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Leis 10.639/2003 e 11.645/2008: Textos, Contextos e Protagonistas

No documento DOUTORADO EM EDUCAÇÃO: CURRÍCULO (páginas 127-146)

II. Apresentando a Pesquisa

3.3 O Direito à Educação na Diversidade Cultural: o contexto brasileiro

3.3.1 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: alterações introduzidas

3.3.3.1 Leis 10.639/2003 e 11.645/2008: Textos, Contextos e Protagonistas

A Lei 10639, de X de janeiro de 2003, é um marco histórico. Ela simboliza, simultaneamente, um ponto de chegada das lutas antirracistas no Brasil e um ponto de partida para a renovação da qualidade social da educação brasileira.

(Brasil, 2009c)

Acredito que a promulgação da lei foi um ganho muito importante para aproximar a sociedade brasileira dos povos indígenas [...]. Já faz algum tempo que o movimento indígena vem reivindicando a criação de um dispositivo que pudesse dar maior visibilidade à história de nossos povos, por isso acredito que esse passo é fundamental.

Daniel Munduruku (apud Celani, 2008)

As leis 10.639/2003 e 11.645/2008 tiveram trajetórias e contextos diferentes, em seus processos de origem até sua implantação no sistema educacional brasileiro. Assim, a intenção de apresentar os textos, os contextos e os

protagonistas dessa trajetória, é importante para avançarmos em nossas reflexões.

Para iniciar, uma análise cronológica é fundamental. Preliminarmente, convém destacar que a lei 10.639/03 é resultado de uma série de ações que já vinham sendo discutidas e implementadas no país, impulsionadas pelo Movimento Negro com o objetivo de garantir o direito à educação nos diferentes níveis de ensino, pela igualdade de condições no acesso aos bens e serviços, pelo reconhecimento das contribuições dos africanos e seus descendentes para a construção do Brasil, tendo como meta o combate ao racismo e à discriminação e promover a justiça social e econômica. Na área educacional, Santos (2005), apoiado nos estudos de Hosenbalg (1987),78 apresenta os eixos de reivindicação histórica do Movimento Negro no Brasil, a saber:

Contra a discriminação racial e a veiculação de idéias racistas nas escolas;

Por melhores condições de acesso ao ensino à comunidade negra; Reformulação dos currículos escolares visando à valorização do papel do negro na História do Brasil e a introdução de matérias como História da África e línguas africanas;

Pela participação dos negros na elaboração dos currículos em todos os níveis e órgãos escolares (Hosenbalg, apud Santos, 2005:24)

O combate ao racismo e a discriminação transversalizam essas reivindicações, bem como a desconstrução do mito da democracia racial, responsável pela negação do racismo no Brasil, servindo para naturalizar as desigualdades de todas as ordens.

O protagonismo do Movimento Negro tem sido decisivo no contexto das conquistas pelo direito à educação antirracista. Pontuaremos, na sequência, alguns acontecimentos relevantes e de repercussão nacional, que abriram caminho à publicação da lei 10.639/03. Certamente que os mesmos não correspondem à abrangência de todas as ações e fatos derivados do Movimento Negro, que são diversos. Portanto, os destaques que daremos aos acontecimentos e ações aqui mencionados serão a partir dos anos 80, e nos permitem um olhar panorâmico sobre o contexto que serviu de alicerce político e que, posteriormente, contribuiu para que a lei 10.639/03 fosse sancionada.

Esses acontecimentos, protagonizados pelo Movimento Negro, foram se constituindo em bases de articulação nacional no período de abertura política do país, pós-ditadura militar, e ganharam maiores contornos e proporções, agregando os diversos segmentos do Movimento Negro, ao longo dos anos 80, 90 e primeira metade dos anos 2000. Fato importante de ser pontuado, neste cenário de conquistas, é o reconhecimento da Serra da Barriga79 como patrimônio histórico do

país, em 1984, e mais tarde, quando Zumbi dos Palmares foi instituído como herói nacional.80

a) Convenção Nacional “O Negro e a Constituinte”: Ocorrida em Brasília, em

1986, com a representação de diversas entidades do Movimento Negro, partidos políticos, grupos sociais e cidadãos, representando 16 Estados do Brasil. O produto desta Convenção foi um documento que sintetizou as discussões realizadas em encontros regionalizados, que a precedeu, sendo entregue ao então presidente do Brasil, José Sarney, em audiência pública, e posteriormente ao presidente da Assembleia Nacional Constituinte, deputado Ulisses Guimarães (Moura, 1988; Santos, 2005). Este documento continha proposições para a nova Constituição Brasileira que estava sendo elaborada, e que foi promulgada em 1988. As propostas

79

Local do antigo Quilombo dos Palmares, situado no município de União dos Palmares, Estado de Alagoas/Brasil.

80 Lei Federal nº 9.315, de 20 de novembro de 1996. Recebeu sua inscrição como herói nacional, no Livro dos Heróis da Pátria, em 1997, no dia 21 de março, no Dia Internacional de Eliminação da Discriminação Racial.

que se referem à educação apontam, dentre outros aspectos, à inclusão do ensino da História da África e da História do Negro no Brasil, conforme destacado por Santos (2005) do documento da Convenção, que transcrevemos a seguir:

O processo educacional respeitará todos os aspectos da cultura brasileira. É obrigatória a inclusão nos currículos escolares de I, II e III graus, do ensino da história da África e da História do Negro no Brasil;

Que seja alterada a redação do § 8ª do artigo 153 da Constituição Federal, ficando com a seguinte redação: “A publicação de livros, jornais e periódicos não dependem de licença da autoridade. Fica proibida a propaganda de guerra, de subversão da ordem ou de preconceitos de religião, de raça, de cor ou de classe, e as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes (Do texto da Convenção Nacional “O Negro e a Constituinte/1986, apud Santos, 2005:24-25).

As mobilizações dos movimentos sociais tiveram ressonância na Constituição de 1988, considerada como Constituição Cidadã, dada a participação da sociedade durante o processo da Constituinte. O Movimento Indígena, já mencionado, e o Movimento Negro, se organizaram nesse período, para inserir nas agendas políticas nacionais os aspectos singulares de suas reivindicações.

Para Silva Júnior (2002), ficou evidenciado no texto constitucional o tema da educação pluriétnica e educação para a igualdade racial, o que representa conquista do Movimento Negro, empreendida em suas históricas reivindicações.

[...] Refletindo antigas reivindicações das entidades do Movimento Negro, aquele texto constitucional estabeleceu – ao menos formalmente – uma revolucionária configuração para a escola, no sentido não apenas de assegurar igualdade de condições para o acesso e permanência dos vários grupos étnicos no espaço escolar, mas também em termos de redefinir o tratamento dispensado pelo sistema de ensino à pluralidade racial que caracteriza a sociedade brasileira (Silva Júnior, 2002:59).

Diversos textos da Constituição de 1988 evidenciam o relevo dado às questões étnicas e raciais. O racismo, por exemplo, é classificado como crime inafiançável e imprescritível, 81 antes o seu tratamento era relacionado aos crimes de

81

“A prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei” (Art. 5º, inciso XLII – Constituição Federal Brasileira/1988).

contravenção.82 Outros aspectos podem ser observados, ainda, quanto à proibição

do tratamento discriminatório na área do trabalho, e no campo da cultura ficou implícito o caráter multicultural da sociedade brasileira e a propensão legal para se proteger as diversas manifestações culturais que contribuíram para construção do país, das quais se destacam às culturas de matrizes africanas e indígenas.

Promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (art. 3º, inciso IV);

Proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil (art. 7º, inciso XXX); Art. 215 - O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.

§1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afrobrasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional;

§2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais; 83

Art. 216 - Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

I - as formas de expressão;

II - os modos de criar, fazer e viver;

III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;

IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;

V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

[...]

§ 5º - Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos (Brasil, 1988).

82

A Lei 7.716/1989 (denominada Lei Caó, em homenagem ao seu autor, deputado Carlos Alberto de Oliveira), regulamentou o disposto no art. 5º, inciso XLII da Constituição Federal de 1988, e “define os crimes resultantes

de preconceito de raça ou de cor”. Alterada pela Lei 8081/1990, que “estabelece os crimes e as penas aplicáveis aos atos discriminatórios ou de preconceito de raça, cor, religião, etnia ou procedência nacional, praticados pelos meios de comunicação ou por publicação de qualquer natureza” e pela Lei 9459/97. A Lei Caó representa um avanço, a considerar que até então racismo era tido como contravenção, pela Lei 1.390/1951 (Lei Afonso Arinos), que “inclui entre as contravenções penais a prática de atos resultantes de preconceitos

de raça ou de cor”, com nova redação conferida pela Lei 7.437/1985, que “inclui, entre as contravenções

penais a prática de atos resultantes de preconceito de raça, de cor, de sexo ou de estado civil, dando nova redação à Lei nº 1.390, de 3 de julho de 1951 - Lei Afonso Arinos”.

83

A citação transcrita corresponde ao Texto Constitucional à época. Posteriormente, a Emenda

Constitucional nº 48, de 2005 incluiu o § 3º, acrescido dos incisos I, II, III, IV e V ao artigo 215, que destacam a temática da diversidade étnica em seu inciso V. “§ 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à: I defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro; II produção, promoção e difusão de bens culturais; III formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões; IV democratização do acesso aos bens de cultura; V valorização da diversidade étnica e

Assim, o texto constitucional de 1988 trouxe as proposituras formais que garantem a igualdade para todos e todas, criminaliza o racismo e se opõe às diversas formas de discriminação, bem como aquelas voltadas à proteção das manifestações culturais, que estão na base da formação da sociedade brasileira. Sem desconsiderar os avanços obtidos, consideramos que no campo da educação, os temas das culturas e das artes são abordados de forma genérica, assim como no campo do ensino de História do Brasil. As pontuações para as singularidades culturais foram circunscritas ao contexto da garantia de processos diferenciados para a educação escolar indígena, conforme apontado na citação do texto constitucional a seguir, e que também foi evidenciada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, conforme veremos oportunamente.

Art. 210 - Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais.

§2º O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas também a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem.

Art. 242 [...]

§1º O ensino de História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro (Brasil, 1988).

Para Cury e Ferreira (2009), a Constituição de 1988 representa um marco para a educação brasileira e a consideram uma verdadeira declaração de direitos, com diretrizes, princípios e normas bem definidos. No contexto desta Constituição, o direito à educação é considerado direito social e subjetivo, o que representa direito inalienável. Trata-se de um grande ganho para a sociedade brasileira, que estava construindo uma base de participação popular, após anos de repressão do regime militar. O processo democrático, contudo, não está livre de tensões e contradições, logo, as lacunas não preenchidas no texto constitucional continuaram a mobilizar as agendas e pautas de reivindicação dos movimentos sociais, que historicamente vinham reivindicando à visibilização da participação do negro na história brasileira, dentre outras formas, por meio de currículos escolares que contemplassem a história da África e dos africanos no Brasil, evidenciando suas contribuições em todas as áreas (não somente a cultural), e desconstruindo estereótipos e preconceitos em torno da imagem de negros e negras. A Criação da Fundação Cultural

Palmares,84

por exemplo, ainda no contexto da Assembleia Nacional Constituinte, representou a primeira instituição do Governo Federal voltada às questões da população negra, e se deu no mesmo ano do Centenário da Abolição da

Escravatura85

(Brasil, 2003b). Estando vinculada ao Ministério da Cultura, o viés

cultural predominou em sua concepção inicial, entretanto, devido às reivindicações do Movimento Negro, posteriormente, passou a incorporar a pauta das desigualdades raciais em suas ações, traduzidas em diversos marcadores sociais (Brasil, 2003b).

Apesar de representar um efetivo avanço, pois, pela primeira vez, havia no governo federal uma instituição dedicada especificamente à defesa dos interesses da população negra, sua vinculação ao Ministério da Cultura reflete uma visão marcadamente cultural das relações raciais. Tal visão ainda não havia incorporado as denúncias das desigualdades raciais e de sua perpetuação por meio dos processos de mobilidade social e de realização socioeconômica que começaram a surgir na década de 1980. E, embora a Fundação Palmares contemplasse uma parte das reivindicações do Movimento Negro, que recrudescia, havia muitas demandas novas do segmento em relação ao Estado, parte delas estruturada em torno dos novos conhecimentos sobre as desigualdades raciais no Brasil produzidos a partir da década de 1980. Tal situação fez que, progressivamente, a Fundação Palmares fosse ganhando outras atribuições que destoavam bastante dos propósitos originais para os quais fora criada. Um exemplo foi a assunção da responsabilidade pela identificação e pela delimitação de áreas de remanescentes de quilombos, o que engendrou um novo perfil institucional àquela Fundação, além de ter proporcionado uma interface direta com outros setores ministeriais, notadamente com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (Brasil, 2003b:74-75).

b) Marcha Zumbi dos Palmares Contra o Racismo, Pela Cidadania e a Vida:

Realizada em Brasília, no dia 20 de novembro de 1995, em comemoração aos 300 anos da morte de Zumbi dos Palmares. Participaram desse evento aproximadamente 10 mil pessoas, que culminou com a entrega ao então presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, do documento “Programa de Superação do

Racismo e da Desigualdade Racial”, com propostas para superar as desigualdades

raciais e o racismo no Brasil (Dias, 2005; Santos, 2005; Rocha, 2006), apresentando

84Lei Federal nº 7.668, de 22 de agosto de 1988, que Autoriza o Poder Executivo a constituir a Fundação

Cultural Palmares (FCP).

85 Conforme Dias (2005) “O movimento social negro atua intensamente no Centenário da Abolição da

Escravatura. Ocorrem eventos no Brasil inteiro, são publicadas pesquisas com indicadores sociais e econômicos demonstrando que a população negra está em piores condições que a população branca, comparando-se qualquer indicador: saúde, educação, mercado de trabalho, entre outros. Constroem-se com isso novos argumentos para romper com a ideia de que todos são tratados do mesmo modo no Brasil. Muitas matérias nos maiores jornais do Brasil denunciam essa situação, e a educação recebe uma atenção especial” (Dias, 2005:54).

como proposta no campo da educação, dentre outros aspectos, a formação para os professores, conforme segue:

Implementação da Convenção Sobre Eliminação da Discriminação Racial no Ensino; Monitoramento dos livros didáticos, manuais escolares e programas educativos controlados pela União; Desenvolvimento de programas permanentes de treinamento de professores e educadores que os habilite a tratar adequadamente com a diversidade racial, identificar as práticas discriminatórias presentes na escola e o impacto destas na evasão e repetência das crianças negras (Do texto do Programa de Superação do Racismo e

da desigualdade Racial, apud Santos, 2005).

A Criação do Grupo de Trabalho Interministerial de Valorização da População Negra - GTI População Negra, ligado ao Ministério da Justiça está no bojo da mobilização impulsionada pelo Movimento Negro nos anos 90. O propósito do GTI População Negra era a ampliação das ações do governo para a população negra, além da área cultural, conforme documento do IPEA (Brasil, 2003b) apresenta:

A proposta havia nascido no governo a partir da articulação de setores do Movimento Negro que defendiam uma atuação mais incisiva do governo federal no estabelecimento de políticas públicas para negros que não fossem restritas às questões culturais. (Brasil, 2003b: 74).

Cabe esclarecer que, a ampliação dessas ações não significa desconsiderar o aspecto cultural, contudo crescer a partir dele, e se revela quando observamos a constituição do GTI População Negra, expressa no Decreto Federal86 de criação, que comporta representantes de distintos Ministérios, além de Secretarias e do Movimento Negro:

Art. 3º O Grupo de Trabalho será integrado por:

I - oito membros da sociedade civil, ligados ao Movimento Negro; II - um representante de cada Ministério a seguir indicado: a) da Justiça;

b) da Cultura;

c) da Educação e do Desporto; d) Extraordinário dos Esportes; e) do Planejamento e Orçamento; f) das Relações Exteriores; g) da Saúde;

86 Decreto Federal, s/nº de 20 de novembro de 1995, alterado pelo Decreto Federal s/nº de 13 de junho de 1996

– que Institui o Grupo de Trabalho Interministerial, com a finalidade de desenvolver políticas para a valorização da população negra.

h) do Trabalho;

III - um representante da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

§ 1º Os membros do Grupo de Trabalho serão designados pelo Presidente da República.

§ 2º O representante do Ministério da Justiça será o Presidente do Grupo de Trabalho, que submeterá os resultados das atividades desenvolvidas pelo colegiado ao exame do respectivo Ministro de Estado.

§ 3º As funções dos membros do Grupo de Trabalho não serão remuneradas e seu exercício será considerado serviço público relevante. IV - um representante da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (Brasil, 1995).

Em 1996 é lançado pelo Ministério da Justiça o I Programa Nacional dos Direitos Humanos - I PNDH87

, com eixos específicos para as populações negras e indígenas, além de outros, e tinha o propósito da conquista efetiva da igualdade de oportunidades para todos e todas, indicando metas para curto, médio e longo prazo. Uma das metas, para serem atingidas em curto prazo, consistia em apoiar os trabalhos do GTI População Negra “[...] com o objetivo de sugerir ações e políticas

de valorização da população negra” (Item 128 do I PNDH, Brasil, 1996a). Posteriormente foi lançado o PNDI II (Brasil, 2002), que oportunamente iremos nos referir, e mais recentemente o PNDH III (Brasil, 2009).

Em relação às metas que se relacionam aos aspectos educacionais, no que se refere às pessoas negras e indígenas,88 por exemplo, O PNDH I (1996)

apresentava, dentre outras:

População Negra:

Propor projeto de lei, visando a regulamentação dos art. 215, 216 e 242 da Constituição Federal;

Desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e ás áreas de tecnologia de ponta; Estimular que os livros didáticos enfatizem a história e as lutas do povo negro na construção do nosso país, eliminando estereótipos e discriminações (Brasil, 1996a)

Sociedades Indígenas:

Assegurar às sociedades indígenas uma educação escolar diferenciada, respeitando o seu universo sócio-cultural;

Promover a divulgação de informação sobre os indígenas e os seus direitos, principalmente nos meios de comunicação e nas escolas, como forma de eliminar a desinformação (uma das causas da

87

Decreto Federal nº 1.904, de 13 de maio de 1996, que “Institui o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH)”.

88

As pessoas negras e indígenas foram denominadas no documento, respectivamente, “População Negra” e “Sociedades Indígenas”.

discriminação e da violência contra os indígenas e suas culturas) / (Brasil, 1996a).

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB nº 9394/1996, sancionada 8 anos após a Constituição de 1988, reafirma a educação como direito de todos e todas e o dever do Estado em prover a educação escolar pública, especificando as esferas de responsabilidade de cada ente federativo na oferta da educação, a serem efetivadas mediante sistema de colaboração entre os mesmos.89

Enquanto a Constituição de 1988 apresenta um foco generalista na abordagem do ensino de História do Brasil (§1º, art. 242, Brasil, 1988), conforme já nos referimos o texto da LDB nº 9394/96, explicita as matrizes culturais a que se referem, ou seja: indígenas, africana e europeia.

O ensino de História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígenas, africana e européia (§4º, art. 26 – LDB/9394/96, Brasil, 1996b)

Podemos considerar avanços, que Dias (2005) atribui ser “fruto da forte

pressão de entidades do movimento negro sobre parlamentares comprometidos ou sensíveis à luta pela igualdade racial” (Dias, 2005:57). Contudo, consideramos ainda limitado, por fazer referência apenas ao ensino de História, não potencializando ações mais amplas no campo do currículo escolar como um todo nas escolas. Posteriormente, a LDBEN foi alterada, para incluir o artigo 26-A, pelas leis 10.639/03

No documento DOUTORADO EM EDUCAÇÃO: CURRÍCULO (páginas 127-146)