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1. O QUE É A LEITURA

1.2. Conceitos de leitura

1.2.2. Leitura e literacia

Literacia é um vocábulo originário do inglês literacy, adotado pela língua por- tuguesa e por várias outras línguas. Tratando -se de um conceito complexo e dinâmico, tem sido interpretado de múltiplas formas, em diferentes contextos, tanto no quadro da investigação científica como no debate público. Abrange definições relativamente simples, que a descrevem como um processo de aquisição de competências cognitivas básicas e definições mais complexas, que incluem o contributo dessas competências para a reflexão crítica, para a consciência cívica e para o desenvolvimento económico e social (UNESCO, 2006). Estas variações têm sido incorporadas no discurso político.

Entende -se igualmente por literacia a competência que permite às pessoas aceder ao universo dos materiais escritos e usá -los com êxito para enfrentar e resolver os diferen- tes desafios presentes na sociedade contemporânea, ou como a capacidade de processa- mento, na vida diária (social, profissional e pessoal), de informação escrita de uso corrente contida em materiais impressos, tais como textos, documentos ou gráficos. A literacia é portanto encarada como fator altamente condicionante tanto do bem -estar individual, como­do­desenvolvimento­económico­(EU­High­Level­Group­of­experts­in­Literacy,­2012).

A literacia é investigada em múltiplas dimensões. Analisam -se temas como, por exemplo, a relação entre níveis de literacia e a estrutura socioeconómica das sociedades,

o papel da literacia na inserção dos indivíduos no mercado de trabalho, as implicações da literacia na mobilidade social e na promoção da equidade, a influência da literacia no desenvolvimento científico e cultural das sociedades, na competição económica, na intervenção cívica, na promoção da democracia (Desjardins, 2003).

Nas últimas décadas do século xx a literacia passou a estar no foco da atenção em todo o mundo e surgiram estudos a nível nacional e internacional sobre literacia de crianças, de jovens e de adultos, da responsabilidade sobretudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) ou da International Association for the Evaluation of Educational Achievement (IEA).

A partir dos anos 80 os governos do Canadá e o dos EUA7 lançaram inquéritos

para avaliação da literacia dos adultos, maiores de 16 anos. Pela mesma época surgiu o primeiro de uma série de estudos destinados a avaliar a literacia dos adultos, de idades compreendidas entre os 16 e os 65 anos: o International Adult Literacy Survey (IALS)8,

em que Portugal participou. Seguiu -se o Adult Literacy and Lifeskills (ALL)9, entre 2003

e 2008, e o Program for the International Assessment of Adult Competencies (PIAAC)10,

cuja primeira edição foi realizada em 2011.

O IALS e o ALL resultaram da cooperação internacional entre governos, institu- tos nacionais de estatística, instituições de investigação e agências multilaterais. Entre outras competências, estes estudos avaliaram dois tipos de literacia: a literacia em prosa e a literacia documental. A primeira refere -se às competências e conhecimentos neces- sários para compreender e utilizar informações a partir de textos, processamento de tex- tos disponíveis em livros, jornais, informações comerciais ou institucionais, enunciados, notas e outras mensagens. A segunda às competências e aos conhecimentos necessários para localizar e utilizar informações contidas em vários formatos, incluindo formulários,

7 Nos Estados Unidos realizou -se um primeiro inquérito em 1985 para avaliar a literacia da faixa etária

entre os 21 e os 25 anos – Household survey of the literacy skills of 21 ‑ to 25 ‑year ‑old. Seguiu -se, entre 1989 e 1990, um inquérito aos candidatos a emprego – Survey of the literacy proficiencies of job seekers, em 1992 o National Adult Literacy Survey e em 2003 o National Assessment of Adult Literacy (NALS).

8 IALS – International Adult Literacy Survey – aplicado em 1994, 1996 e 1998 – com a participação de 22

países, entre os quais Portugal.

9 ALL – Adult Literacy and Lifeskills – aplicado em 2003, e entre 2006 e 2008 – com a participação de 10

países e sem a participação de Portugal.

10 PIAAC – Program for the International Assessment of Adult Competencies – aplicado em 2011 – com a

tabelas, candidaturas a emprego, recibos de salário, horários de meios de transporte, mapas, quadros e gráficos. Estes estudos incluíram ainda a literacia quantitativa refe- rente à utilização de valores numéricos e à realização de operações aritméticas com base em materiais escritos. Ambos os estudos conceptualizaram e mediram a aptidão numa escala contínua, com classificação de 0 a 500 pontos, para exprimir em que medida os adultos utilizam adequadamente a informação na sua vida quotidiana.

O PIAAC é um estudo comparativo internacional, promovido pela OCDE, desti- nado a avaliar as competências da população adulta, com idades entre os 16 e os 65 anos, através da realização de uma prova em computador ou em papel. Os domínios de competências em avaliação na pesquisa que decorreu entre 2008 e 2013 foram a lite- racia, a numeracia e a resolução de problemas em ambientes tecnológicos. A avaliação do PIAAC centra -se na capacidade de usar a leitura para resolver questões pessoais, profissionais ou cívicas, identificando objetivos e planos apropriados e usando infor- mação disponibilizada também por computador. As competências são medidas numa escala de 500 pontos e seis níveis. O estudo proporciona informações respeitantes às capacidades no uso da leitura em contexto profissional ou pessoal e analisa diferenças entre gerações, entre sexos, entre cidadãos nascidos no país ou de origem imigrante. São ainda recolhidas informações sobre as atividades em que os participantes utilizam a leitura, a matemática e as tecnologias de informação no trabalho ou na vida quoti- diana, sendo os resultados analisados tendo em conta o nível de formação do partici- pante e dos pais.

Em relação à literacia das crianças e jovens em idade escolar realizam -se perio- dicamente estudos internacionais de avaliação11, destacando -se o Programme for Inter‑

national Student Assessment (PISA) da responsabilidade da OCDE e o Progress in Inter‑ national Reading Literacy Study (PIRLS) da responsabilidade da International Association for the Evaluation of Educational Achievement (IEA). Os resultados destas avaliações têm considerável impacto na comunidade científica, refletem -se nas recomendações de

11 Alguns países realizam avaliações nacionais da literacia de crianças em idade escolar, associadas à ava-

liação dos resultados escolares. Um exemplo é o National Assessment of Educational Progress (NAEP), dos EUA, que desde 1969 recolhe e divulga informação sobre o desempenho dos alunos de três níveis de escolaridade (4.º, 8.º e 12.º) e também de uma amostra de alunos de 9, 13, e 17 anos de idade.

organizações internacionais, como a OCDE, e supranacionais, como a UE, e, em graus variáveis, nas políticas nacionais.

O PISA é um programa internacional promovido pela OCDE desde 2000 para rea- lizar a avaliação dos alunos de 15 anos em três domínios: literacia de leitura, literacia matemática e literacia científica, com base num quadro de referência e um conjunto de procedimentos rigorosos. Desenvolvido em articulação estreita com os países partici- pantes, assegura uma aplicação uniforme que permite apreciar a evolução ao longo do tempo e comparar resultados entre os vários países.

Organizado em ciclos trienais, o PISA apresenta em cada um desses ciclos resul- tados referentes às três áreas avaliadas, mas elege um dos domínios como principal. No PISA 2000 e 2009 o domínio analisado em profundidade foi a literacia de leitura, no PISA 2006 a literacia científica e no PISA 2003 e 2012 a literacia matemática. Neste último ano ofereceu a possibilidade de os países aderirem a uma avaliação da literacia matemática e da literacia de leitura e à avaliação de uma área opcional: a literacia finan- ceira, baseada em computador. Portugal participou em todas as fases do PISA.

O conceito de literacia de leitura, tal como é definido pelo PISA, diz respeito à capacidade dos alunos compreenderem e usarem textos escritos, refletindo sobre o conteúdo e envolvendo ‑se na leitura para atingirem objetivos pessoais, para adquiri‑ rem conhecimento, para se desenvolverem e participarem na sociedade. Além da desco‑ dificação e da compreensão literal, implica ainda interpretação, reflexão e capacidade para usar a leitura para atingir objetivos pessoais. O enfoque é ler para aprender e não em aprender a ler, pelo que não são avaliadas as competências mais básicas de leitura (OECD, 2010)12. O desenvolvimento da literacia é visto como um processo de aprendiza-

gem ao longo da vida, não sendo expectável que alunos de 15 anos tenham adquirido tudo o que um cidadão adulto irá necessitar. Pretende -se apenas que demonstrem um domínio sólido de competências que lhes permitam continuar a aprender (OCDE 1999 e 2002b; Serrão, 2014).

O PISA distingue três domínios sobre os quais a avaliação incide: conhecimento – obtido a partir de diferentes tipos de recursos de leitura (por exemplo, textos contínuos, em prosa narrativa, expositiva ou argumentativa, textos não contínuos, gráficos, formu- lários e listas, textos mistos e múltiplos); competências – desdobradas em vários tipos de tarefas e processos (por exemplo, aceder e recordar, integrar e interpretar, refletir e avaliar, e ainda uma combinação de competências perante textos digitais); situação para a qual o texto é construído – que pode ser pessoal, educacional, ocupacional ou pública. Para situar o desempenho dos alunos em literacia de leitura o PISA 2006 apre- sentou uma escala de 6 níveis (representando o nível 5 o superior e o abaixo de 1 o inferior). A partir de 2009 a escala foi ampliada para 7 níveis, sendo o 6 o mais alto e desdobrando -se os dois níveis inferiores em nível 1a e nível 1b. O nível 2 é considerado o mínimo que todos os alunos devem atingir, para revelarem competências indispensáveis à realização de tarefas simples do dia a dia e a uma participação social ativa.

O PISA permite efetuar comparações internacionais de perfis de literacia dos jovens de 15 anos e avaliar a evolução das competências. A partir de informação reco- lhida por questionários, analisa vários fatores que se relacionam com a literacia, nomea- damente os decorrentes da origem socioeconómica ou da imigração e aprecia o papel das políticas educativas que visam assegurar a equidade.

Analisa também o envolvimento dos alunos na aprendizagem e na prática da lei- tura, bem como as suas motivações e estratégias de aprendizagem. Apresenta indicado- res para avaliar a qualidade e a equidade dos sistemas educativos, relacionando -os com as políticas educativas, as características, os recursos e as práticas das escolas, identifi- cando o que as escolas e as políticas podem fazer para reduzir o impacto de ambientes socioeconómicos desfavorecidos e melhorar os níveis de desempenho dos alunos.

Um outro estudo internacional de avaliação de literacia é o PIRLS, desenvolvido pela IEA13 para avaliar a literacia de leitura de alunos do 4.º ano de escolaridade, com

13 A IEA – International Association for the Evaluation of Educational Achievement é uma organização

independente, que associa agências governamentais e instituições de investigação educacional de vários países.

aplicações de cinco em cinco anos14. Incide sobre a compreensão de leitura, em parti-

cular sobre quatro tipos de estratégias: localizar e obter informação explícita; efetuar inferências diretas; interpretar e integrar ideias e informação; avaliar, analisar e refletir sobre o conteúdo e os elementos dos textos. Analisa ainda a capacidade de recorrer à informação para alcançar objetivos individuais ou sociais. A avaliação é feita a partir de duas modalidades de leitura: leitura de textos literários (ficção, poesia, texto dramático, etc.); leitura de textos informativos. O estudo PIRLS definiu uma escala com quatro níveis de desempenho, correspondendo cada um a um intervalo de pontuação. Os níveis de desempenho do PIRLS são os seguintes: nível avançado – integra ideias e informação do texto e apresenta razões e explicações; nível alto – realiza inferências e interpretações com base no texto; nível intermédio – realiza inferências diretas; nível baixo – localiza e recorda informação de diferentes partes do texto15.

No âmbito do PIRLS são aplicados questionários aos alunos, aos diretores de escolas e aos professores para identificar fatores associados ao desempenho em lite- racia de leitura. Esta recolha incide sobre vários aspetos relativos ao contexto familiar – adultos que apoiem a leitura, livros disponíveis, gosto pela leitura e expectativas dos pais; ao contexto escolar – frequência de educação pré -escolar, ambiente socioeconómi- cas, clima de escola, disponibilidades de livros e computadores, dimensão da biblioteca escolar, uso efetivo de livros, computadores e outros recursos no decurso das aulas; à preparação dos docentes para assegurar o ensino da leitura – tempo e formas de abor- dagem, domínio de pré -requisitos, ênfase atribuída às habilidades e estratégias de lei- tura, estímulo de atitudes positivas para a leitura e para o êxito escolar, identificação de problemas dos alunos decorrentes de dificuldades específicas, de desinteresse, indisci- plina, falta de nutrição ou falta de sono.

A informação disponibilizada pelos estudos de avaliação da literacia desenvolvi- dos pela OCDE e pela IEA assenta em quadros conceptuais precisos que operacionalizam com rigor o conceito de literacia, para o tomarem como realidade mensurável. As meto- dologias e instrumentos a que recorrem permitem obter elementos muito relevantes

14 A primeira aplicação do PIRLS foi em 2001. Seguiram -se aplicações em 2006 e 2011. Portugal participou

apenas em 2011.

para conhecer a situação dos países participantes, no que respeita aos perfis de literacia das faixas etárias abrangidas. Permitem ainda efetuar comparações entre países, anali- sar a evolução ao longo do período abrangido e identificar fatores que a podem explicar. A divulgação dos resultados, geralmente com impacto na comunicação social (Lemos & Serrão, 2015), promove maior visibilidade pública sobre a questão da leitura e influencia as políticas educativas de combate à iliteracia ou de promoção da literacia.

O aprofundamento das análises centradas na questão da leitura suscitou o alarga- mento semântico do termo literacia, que passou também a ser usado como sinónimo de competência ou aplicação de habilidades associadas a outros domínios. Este facto explica a multiplicação de conceitos, tais como literacia de leitura, literacia matemática ou nume‑ racia, literacia científica, literacia financeira, literacia de informação, literacia digital.