmo tempo em que se iniciou um processo de repúdio ao direito do ius exponendi ficando proibido aos proprietários que expunham os filhos de suas escravas de reavê-los. Em 412, reafirmou-se a perda do pátrio poder e a necessidade de reposição dos gastos de criação realizados pelos receptores. Além disso, foi estabelecida a obrigatoriedade de registro do acolhimento junto às autoridades eclesiásticas, a fim de garantir aos acolhedores uma segurança maior em casos de reivindicações paternas sobre a criança.200
O papel assumido pelo enjeitado no interior dos arranjos domésticos variava de acordo com a vontade do acolhedor, uma vez que o código romano não regulamentava a relação entre eles. Para o historiador John Boswell, a condição de acolhido do enjeitado aproximava-o do alumnus: nos textos romanos era o indivíduo criado e/ou instruído por uma pessoa estranha, independente de sua condição social ao nascimento, enquanto em certos escritos gregos o termo estava associado aos servos ou às crianças entregues às
200 Na Antiguidade, os pais tinham direito ao abandono, à venda ou ao infanticídio dos filhos em casos de deformidades físicas ou mentais, preferência por um ou outro sexo, pobreza e, até mesmo, maus presságios em torno do nascimento da criança. Mesmo nas narrativas bíblicas, há indícios de tais práticas quando Abrão aceitou oferecer o filho em sacrifício religioso, na venda de José como escravo por seus irmãos, na entrega dos filhos como quitação de dívidas, no infanticídio generalizado por ocasião do nascimento de Moiséis e de Jesus Cristo. Ver: John Boswell, La misericórdia Ajena (1988), trad. Marco A. Galmarini, Barcelona, Muchnick Ed., 1999, pp. 195-218 e especialmente os capítulos 1 e 3; Maria V. Rocha, “Do abandono de filhos no Direito Romano”, tese de doutorado em Direito Civil, Usp, 1995, pp. 54-62, 86-7, 98-116, 120-2.
amas-de-leite. Segundo Boswell, a condição de alumnus estava ligada ao tipo de tratamento dispensando ao acolhido. No interior dos arranjos domésticos, ele podia adquirir qualquer status, inclusive ser libertado ou transformado em herdeiro dependendo somente da vontade do acolhedor 201. Pelo menos até o ano de 529, quando foi estabelecida a liberdade via exposição, os enjeitados ocupavam uma posição intermediária em um amplo espaço entre a condição de escravo e herdeiro:
Los había sirvientes, los havía la consideración de hijos, y también lo uno y lo otro al mismo tiempo. A algunos los usaba como gladiadores, pero muchos eran manumitidos o adoptados. Algunos recibían generosos legados de sus tutores y muchos fueron confiados al cuidado de otros miembros de la familia. 202
Herdeiras do Direito Romano, as Ordenações Manuelinas foram as primeiras leis portuguesas a tratar dos expostos encarregando as câmaras municipais e as casas de assistência de criá-los. Essa definição de responsabilidades foi compilada nas Ordenações Filipinas que incluíam a possibilidade dos conselhos criarem fintas para o financiamento da criação dos expostos, sem a necessidade de autorização superior. Porém, foram as leis complementares que buscaram ajustar tais definições em torno da assistência aos enjeitados, sintetizadas em três aspectos básicos em relação aos expostos: a liberdade, a perda do pátrio poder em casos de abandono (evidenciada pela exigência do ressarcimento das despesas de criação) e a indefinição em torno de códigos de relacionamento entre acolhidos e acolhedores. Apesar disso, como nas sociedades do Antigo Regime as regras eram negociáveis, crianças negras e pardas expostas eram escravizadas, instituições isentavam de pagamento os pais pobres que recuperavam os filhos e leis diversas permitiram que crianças e jovens desvalidos fossem tratados como servos durante um certo período de suas vidas. De fato, a maior preocupação dos juristas portugueses consistia em incentivar o acolhimento. 203
201 Na sociedade romana, a utilização dos expostos como escravos pode ser observada em cláusulas do Código de Constantino que obrigavam o pai a entregar um cativo no lugar do filho exposto retirado do acolhedor e, também, nas concessões de liberdade a gramáticos e filósofos romanos que vivenciaram uma infância de abandono e escravidão. Ver: John Boswell, op.cit., pp. 96-111; Maria V. Rocha, op. cit., p. 100. 202
John Boswell, op.cit., p. 172.
203 Ordenações Filipinas, Lisboa, Fundação C. Gulbenkian, 1985 (reimpressão fac-similiar de 1870), Livro 1, tit. 88, § 11. Ver também: Manoel B. Carneiro, Direito Civil de Portugal, (1ª ed. 1826), Lisboa, Typographia de Antonio J. Rocha, 1851, Livro I, tit. 29, § 175, alínea 5. Sobre as leis complementares relativas aos expostos, ver: Antonio Gouveia Pinto, Exame Crítico e histórico sobre os direitos estabelecidos pela
Salvo os acordos particulares, as Ordenações Filipinas previam que os trabalhadores maiores de sete anos recebessem soldadas. Até a idade masculina de quatorze anos e feminina de doze, os valores de tais pagamentos deviam ser arbitrados pelos juízes e, a partir daí, seguiam as quantias eram pré-estipuladas nas próprias Ordenações. No caso dos órfãos criados gratuitamente até aos sete anos, as pessoas ficavam isentas do pagamento por um período equivalente ao da criação. Um alvará de 1814 ampliava esse período de isenção até que o órfão atingisse a idade de 16 anos, desde ele tivesse sido ensinado a ler e escrever. Ao mesmo tempo, era permitido que órfãos criados gratuitamente fossem enviados para o serviço militar no lugar dos filhos do acolhedor. No caso dos expostos, as leis se tornaram mais freqüentes a partir do início do século XVI e, pelo menos até meados do XVIII, concentravam-se na isenção de taxas municipais e serviço militar para os filhos e maridos das amas que recebiam gratuitamente os enjeitados. Em 1775, um alvará equiparava os expostos aos órfãos colocando-os sob a supervisão do mesmo juizado e permitindo que as crianças menores de 12 anos recebessem apenas alimentação e vestuário em troca do trabalho fornecido aos acolhedores.204
legislação antiga e moderna, tanto pátria quanto subsidiária e das nações mais vizinhas e cultas relativamente aos expostos..., Lisboa, Typographia da Academia Real das Ciências, 1828, especialmente o
capítulo 4. A historiadora Isabel G. Sá, A circulação de crianças na Europa do Sul: O caso dos expostos do
Porto no século XVIII, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1995, pp. 86-7 e 89-96 enfatizou que os pais
perdiam o pátrio poder ao abandonar os filhos, cujo direito passava a ser exercido pelos provedores das instituições de assistência ou os juízes de órfãos. A autora argumentou que a ausência de obstáculos nas instituições para a recuperação dos enjeitados deve ser vista como uma estratégia das autoridades visando à suspensão dos encargos públicos. Apesar dessa possibilidade, poucos pais a utilizaram nos domínios portugueses: Ver: Renato P. Venâncio, Famílias abandonadas..., op. cit., pp. 85-6 e 124, Isabel G. Sá, op. cit., pp. 59-60; Maria L. F. Gouveia, “O hospital real dos Expostos de Lisboa (1786-1790). Aspectos Sociais e Demográficos”, dissertação de mestrado, Universidade de Lisboa, 2001, pp. 67, 73. Para o século XIX, ver: Adelina Piloto, Os expostos da Vila do Conde, 1835-1854, Vila do Conde, Ed. Câmara Municipal, 1998, p. 124. Sobre a liberdade e a reescravização dos negros e pardos expostos, ver: Renato P. Venâncio, op. cit., pp. 35-7, 83 e a parceria com Lana L. Lima, “O abandono de crianças negras no Rio de Janeiro” in Mary Del Priore, História da Criança..., op. cit., pp. 61-75.
204 Ver: Ordenações Filipinas, op. cit., Livro 1, tit. 88, § 10 e 12; Livro 4, tit. 31, § 8 e Alvará de 24/10/1814. Sobre os privilégios fornecidos aos acolhedores de expostos, ver: Alvarás de 29/1/1532, Alvará 29/8/1654; Alvará de 22/12/1695; Alvará de 20/3/1696 e Alvará 31/3/1787 in Antonio J. Gouveia Pinto, Exame Crítico e
histórico..., pp. 187-9 e Antonio D. Silva, Colleção da legislação Portuguesa desde a última compilação das Ordenações, Lisboa, Typografia Maigrense, 1828, Available from: http://www.iuslusitaniae.fcsh.unl.pt Sobre a responsabilidade dos juízes de órfãos, ver o Alvará de 31/1/1775, § 8, na mesma coleção, vol. (1775-1790). Alguns estudos sobre Portugal puderam identificar o alcance de tais legislações. Na vila de Alcamede em 1537, 14,0% dos privilégios municipais eram relativos à isenção militar obtida pela criação de expostos. Na Roda do Porto, ao longo do século XVIII, 7,0% das crianças eram criadas gratuitamente ou “para privilégios”, sendo que em períodos de guerras o pico era de 23,9% (1750). Em Barcelos, a percentagem era mais modesta abarcando 1,9% dos expostos menores de sete anos (1783-1835). Ver: Maria F. Reis, Os expostos em
Santarém – ação social da Misericórdia (1691-1710), Lisboa. Edição Cosmos, 2001, pp. 113-18; Isabel G.
A variedade de alvarás e leis portuguesas procurando estimular o acolhimento gratuito de órfãos pobres e expostos fornece-nos indícios dos esforços empreendidos pelos legisladores a fim de transferir à sociedade as responsabilidades pela infância desvalida. Conforme salientou Isabel Sá, em ressonância aos argumentos de Louise Tilly, o auxílio institucional pode ser visto como uma ferramenta desse processo de transferência. As casas de assistência atuavam como centros de recebimento das crianças 205. Na verdade, podemos dizer que, em última instância, era a própria sociedade que financiava esses pagamentos ao distribuir legados pios às irmandades que administravam as Rodas de Expostos. Como salientou Russel Wood, para o caso baiano: “(...) A misericórdia dependia inteiramente de recursos privados para o financiamento desses serviços sociais”. 206
Na América Portuguesa, esta responsabilidade social pela infância desvalida era ainda mais importante na colônia, uma vez que somente as Misericórdias de maior poder econômico fundaram Rodas de Expostos e apenas algumas câmaras municipais contratavam amas assalariadas, as quais cuidavam das crianças até que elas atingissem a idade de três ou sete anos, de acordo com diferenças regionais.A imensa maioria das vilas e cidades não contava com nenhum desses sistemas, sendo a ação de particulares que, gratuitamente, proporcionava acolhimento, alimentação e educação aos expostos e órfãos pobres. 207
Barcelos, 1783-1835, Areias de Vilar, Associação Cultural e Recreativa, 1995, pp. 100-1 e 132.
Aparentemente, esses privilégios se restringiam a Portugal: em 1734, o pedido da Misericórdia de Salvador para que as amas usufruíssem os privilégios de Lisboa foi negado e no Rio de Janeiro, a criação gratuita era feita em nome do “pagamento de promessas” ou “por esmola”. Ver: A. J. R. Russell, Fidalgos e Filantropos.
A Santa Casa de Misericórdia da Bahia, 1550-1755, Brasília, UnB, 1981, p. 241; Renato P. Venâncio, Famílias abandonadas..., op. cit., p. 63. Em São Paulo, inexiste documentação da Misericórdia e dentre
centenas de requerimentos sobre dispensas militares solicitadas aos governadores, não identificamos menção à isenção militar pela criação de expostos ou a possibilidade de substituição de filhos por enjeitados. Ver: AESP, Militares, Requerimentos de Oficiais e Praças, ordens 273-80, caixas 39-40 A.
205 Isabel G.Sá, A circulação de crianças…, op.cit., especialmente pp. 312-3, 328 e 331-3; Louise A.Tilly, Rachel G. Fuchs, David I. Kertzer, David L. Ransel, “Child Abandonment in european history: a symposium” in Journal of Family History, vol. 17, nº 1, 1992, pp. 1-13.
206 A. J. R. Russell Wood, Fidalgos e Filantropos..., op. cit., p. 274.
207 Nem todos os súditos portugueses estavam dispostos a aceitar esta transferência de responsabilidades, como percebemos em uma das cláusulas dos trabalhadores do arsenal da Bahia: “(...) não lhes seriam lançados os enjeitados e nem pagariam por eles...”. Ver: “Regimento dos Armazéns. 19/03/1679”, cap. 12, apud José R. AmaralLapa, A Bahia e Carreira da Índia, São Paulo, 1968, Cia Ed. Nacional, p. 130. De fato, a criação de expostos era muito mais um encargo do que benefício que, vinculado aos baixos salários pagos pelas instituições, acabavam restringindo a profissão às mulheres mais empobrecidas, em Portugal ou na colônia americana. Sobre a pobreza das amas, ver: Isabel G.Sá, A circulação de crianças..., op. cit., pp. 277-305; Maria F. Reis, Os expostos em Santarém..., op. cit., pp. 114-5; Maria L. F. Gouveia, “O hospital real...”,
Diante da insistência legislativa portuguesa em estimular o acolhimento gratuito de crianças desvalidas, da ausência de privilégios e auxílios pecuniários provenientes da Câmara Municipal ou da Irmandade da Misericórdia da cidade de São Paulo, como explicar a disponibilidade dos moradores em acolher gratuitamente os expostos? Podemos iniciar uma aproximação a esses acolhedores observando a distribuição temporal e espacial de seus domicílios, entre 1765 e 1822. Por meio de levantamentos decenais nas listas nominativas, selecionadas de acordo com o procedimento apresentado no segundo capítulo, elaboramos a tabela seguinte:
TABELA 3.1
Número de domicílios com expostos. Cidade de São Paulo.
(1765-1822). C B Total abs. % * 1765 46 27 73 21,0 1775 33 39 72 20,7 1782 65 39 104 30,0 1795 8 22 30 8,6 1804 22 7 29 8,4 1814 24 5 29 8,4 1822 2 8 10 2,9 Total 200 147 347 100,0
Fonte: AESP, Maços de População,
Capital, Nossa Senhora do Ó, Santana, Penha e São Miguel (1765-1822). Legenda:
C: ruas, becos e travessas B: bairros
* Porcentagem em relação ao total de domicílios acolhedores.
Como percebemos pela tabela acima, em um total de 347 acolhedores de crianças e jovens expostos identificados decenalmente na documentação, as ruas, becos e travessas de São Paulo reuniam 200 moradores (57,6%) enquanto os outros 147 (42,4%) se distribuíam pelos bairros. A concentração dos enjeitados nas áreas urbanas foi identificada em outras regiões da América Portuguesa, tanto em localidades com assistência institucional (Rio de Janeiro e Salvador) quanto naquelas que contavam somente com o auxílio particular (Campos de Goitacases). A exceção foi apenas a vila de Sorocaba, onde o
op.cit., pp. 21, 67-9, 131, 178-182; A. J. R. Russell-Wood, Fidalgos e Filantropos..., op. cit., pp. 248-9; Renato P. Venâncio, Famílias abandonadas..., op. cit., pp. 63-4.
abandono e o acolhimento se concentravam no espaço rural, sendo apenas o batismo feito na vila. 208
A concentração espacial dos acolhedores de enjeitados no meio urbano podia ser influenciada pelo possível anonimato oferecido aos pais ou também podia ser o resultado das práticas de compadrio nos meios rurais. Na freguesia de Santo Amaro e na vila de Sorocaba os expostos costumavam ser apadrinhados pelos acolhedores ou parentes próximos. Caso esse procedimento tenha sido adotado pelos moradores dos bairros de São Paulo, os expostos podiam estar dispersos entre os “afilhados” ou entre os “filhos” dos chefes nas listas nominativas, uma vez que o padrinho era considerado um substituto do pai. Com isso, o número de crianças e jovens identificados como “expostos” seria menor nessas áreas rurais. 209
Entre os acolhedores de São Paulo, a maior parte era formada por homens que chefiavam 183 domicílios (52,7%), restando 164 (47,3%) sob a responsabilidade de mulheres210. O predomínio masculino entre os acolhedores de enjeitados foi identificado em outras regiões da Capitania paulista, como na paróquia de Santo Amaro e em Sorocaba, embora nessa vila a discrepância era muito maior, uma vez que apenas um terço das chefias era feminina. Entre as chefias masculinas de São Paulo, a distribuição geográfica era equilibrada, ainda que tenha existido um predomínio de acolhedores nos bairros: 97 (53,0%) em oposição aos 86 (47,0%) que moravam na parte mais urbanizada. Equilíbrio que seguia os padrões populacionais da cidade de São Paulo: 73,4% dos domicílios rurais e
208 Renato P. Venâncio, Famílias Abandonadas..., op. cit., pp. 63-4; Sheila C. Faria, A Colônia em
Movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1998, p. 70; Carlos A. P.
Bacellar, “Família e sociedade em uma economia de abastecimento interno (Sorocaba, séculos XVIII e XIX)”, tese de doutorado, Usp, 1994, p. 306. Diferenças de local de moradia também foram identificadas em Portugal: enquanto nas regiões do Porto e Tomar os acolhedores vinculados à Misericórdia se concentravam entre a população rural, na assistência da câmara de Castro Verde e na Misericórdia de Santarém as amas-de- leite eram moradoras na área urbana. Ver: Isabel G. Sá, A Circulação de crianças..., op. cit., pp. 282-292; Graça M. A. A. B. Santos, “A Assistência da Santa Casa da Misericórdia de Tomar: os expostos. 1799-1823”, dissertação de mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, 2001, p. 68; Marta Páscoa, Os
expostos em Castro Verde, op. cit., p. 64; Maria F. Reis, Os expostos em Santarém..., op. cit., pp. 118-9.
209 Renato P. Venâncio, “Crianças sem amor, o abandono de recém-nascidos na cidade de São Paulo (1760- 1860)”, mimeo. in Seminário Permanente de Estudo da Família e da População no Passado Brasileiro. pp. 7-8 e Carlos A. P. Bacellar, op. cit., pp. 325-9. Renato P. Venâncio, Famílias abandonadas..., op. cit., p. 139 destacou que a incorporação dos expostos nas áreas rurais podia ser motivada pela valorização da mão-de- obra infantil e a raridade de enjeitados que tornava as famílias mais receptivas às crianças.
210 Analisando os registros de batismos de expostos feitos na paróquia da Sé, ao longo do século XVIII, Eliane Lopes identificou uma diferença sexual menor entre os acolhedores: 50,4% de homens e 49,5% de mulheres entre os acolhedores declarados nas atas. Ver: O revelar do pecado: os filhos ilegítimos na São Paulo do
71,2% dos urbanos eram chefiados por homens, no ano de 1765. No início do século XIX, as percentagens de chefes masculinos abaixaram para 55,4% na área urbana, mantendo-se em 73,5% nos bairros. 211
Por um lado, as chefias masculinas estavam intimamente ligadas ao estado civil de casado, tanto entre os moradores das ruas, becos e travessas quanto nos bairros rurais circunvizinhos. Para as áreas rurais, os estudiosos vinculam os arranjos conjugais ao bom funcionamento da unidade de produção, particularmente entre os pequenos ou médios que contavam com a mão-de-obra familiar, acrescida ou não de escravos. Tais pressupostos podiam ajudar a entender o predomínio de homens casados entre os acolhedores de expostos que moravam nos bairros. Excetuando-se 4 casos em que a condição civil não foi declarada, encontramos 83 casados (89,2%), 5 viúvos (5,4%) e 5 solteiros (5,4%). A concentração de casais entre os acolhedores também foi identificada pelo historiador Carlos Bacellar na vila de Sorocaba. Conforme salientou o autor, o matrimônio podia ser visto por certos setores da população como indicador da estabilidade do grupo doméstico. Nesse caso, os pais biológicos podiam preferir esse tipo de lar para abandonar os filhos. Tal preocupação explicaria também o predomínio de homens casados entre os acolhedores que moravam na zona urbana de São Paulo: além de 10 chefias sem informação, havia 65 casados (85,5%), sendo um com esposa ausente, 4 solteiros (5,3%), 4 padres (5,3%), 3 viúvos (3,9%).212
Por outro lado, as chefias femininas identificavam-se com as ruas, becos e travessas pertencentes à área mais urbanizada de São Paulo: 69,5% (114) contra 30,5% (50) nos bairros. Esta primeira característica das acolhedoras de concentração nos espaços urbanizados seguia, mais uma vez, o padrão da população paulistana em geral, particularmente na virada do século XIX: em 1765 as mulheres chefiavam 29,0% dos fogos urbanos passando para 44,7% em 1802 e totalizando 40% em 1804. De maneira semelhante ao que ocorria entre as acolhedoras da vila de Sorocaba, uma segunda característica das
211 Renato P. Venâncio, “Crianças sem amor...”, op. cit., p. 5 e gráfico 1; Carlos A. P. Bacellar, op.cit, pp. 311-3. Sobre as chefias masculinas e femininas na cidade e bairros de São Paulo, ver: Elizabeth A. Kuznesof,
Household Economy and Urban Development, São Paulo, 1765 to 1836, Colorado, Westview Press, 1986, pp.
158-9. A tendência de concentração de chefias masculinas nas áreas rurais foi identificada em outras regiões agrícolas coloniais, como em Campos dos Goitacazes, onde os índices totalizavam 86,7% em 1785. Ver: Sheila C. Faria, op. cit., pp. 50, 51-3.
212 Sobre o matrimônio enquanto sinal de estabilidade doméstica, ver: Carlos A. P. Bacellar, op. cit., p. 313. Em relação à importância dos casais na economia agrícola, ver: Sheila C. Faria, op, cit., p. 155 e especialmente o capítulo dois.
mulheres que se tornavam acolhedoras de expostos em São Paulo era a condição de viúva. Dentre as 127 chefias cuja condição civil foi explicitada nas listas nominativas, (77,4% do total), as viúvas totalizavam 54,4% (69) enquanto as solteiras eram 33,1% (42) e as casadas com maridos ausentes atingiam 12,6% (16). As ruas, becos e travessas da cidade concentravam 58,% (40) das mulheres viúvas que recebiam enjeitados. 213
Para as acolhedoras viúvas, morar na área mais urbanizada podia ter sido uma decisão tomada após o falecimento dos esposos. Tais situações puderam ser percebidas ao cruzarmos informações fornecidas pelas listas nominativas e pelos inventários. Gertrudes Maria Garcia, por exemplo, morou em Santana até 1796. Quando o marido faleceu, ela e