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5 DROGAS NA SOCIEDADE

7.1 CATEGORIAS TEMÁTICAS

7.1.2 Mudança de Comportamento

Compreende-se como comportamento: “maneira de se comportar, procedimento, conduta, ato” (FERREIRA, 2006, p.250). Por meio dos relatos dos participantes, verificou-se que a leitura é capaz de despertar a vontade de mudança

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de comportamento, que, através do conhecimento, o ser humano se transforma, adquirindo autonomia, tornando-se sujeito crítico, reflexivo e mais consciente, impondo respeito e possibilitando-lhe vir a ser autor de sua própria história. Ao interagirem com o texto, estes participantes expressaram suas atitudes de mudanças de comportamento, revelando que a leitura é uma ferramenta decisiva no processo de liberdade do sujeito, conforme comentário já citado de Caldin.

O texto T1 fez com que Pérola evidenciasse o desejo de mudança ao dizer:

Pérola (T1)  Eu quero voltar a fazer teatro, assim como os animais foram fazer música.

No seu dia a dia, esses pacientes se encontram, muitas vezes, sem outras pessoas e outros espaços que não os das drogas para falar das suas vontades de mudanças, observando-se que a droga propicia o seu isolamento dos demais sujeitos. Para Pérola, retornar ao teatro pode ser uma maneira de reinserção no grupo e demonstra o quanto a leitura pôde motivá-la com as boas lembranças. Por outro lado, as possibilidades criadas a partir da atividade de leitura com os textos T3 e T4 ficam demonstradas na sua fala:

Pérola (T3)  Uma coisa que eu consigo me acostumar e me deixa alegre que, eu sei que é muito bom é fazer isso que estou fazendo agora, que é ler.

Pérola (T4)  Eu tenho escrevido bastante depois dessas leituras, inclusive, o meu caderninho acabou de eu tanto escrever. Depois que saio daqui, quando chego em casa, vou e escrevo, inclusive, apresentei um texto no evento do CREAIDS e quero escrever um livro de poemas.

Pelo viés do texto, a respondente pôde reconhecer o ato de ler como um costume diferente daquele propiciado pelas drogas na sua vida e demonstrou sua mudança de atitude pelo caminho da leitura ao dizer que ampliou o seu processo de escrita após as atividades, falando com orgulho da apresentação de um texto em um evento e, sentindo-se forte, disse manter a vontade de escrever um livro de poemas. Percebe-se, assim, que a leitura, neste contexto, foi fator de transformações importantes na vida desta informante. Além disso, foi possível notar que Pérola fez da leitura companhia necessária quando menciona:

Pérola (T4)  Eu vim para cá, hoje, lendo no ônibus o primeiro texto daqui: ele é muito engraçado; eu estava rindo sozinha e as pessoa pensando que eu era

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maluca. Eu posso dizer que eu não era sabida igual a esse burro, eu era burra, porque usava crack, eu era galinha, quando vivia na rua, e agora eu me olho no espelho e estou me vendo uma gatinha; converso comigo sozinha no espelho porque eu sei que essa menina linda vai se livrar das drogas.

Assim, Pérola deixou evidente que a leitura pode ser companheira, mostrando que, em momentos e espaços diferentes, ela pôde reler o texto, sozinha, viajar e se divertir com a fábula e pôde comparar as suas atitudes com a dos animais, finalizando a sua fala com uma atitude positiva de mudança.

Em momentos distintos, houve o reconhecimento do papel da leitura para promover mudanças no seu eu, como a que ela evidenciou na fala a seguir:

Pérola (T5)  Foi muito importante estar aqui na leitura para eu formar a minha identidade de mudança, porque mente vazia é a casa do diabo. Eu fui um pote rachado, mas não quero ser mais.

A partir da leitura do conto “O pote rachado”, Pérola se identificou com o pote, referindo-se ao seu passado, demonstrando a vontade de não mais permanecer neste estado.

Na leitura do texto T6, Rubi apresentou baixa autoestima no que se refere à situação do uso de drogas, mas, ainda assim, mostrou confiança no seu processo de mudança:

Rubi (T6)  Hoje me sinto um toco de vela apagado, mas eu quero mostrar o meu brilho para minha família, voltando à escola e conseguindo um trabalho melhor.

Observou-se no discurso do participante, o sentimento de prejuízo, no momento atual, ao se comparar a um toco de vela apagado, mas, também, a vontade de querer mudar esta situação através de um trabalho melhor e do retorno à escola, como confirmado pelo profissional que o acompanha:

QP  O paciente vem referindo o intento de voltar a estudar, tendo relatado que esta atividade ratificou sua pretensão.

As atividades de leitura foram realizadas com um grupo heterogêneo no qual alguns participantes detinham o domínio da leitura e da escrita e outros não. O relato de Topázio, como um dos que não possuía esta habilidade de modo necessário, evidenciou a mudança ocorrida a partir da leitura do texto:

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Topázio (T9)  Eu vejo que, agora, estou prestando mais atenção às letras do ônibus. Antes, minha tia precisava me colocar no ônibus para eu vir para cá, agora, eu posso vir sozinho; eu consigo ler o nome do ônibus e nunca mais peguei ele errado. Eu vim para o CETAD porque estava usando muita droga, agora, eu só venho para a leitura.

A leitura despertou, portanto, este sujeito para a sua realidade, com naturalidade. Topázio demonstrou mudança de comportamento ao se tornar interessado em tentar, através das estórias infantis, melhorar o seu aprendizado, e se sentiu feliz ao alcançar esta conquista. O respondente dependia dos seus familiares devido à sua pouca familiaridade com a leitura, pois não conseguia ler o destino do ônibus. Nas sessões de leituras, despertou para reescrever sua história de maneira diferente e, assim, ter liberdade, ao conseguir ampliar o seu aprendizado reconhecendo o destino do ônibus, podendo agora se deslocar sozinho para os lugares, além de reconhecer a mudança no motivo de sua vinda ao CETAD.

Assim, a leitura proporcionou a Topázio uma desenvoltura no aprendizado e momentos de alegria. Com frequência, após a contação das estórias infantis e as leituras das letras de músicas, ele se mostrava animado a recontar a estória lida, ressignificando a situação ou cantarolando a música trabalhada, tornando-se mais confiante e autônomo. Este jovem percebeu que, além do prazer, a leitura tem o poder de propiciar a liberdade do sujeito e esta descoberta o estimulou a continuar, com muito esforço, o seu aprendizado, como se verificou na sua resposta da entrevista final.

Topázio (EF)  Eu agora vejo um papel, quero tentar ler. As pessoas pensam que eu estou lendo, mas eu estou juntando as letras.

Observou-se, através destes comentários, que a leitura pode ser vista como um elo que fortalece as ideias positivas e encoraja os sujeitos que estão em tratamento pelo uso abusivo de substâncias psicoativas, estimulando-os à mudança de comportamento. Neste sentido, Freire (2000, p. 40) diz que “a consciência do mundo e a consciência de mim, me fazem um ser não apenas no mundo, mas com o mundo e com os outros, um ser capaz de intervir no mundo e não só a ele se adaptar”. Por meio do conhecimento, o sujeito se transforma; através da mensagem que o texto impõe para cada leitor, conforme a sua realidade, as lacunas são preenchidas com o fortalecimento do estímulo de mudança na sua vida.

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A atividade realizada com o texto T7 fez com que Rubi expressasse a religião como um caminho possível para fortalecer seu ideal de mudança, acreditando que esta também auxiliará no tratamento de sua dependência:

Rubi (T7)  Eu quero entrar na religião para ver se eu consigo ficar mais forte, porque, às vezes, a gente pensa em desistir.

Esse jovem demonstrou, através da leitura, a busca de mudança através da fé como uma alternativa a mais, além do tratamento psicoterápico, para se fortalecer, na tentativa de se livrar da dependência das drogas.

Os participantes deste estudo, por meio da objetivação do pensamento através da linguagem expressa pela fala ou escrita, demonstraram vontade de mudanças de atitudes. Mencionaram seus momentos de leituras, a necessidade que sentem de conseguirem se expressar melhor e a consciência de que podem adquirir a ampliação do vocabulário e a desenvoltura na fala através da leitura. Demonstraram desejar ser reconhecidos como entes queridos pelos seus familiares, estando conscientes do esforço da família em tentar lhes dar uma boa educação e explicitaram a necessidade de controlar o uso de drogas e voltar a estar incluído, de modo satisfatório, na escola, no trabalho, na família e em outros espaços.

Os dados evidenciaram que a leitura dos textos despertou, animou e motivou esses sujeitos a quererem dar novos sentidos a suas vidas, como nos diz Freire (1982, p. 19) ao afirmar que “a leitura implica em um fenômeno de interpretação, que é inerente à leitura, e que é, em si, uma terapia”. Desta forma, estes jovens e adultos podem se beneficiar pelo bem-estar da leitura, que contribui estimulando a mudança de comportamento e se tornando um auxílio no seu tratamento.