QUADRO 11 – SÍTIOS ELETRÓNICOS MAIS VISITADOS PELAS CRIANÇAS PORTUGUESAS (9-15 ANOS) (2008)
6. O PLANO NACIONAL DE LEITURA
6.3. Os princípios do Plano Nacional de Leitura
Conforme foi já referido, a formulação de princípios apresentada pelo PNL pro- curou ter em conta as orientações tomadas como referência por países que apresenta- vam resultados positivos no domínio da literacia. À época eram conhecidos relatórios de estratégias de vários países que se tinham situado na média ou acima da média nas várias séries do estudo PISA da OCDE.
Embora com especificidades próprias e ações dirigidas a diferentes públicos, os planos lançados noutros países para melhorar os níveis de literacia da população reve- lam a preocupação comum de alargamento das práticas de leitura nas escolas, dando uma atenção especial aos contextos sociais menos favorecidos. E baseiam -se no pres- suposto de que as competências básicas ou se adquirem precocemente, nas primeiras etapas da vida, ou dão lugar a dificuldades que progressivamente se acumulam, se multiplicam e transformam em obstáculos quase intransponíveis (Kraaykamp, 2003; Rvachew & Savage, 2006).
Estes pressupostos foram assumidos pelo PNL, que elegeu como foco da sua pri- meira fase de intervenção a promoção da leitura orientada nas salas de aula, através da presença constante de livros e como público-alvo prioritário as crianças em educação pré -escolar e os primeiros seis anos do ensino básico. Considerou -se também que para atingir as crianças e os jovens é indispensável mobilizar os principais responsáveis pela sua educação, o que levou o PNL a tomar igualmente como público -alvo os educadores e professores, os pais e encarregados de educação, os bibliotecários, os mediadores e animadores de leitura.
A análise da influência e do papel da família na aprendizagem e na aquisição de hábitos de leitura fundamentou-se em estudos que demonstram a influência da literacia
familiar no nível de linguagem e de literacia emergente das crianças à entrada na escola (HarteRisley,2003),emestudosqueevidenciamosefeitospositivosdeprogramasdes- tinados especificamente a promover a literacia familiar (Cruz, Ribeiro, Viana & Azevedo, 2002) e os efeitos benéficos na aprendizagem decorrentes da leitura de livros em família (Fletcher&Reese,2005;Nutebrown,Hannon&Mogan,2005).
A intervenção do PNL neste domínio da literacia familiar partiu da apreciação de resultados de programas lançados em diversos países, em particular os que elegeram como público-alvo grupos socioeconómicos desfavorecidos. Alguns destes programas têm obtido sucesso, capacitando os pais para a leitura partilhada de histórias e promo- vendo a consciência do papel que podem desempenhar junto dos filhos na criação e manutenção de rotinas e de sentimentos positivos em relação à leitura (Cruz, Ribeiro, Viana & Azevedo, 2002). Para abranger as famílias o PNL inspirou-se em iniciativas, com modalidades de organização a partir do setor de educação, do setor da cultura e do setor da saúde, com atividades dinamizadas tanto por profissionais como por voluntários. Foi o caso de projetos lançados ao longo da primeira fase do PNL, como O meu Brinquedo é um Livro, realizado em cooperação com a Associação Portuguesa de Educadores de Infância (APEI), que seguiu um modelo semelhante ao projeto Bookstart da ONG Booktrust do Reino Unido. Foi igualmente o caso do projeto LeR+ dá Saúde desenvolvido a partir de uma parceria com a ONG Reach out and Read dos Estados Unidos da América (EUA) que possibilitou a adaptação de materiais de divulgação e o apoio da respetiva coordenadora, que se deslocou a Portugal para realizar formações destinadas a profis- sionais de saúde. E ainda dos projetos Leitura em Vai e Vem, Já Sei Ler e LeR+ para Vencer inspirados em iniciativas do National Reading Trust do Reino Unido. Foi igualmente o caso do projeto Voluntários de Leitura, lançado em Portugal em 2012 pela associação que tem o mesmo nome e pelo Centro de Investigação para as Tecnologias Interativas (CITI)daFaculdadedeCiênciasSociaiseHumanasdaUniversidadeNovadeLisboa,que estabeleceu uma parceria com o PNL e com a Rede de Bibliotecas Escolares, assumindo princípios e modalidades de intervenção presentes em projetos como os Reading is Fundamental (RIF) o Rolling Readers dos EUA e Lire et Faire Lire da França.
Para assegurar que as iniciativas poderiam induzir mudanças positivas nas práti- cas letivas dos docentes que incidem sobre a promoção da leitura, o PNL teve em conta
elementos disponibilizados por vários estudos de avaliação realizados nos EUA, que inci- diram especificamente sobre atitudes dos docentes e de diretores de escolas perante as características de reformas curriculares que incidiram sobre o ensino da leitura. Estes estudos partiram do pressuposto de que sendo os professores simultaneamente alvos e agentes de mudança, se torna indispensável considerar a sua adesão e acima de tudo identificar motivos que os levam a pôr ou a não pôr em prática as novas orientações. Foi possível constatar que, na sequência de reformas, regra geral, apenas um reduzido número de docentes realiza de facto uma restruturação das suas práticas de ensino. A maioria ou rejeita linearmente as novas propostas ou efetua uma alteração superficial, aproximando essas propostas das metodologias já anteriormente utilizadas. Verificou-se ainda que a reação dos docentes é tanto mais positiva quanto maior for o grau de con- gruência entre as novas orientações e as suas práticas anteriores (Coburn, 2004), sendo mais provável uma rejeição linear se as novas orientações são incongruentes com outras recomendações curriculares ou se se revestem de um caráter muito prescritivo, sobre- tudo quando os professores se veem a si próprios como promotores de autonomia e criatividade (Achinstein & Osborne, 2006).
Com base nestas informações o PNL procurou apresentar as propostas de pro- moção da leitura em sala de aula de modo a que não fossem vistas como estranhas ou distantes por parte dos docentes. Procurou ainda tornar claro que as novas atividades representavam um reforço das práticas de leitura recomendadas pelas orientações cur- riculares do Ministério da Educação para o trabalho escolar e para o aconselhamento de leituras em tempo livre, não envolvendo quaisquer formas de rutura.
O respeito pela autonomia pedagógica dos docentes e estimular a diversidade de abordagens através da explicitação dos seguintes princípios:
• O caminho para a aquisição de uma competência sólida no domínio da leitura é longo e difícil.
• Para se induzirem hábitos de leitura autónoma, são necessárias muitas ativi‑ dades de leitura orientada.
• A aquisição plena da competência da leitura não exige apenas a aprendizagem da descodificação do texto. Para se atingirem patamares superiores de com‑ preensão é indispensável uma prática constante na sala de aula e na biblio‑ teca, bem como em casa, durante vários anos.
• O treino da leitura não deve ser remetido apenas para o tempo livre ou para casa, pois, se o for, em muitos casos não se realiza.
• A promoção da leitura implica um desenvolvimento gradual e só se atingem os patamares mais elevados quando se respeitam as etapas inerentes a esse processo.
• Para despertar o gosto pela leitura e estimular a autonomia é necessário ter em mente a diversidade humana, considerar as idades, os estádios do desen‑ volvimento, as características próprias de cada grupo, o gosto e o ritmo pró‑ prios de cada pessoa.
• Os projetos de leitura devem rejeitar tentações de modelo único. Exigem uma atitude aberta, flexível, onde caibam múltiplos percursos, os percursos que a diversidade humana aconselha a respeitar.
• Negar, ignorar ou atropelar estes princípios compromete e, por vezes, anula os esforços mais bem ‑intencionados de todos os que se empenham em generali‑ zar o acesso à leitura e a veem como um bem essencial.
Com base nos princípios enunciados foi definido um conjunto de programas, para a primeira fase do PNL, que deveria decorrer durante cinco anos, estabelecendo- -se como público prioritário as crianças dos jardins de infância (3 a 6 anos), do 1.º ciclo do ensino básico e do 2.º ciclo. Esta prioridade traduziu a opção fundamentada de ini- ciar desde logo o trabalho com os mais novos, pelo facto de serem idades cruciais para o desenvolvimento do gosto pela leitura, das competências e dos hábitos de leitura. A opção de não lançar todos os programas em simultâneo decorreu da decisão de avan- çar de forma faseada, para permitir ajustar a rota e ir avançando com mais segurança. O alargamento a alunos do 3.º ciclo seria assegurado através do lançamento de progra- mas específicos a partir do seu segundo ano de execução, e a alunos do secundário a partir do lançamento da 2.ª fase. Associada ao público escolar seriam lançados progra- mas de promoção da leitura em contexto familiar, promoção da leitura em bibliotecas
públicas e noutros contextos sociais, bem como campanhas de sensibilização da opinião pública, incluindo programas de informação e recreativos centrados no livro e na leitura, através dos orgãos de comunicação social.
Visando a melhoria das competências dos vários agentes que intervêm na pro- moção da leitura – educadores, professores, bibliotecários, mediadores de leitura, pais, o PNL disponibilizou orientações redigidas com clareza, fundamentadas em princípios científicos sobre a natureza da leitura e sobre os processos de aprendizagem, e apoiou a realização de ações de formação para o desenvolvimento das várias atividades inscritas no Plano e consentâneas com as recomendações dos programas de ensino.