5 DROGAS NA SOCIEDADE
7.1 CATEGORIAS TEMÁTICAS
7.1.4 Leitura e Autoestima
Autoestima é compreendida neste estudo como a avaliação subjetiva que a pessoa faz de si mesma, que pode ser negativa ou positiva. Sabe-se que o autoconceito é originado dos fatores externos e internos que circundam o indivíduo e que as internalizações, juntamente com a bagagem trazida por ele, é que produz os mais diversos resultados na construção da identidade do sujeito. Estas internalizações surgem das relações grupais, da interação com as outras pessoas pelas quais os sujeitos descobrem o mundo. Esta categoria permite observar a avaliação que os sujeitos deste estudo podem fazer de si mesmos a partir da leitura de um texto.
Na leitura do texto T3, Pérola mostrou o poder que se impõe àquele que domina a leitura sobre aquele que não possui tal habilidade:Pérola (T3) Eu sei dizer que, ultimamente, essas leituras têm me guiado no mundo, porque meus colegas me acham importante quando me veem lendo, crio moral com eles; quando brigo com minha namorada, fico lendo e deixo ela falando sozinha; também, quando quero fazer as pazes com ela, pego as palavras bonitas do texto, faço um poema e leio para ela; também crio minhas letras de raps e ela se amarra, me acha muito inteligente.
Eu sou um pouco curiosa, gosto de ficar sabida e tirar uma ondinha. Lá no CREAIDS, quase nenhuma das meninas sabem ler. Eu levo esses textos que pego aqui e leio para elas; elas ficam me achando muito bacana e inteligente.
A leitura dos textos T4 e T5, realizada em diferentes momentos por Pérola, reafirmou a condição de ser diferente em razão da leitura:
Pérola (T4) Eu sou diferente da galera que ando, porque leio, sou mais importante nos lugares, porque as pessoas sabem que tenho leitura, como o meu texto que apresentei no CREAIDS, está preso no mural e todo mundo lê.
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Pérola (T5) Eu estou ligada na comunicação, estou falando melhor, bonito, tudo por causa da leitura. A senhora viu como eu pude ler melhor hoje?
Observou-se no discurso de Pérola que ela tem boa autoestima por ter habilidade para a leitura, percebendo-se diferente das pessoas do seu grupo. Reconheceu que se torna mais importante e tem mais respeito das pessoas porque sabe ler. Mostrou-se orgulhosa pelo poder que detém pelo viés da leitura e pelo reconhecimento das pessoas e percebeu que a leitura possibilita melhor desenvoltura no seu processo de comunicação, sentindo-se assim valorizada e com estima elevada.
Foi possível observar, ainda, no seu discurso, como a leitura contribuiu para aumentar a sua estima porque, muitas vezes, se sente excluída pela sociedade pelo uso abusivo das substâncias psicoativas. Ficou evidente o poder de socialização da leitura em relação ao grupo do qual é partícipe,salientando ser valorizada pelos amigos pelo empoderamento permitido pelo domínio do código, ao compartilhar o texto com aqueles que não conseguem ler; disse utilizar, ainda, a leitura como um instrumento facilitador nas horas dos conflitos pessoais com sua parceira e como mecanismo para ampliar as criações dos seus raps. Em todo o discurso de Pérola ficou evidenciado que a leitura faz com que ela se sinta um sujeito diferenciado em relação ao grupo e a sua parceira.
Ainda com relação à autoestima propiciada pela leitura do texto T3, Safira reconheceu que a palavra lida pode melhorar o estado de espírito das pessoas.
Safira (T3) Eu sei que posso melhorar com cada leitura que posso fazer e discutir, ou lembrar de coisas aqui com você. Eu mesmo me sinto mais forte para falar, no meu dia a dia, com as coisas que leio nos livros ou nas revistas e enfrentar meus problemas. Gosto de saber o que está acontecendo no momento. Uma palavra lida faz a gente refletir e se sentir melhor.
Percebeu-se na fala de Safira que a aquisição do conhecimento através da leitura possibilitou seu fortalecimento para enfrentar a situação desencadeada pelo uso da droga, além de mantê-la atualizada, melhorando sua autoestima.
A leitura permitiu a estes pacientes a liberdade de interpretação e a criação de novos textos, pois, como nos diz Caldin (2010), para o leitor, a imaginação não é apenas uma coisa que ele utiliza para fugir do cotidiano, mas, sim, um ato deliberado, intencional, que o sujeito realiza, valendo-se da sua liberdade. Desta forma, eles se sentiram valorizados e a sua autoestima aumentou ao
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perceberem que, neste lugar, a voz deles tem importância e eles podem se sentir seguros e à vontade para se expressar.
Os informantes perceberam que existe um espaço de descentramento, de corporeidade e afetividade, que são elementos fundamentais da biblioterapia de desenvolvimento, em que o principal movimento é o cuidado com o ser. Nesse sentido, Caldin (2010, p. 64) enfatiza que “a leitura de um livro pode ser terapêutica, pois a dimensão do cuidado se volta para o leitor ou o ouvinte do texto literário que, singulares em sua existência, podem abrir-se para o mundo”. Assim, através da interpretação de um texto, é possível a abertura para a compreensão do mundo e, consequentemente, o entendimento do ser humano, sendo um mecanismo de fortalecimento para enfrentar a realidade.
Quanto à leitura do texto poder facilitar a externalização de questões dolorosas e difíceis, confirma Caldin:
É essa fala falante, esse ultrapassamento da linguagem solidificada, essa liberdade de criação de um novo texto, esse preenchimento dos vazios do texto literário, que permite ao leitor, ouvinte, expectador pensar sobre seus sentimentos e problemas e amalgamando suas retensões e protensões com o simbólico, transformar uma narrativa ficcional em narrativa terapêutica. (2010, p. 85).
Muitas vezes, o usuário de drogas se sente à margem da sociedade, em um processo de exclusão, sendo constantemente julgado pelos olhares da família, da escola, dos amigos, enfim, de toda a sociedade. Falta-lhe espaço, credibilidade, estímulo para falar dos seus sentimentos. No momento da leitura e nos comentários sobre os textos, os respondentes se sentiram tranquilos para relatar suas histórias, ressignificando o texto lido a partir dos personagens e, muitas vezes, criando alternativas possíveis para o que diz o texto, com base na experiência vivida, isto é, uma leitura desprovida de sentidos pré estabelecidos.
No processo de troca de informações e de conhecimentos, o sentimento que perpassou esses sujeitos foi o de valorização em relação às suas criações, percebendo que a palavra dita tem valor e que seu conhecimento é importante. Caldin (2010) assevera que, “ao envolver-se na leitura [o sujeito], volta-se para si mesmo como fonte de conhecimento pela introspecção; procura harmonizar-se com a essência de existir pela identificação com os personagens e se libera pela
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catarse”. Vê-se, portanto, que a leitura possibilita o equilíbrio entre os sujeitos e seus conflitos.
Neste processo de desenvolvimento das atividades de leitura, os pacientes tiveram como mediadora a própria pesquisadora que, além de buscar fortalecer o cuidado com esses jovens e adultos, procurou incentivá-los para a leitura de forma lúdica, prazerosa, em busca de conhecimento, de melhoria no seu desenvolvimento físico e para o auxílio no seu equilíbrio emocional, o que contribui para o tratamento destas pessoas, como confirma Caldin (2010). O mediador, nesta perspectiva, assume um papel de interlocutor entre o texto e o sujeito, construindo uma relação de cumplicidade.
O viver em sociedade demanda o compartilhamento de suas experiências com o outro. Muitas vezes, ao não encontrar este outro para lhe dar alento, o sujeito recorre a outras estratégias que possam suprir a ausência destas vozes, dentre estas, o livro no qual encontrará os personagens e o contexto de uma história com os quais poderá se identificar e, assim, preencher os seus vazios. Num contexto permeado de ausências, o mediador será aquele que intermediará o texto e as necessidades específicas do sujeito, contribuindo para o aumento da autoestima do sujeito.