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1.3 A Medicina legal e as doenças mentais.

1.3.1 Leoncio Barreto e as espécies de loucura.

O livro Prontuario de Medicina Legal y Jurisprudencia Médica do médico Leoncio Barreto, publicado em 1890, foi uma das primeiras obras de consulta de médicos, peritos e funcionários judiciários na Colômbia (BARRETO, 1890). Em 1896, o também médico Carlos Enrique Putnam publica seu Tratado práctico de Medicina Legal en relación con la legislación penal e procedimental del país. Este último livro, mais completo e atualizado com as reformas dos códigos21, se tornaria após em um dos textos guia para os assuntos relativos à medicina-legal durante as primeiras décadas do século XX.

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O livro de Leoncio Barreto é publicado antes da reforma do código penal de 1890 (lei 19).

Barreto, de reconhecida trajetória, ocupou a cadeira de ginecologia por mais de trinta anos na Faculdade de Medicina da Universidad Nacional de Colombia e foi professor de medicina legal no Colégio El Externado de Bogotá.

Na introdução de seu texto, chama a atenção sobre a necessidade de compilar os conhecimentos sobre medicina legal e jurisprudência para seu estudo pelos advogados, juízes e estudantes de direito. O livro, como ele mesmo explica, apresenta um resumo detalhado dos progressos científicos dessa especialidade e retoma as teorias dos principais autores do momento: Legrand de Saulle, Briand e Chaudé, Mata, Devergie, Foderé e Orfila. A obra está divida em três partes: doutrina médico-legal, jurisprudência médica e resenha anatômico- fisiológica22.

Nos primeiros capítulos Barreto faz uma classificação das questões médico-legais, explicando cada uma delas em relação com as leis do país (ver anexo A) e dedica um capítulo especial à descrição do procedimento médico-legal, especificando as caraterísticas, condições e obrigações que os médicos-legistas deviam cumprir em cada caso.

O capítulo XIII dessa primeira parte está destinado à alienação mental ou loucura. Pode-se afirmar que o texto de Barreto é o primeiro no qual se inclui o problema da alienação mental, desde uma perspectiva enfocada especialmente ao problema jurídico mais que médico. Sendo um tratado de medicina legal dirigido a juízes e advogados, o interesse de Barreto está orientado mais para uma aplicação prática dos conceitos que para uma análise clínica das diversas formas da alienação. Assim, a apresentação do quadro classificatório e a definição que o autor oferece, fornecia aos médicos-legistas e aos funcionários judiciários de conceitos básicos na hora de decidir em casos civis e penais.

Barreto entende a alienação mental como “a perda da harmonia da razão, que produz um estado no qual o homem se encontra impossibilitado para aplicar a reflexão e a vontade à realização de seus impulsos interiores” (BARRETO, 1890, p. 82). Tal desarmonia impossibilita, por sua vez, o uso correto do livre arbítrio, questão crucial no âmbito da jurisprudência, pois nele se amparava a responsabilidade do sujeito jurídico. No campo da lei, como afirma Foucault, a jurisprudência se preocupa pela loucura em termos da perda da razão, entanto está relacionada com a responsabilidade jurídica do indivíduo. O

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Parece que o autor não deu continuidade à segunda e terceira parte de seu livro. Nas diferentes bibliotecas e arquivos históricos consultados somente se encontrou a primeira parte.

importante era saber se a loucura é real e qual é seu grau, para definir em termos jurídicos sua incapacidade (FOUCAULT, 1978).

A definição da alienação apresentada por Barreto se apoia em uma teoria mais ampla na qual a razão faz parte de um conjunto de fenômenos definidores da condição humana. Assim, os indivíduos são o resultado de: 1. Movimentos moleculares de composição e decomposição, cuja finalidade é a nutrição, de onde resulta a digestão, a respiração e a transpiração. 2. Movimentos musculares involuntários (como os do coração e os intestinos) e voluntários (locomoção e voz). 3. Sentidos: aparelhos que nos relacionam com o mundo exterior, dos quais se derivam as sensações externas que depois se transformam em sensações internas, algumas delas independentes da vontade, como a dor e as ilusões. 4. Faculdades intelectuais, de três tipos: perceptivas (relação com os objetos externos e seus atributos), reflexivas (relações de causa e efeito) e consciência (conhecimento pleno dos objetos exteriores). E, 5. Instintos ou impulsos internos da organização, de dois tipos: os relacionados com a conservação, compartilhados por todos os animais, e os sentimentos, próprios somente dos humanos, encarregados das relações sociais.

Cada um desses fenômenos, segundo Barreto, era desempenhado por um órgão, mas era o cérebro o órgão central que dirigia e liderava todas essas atividades. Daí que para declarar um indivíduo como louco devia realizar-se um estudo fisiológico, psicológico e patológico de todos os órgãos e da maneira como eles desempenhavam suas funções e suas faculdades. A razão não é uma faculdade, é um conjunto de faculdades que se manifesta por uma série de fenômenos fisiológicos através dos órgãos que revelam as funções psíquicas (BARRETO, 1890, p. 84).

Assim, as causas da alienação são múltiplas e variadas, qualquer evento, situação ou desarranjo que repercuta sobre o cérebro se torna em causa da loucura. As causas podem ser intelectuais, quando atuando sobre os sentidos não permitem que as sensações se realizem corretamente, como a leitura de livros fantásticos, a superstição, os discursos exagerados ou os sistemas filosóficos de teorias deslumbrantes. Causas morais, como as paixões, os instintos e os sentimentos que fazem desviar a vontade; as influências políticas, religiosas, sociais, o medo, a perda de objetos queridos, os ciúmes, o orgulho, a cólera e a avareza. Causas físicas ou fisiológicas, como a idade, o temperamento, a idiossincrasia, a hereditariedade, a gravidez e o uso imoderado das faculdades vitais. E, causas patológicas como a

epilepsia, a histeria, as febres, a sífilis, os tumores, o uso de álcool e de narcóticos, entre outras muitas doenças.

Esse desequilíbrio nas faculdades que compõem a razão se manifesta por fenômenos fisiológicos diversos que podem ser observados e estudados através de caracteres sintomatológicos. Por isso para Barreto, conhecer o estado mental de um sujeito implicava observar a maneira como ele usava seus sentidos, examinando sua atenção, memória, a forma de raciocinar, a presença de alucinações. Logo, examinar sua atitude, fisionomia, forma da cabeça, cabelo, cor da pele, movimentos, órgãos dos sentidos e sistemas, os sonhos e até, o modo de vestir (BARRETO, 1890, p. 89). Nada podia fugir dessa observação. Os sintomas, e não as causas se tornam os elementos que permitem identificar as varias espécies da loucura.

A definição de alienação mental usada por Barreto se encontra na mesma linha discursiva de Pinel e Esquirol. Embora, estes autores não sejam citados diretamente pelo médico, é licito pensar que eles são estudados através dos trabalhos de Fodéré e Orfila, que se encontram no repertório teórico usado por ele.

Como lembra o pesquisador Isaias Pessotti, a partir do momento em que se demoliram as explicações teológicas sobre a loucura, ela é logo incorporada no território da intervenção médica. A ideia de que a loucura se deve a algum tipo de desarranjo das funções psíquicas ou mentais, eventualmente causado por fatores orgânicos, começa a se tornar um principio explicativo no final do século XVIII. Mas, esta ideia só se apresenta como teoria médica com a obra de Pinel (PESSOTTI, 1996, p. 67).

Na psiquiatria clássica23 a loucura é tanto um defeito do entendimento quanto uma limitação da vontade. Neste tipo de psiquiatria só existe uma patologia: a alienação mental, que se expressa através de diferentes modos ou manifestações, sendo a mania, a melancolia, a demência e o idiotismo, as quatro formas principais (CAPONI, S., 2012b; FOUCAULT, 1978; PESSOTTI, 1996). Com Esquirol, a monomania entra a ocupar também um lugar importante nesta classificação, para explicar, o que se conheceu, como manias sem delírio ou loucura parcial (CASTEL, 2009, p. 133).

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A psiquiatria clássica segundo Michel Foucault se define como uma rede epistemológica configurada por diagnósticos binários (louco, não louco), referências ao “corpo ampliado” e terapêutica asilar. É uma psiquiatria que vai de Pinel a Bleuler. (CAPONI, S., 2012b; FOUCAULT, 1978)

Trata-se de “lesões” nas funções mentais, principalmente nas intelectuais, cujas causas podem ser orgânicas ou morais. Em Pinel o conceito de “lesão mental” é metafórico, segundo explica Pessotti, permitindo estabelecer uma correspondência entre os desempenhos do corpo e a doença desse corpo. Esse enfoque metafórico dispensará a busca de correlações entre o comportamento anormal e os substratos anatomopatológicos. Para Pinel a loucura é uma doença essencialmente mental, é um excesso ou desvio que deve ser corrigido pela mudança de costumes e de hábitos (PESSOTTI, 1996, p. 90)

Barreto classifica as varias espécies da loucura pelos caracteres sintomatológicos que lhe são comuns (ver anexo B). Como em Pinel, a conformação desses quadros clínicos implica a observação prolongada e sistemática da vida biológica, mental e pessoal do indivíduo. Esses elementos devem ser compilados pelo médico legista, segundo Barreto, para definir a espécie de loucura, a responsabilidade penal e seu tratamento.

Como afirma a pesquisadora Sandra Caponi, a definição da nosografia científica em Pinel esta baseada no método da história natural, na maneira como os naturalistas classificavam as plantas e os animais. Dita classificação decorre das observações e da cuidadosa atenção dirigida ao processo de evolução e transformação das espécies da loucura. Assim, o interesse não está orientado a definir diagnósticos diferenciais, pois os sintomas podem ser similares e até compartilhados entre os diferentes quadros clínicos, do que se trata é de descrever os modos pelos que se manifesta uma mesma patologia: a alienação mental (CAPONI, S., 2012b, p. 43).

No entanto, para o caso concreto da medicina legal, esta diferença começava a ser importante na hora de definir a responsabilidade penal do sujeito criminoso. Assim, Barreto descreve como idiota aquele que apresenta completa falta de desenvolvimento cerebral, carência de inteligência e uma cabeça e um corpo mal conformados. O imbecil se caracteriza por ter faculdades intelectuais obtusas, e ainda quando alguma delas está bem desenvolvida, seu crâneo está também mal conformado e sua fisionomia apresenta a expressão dos bobos e dos tontos. Por sua vez, o demente, conserva suas faculdades intelectuais, mas não pode fazer uso delas, de modo que não lembra nem é capaz de raciocinar. Este tipo de alienação, segundo Barreto, não é congênita pelo que no existe deformação nenhuma no corpo do sujeito que a sofre. O maníaco mostra uma desordem de todas as faculdades, provocando-lhe delírios, alucinações e perversões. Pelo contrario, os monomaníacos conservam as faculdades intatas, exceto aquela que é objeto de seu tema.

Comumente nos monomaníacos a faculdade que está estragada se origina em algum instinto ou sentimento pervertido. Por último, a loucura sintomática febril é causada por alguma doença, como a cólera, a pneumonia, a varíola; por narcóticos ou alcoolismo ou por outras doenças de tipo nervoso, como a histeria, o sonambulismo, entre outras causas.

Nesse sentido, o médico legista devia resolver duas questões concretas: os casos de interdição relacionados com a perda dos direitos civis e, a definição da responsabilidade penal dos indivíduos com desarmonia da razão nos casos penais. Para isso, diz Barreto, o médico- legista precisava ter em conta que a loucura podia ser congênita, adquirida, permanente, transitória ou intermitente e que se apresentava sob formas variadas.

Nesses casos devia-se responder a sete perguntas básicas: existe ou não loucura? O que espécie de loucura padece o indivíduo? Essa loucura pode ser parcial? Existe ou não diferença entre loucura e paixão? O declarado louco deve ser colocado sob medida de segurança? O declarado louco pode ser responsável de seus atos? O indivíduo que há cometido um ato punido pela lei, estava nesse ato em uso de sua razão? (BARRETO, 1890, p. 84)

Estas perguntas em um tratado de medicina legal orientado especialmente para juízes e advogados, marca um ponto de inflexão importante no conhecimento jurídico do momento, pois pretende ampliar o leque do que era considerado como loucura pela jurisprudência. Barreto criticava que os legisladores comumente confundiam a loucura, a demência e a surdo-mudez nos códigos e excluíam a embriaguez, a monomania e o delírio como outras formas de loucura.

Estas críticas se faram mais constantes na medida em que o conhecimento médico penetre no âmbito jurídico e esse quadro estreito reservado para a irresponsabilidade penal só nos casos de verdadeira demência ou loucura se abrirá graças à doutrina nas monomanias (DARMON, 1991, p. 122).

Note-se que já desde 1890, Barreto insiste no problema da loucura parcial, nas distinções entre loucura e paixão e sugere pensar nas medidas de segurança como estratégia de controle para este tipo de sujeitos.

Na prática, o uso desse tipo de classificações no terreno jurídico era muito mais complexo. Especialmente nesses anos (final do século XIX) os juízes eram particularmente reticentes a aceitá-las como causas de irresponsabilidade penal. Isto se pode analisar em um caso muito

famoso conhecido como El crimen de Aguacatal, sucedido em Medellín em 1873. Trata-se de um caso por assassinato no qual foram assassinadas seis pessoas de uma mesma família. As investigações encontraram como culpáveis a dois sujeitos. Um deles, de nome Evaristo Galeano, conhecido como “El Bobo” entre as pessoas da região, foi sometido a uma pericia médico-legal pelos médicos Manuel Uribe Angel, Andrés Posada e Antonio Naranjo, de reconhecida trajetória nessa cidade. Segundo os resultados da pericia, Galeano foi definido como “um homem cujas faculdades intelectuais são muito obtusas, mas que tem consciência e malicia do que fala”. Baseando-se nesta definição o Procurador Geral do Estado, pede para o juiz primeiro do circuito criminal a irresponsabilidade penal deste criminoso. Não obstante, o Procurador discorda das apreciações dos peritos, pois considera que não se pode declarar uma pessoa como imbecil, com as faculdades mentais e morais estragadas, e ao mesmo tempo afirmar que essa mesma pessoa é consciente de seus atos e do desenlace do crime e dos castigos. Segundo o Procurador, existe uma profunda diferença entre a “sanidade normal” e as afecções da mente que a ciência descreve. Para ele não existem as ações sem motivo. Ao finalizar o processo, Evaristo Galeano é condenado ao presídio, junto com o outro acusado, sendo que a alegação de loucura foi desconsiderada pelo juiz.

Como se pode observar, para esse momento, a justiça aceita a loucura na medida em que ela é totalizante, não se pode ser parcialmente louco. Isto mudará paulatinamente quando se aceitem as monomanias, como um estado no qual os indivíduos cometem crimes sem uma razão justificada e quando os pressupostos da escola positiva italiana comecem a ser apropriados no âmbito jurídico. Do mesmo modo é importante assinalar que as palavras que os médicos usavam, por exemplo, faculdades obtusas, para definir este tipo de estados, geravam muitas discussões no âmbito jurídico no momento de definir a responsabilidade penal deste tipo de criminosos. (MEJIA, J. DE D., 1874)

Ora, embora Barreto não seja muito explícito no que se refere ao tratamento que deviam seguir os criminosos alienados, para ele é claro que a definição da espécie de loucura não só permitia determinar a responsabilidade penal, mas também sua possibilidade de recuperação social e médica. Segundo ele,

Quando se trata de saber se um sujeito declarado louco está em capacidade de exercer certo cargo ou direito, ou é responsável por certo fato, só se poderá definir a questão comparando o fato de que

se trata e a classe de loucura: pois é claro que o idiota, o imbecil e o demente crônico, não podem exercer seus direitos civis nem ser responsáveis de seus atos; mas, quando se trata de um maníaco que, fora de sua mania, tem para as demais coisas suas faculdades intatas, poderá exercer seus direitos e ser responsável por seus atos. [...] Os maníacos são os mais perigosos, pela diversidade de suas ideias, que os levam de repente a cometer atos absurdos e inesperados. Segundo a classe da monomania, serão perigosos para eles mesmos ou para os demais, mas todos necessitam ser vigiados e cuidados, não só para evitar seus arrebatamentos, mas para tentar cuidá-los. Exceto os idiotas, os imbecis e os dementes crônicos ou de nascimento, dentre os outros, alguns são melhoráveis, especialmente com um bom tratamento (BARRETO, 1890, p. 94)

1.3.2 O problema das monomanias impulsivas e a herança